3 SER DOCENTE: quando um só não dá conta de me fazer acreditar que
3.2 AXEL HONNETH E A TEORIA DO RECONHECIMENTO: uma lente
3.2.1 Conhecendo a teoria do reconhecimento de Axel Honneth
3.2.1.2 Direito: segunda esfera do reconhecimento
Da forma de reconhecimento do amor tal como apresenta Honneth, com auxílio da teoria psicológica na visão psicanalítica de Winnicott, distingue-se a relação jurídica.
Para nós fazer entender Sobottka e Saavedera (2008) lançam mão de duas perguntas que vão guiar a análise honnethiana da segunda esfera do reconhecimento: (1) Qual é o tipo de autorrelação que caracteriza a forma de reconhecimento do direito?; e (2) Como é possível que uma pessoa desenvolva a consciência de ser sujeito de direito?
O desenvolvimento das leis acompanha a evolução da consciência dos direitos, e esse é o plano do reconhecimento jurídico, que se dá de modo diferente da forma de reconhecimento afetivo a que nos referimos. A distinção entre reconhecimento afetivo e reconhecimento jurídico atravessa muitos aspectos. Nesse ponto da análise do plano das relações jurídicas, Honneth continua mantendo suas referências principais: Hegel e Mead. No que concerne ao direito, ambos perceberam que só podemos chegar a uma compreensão de nós mesmos como portadores de direitos quando sabemos quais obrigações temos de observar em face do outro. Da perspectiva normativa de um “outro generalizado”, que nos ensina a reconhecer os outros membros da coletividade como portadores de direitos, passamos a nos entender também como pessoas de direito, e é assim que nos tornamos seguros do cumprimento social de algumas de nossas pretensões.
Portanto, a partir do não reconhecimento dos direitos individuais, o sujeito sente sua integridade social ameaçada, podendo ocasionar o processo de luta pelo reconhecimento descrito por Honneth, no qual os conflitos levam à reconciliação, que leva à evolução da moralidade social. A ação do crime é um exemplo da constituição da privação de direitos, na qual quem pratica o crime nega o reconhecimento jurídico a quem o sofre (PONCHIROLLI; SANTOS FILHO, 2011).
No estado, o homem é reconhecido e tratado como ser racional, como livre, como pessoa; e o singular, por sua parte, se torna digno desse reconhecimento porque ele, com a superação da naturalidade de sua autoconsciência, obedece a um universal, à vontade sendo em si e para si, à lei, ou seja, se porta em relação aos outros de maneira universalmente válida, reconhece-os como o que ele próprio quer valer – como livre, como pessoa. (HEGEL apud HONNETH, 2003, p. 179)
Segundo Honneth (2003), somente a partir do reconhecimento do outro-de-direito é que um indivíduo identifica a si mesmo como possuidor de direitos. Então, mesmo não havendo uma ligação afetiva direta entre dois sujeitos sociais, o padrão de reconhecimento baseado no direito possibilita um respeito mútuo entre as pessoas. E essa é a base para a formação do autorrespeito no indivíduo. Seguindo essa linha de pensamento, os pressupostos de Mead e Hegel para o direito são concretizados na ideia do outro generalizado, ou seja, uma generalização das necessidades de todos à medida que estejam dentro das possibilidades de uma conciliação entre todos.
Honneth (2003) também diferencia o âmbito do direito moderno e não moderno. Nas sociedades tradicionais, a definição do direito tem suas raízes na concepção do status social, no qual os indivíduos não são considerados igualmente merecedores do reconhecimento dos
direitos, mas sim merecedores das determinações de seu status. Já nas sociedades modernas, o jurídico tem a função de combater qualquer forma de privilégio ou exceções, e os indivíduos são considerados todos iguais perante a lei.
