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INTERLÚDIO: O DIREITO E A “ESCOLA DO OLHAR 5 ”

A CORAGEM DE PENSAR, CRIAR E CUIDAR (DA VIDA E DE SUAS RELAÇÕES)

INTRODUÇÃO: VAMOS COMEÇAR A COMPOSIÇÃO DE UM MOSAICO

3. INTERLÚDIO: O DIREITO E A “ESCOLA DO OLHAR 5 ”

Neste ponto examinaremos o direito segundo a dinâmica da “escola do olhar” – uma escola que mantem “o olhar não cap-

4 Cf. Gilles Lipovestick, “A Era do Vazio” e o “Império do Efêmero” (LIPOVESTICK, 1989).

5 Conforme Jean Ives Leloup, na obra “O Ícone – uma escola do olhar” (LELOUP, 2006).

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turado por aquilo que vê” e uma “inteligência não capturada por aquilo que sabe” (LELOUP, 2006, p. 15). Para tanto, é certo que o direito segue examinado agregado à arte. Porém não se preten- de mostrar um direito “inacabado”, frustrado, que sozinho não conseguiu resolver e avançar em suas propostas, nem tão pouco uma arte tão completa que se esgotou em si mesma. Ambos pre- cisam manter um diálogo, uma dimensão tal que quebre paredes, inclusive do pensamento, anuncie novas compreensões, com a firme disposição ditada pela inteligência da complexidade.

Este irromper-se do direito, atingido pela arte, e condu- zida pelo clarão da nova visão, possível pela condução da “escola do olhar”, propõe “una reflexión que no entra en todos los as- pectos evocados por el tema, sino que se ocupa, por decirlo así, de las premisas profundizando esse lugar de conjunción dentre los símbolos e los conceptos” (BAGGIO, 2009, p. 204)

A escola do olhar requer uma profunda sintonia com o outro, com o “ser-em-si” e o “ser-do-outro”, onde o visível e o invisível, o criado e o incriado tecem pontes de possibilidades, si- tuações são observadas e o conflito (re)solvido pelo auxílio da in- teligência e do ato criador e criativo. Portanto, consoante exposto no item anterior, é certa a importância da arte nesse processo. O direito tem muito a enriquecer com esse processo, rico em expe- riências, em símbolos, beleza e harmonia, expressão de cultura, humanidade, bem querer... e, por assim dizer, em uma lista infin- da de considerações, ou seguindo o exemplo de Koninck (2006, p. 206), com o “homem” ser mais capaz de generosidade, de atos valorosos, magnânimos, inclusive de justiça e de amizade.

É preciso que compreendamos que as relações jurídicas assentes desde a primeira comunidade humana estiveram às vol- tas com a dimensão do conflito, enquanto que a expressão da arte, incluindo qualquer manifestação simbólica que pudesse de- ter a mínima característica do traço artístico – não tenha neces- sariamente surgido de igual manifestação - porém, o que há de ser considerado, é que, nascentes não importa em torno e sobre qual a motivação, ambas sempre pertenceram à cultura humana.

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Aliás, notoriamente, arte e direito seguem construindo a história humana e não devem a esta altura e condição supostamente ci- vilizatória, deter especificidades tão distintas que não possam ser reunidas, visando auxiliar o estabelecimento das relações. Não é, necessariamente, questão econômica, procedimental, cultural, social, ou mesmo até onde vá nossa capacidade de classificá-los, trata-se da permanência de vida com qualidade fraterna6.

O objetivo maior, sem dúvida, nasce do contexto do con- flito, papel que precisa ser revisto, quer pela razão de que preci- samos enquanto pessoas avançar na compreensão e no diálogo, quer porque não há sentido continuarmos no projeto inacabado, cuja única lição advoga: para entender o bem – e a importância deste – precisamos do mal ou do conflito.

