U MA A NATOMIA DA C RISE DA
2.1 1 º M OVIMENTO – A C IÊNCIA M ODERNA
2.1.1. De Ser Humano a Ser Si-Mesmo: A Alienação ou Estranhamento de S
É preciso compreender o sentido da “universalidade” com o qual terminámos o ponto anterior olhando para lá da metaforização corrente em todas as reflexões arendtianas.
Procurando responder à questão «A conquista do espaço pelo homem aumentou ou diminuiu a sua estatura?»120, Arendt afirma: «A questão colocada dirige-se ao leigo, não ao cientista, e é inspirada pela preocupação humanista com o homem, na medida em que é distinta da preocupação do físico com a realidade do mundo físico» 121. A preocupação, assinalada por Arendt, como sendo partilhada pelo leigo e pelo cientista assenta numa estrutura basicamente auto-referencial, na qual se pressupõe um determinado sentido de ser e de presença122
A figura do físico representa, por um lado, a atitude resultante da conquista da distância ou do espaço de diferença que temos vindo a referir, uma perspectiva que, fazendo do humano um caso particular do ser, resulta numa visão desumanizada do mundo físico. Arendt refere-se aqui a uma concepção do ser do humano como auto- referencialidade ou Si-mesmo (Self)
.
123
, cuja preocupação pressupõe a identificação do sentido do ser – do ser daquilo que aparece e, portanto, do próprio ser do humano – com o próprio ser sem mais 124
120
«“Has man’s conquest of space increased or diminished his stature?”», Arendt, Hannah, «The Conquest of Space and the Stature of Man», BPF, p. 260.
. Esta concepção de Si-mesmo consiste numa pura negatividade e independência a respeito de todo o dado:
121
«The question raised is addressed to the layman, not the scientist, and it is inspired by the humanist’s concern with man, as distinguished from the physicist’s concern with the reality of the physical world.», Arendt, Hannah, «The Conquest of Space and the Stature of Man», BPF, p. 260.
122
Voltaremos a ela mais adiante.
123
Este excurso terminará com a interpretação dos termos da posição arendtiana relativamente a este Si- mesmo, o qual, para a pensadora, se constitui em preocupação exclusiva da filosofia moderna.
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Arendt, na introdução a LoM, acusa Heidegger de ter identificado sentido e verdade, tornando-se na derradeira expressão daquilo a que a pensadora chama de «falácia básica, que toma precedência sobre todas as falácias metafísicas específicas […]. […] em Ser e Tempo, […] Heidegger […] começa por levantar “de novo a questão do sentido do Ser”. Heidegger ele mesmo, numa interpretação tardia da sua própria questão inicial, diz explicitamente: “‘Sentido do Ser’ e ‘Verdade do Ser’ dizem o mesmo”», anulando assim a distinção kantiana entre conhecer e pensar, a qual havia aberto o espaço para o pensamento e, com ele, para o ser humano. «The basic fallacy, taking precedence over all specific metaphysical fallacies, is to interpret meaning on the model of truth. The latest and in some respects most striking instance of this occurs in Heidegger’s Being and Time, which starts out by raising “anew the question of the meaning of Being. Heidegger himself, in a later interpretation of his own initial question,
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Compreender a realidade física parece exigir não só uma renúncia a uma visão do mundo antropocêntrica ou geocêntrica, mas mesmo uma eliminação radical de todos os elementos e princípios antropomórficos, tal como surgem tanto no mundo dado aos cinco sentidos, como nas categorias inerentes à mente humana.125
Em oposição ao leigo, cujo questionamento pressupõe uma abertura à possibilidade de atribuição de um sentido humano ao ser – sem que lhe seja possível conferir qualquer fundamento ao pressuposto de uma distinção e, como tal, de um carácter singular do humano a respeito do ser –, o físico ou cientista reivindica a sua identidade mediante a negação da realidade de todo o dado, seja de cariz antropocêntrico – proveniente de uma suposta natureza humana ou origem comum – ou geocêntrico, isto é, resultante de uma limitação ou determinação dada do seu espaço de habitação.
Em consequência da perspectiva do físico e da sua recusa de todo o dado e, como tal, de todos os pressupostos, o Si-mesmo não se afirma como um “elemento antropomórfico”, pertencente a um género humano – pertença esta que se instauraria como fundamento de um ser-em-comum humano e constituiria o Si-mesmo em membro da comunidade humana, representando-a em todos os seus actos126
Da perspectiva do físico, já não há seres humanos, mas Si-mesmos, existentes que não são representativos de nada senão de Si-mesmos, e o homem não é mais do que «um caso especial de vida orgânica»
.
