• Nenhum resultado encontrado

O dispositivo é, para Deleuze (1996), um conjunto multilinear composto por linhas de natureza diferente, se comparadas aos “vetores” ou “tensores”, que seguem direções variadas e imprevisíveis, traçando “processos sempre em desequilíbrio”. Essas mesmas linhas podem ser quebradas e sujeitas a direções diferentes e diversas, bifurcadas, forquilhadas e submetidas às derivações.

Essa grade multilinear do dispositivo é composta por três dimensões (saber-poder- subjetividade) e estruturada por vetores compostos por objetos visíveis, enunciados

formuláveis, forças em exercício (ou em ação) e sujeitos. Deleuze (1996) descreve que as linhas não têm formas definidas e são “cadeias de variáveis que se destacam uma das outras”, são resultados de crises, de “fissuras”, de “fracturas”, como também de “sedimentação”. Só a partir das crises podemos ver uma nova linha e uma nova dimensão surgindo. Ele ressalta que, para compreender as linhas de um dispositivo, faz-se necessário construir um mapa e realizar uma cartografia da sua estruturação. Já para compor um dispositivo, Deleuze (1996) entende que é preciso mapear as linhas que o compõem: “É preciso instalarmo-nos sobre as próprias linhas; estas não se detêm apenas na composição de um dispositivo, mas atravessam-no, conduzem-no, do norte ao sul, de Leste a Oeste, em diagonal” (p. 1).

O autor identifica quatro dimensões do dispositivo: curvas de visibilidade, curvas de enunciação, linhas de força (poder-saber) e linhas de subjetivação. A visibilidade é composta por uma linha de luz que leva às formas variáveis, ou seja, cada dispositivo tem um regime de luz específico que define o que é visível ou invisível. Desse modo, só a luz possibilita a visibilidade, e por isso, são as máquinas de fazer ver.

A segunda dimensão, a dos enunciados, remete às linhas de enunciação que distribuem os elementos que as compõem em posições diferenciadas.

Se as curvas são elas próprias enunciadas e porque as enunciações são curvas que distribuem variáveis, e, assim, uma ciência, num dado momento, ou um género literário, ou um estado de direito, ou um movimento social, são definidos precisamente pelos regimes de enunciados a que dão origem. (DELEUZE, 1996, p. 1)

Esses regimes não são sujeitos e muito menos objetos. Eles são, segundo Deleuze (1996), o que define o que é visível e o que pode ser anunciado “com derivações, as suas transformações, as suas mutações” (p. 1). São as máquinas de fazer falar.

A terceira dimensão, as linhas de força, está em exercício no dispositivo. São linhas em movimento que atravessam as linhas de enunciação e de visibilidade, e tangenciam as coisas e as palavras. “A linha de forças produz-se ‘em toda a relação de um ponto a outro’ e passa por todos os lugares de um dispositivo” (DELEUZE, 1996, p. 1). Essa é a dimensão do poder articulada com o saber.

As linhas de subjetivação, que formam a quarta dimensão, são um sistema de individuação relacionado aos grupos ou às pessoas que escapam às forças estabelecidas e aos saberes constituídos, “uma espécie de mais-valia”. “Não é certo que todo dispositivo disponha de um processo semelhante” (DELEUZE, 1996, p. 2). Essas linhas são um processo em construção em um dispositivo.

Os dispositivos têm por componentes linhas de visibilidade, linhas de enunciação, linhas de força, linhas de subjetivação, linhas de brecha, de fissura, de fracturas, que se entrecruzam e se misturam, acabando por dar rumo às outras, ou suscitar outras, por meio de variações ou mesmo mutações de agenciamento. (DELEUZE, 1996, p. 3)

Essa perspectiva leva às duas consequências referenciadas por Deleuze na obra de Foucault. A primeira delas é o repúdio de Foucault aos universais, por entender que o Uno, o Todo, o Verdadeiro, o objeto e o sujeito não são universais, e sim processos singulares, de unificação, totalização, verificação, objetivação e de subjetivação imanentes a dado dispositivo. Cada dispositivo é uma multiplicidade na qual esses processos operam em devir, diferentemente daqueles que operam em outros dispositivos.

