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1.2. Sobre a mãe e o tornar-se mãe

1.2.4. Sobre a gravidez de risco

A família nuclear ocidental de hoje não se compara com a que foi estudada por Freud. Com efeito, encontramos na atualidade pais que têm o primeiro filho em idades cada vez mais extremadas, um acréscimo de famílias monoparentais, pais e mães com filhos de outros companheiros, casais sem filhos, casais homossexuais, casais com filhos adotivos, muitos nascimentos prematuros. No que respeita às crianças, estas, de facto, continuam a não nascer todas iguais em direitos (Ferreira, 2002).

Perante uma gravidez de risco ou o anúncio de uma malformação no filho os pais podem sentir-se impedidos, por uma realidade biológica, de ter uma ideia mais concreta sobre o futuro, de planear e elaborar um curso de desenvolvimento para o seu filho. Nesse contexto, a mãe está privada de ampla parte do processo imaginativo, o que pode dificultar a construção de uma estrutura representacional futura, formando um vácuo representacional. “Quando nós não podemos imaginar o futuro, não podemos avaliar o presente. Um dos pilares de todo o empreendimento da representação foi retirado” (Stern, 1995/1997 p. 52). Stern acredita que se os pais e mães não forem ajudados a olhar para esse vácuo preenchido por maus presságios, corre-se sério risco de um fracasso na ontogénese da representação dos pais sobre a criança presente e futura, além de um correspondente fracasso na representação da criança de si mesma.

Assim, para fazer nascer um filho não basta a junção de um óvulo com um espermatozoide. O nascimento pressupõe um aparelho psíquico. Mesmo uma gravidez normal e desejada, sem qualquer patologia materno-fetal, em que “tudo está bem” ou “tudo corre bem” a incerteza está presente em todos os processos de tornar-se, pelo que será compreensível que possa estar exacerbada aquando de uma gravidez considerada de risco, funcionando essa classificação como enzima para os habituais conflitos intrapsíquicos e intersubjetivos.

A ocorrência de um acidente perinatal pode ser um verdadeiro drama para todos os que vivem a chegada duma criança, sejam os pais, os familiares ou os prestadores de cuidados. A doença, a angústia, a vergonha, a insegurança, o sofrimento e a morte surgem no local onde se esperava o surgimento da vida e a realização de desejos.

Nos processos gestacionais associados a uma dimensão de risco, a tensão entre a vida e a morte poderá convocar nos pais um emaranhado entre o filho imaginário, o fantasmático e o real. Assim, quando há um grande desvio entre o bebé fantasmático, o imaginário e o real,

como nos casos de crianças nascidas precocemente, com anomalias congénitas e/ou cromossómicas e outras patologias, ou simplesmente quando há parecenças reais ou imaginadas com alguém significativo, os pais poderão ter dificuldade em elaborar o luto do filho imaginário, tornando difícil o investimento no filho que nasceu.

Por seu lado, a nossa prática clínica na gravidez “normal” tem-nos revelado que a constelação materna é um conceito importante, que não evacua nem o conflito nem a sexualidade dos pais. O nascimento do bebé pode estimular tanto uma resolução como uma exacerbação dos conflitos parentais, podendo promover integração e diminuição das representações menos funcionais ou, pelo contrário, desintegração e aumento das mesmas (Ammaniti & Trentini, 2009). A influência do bebé sobre os pais pode ser muito poderosa e deve ser sempre tida em consideração. Trata-se de atender não só ao potencial terapêutico do bebé mas, de igual modo, ao seu potencial desorganizador, ou seja, às suas influências negativas (Cramer, 2007).

Quando há um risco biológico, uma suspeita sobre a normalidade do nascimento da criança que só pode dissipar-se, no melhor dos casos, após o parto ou ao longo do crescimento do filho, a revelação de um problema fetal, materno-fetal ou posnatal, a necessidade de compreender o mais precocemente possível o mundo interno dos pais e a intersubjetividade de cada tríada parece-nos indiscutível, dada a potencialidade traumática destas situações.

Estes dados não serão suficientes para nos despertar para o facto de que uma gravidez pode gerar profundas ondas sísmicas que tocam a constelação materna, a constelação paterna, o narcisismo, as questões pré edipianas e edipianas de cada um dos futuros pais, afetando igualmente a relação do casal? Não valerá a pena questionar se os futuros pais que vivem uma situação de risco, saturados de emoções, estarão capazes de lidar com uma realidade confundida por vezes com todos os seus fantasmas? Serão estes fantasmas demasiado presentes que forçarão os futuros pais a uma hipervigilância relativamente ao bebé que foram e ao bebé que terão? E quando um bebé nasce com problemas, há demasiada dor, faltam as palavras e as representações ou apenas não há quem as possa conter?