127
, diluindo-se num conjunto particular de funções destinadas à preservação de um só ser auto-referencial. Deste modo, o ser humano converte-se num «observador do universo»128, diluindo-se em diversos modos de ser que, em última instância, nada mais serão do que manifestações de um mundo preordenado por «leis que regulam a imensidão do universo»129
says explicitly: “‘Meaning of Being’ and ‘Truth of Being’ say the same”.», Arendt, Hannah, «Thinking»,
LoM, p. 15.
, isto é, por um sentido de ser que, ao contrário da finitude humana, é ilimitado.
125
«To understand physical reality seems to demand not only renunciation of an anthropocentric or geocentric world view, but also a radical elimination of all anthropomorphic elements and principles, as they arise either from the world given to the five human senses or from the categories inherent in the human mind.», Arendt, Hannah, «The Conquest of Space and the Stature of Man», BPF, p. 260.
126
Um pouco à imagem daquilo que Kant procurou fazer, com as limitações que Arendt identifica e que discutiremos num outro capítulo desta reflexão.
127
«[…] a special case of organic life […],» Arendt, Hannah, «The Conquest of Space and the Stature of Man», BPF, p. 260.
128
«[…] man is no more than an observer of the universe in its manifold manifestations.», Arendt, Hannah, «The Conquest of Space and the Stature of Man», BPF, p. 261.
129
«[…] laws that rule the immensity of the universe.», Arendt, Hannah, «The Conquest of Space and the Stature of Man», BPF, p. 260.
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Ser humano é, como resultado, um movimento dual de contínua retirada e alienação de si como função de atestação do Ser, o que significa viver ou habitar factualmente entre o medo/retirada e a esperança/alienação de si:
1. Por um lado, o medo ou preocupação de que as funções sensoriais não sejam fiáveis no que respeita à recepção do real, subsistindo numa reserva ou dúvida com respeito às mesmas;
2. Por outro lado, a esperança, essa entrega a uma eventual satisfação do desejo arquimediano por um ponto fora da terra a partir do qual mover o mundo, pondo-se desse modo numa posição supramundana.
Assim, o ser do humano só adquire um carácter real como meio de síntese desses dois elementos, alienando a concretude que lhe é própria ao cumprir o desejo de transcender o mundo e compensando esse estranhamento de si estabelecendo-se como um ser universal, movendo-se «livremente no universo, escolhendo o nosso ponto de referência onde quer que ele possa ser conveniente para um propósito específico»130
Os seres humanos são, em consequência das mudanças introduzidas pela atitude da Era Moderna, «criaturas que são terrestres não por natureza e essência, mas apenas pela condição de estarem vivas e que, consequentemente, em virtude do raciocínio, podem superar esta condição não na mera especulação, mas de facto»
.
131
Efectivamente, para Arendt, a utilização, por parte de Galileu, de um dispositivo feito pelo homem para observar o universo «estabeleceu um facto demonstrável onde antes dele havia especulações inspiradas»
.
132
Este esforço realizado pelo ser humano, compreendido à imagem de um Si-mesmo científico, no sentido de se constituir como fundamento de um mundo físico, apresenta alguns problemas. A negatividade ou abolição de distâncias ou diferenças que se constitui como traço característico da auto-referencialidade científica realiza-se por . Assim, as qualidades ou modalidades de aparecimento do universo são conhecidas por intermédio do modo como afectam os nossos instrumentos de medição, as funções ou dispositivos usados para forçar o ser a vir à aparência.
130
«[…] we move freely in the universe, choosing our point of reference wherever it may be convenient for a specific purpose.», Arendt, Hannah, THC, p. 263.
131
«[…] creatures who are terrestrial not by nature and essence but only by the condition of being alive, and who therefore by virtue of reasoning can overcome this condition not in mere speculation but in actual fact.», Arendt, Hannah, THC, p. 263.
132
«[…] Galileo established a demonstrable fact where before him there were inspired speculations.», Arendt, Hannah, THC, p. 260.
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intermédio de dados que, segundo Arendt e citando Eddington, «aparecem como “misteriosos mensageiros do mundo real”»133
Isto significa que a compreensão do ser que aqui se apresenta, apesar de assentar numa negação ou retirada com respeito a tudo aquilo que aparece, depende ela mesma do ser afectada por um conjunto de dados emergentes de um mundo real, necessariamente mais real do que aquele cuja realidade aparente é por si negada, que escapam a qualquer percepção.
.
Diz Arendt que «ao invés de qualidades objectivas, encontramos instrumentos, e em vez da natureza ou do universo – nas palavras de Heisenberg – o homem encontra-se apenas a si mesmo»134. «O problema», afirma também Arendt, «é que algo de físico está presente, mas nunca aparece»135. O problema, clarificamos nós, é que aquilo que se oferece como ser no movimento de negação das aparências tem a consistência de um nada que paradoxalmente se mantém para lá das suas múltiplas manifestações136.