A segunda consequência dessa abordagem do dispositivo é uma postura que busca apreender o novo, levando em conta a questão: como é possível, no mundo, a produção de qualquer coisa nova? Deleuze (1996) explana, como visto anteriormente, que a regularidade dos enunciados, para Foucault, é a linha da curva que passa pelos pontos singulares ou os valores diferenciais do conjunto enunciativo, mesmo que existam enunciados contraditórios, uma vez que o que é levado em conta não é a contradição, e sim a novidade do regime de enunciação, que pode conter enunciados contraditórios. Nesse sentido, o importante é a novidade do regime, e não a originalidade do enunciado.

Todo o dispositivo se define pelo que detém em novidade e criatividade, e que, ao mesmo tempo, marca a sua capacidade de se transformar, ou de desde logo se fender em proveito de um dispositivo futuro, a menos que se dê um enfraquecimento da força nas linhas mais duras, mais rígidas, ou sólidas. (DELEUZE, 1996, p. 4)

Conforme Deleuze (1996), pertencemos a dispositivos e agimos neles. A novidade de um dispositivo está relacionada aos outros dispositivos que o precedem, isto é, à sua atualidade. O novo é atual e, para o autor, “o actual não é o que somos, mas aquilo em que nos vamos tornando, aquilo que somos em devir, quer dizer, o Outro, o nosso devir-outro” (p. 4). É preciso, portanto, diferenciar no dispositivo o que somos (o que não seremos mais) e aquilo que seremos em devir, ou seja, a parte da história e a parte do atual. A história é o arquivo, é o desenho do que somos e deixamos de ser, enquanto o atual é o esboço daquilo em que vamos nos tornando. Diz Deleuze (1996, p. 4): “A história e o arquivo são o que nos separa, ainda, de nós próprios, e o actual é esse Outro com o qual coincidimos desde já”.

Deleuze (1996) anuncia a necessidade de separar, em cada dispositivo, as linhas do passado recente e as do futuro próximo; a parte do arquivo e a do atual; a parte da história e a

do devir; a parte da analítica e a do diagnóstico. Ele lembra que a questão das subjetividades levantadas por Foucault tinha como objetivo pensar a resistência aos novos modos de controle, em uma atitude política de agir contra o tempo e sobre o tempo.

O autor destaca a oportunidade de estar atento ao desconhecido que bate à porta e aponta a atualização como o método que engloba toda a obra foucaultiana, principalmente nas entrevistas dadas por ele, ocasiões em que atualiza seus trabalhos: “As entrevistas são diagnósticos” (p. 6). Em resumo, a questão que nos coloca um dispositivo não é procurar saber de forma maniqueísta se ele é bom ou mal, e sim compreender o que ele produz, os seus efeitos, a sua produtividade e a sua positividade. Então, a historicidade dos dispositivos são suas curvas de visibilidade e de enunciação. Essas dimensões apontadas por Deleuze podem ser agrupadas como aspectos multilineares do conceito de dispositivo.

Marcello (2004, 2009) realizou uma pesquisa a respeito das características do dispositivo, demonstrando as linhas de força que operam nele. A partir da discussão de Deleuze, a pesquisadora demonstra que a multilinearidade pode ser percebida a partir de eixos ou de dimensões, como define o próprio Foucault. A primeira dimensão está relacionada à produção do saber e à constituição de uma rede de discursos; a segunda refere-se ao poder e indica as formas pelas quais, dentro do dispositivo, é possível determinar as disposições estratégicas entre os seus vários elementos constituintes – enfim, ele está relacionado à produção dos sujeitos. Para Marcello (2009, p. 231), “o dispositivo é composto por conjunto de linhas, curvas e regimes de diferentes naturezas que se mostram transitórias e efêmeras, predispostas a variações de direção e de intensidade”.

Castro (2009) relaciona cinco características que aproximam o dispositivo foucaultiano do deleuziano: 1) cria uma rede de relações estabelecidas entre elementos heterogêneos; 2) estabelece a natureza de nexo que pode existir entre esses elementos; 3) possui uma formação que responde a uma urgência histórica; 4) define-se por uma gênese; 5) cria uma permanência. Para ele, um dispositivo é: 1) produto de uma urgência histórica; 2) conceito multilinear; 3) se articula como condição para sua permanência. A caracterização do dispositivo como um conceito multilinear de Deleuze (1996) é o que Castro (2009) chama de rede de relações e a interconexão entre esses elementos heterogêneos.