É certo que, enquanto alguns seguem tomando aulas a favor do bem, outros insistem por continuar matriculados na dor (não a dor que nos faz crescer, mas a que cega). O direito ocupa- -se de tal função pelo viés do conflito, enquanto que a arte detém capacidade para realizar a sua própria representação, restando, pois, visivelmente a necessidade flagrante do direito em relação à arte. Segue de grande relevância, a análise desses modelos sim- bólicos de representações do conflito, que requer uma investiga- ção conduzida por eruditos, artistas, juristas, cientistas, qual seja, pessoas que tomadas pela preocupação com o outro, capacitadas pela “escola do olhar”, faz-se presentes visando à resolução do caso.

Entre as várias possibilidades de análise do quadro apre- sentado, uma guarda potencial interesse: trata-se do estudo da violência em si, expressão que é tomada com o sentido de todo o

6 Neste sentido, reputa-se indicar os estudos que têm sido empreendidos

por estudiosos e pesquisadores do Direito com temática voltada para a fraternidade: No Brasil: no Núcleo de Pesquisa Direito e Fraternidades, do Centro de Ciências Jurídicas da Universidade Federal de Santa Catarina, coordenado pelas professoras Olga Maria Boschi Aguiar de Oliveira e Josiane Rose Petry Veronese e outros centros como o da UFRGS, coordenado pela professora Luciane Cardoso; Faculdade Asces em Aracajú, pelo professor Paulo Muniz. Na Itália, Instituto Sophia, professor Antonio Maria Baggio; na Espanha, professor Antonio Prieto Marquez, para citar minimamente alguns dos principais nomes.

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conflito possível de ser tutelado pelo direito, ainda que passivo de sujeição – como é o caso de aplicação de pena, dependendo da seara de onde se vai buscar sua caracterização e disciplina.

A violência é indicada neste de forma a compreender a falta de humanidade que habita o homem no enfrentamento da violência. Sua força e significação no contexto deste estudo é tomada em empréstimo da relação ou da falta de relação com o outro, típica lição da não presença de humanidade. Veronese a despeito dessa questão aponta que, “De novo esquece-se a fi- nalidade maior de todo esse processo – o ser. Disso decorre que pensar em humanismo implique num projeto de construção de humanidade, na qual o relevo maior se dê à construção das virtu- des” (VERONESE, 2015, p. 22)

Em razão de sua possibilidade ilustrativa, recorremos à Derrida:

Qual é, portanto, esse encontro do absolutamente outro? Nem representação, nem limitação, nem relação conceitual com o mesmo. O eu e o outro não se deixam suplantar, não se deixam totalizar por um conceito de relação. E, em primeiro lugar, porque o conceito (matéria de linguagem),

sempre dado ao outro, não pode fechar-se sobre o outro,

compreendê-lo (DERRIDA, 2009, p. 135)

De igual forma elucida Benjamin:

A tarefa de uma crítica da violência pode se circunscrever à apresentação de suas relações com o direito e com a justiça. Pois qualquer que seja o modo como atua uma causa, ela só se transforma em violência, no sentido pregnante da pa- lavra, quando interfere em relações éticas. A esfera dessas relações é designada por conceitos de direito e de justiça (BENJAMIN, 2013, p. 121).

Não se pretende enaltecer a arte de tal forma que se re- conheça que a mesma siga com a sua exclusiva capacidade maior e vital de dar ao direito os meios necessários ao enfrentamento da injustiça que até agora o direito não conseguiu empreender. Ambos, direito e arte tem contribuições próprias, mas em con-

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junto somam forças. Não há supremacia entre si, nem inferio- ridade entre ambos. Também não se pode esperar que a arte confira ao direito uma resposta ágil, de modelo e de resposta. Mas é certo que ambos muito podem.

