• Nenhum resultado encontrado

U MA A NATOMIA DA C RISE DA

1.4. S ENTIR SE EM C ASA NO M UNDO ?

“Estar em casa” enquanto expressão filosoficamente significativa é uma expressão invulgar na língua portuguesa. No entanto, na língua alemã – muitas vezes na forma bei

sich –, na língua inglesa – na forma by myself –, e mesmo na língua francesa – na forma chez soi – trata-se de uma expressão bastante comum, significando, no contexto da

filosofia arendtiana, uma diferenciação interior ao Eu que deixa intocada a pluralidade das manifestações mundanas, ao mesmo tempo que a preserva e se reconcilia com ela, habitando-a, estando em casa no mundo. Trata-se, então, do ser em si e consigo mesmo no qual o humano se faz sabedor de si como um elemento invisível no visível, um elemento que não é um produto intencional, mas um subproduto ou produto derivado73

Arendt utiliza a metáfora da “casa” para determinar um pouco melhor o que está aqui em jogo.

, em suma, como um excesso de significação que acompanha toda a actividade discursiva e que lhe confere um significado que é, simultaneamente, referencial e síntese dos sentidos ou significados particulares.

Para Arendt, a “casa” em si e por si mesma (auth kath’ hauto) nunca é vista, não só no sentido de nunca aparecer, mas também no sentido de nunca ser um objecto intencional propriamente dito. É uma casa invisível – significando isto que, apesar de invisível, ocorre, no entanto, na imanência da visibilidade – que nos permite reconhecer as casas particulares, visíveis e que tem sido explicada de diferentes modos e nomeada

71

«It is an unending activity by which, in constant change and variation, we come to terms with and reconcile ourselves to reality, that is, try to be at home in the world.», Arendt, Hannah, «Understanding and Politics (The Difficulties of Understanding)», EU, pp. 307-308.

72

«It is the specifically human way of being alive […]»,Arendt, Hannah, «Understanding and Politics (The Difficulties of Understanding)», EU, p. 308.

73

«Incidental by-products», chama Arendt aos “produtos” do pensar e, por extensão, da compreensão. Veja-se Arendt, Hannah, «Thinking», LoM, p. 181.

64

diferentemente ao longo da história. Ela está presente em tudo o que é visível justamente como aquilo que não aparece e que, não aparecendo, é condição de possibilidade de toda a visibilidade, de toda a casa particular.

Dando um passo mais no sentido de desfazer a metáfora, Arendt afirma que uma tal casa envolve algo consideravelmente menos tangível do que a estrutura que os nossos olhos podem perceber. Ela implica uma permanência que possa ser habitada e que possa alojar ou abrigar alguém, tornando-se na «medida não-vista – aphanes metron –» que «contém os limites de todas as coisas»74 que dizem respeito ao habitar. Diz Arendt, referindo-se a Sólon, que

a vida humana, porque é marcada por um começo e um fim, torna-se completa, uma entidade em si mesma que pode ser sujeita a juízo apenas quando terminou em morte; a morte não termina meramente a vida, também lhe confere uma completude silenciosa, arrancada ao fluxo incerto ao qual estão sujeitas as coisas humanas.75

“Casa” é, pois, uma abreviação de tudo aquilo que diz respeito ao habitar, ao permanecer, e tal permanecer pressupõe uma vida humana – incerta e infundada – que reflecte ou pondera sobre si mesma como se fosse em si mesma um fim e, como tal,

auth kath’ hauto. Essa é a medida invisível de todo o ente, uma medida que está

dependente da ponderação, concebida por Arendt à imagem dos exercícios de meditação de Inácio de Loyola, concebidos como exames de consciência que não têm outro resultado senão esse habitar numa permanência, que não é mais do que o «sentir e o gostar as coisas internamente»76

Serve o anterior para dizer que esta crise atinge o ser humano no seu âmago, uma vez que, juntamente com a velha ordem do mundo – a “casa” em formato abreviado que servia de referencial ao seu habitar –, parece ter posto um fim à medida da sua própria permanência como entidade. Com diferentes nomes ao longo do tempo – eidos, ousia,

hupokeimenon, substantia, essentia, subjectum, só para dar alguns exemplos das

.

74

«”Most hard is to perceive the hidden (aphanes) measure of judgment, which nevertheless [even though it does not appear] holds the limits of all things», Arendt, Hannah, «Thinking», LoM, p. 165.

