• Nenhum resultado encontrado

Da díada para a tríada: o nascimento da intersubjetividade

A intersubjetividade é uma questão central do nosso trabalho, articulando o eterno debate entre o interpessoal e o intrapsíquico, que poderá subentender-se no texto de Freud (1921/1969) "Psicologia de Grupo e a Análise do Ego", quando afirma: “Algo mais está invariavelmente envolvido na vida mental do indivíduo,… de maneira que, desde o começo, a psicologia individual . . . é, ao mesmo tempo, também psicologia social”. (p. 81)

Nesse sentido, consideramos como Frascarolo (2001, 2004) que a relação diádica mãe- bebé está ultrapassada, uma vez que a criança nasce no seio de uma políada de base, constituída pela mãe, pai, irmãos e todos os subsistemas familiares interdependentes. A

perceção do bebé e o reconhecimento mãe/não-mãe e pai/não-pai é concomitante e muito mais precoce do que anteriormente se pensava (Debray, 1997). O Outro no seio do qual a criança cresce e se imprime em si mesmo é a mãe - m(Other), enquanto ligada a outros numa intrincação trans e intergeracional (Ettinger, 2006).

Atualmente o conceito de tríada mãe-pai-bebé sobrepõe-se ao conceito de díada mãe- bebé, uma vez que a função paterna e o papel do pai ultrapassa em muito a dimensão separadora que se lhe conferia no início da psicanálise. A existência humana é, sem dúvida, uma existência social (Sameroff & Emde, 1989), assim, sem diminuirmos a importância da díada, protótipo da relação amorosa, no que respeita ao nascimento de um bebé, a tríada impõe-se especialmente quando é necessário atender à especificidade da clínica em certos casos de psicopatologia materna e/ou paterna, de forma a evitarmos, de uma vez por todas, a impressão monótona e crítica de que as mães ou os pais são culpados de todas as dificuldades dos filhos, subestimando as componentes de amor de cada um dos três elementos. Segundo Patricia Minuchin (1985) “studies of the parent-child dyad… do not represent the child’s significant reality”. (p. 296)

Hoje sabe-se que o pai contribui para o processo de tornar-se mãe, tal como a mãe contribui para o de tornar-se pai, havendo uma influência mútua ou coconstrução onde a criança tem de ser incluída. Um filho orienta o modo como os pais se tornam pais, tal como os pais orientam o desenvolvimento de um filho.

Os novos desenvolvimentos da psicanálise, decorrentes da observação de bebés, dos estudos empíricos sobre as triangulações interacionais, da interface representação/interação de Von Klitzing, Bürgin, Antusch e Amsler (1995) e Von Klitzing, Simoni e Bürgin (1999), do jogo triádico de Lausanne (Lausanne Triadic Play) de Fivaz-Depeursinge e Corboz-Warnery (1999; 2001) e de Fivaz-Depeursinge, Favez, Lavanchy, de Noni e Frascarolo (2005), revelam a capacidade precoce da criança para a triangulação, argumentando que essa capacidade fornece suporte para a intersubjetividade primária. Todos estes autores destacam que o bebé aprende muito cedo que a tríada existe tal como a díada, que a existência de uma conjugalidade entre os pais exerce uma função psíquica para a criança, decorrente da oscilação entre as questões de exclusão e as questões de inclusão, constituindo a articulação entre casal conjugal e casal parental um capítulo concomitante. Alertam que cada um dos pais é único, sexuado e com uma função simbólica para a criança. Que a ideia de terceiro se constrói psíquica e relacionalmente no seio da díada, que o terceiro poderá ser entendido para

além do pai (como um campo ocupado pelos profissionais da primeira infância e pela sociedade) representando uma transicionalidade, o dentro e o fora, um novelo do intrapsíquico e intersubjetivo para cada um dos membros do triângulo.

