UMA IMAGEM REVOLUCIONÁRIA NOS CORREDORES DA FACULDADE
3 DA IMAGEM QUE PROVOCA O AMBIENTE ACADÊMICO
Partindo do pressuposto de Barthes (1990), segundo o qual entre a imagem e o pesquisador existe um punctum ou o
equivalente a um raio ou flecha, que parte da própria imagem e atinge ao observador, atravessando-o, assim podemos entender, analogicamente, a imagem que pretendemos usar como pedra de toque ou recorte para este estudo, qual seja: o banner produzido pelos alunos da FADIR e disposto pelos corredores do prédio das salas de aula do Curso de Direito da FURG com a seguinte mensagem escrita: “meu corpo é de luta minha buceta é revolucionária”
(Figura 1) 4;.
Figura 1: Banner “a buceta revolucionária” Fonte: Dados da autora
Mais do que uma simples flecha ou raio é possível inferir, pelas próprias consequências ou resultados da imagem produzi- da, que essa funcionou como verdadeira bomba dentro daquele contexto acadêmico, a ponto de ser dali extirpada sabe-se lá para onde, uma vez que, pelo menos até a presente data, não se tem notícia do seu paradeiro.
4 Conforme referido na página anterior, esta imagem foi produzida pela autora, profa. Rita de Araujo Neves, no seu próprio celular, no dia 28/05/2014, quando ia ministrar aula, em sala próxima ao banner.
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Do que se pode verificar até o momento, ainda que se pretenda, adiante, aprofundar a investigação aqui apenas iniciada, a imagem do banner produzida pelos alunos visava à divulgação do EGED, conforme já referido, bem como, mais adiante, no mês de outubro de 2014, também ao convite para uma Oficina sobre Feminismo, ocorrida no dia 8 de outubro daquele ano, às 9h. 5
Além disso, importante destacar que a provocação gerada pela primeira imagem foi tamanha que gerou a produção de uma outra imagem (Figura 2), a partir daquela, conforme se observa na charge de autoria de Carlos Henrique Latuff de Sousa6, dis-
ponível no sítio online7, onde além da imagem consta o título,
em tom de homenagem: “Buceta Revolucionária! Uma charge para a Semana Acadêmica do Direito na FURG” manifestada na Figura 2:
5 Disponível em: <https://www.facebook.com/events/636485969805875/> Acesso em 19/04/2015
6 Chargista e ativista político brasileiro que iniciou a carreira como ilustrador em 1989, numa pequena agência de propaganda no centro do Rio de Janeiro. Tornou-se cartunista depois de publicar sua primeira charge num boletim do Sindicato dos Estivadores, em 1990, e permanece trabalhando para a imprensa sindical até os dias de hoje. Com o advento da Internet, Latuff deu início ao seu ativismo artístico, produzindo desenhos copyleft para o movimento zapatista. 7 Disponível em: <https://latuffcartoons.wordpress.com/tag/revolucionaria/>
Acesso em 19/04/2015
Figura 2: Charge de autoria de Carlos Henrique Latuff Fonte: Latuff Cartoons
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Em que pese a relevância da imagem produzida na Figura 2, destacamos que no presente estudo esta imagem não será ana- lisada, o que se pretende fazer, adiante, com o desenvolvimento da pesquisa. Ainda assim, importante tangenciar um aspecto que salta aos olhos de quem se defronta a esta imagem: a associação da emblemática figura de Che Guevara, frequentemente repre- sentativa de atos revolucionários e juvenis, à imagem da “buceta revolucionária” produzida pelos alunos da FADIR.
Do ponto de vista da representação, logicamente que sem aqui querermos ser categóricas, nem muito menos simplistas ou definitivas, ao interpretar a imagem que embasa a presente dis- cussão, constante da Figura 1, pensamos que é importante, antes de tudo, situar essa imagem no seu contexto histórico e social, ou melhor, como muito bem destaca Hall (1997), no seu “mapa de sentido” cultural.