Quando em psicanálise se aborda a questão do desejo de ter um filho são, com frequência, utilizadas situações de infertilidade pela particularidade destas fazerem emergir constantemente temas conflituais da sexualidade e da filiação, ao contrário de outras doenças físicas que preencherão por completo o campo de preocupações, camuflando esses mesmos

conflitos (Bydlowski, 1997). Terá sido este um dos motivos que levou a psicanálise a não se interessar pela gravidez de risco biológico?

Para Ferraro e Nunziante-Cesaro (1990), toda a gravidez pode representar um espaço oco ou um corpo saturado, uma passagem ao ato da pulsão fusional primitiva, o preenchimento de algo que se esvaziara no nascimento. O motor da procriação seria o desejo de restaurar a relação primária e negar o traumatismo da separação originária. O tempo da gravidez representaria um tempo particular na vida da mulher onde emergiriam fantasmas de corpo pleno e da criança imaginária. Nesse sentido, para estas autoras os sintomas do início gravidez (náuseas e vómitos) podem estar relacionados com a reativação dos circuitos arcaicos da libido, relacionar-se com as teorias sexuais infantis sobre a origem dos bebés, simbolizar tentativas de expulsão do feto. Algumas grávidas orgulham-se por não sentir estes sintomas, como se tivessem superado um risco, sem ser afetadas, outras, podem ter a sensação de não estar grávidas. Para estas autoras, a ausência de sintomas orgânicos pode ser uma forma de negação relacionada com a ambivalência característica do primeiro trimestre da gravidez. Por outro lado, as fantasias de plenitude giram à volta da criança do inconsciente. Assim, Ferraro e Nunziante-Cesaro referem que há mulheres que estão grávidas de si mesmas, da criança que foram na representação da sua mãe. Referem que a gravidez é um momento em que coincidem três gerações no corpo da mulher, um tempo onde o passado e o futuro são realizados no presente e que nas mulheres que são incapazes de reconhecer a sua mãe em si, a procriação pode ser impossível ou difícil. No entanto, se estas mulheres tiverem sucesso, eles procriam tentando manter o maior tempo possível o processo de negação. Esta negação é simbolizada, entre outras coisas, pela falta de palavras sobre sua gravidez. O seu discurso é organizado em torno de temas fixos e recorrentes (excluindo o feto e a gravidez) lembrando um ritual obsessivo. O equilíbrio psíquico destas mulheres é, portanto, baseado na necessidade de manter o controlo omnipotente, tanto sobre as pessoas como sobre os eventos, o que impede a presença de novos elementos, incluindo o feto. Elas estão constantemente a tentar trazer esses elementos para algo conhecido e previsível. Portanto, nenhum lugar é dado às fantasias sobre o feto por causa dos perigos que podem surgir a partir do desejo. Este último pode comprometer o planeamento da vida psíquica da mulher. Nestas grávidas encontra-se um universo fechado, onde falta a fantasia. Quando a criança manifesta os primeiros movimentos fetais pode surgir um desejo urgente de dar à luz para expulsar o bebé (Ferraro & Nunziante-Cesaro, 1990).

Segundo Soulé e Soubieux (2001) até à primeira ecografia o bebé “in útero” é para a mãe uma continuidade narcísica, nem Eu, nem outro, passando desde aí a ser um Outro. É a visão de um outro que permite a projeção no futuro. No sétimo mês e oitavo mês, a criança imaginária atingiu o seu nível máximo de desenvolvimento e a partir daí as representações do filho imaginário diminuem. Este processo natural permite o encontro entre o bebé imaginário e o real aquando do nascimento e promove a mitigação da lacuna que possa existir. Quando todas as transformações do aparelho psíquico das mulheres são refletidas dentro do corpo ao ritmo das alterações fisiológicas provocadas pela presença desse estranho que é o bebé, é o corpo da mulher grávida que se torna o palco onde se representa a vida pulsional (Ferraro & Nunziante-Cesaro, 1990).

