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Das aventuras de Chatô à tevê segmentada e digital

No documento PUC-SP VILMA SILVA LIMA (páginas 70-75)

Quase sessenta anos já se passaram após a chegada dos 200 aparelhos de tevê importados por Assis Chateaubriand e espalhados pela Cidade de São Paulo em setembro de 1950. A televisão chegou ao Brasil, após cinco anos de consolidação nos três principais países do mundo, por meio da TV Tupi, primeira tevê do país; a primeira da América Latina e a quarta do mundo (Castro, 2006:49)26. Sua chegada ao Brasil, segundo Mattos (2002:27), coincidiu com o começo de um importante período de mudanças na estrutura econômica, social e política do país e do mundo.

O fim da Segunda Guerra Mundial, no plano externo, e do Estado Novo, no interno, levaram o Brasil a reorganizar diversos setores da vida social, e a implantação da televisão no país fez parte do processo, caracterizado, conforme Muniz Sodré

26 Trabalho realizado a convite do Governo Federal, no ano de 2005, por um grupo de

pesquisadores ligados à linha teórica da Economia Política da Comunicação e dos Estudos Culturais Críticos.

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(1971:24), pelo desenvolvimento industrial, por grandes projetos, pelo populismo getulista, pela ampliação do proletariado e da classe média urbana, formada por membros de uma aristocracia decadente e por famílias de migrantes e de imigrantes. Durante esse período, o país sofreu uma série de transformações econômicas, centradas principalmente na industrialização, o que contribuiu para intensificar o processo de modernização das cidades brasileiras.

A gestação do processo de criação da tevê brasileira data de 1949, quando Chateaubriand adquiriu, da RCA Victor, os equipamentos necessários para a efetivação de uma emissora e nomeou quatro diretores para implantá-la (Mattos, 2002:49). No entanto é importante ressaltar que as táticas para a sua implantação foram promovidas dois anos antes, quando os Diários Associados passaram a desenvolver estratégias, objetivando, além, evidentemente, do treinamento de seus ―radioatores‖, a popularização dos atores e a publicidade do novo veículo. Para se ter uma ideia, meses antes de a tevê Tupi entrar efetivamente no ar, os jornais e revistas dos Diários Associados passaram a divulgar que estava para chegar ao país a televisão ou o ―cinema a domicílio‖, maneira que encontraram para tentar explicar ―aquele símbolo de modernidade‖ (Simões, 1986).

Neste mais de meio século, muitas coisas mudaram e, do amadorismo característico das primeiras transmissões, passou-se a ―modelos‖ extremamente complexos e profissionais do fazer televisivo. Em termos cronológicos, identifica-se que cada década transcorrida teve características próprias e marcantes para o desenvolvimento do veículo de comunicação de maior presença na sociedade desde os anos 1970. Segundo Mattos (2002:), a origem e o desenvolvimento histórico da televisão no Brasil compreendem seis fases.

A fase elitista (1950 a 1964), quando a televisão ainda era considerada um artigo de luxo, destinado a uma parcela bastante pequena da população, ou seja, um bem disponível somente à elite econômica. Neste período, há que se registrar que o preço de um televisor era três vezes maior que o da mais sofisticada radiola da época (Mattos, 1982) e pouco menor que o de um carro. Além disso, não existia no país uma indústria de componentes para os televisores, fazendo com que até mesmo as válvulas fossem importadas dos

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EUA (Sodré, 1977). Nesta fase havia destaque para uma programação cultural bastante intensa. Em 1954, o IBOPE divulgou que 48% dos proprietários de aparelho de televisão tinham assistido pela televisão, pelo menos, a uma apresentação de balé. Porém, em 1958, a fim de expandir o tamanho da audiência, as emissoras abandonaram a programação cultural (Revista Veja, 1970:63). Gabriel Cohn (Apud Mattos, 2002) escreveu que, durante os anos 1950, a televisão brasileira foi elitista, enquanto a vida política foi marcada pelo populismo. Já, durante os anos 1960, a programação televisiva deu destaque a programas populares, enquanto, em total contraste, a vida política do país já havia se afastado da prática populista.

