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1.2. Sobre a mãe e o tornar-se mãe

1.2.1. O processo de gravidez

Freud praticamente não falou da gravidez. Apenas a explicou no contexto do desenvolvimento psicossexual da menina, atribuindo o desejo de maternidade à fase edipiana (Freud, 1915/1969) e mais tarde ao vínculo pré-edipiano para com a mãe (Freud, 1931/1969, 1933 [1932] /1969). A motivação inconsciente da mulher consistia no desejo de substituir a falta do pénis.

Na mesma altura, Helene Deutsch (Deutsch, 1924/1994) atribuiu à gravidez uma forte perturbação da economia libidinal devido ao fenómeno da regressão. Segundo Deutsch a mulher grávida revive as situações passadas no decurso do desenvolvimento da relação de objeto. O bebé torna-se o depositário de diversos investimentos de objeto. Para Deutsch, o desejo de procriar é atribuído à função recetiva do psiquismo feminino (Deutsch, 1945/1969).

Por sua vez, Therese Benedek sublinha as tendências recetivas e retentoras da mulher e considera a gravidez um evento psicossomático, onde as correspondências entre as mudanças fisiológicas hormonais e as modalidades psicológicas se tornam evidentes (Benedek, 1956).

É com o conceito de crise maturativa de Grete Bibring (1959) e de Bibring, Dwyer, Huntington e Valenstein (1961), que a gravidez passa a ter o significado de um processo ou uma crise maturativa, comparada à da adolescência devido à exacerbação dos conflitos infantis. As mudanças psíquicas no período da gravidez têm uma dupla valência, podem ser

evolutivas pela aquisição de um nível de integração mais maduro ou, pelo contrário, podem ser percebidas pela mulher como ameaças à sua integridade.

Para Monique Bydlowski (1991) o período da gravidez pode ser entendido como “le moment d’un état psychique particulier, un état de susceptibilité ou de transparence psychique où des fragments de l’inconscient viennent à la conscience” (p. 137). Bydlowski leva a sua reflexão mais longe ligando esta transparência aos fenómenos que caracterizam a psicose. Este estado induzido pela gravidez, é vivido pela mulher grávida como um acontecimento natural. A transparência psíquica pode ser associada ao conceito de preocupação maternal primária descrito por Winnicott, em 1956 (Winnicott, 1956/2007) e que desenvolveremos adiante.

À semelhança de Bibring e de Bydlowski, Dinora Pines (1972, 1982) considera a gravidez como uma etapa fundamental da construção da identidade feminina, pela possibilidade que dá à mulher de elaborar o processo de separação-individuação em relação à sua própria mãe. Consequentemente a gravidez pode ser considerada como o terceiro movimento de separação-individuação, uma vez que a individuação da mulher grávida é melhor articulada graças a uma diferenciação dos próprios limites e do seu espaço interior relativamente à sua mãe, ao seu companheiro e outras figuras significativas (Ammaniti, Candelori, Pola & Tambelli, 1999).

A partir dos primeiros desenvolvimentos sobre as questões implicadas na gravidez, foram destacados os diferentes estados, períodos ou fases da gravidez (Benedek, 1959, 1970; Bibring, 1959; Bibring, Dwyer, Huntington & Valenstein, 1961; Kestenberg, 1956; Pines, 1972, 1982; Raphael-Leff, 1980), os diferentes tipos de perda associados à mesma (Birksted- Breen, 1992), os diferentes estilos maternos (Raphael-Leff, 1986), os fantasmas da gravidez (Ganem 1992), e as representações maternas (Ammaniti et al., 1992; Birksted-Breen, 1992; Leifer, 1980).