Muitos temores sobre o parto e a saúde do bebé podem aparecer nos dois últimos meses de gravidez pela diminuição do desenvolvimento da criança imaginária. O medo de que a criança esteja morta ou possa morrer ao nascer, a dor, o medo de que a criança tenha problemas, são temores partilhados por muitas mulheres. Perante a incerteza do futuro ou o nascimento de um filho “diferente” do bebé imaginário, como emergirá na mente dos pais o lugar psíquico do bebé real? O que pensar do texto de Freud (1914/1969, p. 98) sobre sua majestade o bebé quando diz:

A criança . . . não ficará sujeita às necessidades . . . A doença, a morte, a renúncia ao prazer, restrições à sua vontade própria não a atingirão; as leis da natureza e da sociedade serão ab- rogadas em seu favor . . . a criança concretizará os sonhos dourados que os pais jamais realizaram. [?]

O que pensar quando Winnicott (1956/2007) argumenta que a mãe deve ser saudável para alcançar o estado de preocupação maternal primária para se recuperar do abandono que implica esta função materna se, como escreve Racamier:

L'amour maternel n'est nullement le corps pur et idéal, le sentiment simple, sans mélange et sans conflits, que l'on se plaît à imaginer. C'est au contraire un sentiment complexe, ambivalent et ambigu, où se mêlent étroitement l'amour et l'agressivité, l'investissement d'autrui et celui de soi, la reconnaissance de cet autrui et la confusion avec lui [?] (Racamier, 1977/1978, p. 42).

Apesar do companheiro poder ser um bom interlocutor, um continente para a futura mãe, ele mesmo está preocupado pela antecipação do seu novo papel. Nesse sentido, Bydlowski (2000) enfatiza a necessidade que a futura mãe tem do calor de outras mulheres,

mães, irmãs, colegas de trabalho, acrescentando que a identificação com uma imagem materna positiva é essencial e refere os estudos de Mamelle, Laumon e Lazar, (1984) e de Mamelle, Gerin, Measson, Munoz e Collet (1987) sobre as ameaças de parto prematuro, comuns em mulheres que não trabalham fora de casa, que não beneficiam de suporte identificatório de colegas de trabalho, ligações alternativas para a dispersão da família.

No seio da psicanálise são muitos os autores que consideram o nascimento como um acontecimento traumático. Segundo Smadja (2011):

La naissance d’un enfant, événement traumatique, crée un bouleversement dans le fonctionnement psychique du couple et de ses membres, tant sur les plans dynamique qu’économique, avec une réactivation de divers conflits, leurs angoisses et leurs défenses corrélatives, des déplacements des courants d’investissements, une stimulation de l’activité fantasmatique, consciente, préconsciente et inconsciente, ainsi que des remaniements dans les jeux identificatoires. (p.183)

Esta questão torna-se mais complexa quando ocorre uma interrupção súbita da gravidez. O encontro com o bebé prematuro causa mudanças psicológicas significativas na mãe. Nestes casos, estes acontecimentos fazem com que ocorra uma mudança traumática do estado de gestante para o estado maternal (Lebovici, 1983), a maternidade torna-se traumática (Vanier, 2013). Os pais terão de se familiarizar com um bebé diferente daquele que imaginaram durante a gravidez, ficam muitas vezes isolados do seu ambiente familiar devido à hospitalização, sentem-se sozinhos dada a singularidade da experiência. Têm que se familiarizar com um ambiente técnico e conhecer o seu bebé “estranho” através de uma incubadora tão intrusiva como vital. A mãe poderá apresentar uma reação de luto pelo filho imaginário/idealizado que não teve, necessitando, por isso, de tempo e de suporte para aceitar o bebé real (Brazelton, 1988; Stern, 1995/1997). A preocupação materna primária é substituída pela preocupação médica primária (Druon, 1996/2005, 1997), a tríada passa a ser constituída pelos pais-técnicos de saúde-bebé e o voltar para casa é tão desejado como temido. Mas, haverá sempre traumatismo na gravidez de risco e nos nascimentos prematuros? Estarão os temas conflituais camuflados nas gravidezes de alto risco? Revelarão estas mães algumas dificuldades nas representações da criança? Até que ponto a questão de uma intercorrência no desenrolar da gravidez, a consideração de uma gravidez de alto risco biológico, poderá bloquear o pensamento da futura mãe e do futuro pai sobre si mesmos e sobre o bebé? Os nascimentos associados a uma dimensão de risco, vividos numa tensão

acrescida entre a vida e a morte, convocarão nos pais um emaranhado entre o filho imaginário, o fantasmático e o real? O que acontecerá quando o bebé nasce prematuro e a mãe não teve tempo de se separar do filho imaginário? Como se constituirão os lugares psíquicos nestas tríadas?