CAPÍTULO 3. METODOLOGIA
3.5. Instrumentos
3.5.1. A entrevista de associação livre
Sobre a entrevista como método científico, Kvale (2003) afirma que a forma de a compreender se insere numa conceção da ciência próxima do conhecimento da filosofia existencial, hermenêutica e pós-moderna, que considera os aspetos humanos nela presentes como centrais para obter um conhecimento vivido do indivíduo. Ela oferece um potencial de descoberta do consciente e inconsciente no seio do paradigma da pesquisa qualitativa desenvolvido por cada investigador numa bricolagem única (Kincheloe, 2005; McLeod, 2001). Neste sentido, o discurso das entrevistas deve ser considerado como uma coconstrução na qual participam o entrevistador e entrevistado, sendo que o significado das perguntas e respostas é mútua e contextualmente construído por ambos (Mishler, 1986/1991).
Segundo Hollway e Jefferson (2000):
The free-association narrative interview method is not a substitute for all qualitative methods and is not appropriate for all types of research question. It is most powerful when the research question involves understanding people's experiences through their own meaning-frame and when the area that needs to be tapped to address the research question implicates a person's sense of self. . . able to offer an enriched, more complex, nuanced and, arguably, more humane and ethical view of the human subject. (p. 155)
A técnica da livre associação (Freud, 1895/1969; Hollway & Jefferson, 2008) e as suas reverberações no observador requer que o sujeito exponha verbalmente as associações que lhe ocorrem à mente, incluindo, entre outras, as recordações, os afetos, os acontecimentos, independentemente de se associarem diretamente com o facto que as gerou. Neste sentido, o sujeito é estimulado a exprimir todos os encadeamentos associativos, por muito estranhos ou desligados que lhe pareçam, donde emergirão os temas conflituais. O princípio da livre associação, com base numa ontologia psicanalítica, enfatiza o conflito inconsciente e a sua gestão como a base da vida psíquica, encontra-se na procura do significado emocional, muitas vezes inconsciente, contido nas ligações entre uma ideia e outra e na forma como essas ideias são produzidas numa relação específica com o ouvinte (Hollway, 2003, 2010b, 2011).
Segundo as recomendações de Hollway e Jefferson as questões a usar pelo entrevistador deverão ser abertas, não começarem pela palavra “porquê” mas sobretudo pela palavra “como”, permitindo maior liberdade nas respostas, seguindo a associação livre dos participantes e incentivando os entrevistados a recordarem eventos específicos uma vez que estes estão repletos de significados emocionais (Hollway & Jefferson, 2000). Após cada entrevista devem anotar-se as nossas respostas à pergunta “Quais são as minhas esperanças e medos para esta mãe” acrescentada no nosso estudo para cada membro da tríada, ou seja, quais as minhas esperanças e medos para com este pai e para com este bebé?
O método da entrevista baseada na associação livre é particularmente apropriado para explorar questões emocionalmente carregadas e assentes na identidade, em oposição aos tópicos onde apenas a opinião, as crenças ou os factos são procurados (Hollway & Jefferson, 2000). É contrário ao método das respostas generalizadas e das narrativas intencionais que apenas revelam o que os entrevistados conscientemente desejam dar a conhecer ou revelar sobre si mesmos, de um modo cronológico ou seguindo uma sequência lógica (Hollway, 2004, 2010b, 2011; Hollway & Jefferson, 2000; 2001) baseado na teoria desacreditada da transparência da linguagem (Hollway & Jefferson, 2008). Nos métodos de investigação de cariz qualitativo, o pressuposto da partilha de significações entre entrevistador e entrevistado não só assume uma transparência para o outro, mas também uma autotransparência (Hollway & Jefferson, 2008). Ora, as teorias da linguagem e da comunicação atuais enfatizam que, independentemente do tipo de relato, este poderá apenas ser uma mediação da realidade, uma vez que quando se procura fazer sentido de um relato de entrevista, não existem garantias que pessoas diferentes possam partilhar as mesmas significações (Hollway & Jefferson, 2000).
Para além da linguagem falada, há que atender, como refere Pedro Luzes, que “em última instância, são os processos do pensamento e as relações objetais, de que dependem, que constituem o objeto de estudo do analista” (Luzes, 1969/2011, p.151).
Com este método procurámos aceder à subjetividade de cada um dos pais através da intersubjetividade, dando particular atenção à intensidade da tonalidade afetiva no campo da investigação durante as entrevistas e observações, de forma a conhecer o impacto do tornar-se pais na mulher e no homem e a estabelecer uma abordagem mais abrangente do que a de olhar para o que acontece à criança apenas por via da função materna ou da função paterna (Henwood & Finn, 2010; Hollway, 2008a, 2008b, 2009a, 2009b, 2010a, 2010b, 2011; Thomson, 2010).
Neste âmbito, procurámos uma narrativa na qual as transformações instáveis e reversíveis testemunhassem as alfabetizações ou des-alfabetizações que se realizam no campo intrapsíquico e intersubjetivo. Este propósito decorre do facto de considerarmos as narrativas como uma possibilidade viva e criativa de fazermos aproximações a áreas do self desconhecidas como recurso de elaboração da própria história, que no presente estudo é cocriada pela investigadora e pelo casal relativamente ao bebé. Todas as narrativas se constituem como formações intrasubjetivas e intersubjetivas, uma vez que são sempre de alguém para alguém e constituem um espaço comum partilhado. Nelas, o terceiro analítico capta a radicalidade da dinâmica intersubjetiva:
The analytic process reflects the interplay of three subjectivities: the subjectivity of the analyst, of the analysand, and of the analytic third. . . The analytic third is a creation of the analyst and analysand, and at the same time the analyst and analysand. . . are created by the analytic third. (There is no analyst, no analysand, no analysis in the absence of the third.) (Ogden, 1994b, p. 93).
Neste sentido, o nosso convite aos pais a coconstruírem uma história como se fosse para ser contada ao bebé ou a um parente próximo, antes do nascimento do filho, constitui uma espécie de terceiro ou squiggle de coprodução de uma história intersubjetiva. Nesta coconstrução os dois pais podem narrar como se sentiram quando souberam da gravidez, quando viram o seu bebé pela primeira vez e como têm sido as suas experiências.
Assim, as narrativas decorrentes das entrevistas são encaradas como uma coprodução manifesta de um discurso latente, como um sonho acompanhado, segundo as palavras de Ogden (2010b), dando-se particular atenção às contradições, digressões, aparentes
incoerências, não-ditos, mímicas, expressões do olhar, tom de voz, suspiros, silêncios, lapsos e sonhos na relação intersubjetiva.
O facto da pesquisa narrativa estar vitalmente ligada com a narrativa pessoal do investigador (Hedges, 2010), faz com que o reconhecimento dos processos psíquicos inconscientes transformacionais e intersubjetivos seja facilitado pela reflexibilidade com o grupo de pares e assuma um caracter primordial neste estudo, constituindo o lugar privilegiado para o aprender com a experiência e o desenvolver de uma visão binocular ou multifocal do investigador relativamente aos dados da investigação. Só a associação de outros pontos de vista (diferente da associação de ideias), a mobilização permanente da mente entre o dentro e o fora, entre a posição de participante e a de observador, o entendimento das defesas, desejos, identificações projetivas, transferência e contratransferência poderá aumentar a credibilidade dos resultados e assegurar a validade da investigação.