A constelação materna, conceito introduzido por Stern em 1995, reporta-se a uma nova organização do psiquismo feminino que se desenvolve durante a gravidez e se prolonga de alguns meses a alguns anos nas sociedades ocidentais. O tornar-se mãe, segundo este autor, implica comportamentos, sensibilidades e fantasmas específicos, a que é preciso atender. Esta constelação materna, considerada como organizador psíquico, corresponde a três tipos de discurso: o discurso da mãe com a sua própria mãe, enquanto filha-criança na relação com a sua própria mãe; o discurso da mãe com ela mesma como sendo mãe ou futura

mãe e, ainda, o discurso da mãe com o seu bebé (feto ou recém-nascido). Esta trilogia da maternidade (Stern, 1995), constituída pela mãe da mãe, pela mãe e pelo bebé, vai mostrar que os interesses da mãe se vão dirigir mais sobre a sua própria mãe do que sobre o seu próprio pai, mais sobre a sua mãe enquanto mãe que sobre a sua mãe enquanto mulher, mais sobre as mulheres que sobre os homens, mais sobre os problemas desenvolvimentais da criança que sobre os seus próprios interesses profissionais, mais sobre o cônjuge enquanto pai, do que enquanto homem e parceiro sexual. A mãe abandonará o seu complexo de Édipo ou colocá-lo-á entre parêntesis por uns tempos.

No trabalho sobre O nascimento de uma mãe Stern e Brushweiller-Stern (2000) descrevem uma experiência inigualável que domina absolutamente todas as facetas da realidade psíquica da protagonista, tanto intra como intersubjetivamente. O feto cresce no ventre ao mesmo tempo que a identidade maternal e o bebé imaginário tomam forma na mente da mãe. No psiquismo da mulher que vai tornar-se mãe decorrem três gravidezes em simultâneo, a do bebé que cresce no ventre materno, a da nova organização psíquica da mulher e a do bebé imaginado que ocupa um lugar na mente da mulher.

No mesmo sentido, Magnana (1992) pela observação de uma família através do método de Esther Bick, referiu que com a chegada do bebé a mãe perdia a sua antiga identidade e constituiria uma nova, mudava de pele. Nas suas palavras:

Elle n’est plus l’adulte capable... Elle ne sait plus qui elle est, car elle n’a pas encore acquis sa nouvelle identité de mère. Sa confusion et le sentiment très douloureux de perte de son ancienne identité s’associent à la prise de conscience de sa totale responsabilité pour ce bébé. (p. 181)

Também Bertrand Cramer e Palacio Espasa (1993) sublinham as mudanças psíquicas no processo de tornar-se, referindo que:

Le fonctionnement psychique des parents — surtout de la mère — obéit alors à une nouvelle topique, qui inclut la représentation mentale de l’enfant comme une adjonction au territoire psychique parental . . . Les vicissitudes normales et pathologiques des relations précoces tiennent à la nature de cet effet de rencontre entre le nouveau de l’enfant et l’infantile des parents, entre l’étrangeté du bébé et la familiarité des imagos anciennes. (p. 374)

Quando fica grávida, então, todo o passado relacional da mulher, mais ou menos ultrapassado, é revivido em forma invertida. Há uma mobilização dos lugares psíquicos ao deixar de ser apenas filha para passar a ser mãe. Neste processo a mulher tem de aceitar a

sombra da mãe no seu interior, ocupar o seu lugar na sucessão de gerações, assumir as modificações da sua imagem e suportar a ideia da sua própria finitude.

Existem trabalhos que descrevem um estado emocional global das mulheres grávidas, que tornaria possível o acesso a conteúdos mentais inconscientes, por regra submetidos ao controlo do recalcamento, que aqui, de certo modo, está aliviado (Bydlowski, 1998, 2000; Gauthier, 1999; Manzano, 1996; Palacio-Espasa, 1996; Raphael-Leff, 1995). Estes estados de transparência psíquica, permeabilidade do inconsciente e/ou inconsciente à flor da pele, observam-se exclusivamente em grávidas e estariam, mais ou menos ativos, desde o conhecimento da gravidez até várias semanas depois do nascimento do bebé. Este estado é de suscetibilidade e traduz-se por uma grande permeabilidade relativamente às representações inconscientes (cenários, rememorizações e fantasmas). São conteúdos sobretudo relacionados com a identidade feminina e especificamente os que se referem à sua própria história, de ter sido e ser, ainda, filha da sua mãe, isto é, reportáveis à temática edipiana e ao desejo de um filho, como forma de aceder a uma feminilidade invejada da mãe.