Segundo Von Klitzing e colaboradores (1995), no decurso da gravidez nos futuros pais há uma transição intrapsíquica imaginária do investimento da relação a dois para uma relação a três. Paralelamente há uma transição da relação diádica interpessoal à tríada exterior. Deste modo, a tríada interpessoal tem os seus percussores no mundo interno dos pais, pois as interações triangulares são preparadas psíquica e fisicamente (Fivaz-Depeursinge, 2000). A interface entre o mundo intrapsíquico e a intersubjetividade dos protagonistas da tríada pais/bebé (as interações interpessoais observáveis) não deve ser ignorada, daí que Von Klitzing e colaboradores (1999) nos proponham pensar esta interface como um espaço transicional, que nos conduzirá ao abandono de uma visão clássica sequencial de uma díada para uma tríada.

Na verdade, se o desenvolvimento da relação precoce do bebé foi essencialmente descrito sob o ângulo das relações diádicas mãe-bebé (Bowlby, 1969/1978; Emde, 1988; Malher, 1968; Spitz, 1965; Stern, 1985; Winnicott, 1960), há cada vez mais autores que estabelecem a tríada precoce no centro das suas conceções psicanalíticas (Fivaz-Depeursinge & Corboz-Warnery, 1999; Lamour, 1995, 2000; Le Camus, 2002a, 2002b), até porque descrever a díada é desde logo tercializá-la (Lamour, 2000; Lamour, Davidson & Lebovici, 2000) uma vez que a mãe tem o pai na sua mente.

Alguns autores têm sugerido que a tríada é o sistema primário no desenvolvimento de competências interativas no primeiro ano de vida (McHale & Fivaz-Depeursinge, 1999). De acordo com Fivaz-Depeursinge e Corboz-Warnery (1999), a criança constrói desde o início padrões de pertença a uma tríada e as suas habilidades interativas triádicas evoluem de forma independente e em paralelo com as interações diádicas e não ulteriormente. Já aos três meses, a criança é capaz de dirigir o olhar para duas pessoas ao mesmo tempo e estabelecer contactos com ambas (Corboz-Warnery, Fivaz-Depeursinge, Gertsch-Bettens & Favez, 1993; Fivaz - Depeursinge & Corboz-Warnery, 1999; Nadel & Tremblay-Leveau, 1999; Tremblay-Leveau & Nadel, 1996). Perante o comportamento de um dos pais, o bebé demonstra capacidade de mover os olhos para um e outro à procura de informações para interpretar o evento, ou enquanto ocupado com um dos pais, pode voltar-se brevemente para o outro para partilhar a sua alegria, provando participar ativamente na dinâmica triádica. Estas experiências na tríada

permitem estabelecer interações precoces e relações alargadas que terão um papel fundamental na evolução e adaptação da criança, favorecendo a sua integração no contexto social complexo representado pela família (Fivaz-Depeursinge et al., 2005). Estas experiências parecem sugerir a presença de habilidades afetivo-relacionais triádicas, que poderiam ser consideradas os precursores das habilidades intersubjetivas que se manifestarão mais tarde, por meio de comunicação referencial (Favez, Gertsh-Bettens, Corboz-Warnery & Fivaz-Depeursinge, 1992).

No mesmo sentido, Stern (1985) argumenta que as representações, através das quais a criança generaliza os episódios interativos das suas experiências relacionais precoces, ensiná- las-ão, mais tarde, nas experiências interativas com o mundo exterior. A maneira pela qual a criança interage com os outros vai-se estabilizando gradualmente, tornando-se previsível e capaz de afetar o desenvolvimento e a sua adaptação ao ambiente externo, dando origem a uma reestruturação e reorganização contínua dos processos interativos entre a criança e o meio ambiente no qual está inserido (Beebe & Lachmann, 2003). Assim, o grau de sintonia afetiva (Stern, 1985, 2005) torna-se crucial para as experiências interativas subsequentes. A continuidade da representação mental da experiência no espaço e no tempo permite que os parceiros envolvidos na relação possam explorar outros contextos relacionais. Byng-Hall (1995) afirma que cada componente da tríada poderá envolver outras pessoas na tríada quando for capaz de se manter na mente do outro e se sentir um conteúdo da mente desse outro. Falando do desenvolvimento interativo da criança, Stern (2005) introduz o conceito de intersubjetividade, que se refere a um sistema motivacional inato e biológico, essencial para a sobrevivência da espécie, que consiste na procura de proximidade para partilhar emoções e conteúdos mentais. De acordo com Fivaz-Depeursinge, Corboz-Warnery e Keren (2004), as relações têm dois lados inseparáveis: um interativo, relativo ao comportamento observado, consistindo em padrões de ações e sinais entre os membros da família e um intersubjetivo, que diz respeito às intenções, sentimentos e significados compartilhados pelos próprios membros. Quando há uma coordenação insuficiente entre as ações e os sinais e os aspetos intersubjetivos correspondentes, prevalecem experiências afetivas negativas que levam a um mal-estar familiarizado (Fivaz-Depeursinge, Corboz-Warnery & Keren, 2004).

