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4 PERSPECTIVAS DE ANÁLISE DO LETRAMENTO LITERÁRIO NA

4.2 A ATIVIDADE RESPONSIVA ATIVA

4.2.1 Dialogismo/interdiscursividade/intertextualidade

Bakhtin (2016, p. 81-89), ao falar do autor da obra de arte, afirma que toda voz autenticamente criadora sempre pode ser apenas uma segunda voz no discurso e que o escritor é aquele que

sabe trabalhar na língua, estando fora dela, que tem o dom do falar indireto. [...] O falar indireto, a relação com a sua própria linguagem como uma das linguagens possíveis (e não como a única linguagem possível e incondicional).

Afirma esse teórico que até o discurso direto do autor é cheio de palavras conscientizadas dos outros e que todo romance geralmente é pleno de tonalidades dialógicas. Nesse sentido, o autor que está fora do mundo representado apreende esse mundo a partir de outras posições distintas ou, ainda, os planos dos discursos dos personagens podem se cruzar com os discursos do autor, ou seja, entre eles são possíveis relações dialógicas. A questão levantada é: essas relações se configuram ao que se denominam hoje relações intertextuais? É o que se busca compreender nos parágrafos seguintes, sabendo-se que o termo intertextualidade, atribuído ao pensamento bakhtiniano, foi criado por Julia Kristeva, em 1996, a partir do conceito de dialogismo, para definir uma propriedade do texto literário e teve uma rápida expansão, ganhando especificidades em diferentes teóricos ou tendências de análise (BRAIT, 2014; COSSON, 2015). A intenção é definir, para este estudo, um conceito para o termo que esteja em consonância com a concepção dialógica da linguagem na construção e na produção de sentidos, apoiada nas relações discursivas para uma efetiva atitude ativamente responsiva de sujeitos historicamente situados.

Cumpre lembrar que as palavras da língua não são de ninguém, mas se a lemos em determinadas obras individuais, elas passam a ter “expressão individual externada com maior ou menor nitidez, determinada pelo contexto singularmente individual do enunciado”. Por isso qualquer palavra existe para o falante em três aspectos: como palavra da língua neutra, não pertencendo a ninguém; como palavra “alheia dos outros, cheia de ecos de outros enunciados; [...] como minha palavra, [...] uma vez que eu opero com ela em uma situação determinada, com uma intenção discursiva determinada, ela já está compenetrada da minha expressão” (BAKHTIN, 2016, p. 53, grifo do autor). Nesses dois últimos aspectos a palavra é expressiva porque atua como expressão de certa posição valorativa do homem individual (do escritor, por exemplo) como abreviatura do enunciado. De acordo com a época e o círculo social em que vivem, as pessoas se baseiam em enunciados investidos de autoridade que dão o tom, como as obras de arte, as quais elas citam, imitam ou seguem. Sob esse ponto de vista, o discurso é pleno de palavras dos outros: “de um grau vário de alteridade [...] de aperceptibilidade e de relevância. Essas palavras dos outros trazem consigo a sua expressão, o seu tom valorativo que assimilamos, reelaboramos e reacentuamos” (BAKHTIN, 2016, p. 54).

Nessa compreensão, os enunciados não são indiferentes entre si nem são independentes; eles se refletem mutuamente um no outro. Todo enunciado constitui- se de ecos e ressonâncias de outros enunciados, com os quais se liga e se identifica por uma esfera de comunicação discursiva e por ser também uma resposta aos enunciados precedentes, a qual pode rejeitá-los, confirmá-los, enfim, levá-los em conta. “É impossível alguém definir sua posição sem correlacioná-la com outras posições [...] por isso, todo enunciado é repleto de variadas atitudes responsivas a outros enunciados, de um dado campo da comunicação discursiva” (BAKHTIN, 2016, p. 57). Essas reações podem ocorrer, por exemplo, com a introdução do enunciado do outro, diretamente no contexto do novo enunciado; podem ser introduzidas apenas palavras isoladas ou orações que representem enunciados plenos; tanto aquelas quanto estes podem conservar a expressão alheia, sem que sejam reacentuados com ironia, indignação etc.; os enunciados dos outros podem também ser recontados com um grau de reassimilação, entre outras formas.

Nesses termos, a entonação que isola o discurso do outro (com aspas) no discurso escrito funciona como uma alternância dos sujeitos do discurso, transferida para o interior do enunciado. Através dos limites criados por essa alternância, a expressão do falante penetra e se dissemina no discurso do outro, que pode ser transmitido em tom de ironia, indignação ou simpatia. Essa expressão é transmitida por uma entonação expressiva ou pela situação extraverbal. Dessa forma, o discurso do outro tem uma dupla expressão: “a sua, ou seja, a alheia, e a expressão do enunciado que acolheu esse discurso”. Isso ocorre quando há a citação textual do discurso do outro, com o destaque das aspas. Entretanto, quando se estuda com profundidade qualquer enunciado em situações concretas de comunicação discursiva, descobre-se uma série de palavras do outro “semilatentes e latentes, de diferentes graus de alteridade” (BAKHTIN, 2016, p. 60).