A fase populista (1964 a 1975) foi marcada pela grande influência política. Segundo Mattos (2002), o golpe de 1964 comprometeu diretamente os meios de comunicação de massa, visto que o sistema político e a situação socioeconômica do país foram alterados em função da adoção de um novo modelo econômico que visava a um acelerado crescimento nacional. Coube à televisão, neste período, o papel de difusora da ideologia do regime. Ainda durante a década de 1960, impulsionadas pela ideia de desenvolvimento econômico, as indústrias eletrônicas começaram a produzir aparelhos televisores. A televisão, nesta fase, foi considerada um exemplo de modernidade. Em 1968, para intensificar as vendas, o governo instituiu uma política de crédito que permitia adquirir um televisor em 12, 24 ou 36 meses; com isso, o número de telespectadores aumentou significativamente e a televisão passou a definir-se como veículo publicitário nacional, por meio do qual a indústria podia apresentar seus bens de consumo. Esse período, que corresponde à segunda etapa do desenvolvimento da televisão, foi marcado pela profissionalização do segmento e pela adoção do modelo de gestão baseado nos padrões de administração das tevês norte-americanas.

A fase do desenvolvimento tecnológico (1975 a 1985) foi determinada por alguns fatos que alteraram a dinâmica da esfera pública: o fracasso eleitoral de 1974, quando a ARENA, partido base do regime, elegeu somente seis senadores versus dezesseis do MDB, partido de oposição; o fechamento do Congresso Nacional em 1977; a publicação das reformas políticas e jurídicas; o

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início do processo de abertura. Nesta fase, a autoridade política foi bastante presente na programação televisiva, pois, a partir dos anos 1970, o governo começou a expressar preocupações com a influência dos conteúdos dos programas veiculados. As redes eram constantemente lembradas de suas responsabilidades para com a cultura e com o desenvolvimento nacional. Foi durante essa fase que a nacionalização da programação televisiva passou a ser perseguida. Segundo Mattos (2002), o governo queria substituir a violência dos enlatados americanos por programas mais amenos. Para isso, foi disponibilizado crédito nos bancos oficiais, isenções fiscais, coproduções (TV Educativa, Embrafilmes), além da concentração da publicidade oficial em algumas empresas. Esta foi a fase da padronização da programação televisiva em todo o país e da solidificação do conceito de rede de televisão.

Nas três primeiras fases do desenvolvimento da televisão brasileira, tanto a publicidade quanto o governo tiveram uma participação preponderante:

A televisão transformou-se também no maior e mais importante veículo publicitário do país e as corporações multinacionais se tornaram os seus maiores anunciantes [...] o conteúdo transmitido neste período sofreram influências tanto do governo como dos anunciantes através das agências de publicidade (Mattos, 2002:115- 116)

Ao final da terceira fase, o campo televisivo contava com quatro redes comerciais operando em escala nacional (Globo, Bandeirantes, Manchete e SBT), duas regionais (Record e Brasil Sul) e uma rede estatal (TV educativa).

A fase da transição e da expansão internacional (1985 a 1990) caracterizou-se pela transição do regime militar para o regime civil, no qual as principais mudanças no setor das comunicações decorreram da promulgação da Constituição de 1988, que legisla, inclusive, sobre a comunicação social. Esse período foi marcado, antes da publicação da Carta Máxima, pelas inúmeras concessões de rádio e televisão ocorridas entre 1985 e 1988, quando foram outorgadas 90 concessões de canais de televisão. Nesta fase, percebe-se uma maior competitividade entre as grandes redes, o contínuo avanço em direção ao mercado internacional e maior maturidade técnica e empresarial.