Deleuze (2005) chama Foucault de “um novo arquivista” e “um novo cartógrafo” em seu livro Foucault, no qual, a partir de obras49 do filósofo, estabelece elementos da sua

49 Deleuze analisou as seguintes obras de Foucault: História da loucura, Nascimento da clínica, As palavras e as

arquegenealogia. São exatamente esses elementos que podem nos ajudar na efetuação da análise do dispositivo, tais como percepções sobre o arquivo, o visível e o enunciável (saber), as estratégias (o pensamento do lado de fora), as dobras ou o lado de dentro do pensamento (a subjetivação). Essa análise será desenvolvida ao longo do Capítulo 5.

4.5 Categorias da composição de um dispositivo

Como discutimos nos itens anteriores, Foucault (2012) pensava o dispositivo como um conjunto heterogêneo que engloba uma variedade de elementos (discursos, instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos e proposições filosóficas, morais e filantrópicas), em suma, uma rede trançada com o dito e o não dito. Esse conjunto responderia a uma função estratégica que se apresenta diante de uma urgência, com o objetivo de obter um efeito, gerir e governar os homens, produzir um sujeito. Isso nos leva a pensar sobre quais foram as urgências históricas que possibilitaram a emergência das problemáticas ambientais. Na Figura 2 a seguir, sintetizamos os elementos constitutivos de um dispositivo a partir das discussões realizadas Foucault (1988, 2010a, 2012), Deleuze (1996, 2005), Agamben (2005, 2014) e Castro (2009).

vontade de saber, O uso dos prazeres, O cuidado de si, Raymond Roussel, La pensée du Dehors, Que é o autor, Prefácio à gramática lógica, A ordem do discurso, Isto não é uma pipa, A vida dos homens infames.

Figura 2 — Elementos constitutivos de um dispositivo

Fonte: Elaboração da autora, a partir de Agamben (2005, 2014), Castro (2009), Deleuze (1996, 2005) e Foucault (1988, 2010a, 2012).

O desafio é mapear, no arquivo sobre as questões ambientais, esse conjunto multilinear de linhas que entram na composição de uma rede a ser tecida na análise. Aos modos de dizer de Deleuze (1996, 2005), trata-se de cartografar um mapa compondo as linhas

Dispositivo: natureza essencialmen te estratégica Rede que se estabelece entre os elementos heterogênos Responde a uma urgência, a partir de um objetivo estratégico Processo de subjetivação Linhas de visibilidade, linhas de enunciação, linhas de força, linhas de subjetivação, que

se entrecruzam e se misturam Remete a uma

eonomia cujo o fim é gerir, governar, controlar e orientar os comportamentos dos gestos e dos pensamentos dos homens. Estratégia de relações de força que suportam tipos de saber e são suportados por eles. Manipulação das relações de força, desenvolvidas em uma direção concreta, para bloquea-las ou para estabiliza-las, utiliza- las. Lugar de um duplo processo: sobredetermiinação funcional e estratégica.

de visibilidade, de enunciação, de força, de subjetivação, que se entrecruzam e se misturam na composição do dispositivo desenvolvimento sustentável.

Trata-se de tecer uma grade de análise sobre o meio ambiente que possibilite identificar as três dimensões (saber-poder-subjetividade), estruturada na busca da compreensão dos objetos visíveis, dos enunciados formuláveis, das forças em exercício (ou em ação) e dos sujeitos. Enfim, buscar compreender a questão ambiental como um produto de uma urgência histórica, um conceito multilinear fruto de articulações, como condição para sua permanência.

4.6 A população e a governamentalidade

Partimos da discussão acerca da formação do dispositivo de segurança de Foucault para identificar indícios da emergência, na atualidade, do desenvolvimento sustentável e dos fatores que possibilitaram o seu surgimento. Com base nas pesquisas de Foucault, compreender a passagem de uma Teoria Clássica de Soberania para a assunção da vida como poder fornece-nos elementos importantes para formar um pano de fundo para a compreensão dos mecanismos de poder nessa nova forma de governo, a governamentalidade.

Nas suas aulas no Collège de France (1975-1976), publicadas, como vimos anteriormente, com o título Em defesa da sociedade, Foucault começa a delinear as suas discussões sobre uma biopolítica e os novos modos de governar a todos. Na aula de encerramento desse curso, em 17 de março de 1976, Foucault (2010b) descreve um dos fenômenos fundamentais do século XIX, a estatização do biológico, ou seja, o homem considerado como um ser vivo dentro de uma lógica de poder.