Nesse ponto, torna-se importante destacar que a imagem que provocou a presente escrita foi produzida dentro de um con- texto cultural, histórico e social muito particular, pois deu-se no final do mês de maio de 2014, em meio a algumas manifestações populares, que vieram a ser conhecidas como “a voz das ruas” e que culminaram, em junho daquele mesmo ano, em grandes e vultosos manifestos, que levaram multidões às ruas de todo o país.
Assim, não é possível querer descontextualizar a imagem produzida pelos alunos da FADIR, de seu real contexto.
Ademais, há, na perspectiva de Foucault (apud HALL, 1997), segundo Hall (1997), não só a questão do corpo, como também a do gênero feminino, usada de forma incisiva no banner produzido pelos alunos.
Feito esse registro importante do contexto da imagem, re- tomamos à ideia de “mapas de sentido”, descrita por Hall (1997).
Parece ou é indicativo, dentro da cultura do curso de Direito, que ao se depararem os próprios alunos, professores e servidores da FADIR com aquela imagem, posta nos corredo- res da Faculdade houve uma quebra nessa comunicação, pois ela
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não fazia parte ou “destoava” dos “mapas de sentido” aos quais estavam/estão os membros daquela cultura acostumados, o que gerou o ruído e as consequências antes referidos.
Passando agora à análise da imagem propriamente dita, a partir do método sugerido e descrito por Bohnsack (2010) é importante, primeiro, na reconstrução do significado iconológi- co, procurarmos pelo habitus do produtor dessa imagem, no caso
aqui analisado, os estudantes da FADIR.
Dessa premissa e partindo àquilo que o autor nominou como “o olhar que olha”, é preciso tomar a imagem por inteiro, no seu contexto, conforme já foi destacado, e voltar a momento anterior à sua produção ou ao nível pré-iconográfico, entendido como a análise da estrutura formal da imagem.
Assim, na primeira etapa da metodologia de análise ou verificando a estrutura planimétrica total, como a construção formal da imagem, verificamos no primeiro plano da imagem, em letras grandes e vermelhas a frase central: “meu corpo é de luta minha buceta é revolucionária”. Logo abaixo, no mesmo plano, mas
em letras bem menores e na cor preta e alinhado à direita está a frase com o nome do evento: “XXIV EGED”.
Ainda, no mesmo plano, há três figuras menores, também na cor preta, alinhadas do centro à esquerda, não muito nítidas, mas que, claramente denotam as três figuras clássicas dos ma- cacos que, respectivamente: não falam, não ouvem e não enxer- gam. Porém, aqui, destaque-se que esses macacos não o fazem: falar, ouvir e enxergar, pois estão com os olhos, os ouvidos e a boca, respectivamente, obstruídos por cédulas, notas de dinheiro.
Na segunda etapa da metodologia, ou seja, quanto à co- reografia cênica ou ambientação em que ocorre a cena social da imagem, percebemos que o banner está num dos corredores do prédio onde ficam as salas de aulas da FADIR e tão próximo à porta de uma das salas que faz as vezes de uma espécie de tapume ou biombo, considerada a sua altura, de forma que difi- cilmente não seria percebido por qualquer pessoa que transitasse por aquele prédio ou corredor.
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Finalmente, na terceira e última etapa de análise da ima- gem chegamos à chamada projeção perspectiva que visa a identi- ficar a espacialidade e corporalidade dos objetos, estando orien- tada à análise do mundo externo retratado na imagem.
Nessa perspectiva, a imagem produzida, conforme já referido, é grande o suficiente para quase bloquear o acesso às portas das salas de aulas da FADIR, mas, mais que sua dimen- são expressiva, quando analisamos o aspecto do mundo externo retratado na imagem não há como ficar indiferente à sua força e impacto. Primeira, causada pelo próprio discurso visível, expres- sado nas palavras que traz o banner, escritas em imensas letras vermelhas, entre elas uma de conotação vulgar, relacionada ao gênero feminino, especialmente ao órgão sexual que identifica esse gênero, ou seja, a vagina, mas que na imagem se apresenta na expressão chula e inadequada ao ambiente acadêmico, seja na forma escrita ou falada: “buceta”.