A título ilustrativo, Schwartz a respeito da temática (direi- to e arte), tomada pelo autor sob o viés da literatura, pondera que

[...] o estudo do Direito na Literatura é aquele que se apre- senta como o mais construído e desenvolvido, pois, aqui, o acoplamento entre o sistema jurídico e o sistema da arte é latente, visto que existem imbricações bastante óbvias possibilitadas pela comunicação entre os textos. É o caso, por exemplo, quando um juiz cita uma obra literária para fundamentar sua decisão. E, vice-versa, quando um au- tor transforma em arte uma causa jurídica (SCHWARTZ, 2006, p. 56)

Digno também de destaque é a alusão à pintura, quer esta se localize em uma cultura passada ou atual. “Escrever” as imagens e imprimi-las de forma que passe a representar a inten- ção do pintor ou a “Presença criadora que se propõe tanto ao olho quanto ao olhar”, conforme credita Leloup, residindo aí a base para a escola do olhar: “Levanta os olhos e vê!”, “escrever e dizer suas visões”, como também “O que tu vês, escreve-o” , onde somos convidados e anfitriões do “sagrado”, ou com “um mistério a ser celebrado ou ainda, com um segredo.” (LELOUP, 2006, p. 11).

Não se trata, pois, de simples escola, de um lugar no qual se vai buscar e planejar o conhecimento, mas sim, segundo a conclusão leuloupiana do “escutar e ver, escrever e pintar são o mesmo ato de atenção e transmissão” (LELOUP, 2006, p. 13). Sua linguagem é aquela dos sonhos mais do que a dos conceitos, eles se dirigem mais ao supra consciente (pessoal e coletivo) do que à consciência diurna ou científica”. Sua atuação se dá segun- do uma “Inteligência que sonha e medita mais do que pensa” (LELOUP,2006, p. 13) e, sobretudo, “a ler o Invisível no visível, a Presença na aparência.” (LELOUP, 2006, p. 15).

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res, potências de pensamento em que brotam e se transformam qualidades do ser, maneiras de constituir sociedade” de que nos remete Lévy (2015, p. 13), sendo “indubitável que essa inovação coloca em crise algumas das mais conhecidas teorias tradicionais do direito, que se originam de uma imagem extremamente sim- plificada do direito” (BOBBIO, 2007, p. 2) e que dá a entender que o direito requer avançar em sua imagem privatista ou publi- cista.

Na linguagem jurídica, segundo Bobbio, o direito é re- presentativo de um conjunto de normas, com proposições ex- pressas ou não-expressas, qualificadoras dos comportamentos humanos lícitos ou ilícitos (BOBBIO, 2007, p. 150), sendo que, na atividade relativa ao direito, dois momentos são ocorrentes, “o momento ativo ou criativo do direito e o momento teórico ou cognoscitivo do próprio direito.” (BOBBIO, 2006, p. 211).

Na esfera teórica, ou do conhecimento, direito e arte não medem forças porque centrados em metódica própria. Quanto à tarefa de suas respectivas atividades e também criatividade, é evo- cada a arte, quer por sua experiência, quer por sua metodologia, quer por sua dinâmica. Enquanto o direito lida com um universo de multiplicidade, de diversidade e de caos - que lhe confere o acesso à todos, a arte lida com imagem, linguagem e unicidade – que lhe confere o condão da preciosidade. Entretanto nem tudo é tão simples que não possa advir ambiguidades. Senão, veja-se:

Nenhum sentido comum da linguagem, contudo, poderá eliminar totalmente a existência do limite sobre a linha da ambivalência: limite é mecanismo que define um fim e um início, um interno e um externo, e ao mesmo tempo e com a mesma operação. Faz de forma que, mais ou menos con- vencionalmente, fim e início, interno e externo existam um em relação ao outro, em uma involuntária dependência re- cíproca (RESTA, 2014, p. 102).

Ainda que divergências ocorram, é preciso compreen- der que a arte toca e estimula centros vitais onde o direito não chegaria, a não ser auxiliado pela própria arte, incutindo ao seu

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vocabulário, razão e coerção segundo uma proposta de experiên- cia e de pensamento marcados pela unicidade, pela geração de identidade e pela atribuição de funções que se não pela novidade, pelo menos foram alvo de redimensionamento. Notadamente, que funções seriam estas?