Para Ponchirolli e Santos Filho (2011), Honneth utiliza também da construção histórica de Marshall para evidenciar as três esferas fundamentais do direito, que evoluíram separadamente no século XVIII, XIX e XX. Elas formam o direito fundamental à liberdade, à participação de todos na esfera pública, e os direitos que possibilitam o bem-estar de todos os indivíduos da sociedade. Essas categorias, quando plenamente reconhecidas, permitem a formação individual do autorrespeito.
A estratégia utilizada por Honneth (2003) consiste em apresentar o surgimento do direito moderno de tal forma que, neste fenômeno histórico, também seja possível encontrar uma nova forma de reconhecimento. Ele pretende, portanto, demonstrar que o tipo de reconhecimento característico das sociedades tradicionais é aquele ancorado na concepção de
status: em sociedades desse tipo, um sujeito só consegue obter reconhecimento jurídico
quando ele é reconhecido como membro ativo da comunidade e apenas em função da posição que ele ocupa nesta sociedade (SOBOTTKA; SAAVEDRA, 2008).
Honneth reconhece na transição para a modernidade uma espécie de mudança estrutural na base da sociedade, à qual corresponde também uma mudança estrutural nas relações de reconhecimento: ao sistema jurídico não é mais permitido atribuir exceções e privilégios às pessoas da sociedade em função do seu status. Pelo contrário, o sistema jurídico deve combater estes privilégios e exceções. O direito então deve ser geral o suficiente para levar em consideração todos interesses de todos os participantes da comunidade. A partir desta constatação, a análise do direito que Honneth procura desenvolver consiste basicamente em explicitar o novo caráter, a nova forma do reconhecimento jurídico que surgiu na modernidade. (HONNETH, 2003, p. 178)
Honneth procura mostrar que, junto com o surgimento de uma moral ou de uma sociedade pós-tradicional, houve também uma separação da função do direito e daquela do
juízo de valor. Para o direito, a pergunta central é: como a propriedade constitutiva das
pessoas de direito deve ser definida; no caso do juízo de valor: como se pode desenvolver um sistema de valor que está em condições de medir o valor das propriedades características de cada pessoa (HONNETH, 2003, p. 183).
Os sujeitos de direito precisam estar em condições de desenvolver sua autonomia, a fim de que possam decidir racionalmente sobre questões morais. Aqui, Honneth (2003) tem em mente a tradição dos direitos fundamentais liberais e do direito subjetivo em condições pós-tradicionais, que indicam a direção do desenvolvimento histórico do direito.
A luta por reconhecimento deveria, então, ser vista como uma pressão, sob a qual permanentemente novas condições para a participação na formação pública da vontade vêm à tona. Honneth esforça-se, naturalmente influenciado pelos escritos de T. H. Marshall (1967), para mostrar que a história do direito moderno deve ser reconstruída como um processo direcionado à ampliação dos direitos fundamentais. Apesar de Honneth sempre utilizar um conceito problemático de direito subjetivo, a sua correta intuição pode ser compreendida claramente quando ele explicita a sua interpretação da reconstrução histórica de Marshall: os atores sociais só conseguem desenvolver a consciência de que eles são pessoas de direito e agir, consequentemente, no momento em que surge historicamente uma forma de proteção jurídica contra a invasão da esfera da liberdade, que proteja a chance de participação na formação pública da vontade e que garanta um mínimo de bens materiais para a sobrevivência (HONNETH, 2003, p. 190). Honneth sustenta que as três esferas dos direitos fundamentais, diferenciadas historicamente, são o fundamento da forma de reconhecimento do direito. Por conseguinte, reconhecerem-se reciprocamente como pessoas jurídicas significa hoje muito mais do que no início do desenvolvimento do direito: a forma de reconhecimento do direito contempla não só as capacidades abstratas de orientação moral, mas também as capacidades concretas necessárias para uma existência digna; em outras palavras, a esfera do reconhecimento jurídico cria as condições que permitem ao sujeito desenvolver autorrespeito (HONNETH, 2003, p. 194).