Antes desse processo, vale lembrarmos que, na lógica da soberania clássica, o soberano tinha direito de vida e de morte sobre os seus súditos. O soberano podia fazer morrer e deixar viver. Foucault (2010b, p. 202) explica que “a vida e a morte dos súditos só se tornam direitos pelo efeito da vontade soberana”. E vai além, ao dizer que esse paradoxo teórico é exercido de forma desiquilibrada e negativa, já que este direito de vida e de morte se volta mais para o lado da morte, o “direito de espada”.

O efeito do poder do soberano sobre a vida só se exerce a partir do momento em que o soberano pode matar. Em última análise, o direito de matar é que detém efetivamente em si a própria essência desse direito de vida e de morte: é porque o soberano pode matar que ele exerce seu direito sobre a vida. (FOUCAULT, 2010b, p. 202)

Assim, fica clara a assimetria entre o direito de vida e de morte, que se configura pelo direito de fazer morrer ou de deixar viver. No século XIX, Foucault (2010b) aponta uma mudança significativa nesse direito de soberania e chama a atenção para o advento de um complemento que não o apaga, mas que irá “penetrá-lo, perpassá-lo, modificá-lo” (p. 202). É um poder inverso: poder de “fazer viver” e de “deixar viver”. Historicamente, Foucault elucida que, do século XVI ao século XVIII, no processo de formulação de um contrato social entre os indivíduos e um soberano, o objetivo dos súditos era o de constituir esse soberano. Esse contrato social baseava-se na relação de perigo e de necessidade. Os súditos buscavam a proteção da vida, portanto, queriam poder viver.

Com um olhar investigativo voltado para os mecanismos, as técnicas e as tecnologias de poder, Foucault (2010b) mostra que nos séculos XVII e XVIII aparecem técnicas de poder substancialmente centradas no corpo individual, na sua vigilância e na sua visibilidade. Essa tecnologia disciplinar do trabalho, que se instala no período citado, tinha como objetivo aumentar a força útil desses corpos por meio de treinamentos e exercícios, fazendo a distribuição espacial dos corpos e organizando-os no campo de vigilância. Essa “disciplina tenta reger a multiplicidade dos homens na medida em que essa multiplicidade pode e deve redundar em corpos individuais que devem ser vigiados, treinados, utilizados, eventualmente punidos” (FOUCAULT, 2010b, p. 204).

Já na segunda metade do século XVIII, Foucault (2010b) percebeu que algo de novo havia surgido, uma nova tecnologia de poder que não excluía a tecnologia disciplinar, ao contrário, se integrava a ela e de certa forma a modificava parcialmente. Mas essa nova tecnologia só foi possível por causa da existência prévia da técnica disciplinar já instaurada no período anterior. Essa nova técnica de poder aplica-se em outro nível, não no corpo, como a disciplina, e sim na vida dos homens, dos seres viventes, do homem ser vivo, do homem espécie. O filósofo escreve que essa nova tecnologia se dirige à multiplicidade dos homens, na medida em que ela forma “uma massa global, afetada por processos e conjunto que são próprios da vida, que são processos como o nascimento, a morte, a produção, a doença” (FOUCAULT, 2010b, p. 204), dentre outros.

O autor esclarece que a primeira tomada de poder ocorreu sobre o corpo, individualizando-o, enquanto a segunda recaiu sobre o “homem-espécie”, massificando-o. A instauração desse segundo nível de poder sobre os corpos coletivos, sobre os seres viventes, é denominada por Foucault (2010b) “biopolítica” da espécie humana. Em um primeiro momento, na segunda metade do século XVIII, ela irá se constituir com a aferição estatística dos fenômenos demográficos, tais como a natalidade, a mortalidade, as taxas reprodutivas, a

fecundidade e a longevidade da população. A observação desses fenômenos naturais leva à implementação de políticas de intervenções globais. O que está em jogo nas políticas de natalidade, por exemplo, não é a fecundidade, e sim a morbidade dos seres viventes. Ou seja, o que está em questão é a morte como fator permanente que causa “subtração das forças, diminuição do tempo de trabalho, baixa de energias, custos econômicos, tanto por causa da produção não realizada quanto dos tratamentos que podem custar” (FOUCAULT, 2010b, p. 204).