A primeira delas tem a tarefa de reconciliar nossa cons- ciência com o outro; a segunda tem a missão de apresentar uma imagem interpretativa; a terceira, liga-se a uma ordem de reco- nhecimento das necessidades do grupo social. Nessas três fun- ções, “não a autoridade, mas a aspiração é a motivadora, cria- dora e transformadora da civilização” (CAMPBELL, 2010, p. 21), sendo que “o artista sempre se compadece um pouco de si mesmo, tem experiências dolorosas e responde com a seta da palavra, bem elaborada, bem dirigida”, enquanto que “O intelec- tual, o homem de espírito tem a alternativa de trabalhar a partir do irônico ou do radical (CAMPBELL, 2010, p. 286).

Portanto, o direito que trabalha com a multiplicidade de leis, fatos, decisões poderá crescer com o estado da arte. O que torna a arte tão venerada e o direito tão complicado, é a capaci- dade daquela de ser tocada pelo amor, enquanto que o direito faz do amor, pacto para sua independência. Segundo Mann apud

Campbell (2010, p. 286):

E isso é o que torna a arte tão digna de nosso amor e mere- cedora de nossa prática, essa maravilhosa contradição, que é – ao menos, pode ser – simultaneamente um repouso e uma crítica, uma celebração e uma recompensa da vida por sua gratificante imitação e, ao mesmo tempo, uma aniqui- lação moralmente crítica da vida, cujo efeito é o despertar do prazer e da consciência no mesmo grau. O benefício da arte advém da circunstância [...] de ela manter relações igualmente boas com a vida e com o puro espírito, que seja ao mesmo tempo conservadora e radical: isto é, de seu lu- gar mediato e mediador entre o espírito e a vida.

De outro modo, Schopenhauer também revela que “Não apenas a filosofia, mas também as belas-artes trabalham, no fundo, para solucionar o problema da existência” (SCHOPENHAUER,

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2015, p. 487). Também, quanto ao apuro da linguagem e de sua influência nas relações humanas, e nos conflitos que lhes são par- ticulares, tem-se como indicativo que a função evocativa da pala- vra, inerente à linguagem, presta qualidade a tais relações, o que também imprime encantamento, como por exemplo, a poesia, onde, de resto “a palavra não é somente o instrumento da com- preensão racional, tem outrossim o poder de evocar sensações.” (AUERBACH, 2015, p. 366).

Bem por isto, o aprumo das condições que a arte gera pode influenciar de forma positiva o direito e suas condições, ainda que alguns quanto a isto nada vejam. A explicação para tan- to, pode ser infinda, tanto quanto se pode estabelecer arranjos em dispositivos jurídicos e expectativas normativas, mas, consoante refere Goyard-Fabre, a questão de fundo não é tanto explicar a gênese material, nem tão pouco apresentar a estrutura formal de uma ordem de direito, é tarefa maior descobrir as razões pelas quais a aplicação das regras jurídicas gera consequências válidas ao direito (GOYARD-FABRE, 2002, p. 296), de modo a concluir que o “problema consiste em perscrutar a capacidade normativa da subjetividade transcendental.” (GOYARD-FABRE, 2002, p. 296).

Terá havido maior importância que extrair da lição do direito influenciado pela arte, sobretudo quando submetidos à “escola do olhar”, uma escola de viva inteligência complexa que propõe uma tal escritura simbólica, com diferentes espectros de leitura e narrativa, representativa e interpretativa da vida – con- cessiva de lições tecidas em redes comunicacionais, onde o direito qualificado (pensador, criador e cuidador), fruto do pensamento complexo, defensor da vida e de suas relações, se apresenta?

A resposta nem sempre apta, como alguns poderão con- cluir, porém, segue inquestionável que o direito em contato com a arte, iluminados pela “escola do olhar”, cria uma expressão ar- quetípica de realidade humana, próprio da sintonia com o sagra- do: uma relação na qual o reconhecimento do outro propõe uma forte base de responsabilidade, que não se baseia no que está

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sendo trocado, ao contrário, finca suas bases na tarefa de pensar, criar e cuidar do outro, da vida e de suas relações.

4. POSLÚDIO: A BUSCA ALÉM DO SIGNIFICADO