A grávida tende a tornar proeminente e acessível o período em que ela era filha da sua própria mãe, em detrimento das fantasias relativas ao futuro bebé. Há como que uma espécie de hesitação entre o conter e ser contida. Bydlowski (1997, p. 97) afirma que: “L’intensité de la résurgence de certains fantasmes régressifs et l’afflux de remémorations infantiles exprimées sur un mode nostalgique contrastent avec l’absence d’un discours raisonnable sur la réalité du fœtus.” As lembranças do passado, até então retidas no inconsciente, testemunham a transparência psíquica característica deste período da vida. Segundo Raphael- Leff (1995, 2010) a permeabilidade do inconsciente da grávida permitirá explorar não só todo o seu historial relacional enquanto filha dos seus pais, como, também, todo o seu mundo fantasmático em relação ao lugar em que colocará o seu futuro bebé dentro do seu projeto de mãe e de família. Este é um período de particular acuidade na deteção de possíveis dificuldades ou complicações no processo de ligação da mãe ao seu bebé. Ainda segundo esta autora, durante a gestação a mulher enriquecerá e acrescentará matizes ao seu filho imaginário a partir de certos elementos da realidade, como as imagens ecográficas e os movimentos fetais. Ocorrerá o surgimento de conteúdos inconscientes profundos que, dado o seu estado, aflorarão na mulher de forma extraordinária, especialmente os relacionados com as suas representações infantis. Todos estes elementos conjugar-se-ão mais ou menos dramaticamente após o parto e nos primeiros anos de vida do filho.

Relativamente às representações psíquicas do bebé na mãe, Lebovici e Stoleru (1983) e Lebovici (1998) afirmam que na mãe existem quatro tipos de representações: o imaginário, o fantasmático, o mítico e o narcísico. Estas representações estão presentes em diferentes momentos da vida e podem sofrer modificações, nomeadamente depois de uma ecografia. O bebé imaginário diz respeito ao conjunto de representações conscientes. Está enraizado no pré-consciente e é pré-edipiano. É um fruto do desejo de gravidez, muitas vezes idealizado pela mãe. O bebé fantasmático diz respeito ao conjunto de representações inconscientes, fruto das dinâmicas e conflitos pré-edipianos e edipianos da mãe com o peso da história familiar e pessoal da mesma. É um bebé que já está presente no imaginário desde a infância. O bebé mítico está relacionado com a pertença coletiva e a ressonância individual, diz respeito a todas as referências culturais e mediáticas que envolvem a mulher grávida. Por fim, o bebé narcísico é a representação de todos os investimentos narcísicos dos pais.

Entre os autores que abordaram o processo de maternalidade (Racamier, 1961) ou de tornar-se mãe destacamos um artigo memorável de Winnicott (1956/2007), onde o autor descreve o estado de preocupação primária típico no final da gravidez e no pós-parto, quando a mulher dirige o seu foco de atenção e investimentos para o bebé. A mulher grávida apresenta um estado de hipersensibilidade, uma doença normal que desaparece sem deixar rastro devido ao recalcamento. Caracteriza este estado a regressão emocional da mãe à sua infância, o que propicia a identificação com o filho, tornando-a mais apta para compreender e atender às suas necessidades.

No mesmo sentido, Bydlowski (1997, 2001), Bydlowski e Golse (2001), Cramer e Palacio-Espasa (1993) ao abordarem o funcionamento psíquico perinatal da mãe, evidenciam que este pode variar desde uma sensibilidade contextualizada às transformações vividas até aos estados psicopatológicos.