75

«Human life, because it is marked by a beginning and an end, becomes whole, an entity in itself that can be subjected to judgment, only when it has ended in death; death not merely ends life, it also bestows upon it a silent completeness, snatched from the hazardous flux to which all things human are subject.», Arendt, Hannah, «Thinking», LoM, p. 164.

76

«[…] não é o muito saber que sacia e satisfaz a alma, mas o sentir e gostar as coisas internamente.», Inácio de Loyola, Exercícios Espirituais, 2 (Segunda Anotação).

65

designações que foi assumindo na história77

Assim, o esforço de reconciliação pessoal com o mundo

–, o que está aqui em questão é a possibilidade – ou não – de um novo sentido ou significado para o ser do humano.

78

O diagnóstico apresentado por Arendt em OT traça justamente o percurso de cristalização de certos elementos presentes na tradição política e filosófica ocidental numa situação em que a dispersão acima referida é um facto. Como já referimos, a experiência de duas guerras mundiais, e a antecipação de uma terceira, fez instalar uma quietude de morte nos seres humanos e na existência que os constitui. Tal quietude não brota de uma qualquer serenidade, de uma plena sintonia com a situação. Pelo contrário, corresponde à ausência de esperança e, portanto, a um fechamento com respeito à possibilidade de uma reintegração das massas, vivências de puro caos indiferenciado e disperso, numa restauração da velha ordem do mundo. A impossibilidade de reintegração destas vivências dispersas num todo de sentido significa que as próprias estruturas que serviam de suporte ao mundo deixaram de ser capazes de ser os agentes operadores da sunthesis, da reunião ou pôr em relação numa ordem comum – numa realidade partilhada – as vivências individuais e distintas entre si.

– o “sentir-se em casa” de que fala Arendt – corresponde a um ensaiar interminável de fundação de uma ordem mundial onde diferentes singularidades possam, enquanto tal, ser trazidas da sua dispersão e reunidas num espaço comum, descobrindo, desse modo, uma nova medida para o seu próprio ser.

Dessa incapacidade de restauração da ordem mundial e das estruturas que lhe serviam de suporte resulta aquilo a que Arendt chama “desabrigo”, a falta de uma “casa” na qual as vivências particulares possam habitar e que lhes possa servir de medida invisível, conferindo-lhes algum tipo de permanência.

À falta de garantia de realidade que acompanha o desabrigo – como o outro lado de uma mesma moeda – corresponde um desenraizamento, a ausência de uma fundação, de um solo capaz de servir de base e de referência para a constituição da massa informe –

77

Trata-se aqui apenas de fornecer um conjunto de exemplos que não pretende fazer equivaler os termos gregos aos tempos latinos, os quais não são sinónimos, obviamente.

78

Parafraseando uma referência de Arendt a Jaspers: «As you [Jaspers] said in Geneva, “We live as if we stood knocking at gates that are still closed to us. Today something may perhaps be taking place in the purely personal realm that cannot yet found a world order because it is only given to individuals, but which will perhaps someday found such an order when these individuals have been brought together from their dispersion”.» («Tal como [Jaspers] disse em Genebra, „Vivemos como se nos sustivéssemos a bater a portões que ainda nos estão fechados. Hoje, talvez algo possa estar a ter lugar no reino puramente pessoal que não pode ainda fundar uma ordem mundial porque é somente dado a indivíduos, mas que talvez um dia possa fundar uma tal ordem quando estes indivíduos tiverem sido reunidos em conjunto a partir da sua dispersão.»), Arendt, Hannah, «Dedication to Karl Jaspers», EU, p. 216.

66

massa em que se tornou o conjunto das vivências particulares – num corpo político coeso, bem-fundado e ordenado de tal modo que cada uma delas possa ser seu membro de pleno direito.

Lembrando Cícero, Arendt refere-se a este fundamento como o inter-est, aquilo que está entre homens e que, enquanto elemento de vinculação, opera essa sunthesis, pondo os homens em conjunto, ao mesmo tempo que preserva as suas diferenças de modo articulado. E é esta ausência de interesse comum que caracteriza as massas modernas, constituindo um sinal do seu desabrigo e do seu desenraizamento79. Segundo Arendt,

Este livro […] foi escrito a partir da convicção de que deverá ser possível descobrir a mecânica escondida pela qual todos os elementos tradicionais do nosso mundo político e espiritual foral dissolvidos numa conglomeração onde tudo parece ter perdido o seu valor específico, e se tornou irreconhecível para a compreensão humana, inutilizável para propósito humano.80

Em suma, os processos escondidos de uma situação em que é a própria existência do humano, caracterizada pela compreensão enquanto tentativa de instalação de si na realidade, que se encontra ameaçada.