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A fase da globalização e da TV paga (1990 a 2000) foi o período em que o país buscava a modernidade a qualquer custo e a televisão adaptou-se aos novos rumos da redemocratização. Foi nesta fase do desenvolvimento da tevê que duas novas leis foram aprovadas e representaram dois grandes marcos para a história da comunicação no país: Lei 8.389, de 30 de dezembro de 1991, que regulamenta o Conselho de Comunicação Social, e a Lei 8.977, de 6 de janeiro de 1995, que regulamenta a tevê por cabo. Pode-se afirmar que, nos últimos dez anos do século passado, a televisão brasileira sofreu inúmeras transformações, e a tevê por assinatura teve papel decisivo na mudança do perfil desse veículo. Há que se destacar que, em função do impacto do Plano Real, as camadas mais pobres da população tiveram seu poder aquisitivo aumentado, o que gerou aquecimento nas vendas de novos televisores e culminou com o crescimento das audiências das classes C, D e E. Essa nova audiência, bem como o fato de grande parte da audiência das classes A e B terem migrado para a tevê por assinatura, acirrou a briga entre as redes de tevê aberta.

Na disputa pela audiência C, D, e E que, apesar de menos qualificada, é quantitativamente maior, as emissoras apelaram para os programas popularescos, sensacionalistas, e também passaram a lançar mão de sexo e violência [...] (Mattos, 2002:150).

A fase da convergência e da qualidade digital inicia-se no ano 2000, com perspectivas tecnológicas nunca antes vistas. Esse período vem sendo marcado pela interatividade cada vez maior dos veículos de comunicação, principalmente entre a televisão, a internet e outras tecnologias da informação. Segundo vários especialistas, um passo bastante importante diz respeito ao desenvolvimento da tevê digital brasileira, que vai além da superação da qualidade de som e imagem. O que se promete são outros serviços, inclusive navegação na internet. Segundo Mattos, a ideia de uma televisão do futuro foi apresentada, em 1999, no Canadá:

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A ideia de que a televisão do futuro chegará aos lares via internet, através de diversos canais de acesso ao sistema, por cabo de fibra óptica ou através de sinal enviado diretamente por satélite, foi apresentada pela primeira vez em 1999, por Robert Herbold, vice-presidente executivo da Microsoft Corporation, em depoimento durante um congresso mundial organizado pela Iafei – The International Association Of Financial Executives Institutes, em Vancouver, Canadá, cujo tema central foi: ―sucesso Global: desafios e oportunidades‖. Segundo suas previsões, num futuro não muito distante, o cidadão, ao ligar o aparelho de TV, estará automaticamente conectado a todo tipo de informação, como televisão e arquivos de imagens gravadas, podendo acessar, através do telefone, com ou sem imagem, mensagens que hoje chegam em sua maior parte via internet (Mattos, 2002:152).

A força da tevê no Brasil pode ser entendida a partir de, pelo menos, dois aspectos. O primeiro deles diz respeito à baixa escolaridade dos telespectadores: segundo o Datafolha (2004), apenas 25% dos brasileiros com mais de 15 anos dominam plenamente a leitura; 8% são analfabetos; 30% são classificados como analfabetos funcionais, ou seja, aqueles que leem, mas não entendem o conteúdo dos textos e 37% conseguem identificar uma informação curta, mas não vão além disso (Dimenstein, 2004). O segundo aspecto refere-se ao fato de que, por não saber ler, grande parte dos brasileiros compreende o país e o mundo por meio da televisão. Bucci (1997) explica o valor da tevê em países como o Brasil:

A importância da televisão numa sociedade, atualmente, é diretamente proporcional às taxas de analfabetismo e subdesenvolvimento. A influência do veículo tende a ser maior na pobreza do que na riqueza, maior em continentes como a América Latina do que nos Estados Unidos. [...] nos países mais ricos, a Imprensa escrita, a família e a escola fazem a mediação da influência da televisão, e há leis que estabelecem limites para as grandes redes (Bucci, 1997:15).

No documento PUC-SP VILMA SILVA LIMA (páginas 70-75)