No tocante ao aspecto iconológico da análise, conside- rando as três etapas sugeridas no desenvolvimento do método documentário da análise da imagem da Figura 1, tendo em vista a imagem dos três macacos representados na aludida imagem, com seus sentidos obstruídos pelo capital, representado pelas cédulas de dinheiro, tudo está a indicar aí uma nítida crítica do produtor da imagem à “cegueira dos sentidos”, por vezes provocada pelo sistema capitalista de acumulação de valores.
Quanto às cores usadas pelo produtor da imagem, tam- bém é interessante destacar a distinção dada à frase de impacto no banner: “meu corpo é de luta minha buceta é revolucionária”, a qual
está escrita em vermelho, enquanto o restante da mensagem está toda na cor preta. Parece clara, assim, a intenção do produtor da imagem em chamar a atenção para essa parte da mensagem principal.
Além disso, em uma análise livre e mais aprofundada, re- lacionada ao gênero feminino a ao próprio conteúdo da mensa- gem transmitida no banner é possível relacionar a cor vermelha, inclusive, ao sangue menstrual ou mesmo à ideia de luta como
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um sangue relacionado e inerente ao sofrimento, resultado dos processos revolucionários, por assim dizer.
Ressalte-se, aqui, que sequer estamos a analisar o chama- do discurso “visível” versus o discurso “dizível”, na perspectiva
de Foucault (1996), mas, conforme proposto nos objetivos deste estudo, tão somente, segundo o método documental, intentamos isolar o conhecimento sobre a imagem representada ou, por as- sim dizer, metodologicamente, colocar de lado o sentido conota- tivo ou iconográfico, o conhecimento verbal ou textual adquirido previamente a respeito da imagem em análise.
Quando analisamos a imagem dessa forma, aplicando es- sas três etapas na sua interpretação ou fazendo esses três recortes metodológicos, segundo Bohnsack (2010), conseguimos inter- pretá-la como um todo e não de forma isolada, mas em todos os seus elementos, enquanto conjunto, em co-relação aos demais elementos da composição.
Logo, é possível inferir ou é indicativo, da análise da ima- gem produzida pelos alunos da FADIR, que essa fugiu do con- texto ou estava fora do habitus daquele grupo, o que parece ter
causado o efeito que causou entre os envolvidos ou “atingidos” pela imagem em questão.
Portanto, da imagem aqui analisada se infere que a força ou a provocação gerada veio muito mais do fato de ela trazer em si um discurso destoante ou exterior aos “mapas de sentido” dos personagens ou agentes que transitam naquele ambiente acadê- mico do que do conteúdo do discurso, em si mesmo, o qual, até onde se sabe, pelo avanço da pesquisa até este momento, sequer chegou a ser discutido dentro daquela comunidade acadêmica. CONCLUSÕES
Considerando o fato de que esta pesquisa está na sua fase exploratória, não existem, pelo menos até o momento, conclu- sões que possam ser apontadas definitivamente. Todavia, como já indicado no item referente à metodologia pretender-se-á de- senvolver a pesquisa aqui iniciada, para aprofundar a investigação
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e a discussão, a fim de, por exemplo, fomentar uma aproximação deste estudo aos alunos da FADIR, a fim de ouvir os envolvi- dos na organização do XXIV EGED, bem como os demais alu- nos participantes do evento, objetivando, entre outros aspectos, questionar sobre a destinação do banner hospedeiro da imagem constante da Figura 1, além de ensejar uma aproximação, tam- bém, com o autor da imagem apresentada na Figura 2, visando a desenvolver, complementar e aprofundar a discussão aqui ini- ciada.
REFERÊNCIAS
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Andréia Castro Dias
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