Nesta linha de ideias, Frascarolo desenvolveu o conceito de coparentalidade relativo ao apoio instrumental e emocional que os pais dão um ao outro no papel de pais. A

coparentalidade cooperativa constitui a chave para o bem-estar da família e o desenvolvimento do bebé (Favez & Frascarolo, 2013).

Segundo vários autores (Meltzoff & Moore, 1995; Stern, 1985/1989; Trevarthen 1977, 1993), as crianças desenvolvem habilidades intersubjetivas durante os primeiros meses de vida, manifestando-se em interações comunicativas, partilha de sentimentos e estados de espírito.

Alguns estudos têm demonstrado que as crianças são capazes de imitar e usar expressões não-verbais (sorrisos, olhares, vocalizações) formando uma espécie de proto- conversação, variando os tempos e a intensidade de comunicação com os seus parceiros privilegiados (Meltzoff & Moore, 1995). Essa forma de “intersubjetividade primária”, que surge após os primeiros meses de vida, vai dando lugar a uma “intersubjetividade secundária” (Trevarthen, 1979) que se caracteriza por um abandono gradual da exclusividade da díada mãe-filho para o desenvolvimento de formas de interação triádica mãe-bebé-objeto. Esta evolução da díada para a tríada, permitiria que a criança usasse a reação emocional de um adulto como um indicador em relação a um objeto ou a um evento, por exemplo, confrontado com o aparecimento de um estranho a criança vira-se para observar a reação do pai para regular o seu próprio estado emocional.

No seguimento dos estudos, Bråten e Trevarthen (2007), consideraram três níveis de intersubjetividades: as primárias (até aos 3-4 meses), que são inatas e se referem à coordenação do self com o outro, baseiam-se em correspondências de forma, sincronia e intensidade; as secundárias (até aos 10-12 meses) incluem um objeto e referem-se à coordenação do self com o outro e com o objeto e baseiam-se num intercâmbio cooperativo e, por fim, as terciárias, com linguagem, (dos 10-12 meses em diante) que se estabelecem a partir do conhecimento “objetivado e distanciado” dos estados mentais do self, do outro e do objeto.

Assim, a relação do bebé com o ambiente é concebida como um conjunto de processos bidirecionais, em que se reconhece que há um potencial social inato do bebé e um efetivo papel ativo logo nas suas primeiras interações com os pais (Bråten, 1998; Bråten & Trevarthen 2007; Brazelton, 1982, 1981/1992; Malloch & Trevarthen, 2009; Missonnier, 2007; Stern, 1985/1989; Trevarthen & Aitken, 2003). Os avanços científicos têm-nos permitido chegar a uma coreografia da presença e da ausência do outro humano na constituição psíquica (Puget, 2003).