Dessa forma, a expressão do enunciado responde, ou seja, exprime a relação do falante com os enunciados do outro, e não só a relação com os objetos do seu enunciado. Ele é pleno de

tonalidades dialógicas. [...] A nossa própria ideia nasce e se forma no

processo de interação e luta com os pensamentos dos outros e isso não pode deixar de encontrar o seu reflexo também nas formas de expressão verbalizadas do nosso pensamento (BAKHTIN, 2016, p. 59).

Em seus estudos, Fiorin (2014) faz uma retomada do que afirma Bakhtin (2003) sobre a diferença entre o dialogismo que não se exibe no fio do discurso e o que nele se mostra quando as diferentes vozes são incorporadas no interior do discurso – “formas externas visíveis” do dialogismo (BAKHTIN, 2003, p. 350) – para citar as duas maneiras de se incorporar no enunciado essas distintas vozes: a primeira é aquela em que o discurso do outro é “abertamente citado e nitidamente separado” – nesse caso, entram formas composicionais como o discurso direto e o indireto, as aspas, a negação –; a segunda maneira é quando o enunciado é bivocal, isto é, internamente dialogizado – no caso, são usadas formas composicionais como a paródia, a estilização, a polêmica velada ou clara, o discurso indireto livre. Fiorin também retoma os três conceitos envolvidos na comunicação verbal real, de acordo com Bakhtin: o sentido, que não pode construir-se senão nas relações dialógicas; o texto, que é a manifestação desse sentido e que pode ser considerado como uma entidade em si; e o discurso, que deve ser entendido como uma posição social, considerada fora das relações dialógicas e visto como uma identidade essencial.

Nesses termos, sendo o enunciado da ordem do sentido, é possível distinguir as relações dialógicas entre enunciados e as que se dão entre textos. Toda relação dialógica é uma relação interdiscursiva na medida em que se constitui uma relação de sentido. Quando essa relação dialógica não se materializa no texto, temos interdiscursividade. Quando, no entanto, essa relação discursiva é materializada em textos, tem-se a intertextualidade. Por outro lado, nem todas as relações dialógicas mostradas no texto devem ser consideradas intertextuais. A propósito disso, Bakhtin fala de relações dialógicas entre textos e dentro do texto. No caso destas, as vozes se acham no interior de um mesmo texto, por exemplo, quando são demarcadas as vozes do narrador e dos personagens no interior de um texto literário. No caso das relações entre textos, um texto se relaciona dialogicamente com outro já constituído. Nesse caso, o texto incorporado por outro tem sua existência, como texto, fora desse outro texto. Portanto a intertextualidade é o “processo da relação dialógica não somente entre duas ‘posturas de sentido’, mas também entre duas materialidades linguísticas” (FIORIN, 2014, p. 184). Esse é o conceito adotado nesta pesquisa.

Para o teórico russo, um problema que merece estudo na história da literatura é a concepção do destinatário do discurso, pois cada corrente literária e estilo artístico-literário, cada gênero literário, numa dada época, possuem suas

concepções específicas de destinatário da obra literária. Outra observação pertinente é a de que, além das concepções reais do destinatário, responsáveis pela determinação do estilo dos enunciados-obras, há formas convencionais de apelo tanto aos leitores, ouvintes; como também, paralelamente ao autor real, existem imagens convencionais de autores, editores, narradores. No entanto

a obra mais complexa e pluricomposicional do gênero secundário no seu todo é o enunciado único e real, que tem autor real e destinatários realmente percebidos e representados por esse autor (BAKHTIN, 2003, p. 305).

Portanto, nos diferentes gêneros do discurso, as diferentes concepções de destinatários são suas peculiaridades constitutivas e determinantes. A língua como sistema oferece uma reserva de recursos linguísticos que podem ser usados para exprimir o direcionamento formal, mas esses recursos só atingem direcionamento real no todo de um enunciado concreto. É, pois, o falante/autor que escolhe todos os recursos linguísticos sob maior ou menor influência do destinatário e da sua resposta antecipada.

A partir dos conceitos de atividade responsiva ativa, interdiscursividade e intertextualidade advindos dos estudos de Bakhtin/Volochínov (1981), em conjunto com a análise proposta pelo ISD para análise de textos, como descrito neste capítulo, será feita a análise do corpus selecionado para compreender o processo de letramento dos alunos do curso de Letras.