Essa técnica de poder está centrada na vida, agrupando fenômenos típicos de uma população, com o intuito de controlar uma série de eventos fortuitos que podem ocorrer em um corpo múltiplo e vivo. A biopolítica, como uma tecnologia de poder, segundo Foucault (2010b), procura controlar e até mesmo modificar a probabilidade de ocorrência desses eventos e compensar seus efeitos, visando o equilíbrio global, um tipo de homeostase. Essa política está centrada no ser vivo, no homem-espécie e nas suas preocupações, e volta-se para o controle de fenômenos como a natalidade, a morbidade, as incapacidades biológicas dos seres e os efeitos do meio. Com relação a este último, podemos incluir as questões ambientais, que impactam na vida e na sobrevivência da espécie humana. Esses fenômenos são áreas de intervenção, de saber-poder, e são neles que a biopolítica irá definir o seu campo de intervenção.

Os fenômenos dos efeitos sobre os meios, surgidos no fim do século XVIII e início do século XIX, estão relacionados com os efeitos brutos do meio geográfico, climático e hidrográfico. Foucault (2008) trabalha a concepção de meio como aquilo que faz a circulação: “O meio é um conjunto de dados naturais, rios, pântanos, morros, é um conjunto de dados artificiais, aglomeração de indivíduos, aglomeração de casas, etc.” (p. 28).

O que nos interessa na exposição das noções de biopoder e de suas relações com a população, no entanto, é entender a questão ambiental e, mais especificamente, as condições de surgimento do desenvolvimento sustentável e das suas produções de práticas no cotidiano do presente. E Foucault (2008) aponta como um dos elementos fundamentais na implantação dos mecanismos de segurança não o aparecimento de um meio, mas o de um projeto de uma técnica política que se dirija ao meio, tornando-se fator de ordenamento da natureza da população humana.

A partir do desenvolvimento e das transformações das estruturas urbanas ocorridas no século XVIII, as grandes cidades possibilitaram o surgimento de uma medicina urbana e também de uma preocupação com a higiene pública, com procedimentos de vigilância e de controle da população. Segundo Foucault (2010b), essa medicina tem como objetivos

principais: a) a preocupação com a dispersão dos resíduos no espaço urbano, como o foco de enfermidades e epidemias; b) o controle da circulação, do ar, da água, dos alimentos e das mercadorias; c) o estudo da distribuição e organização dos elementos indispensáveis à vida no espaço da cidade, tais como fontes, esgotos, entre outros.

Para Martins (2007), esses objetivos estão articulados a saberes emergentes relacionados ao meio e às condições de vida da população. Com a medicina urbana surge também outra noção, a de salubridade, que remete aos elementos que constituem o meio ambiente e a tudo que pode afetar a saúde humana. A medicalização da sociedade e o governo da vida foram, para Foucault (1982 apud DREYFUS; RABINOW, 2010, p. 302-303), as condições de emergência de um biopoder, uma forma de poder que se exerce sobre a vida e que categoriza os indivíduos, ligando as suas próprias individualidades e identidades, impondo-lhes uma lei de verdade.

[Biopoder é] o conjunto de mecanismos pelos quais aquilo que, na espécie humana, constitui seus traços biológicos fundamentais vai poder entrar no interior de uma política, de uma estratégia política, de uma estratégia geral de poder, dito de outra forma, como a sociedade, as sociedades ocidentais modernas, a partir do século XVIII, passaram a considerar o fator biológico fundamental de que o ser humano constitui uma espécie. (FOUCAULT, 2008, p. 4)

O biopoder é uma forma de poder que rastreia, interpreta, assimila, reformula e, assim, rege e regula a vida social no seu próprio interior. Para Hardt e Negri (2004, p. 43), o poder passa a se encarregar da vida na sua totalidade, em todo o seu desenrolar. É perceptível a expansão do conceito de poder na obra foucaultiana e como essa noção surge junto de outra, a de população, como um corpo social e coletivo a ser controlado. A partir do momento que o poder intervém no aumento da vida, controlando os acidentes eventuais naturais da população, o direito vigente até então de fazer morrer torna-se cada vez mais um direito de