Em psicanálise a intersubjetividade não significa somente que dois sujeitos se interessem um pelo outro, o conceito reporta-se quer a uma troca consciente quer inconsciente, por isso, não se define simplesmente como uma relação interpessoal (Marcelli, 2004). Assim, este conceito só pode utilizar-se desde que seja referido a uma conceção psicanalítica do sujeito, ou seja, a uma conceção que integre a existência de uma dimensão inconsciente da subjetividade (Roussillon, 2004). O bebé recém-nascido torna-se sujeito através da ligação pulsional com o Outro. Nesse sentido, a intersubjetividade implica o encontro de um sujeito animado de pulsões e de uma vida psíquica inconsciente com um objeto, que é também um outro sujeito, também ele animado por uma vida pulsional de onde uma parte é inconsciente (Roussillon, 2004).

Enquanto a representação tem sempre uma qualidade de retorno ao passado e ao passado incluído no presente (repetição) e é sempre remetida à ausência, a intersubjetividade deriva do efeito de presença, isto é, da perceção inconsciente ou consciente do bebé e dos pais que provém do encontro com o outro, correspondendo a uma experiência de excesso (Puget, 2003).

A qualidade da experiência intersubjetiva dependerá não só de uma qualidade inata do bebé, mas também das experiências segundo as quais o seu psiquismo tenha sido estruturado (resultando de uma dinâmica do bebé fantasmático, imaginário e real daqueles pais com aquele bebé, naquela cultura, naquele momento). Dependerá, também e não em menor medida, das transformações que a fantasia inconsciente imprima às experiências, nessa complexa interação existente entre o interno e o externo (Missonnier, 2007).

A tríada existe tal como a díada. Porém, pode haver diversas modalidades de estar-a- três: a mãe e o bebé mais o pai, a mãe e o pai mais o bebé, a mãe, o pai e o bebé. As experiências relacionais no seio da tríada ou a descrição comportamental da triadificação só serão criativas se implicarem uma reflexão sobre as condições da sua passagem para a triangulação (Lamour, Davidson & Lebovici, 2000). Neste sentido, as primeiras triangulações dependem da qualidade de triangulação no funcionamento psíquico de cada um dos pais, podendo afirmar-se que o pai, tal como a mãe, intervém muito precocemente no psiquismo do bebé, mediado pelo psiquismo do outro. A forma como cada um dos pais integra o outro condicionará a maneira de investir o bebé, induzindo o que cada um será para o filho.

É, então, necessário distinguir o registo interpessoal e intrapsíquico que podem gerar confusão entre os conceitos de terceiro, tríada, triadificação e triangulação, uma vez que as

relações entre os pais e entre os pais e o bebé estão infiltradas de mecanismos arcaicos como projeção, identificação projetiva, clivagem e inveja sem gratidão (Resnik, 2011). Na tríada a triadificação está assente numa triangulação pela instauração de um espaço de terceiro. Deste modo, apesar das funções maternas e paternas não poderem ser desempenhadas por “qualquer um”, por não serem funções “anónimas”, por pressuporem uma “nomeação” (Kamers, 2006), não se pode afirmar que uma monoparentalidade social corresponda forçosamente a uma monoparentalidade psíquica ou que uma monoparentalidade psíquica implica uma monoparentalidade social (Noël, 2008; Noël & Cyr, 2009). Nas famílias contemporâneas a mãe biológica não é sempre responsável pela função materna e o pai pode não exercer a função paterna.

Ao lado e na origem da questão da presença ou da ausência do pai no seio da tríada há que atender às questões intrapsíquicas no processo de tornar-se pais e à intersubjetividade consciente e inconsciente.

Atendendo a que primeiro existe um lugar de terceiro coconstruído pela tríada antes de haver um lugar específico do pai, procuraremos destacar o lugar psíquico do pai no seio da tríada e valorizarmos o seu papel e função de modo a acolher a complexidade intrapsíquica e intersubjetiva do processo de tornar-se uma família. Pois, citando Pontalis:

Ser alguém que vive: tarefa já efetuada, programada, no caso do organismo animal, mas sempre a inventar, no caso do ser humano; tarefa contraditória, quando refletimos sobre ela, mas que assegura ao indivíduo humano a sua tensão e a sua mobilidade…faz do encontro renovado com o outro o acontecimento necessário (Pontalis, 1999, p. 203).