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7. Do direito de autor à propriedade intelectual
No Brasil a primeira lei relativa à proteção da propriedade intelectual é de 1830: o Código Criminal do Império, que prevê sanções para quem copiasse obras artísticas e literárias sem autorização de seus autores, protegendo as obras durante a vida do autor e até dez anos depois de sua morte. O código civil promulgado em janeiro de 1916 traz todo um capítulo dedicado à propriedade literária, científica e artística.
Em 1973 foi promulgada uma lei dedicada exclusivamente ao direito autoral. E a teia jurídica que protege os direitos de autor no Brasil também se compõe do artigo 184 do Código Penal, e da própria Constituição Federal, que consagra um de seus itens a proteção deste direito.Finalmente no ano de 1998, foi promulgada a Nova Lei de Direitos Autorais brasileira, a lei 9.610. Este diploma legal atualizou uma série de questões da lei anterior e incorporou na lei questões relacionadas à emergência do mundo digital e a desmaterialização de conteúdos.
universais e coletivos. Não é de se estranhar que a primeira lei a proteger invenções tecnológicas, a primeira lei de patentes, tenha surgido em Veneza, na mesma época em que os privilégios estavam sendo concedidos aos impressores. Uma lei de 1474 constitui a primeira tentativa institucional de proteger invenções vinculadas a um indivíduo. Em nosso imaginário a figura da genialidade científica e cultural não pode ser mais bem representada do que pelos grandes personagens da Renascença, dentre os quais a figura de Leonardo da Vinci se destaca. Para aqueles homens o conhecimento era pensado como um todo, daí a associação do engenheiro com o artista era possível, pois as barreiras da especialização excessiva ainda não haviam sido erguidas.
Podemos especular que a mesma revolução impressa que inspirou o conceito de autoria e propriedade literária talvez tenha se influenciado os campos da ciência e da invenção, despertando a necessidade de sua proteção. Muito antes de a revolução industrial inspirar uma miríade de inventores a registrarem suas patentes, os nascentes estados europeus promoviam em sua disputa por mercados, um forte controle de seus inventos. Isso era de fundamental importância na indústria naval, pois nesse período o domínio dos mares representava liderança econômica.
Existem inúmeros relatos sobre viajantes cultos, que financiados por seus governos, realizavam extensas peregrinações a outros países, registrando informações preciosas que depois eram repassadas a seus governos. Os holandeses da Companhia das Índias Orientais mantinham uma extensa rede de informações por todo o mundo. Outro expediente muito praticado era o de cooptar trabalhadores especializados e inventores que viviam em outros centros:
No século XVIII, o governo romano convidou um artesão de Lyon para introduzir o método Francês de tingir a seda e mandou seis tecelões a Turim para aprender o método holandês. (...) Na década de 1780, um engenheiro francês viajou pela Inglaterra coletando informações sobre a cerâmica Wedgwood, adquirindo teares e outras máquinas, e levando consigo três trabalhadores “sem os quais as próprias máquinas seriam inúteis”. (Burke, 2003: 141)
O desenvolvimento da propriedade intelectual como um todo deve ser pensado sob o signo dos vários aspectos que marcam a modernidade européia. A partir dos séculos XIV e XV, inicia-se uma reviravolta fundamental no eixo político e morfológico com o surgimento da nação. Em sua constituição íntima, este composto político-geográfico e cultural pressupunha -se como um imenso organismo coletivo que tornava obsoletos os antigos laços intermediários estabelecidos pelos indivíduos em suas aldeias, burgos e regiões. Um segundo elemento é a democratização das práticas políticas que irão possibilitar a cada homem que participe diretamente da vida desta virtualidade que é a nação. Em terceiro lugar, ocorre a mutação do mundo do trabalho a partir da introdução das práticas industriais, que podem ser encontradas desde o século XV, mas que se intensificam nos séculos XVIII e XIX. Todos estes fatores promovem profundos desencaixes e ajudam a moldar uma nova forma de ver o mundo, mais individualista e fragmentada por um lado, e ao mesmo tempo mais abstrata, pois obriga o homem desencaixado de suas experiências locais a acreditar em ficções jurídicas, a comunicar-se através de símbolos como marcas e dinheiro. E a saber muito mais, sabendo cada vez menos, tendo, portanto de confiar nos inúmeros sistemas peritos que são propostos pela modernidade.
O advento da impressão certamente contribui de várias maneiras para esta mudança de percepção e da forma de se relacionar com o simbólico. Uma dessas contribuições para
qual gostaríamos de chamar atenção está relacionada à percepção da trans- materialidade (ou desmaterialidade) dos conteúdos textuais. Por toda a Idade Média o conteúdo dos livros era transmitido pelos copistas a conta-gotas, em poucos exemplares, muito bem encadernados e guardados de forma a serem preservados por centenas de anos. É fato que o texto circulava de forma oral, mas por mais prodigiosos que fossem os métodos mnemônicos adotados nesse período, a quantidade de textos memorizada deveria ser bem menor que a daquele contido em uma biblioteca pessoal moderna. Mas mesmo que esta quantidade fosse prodigiosa, ainda assim haveria a questão da continuidade deste conhecimento e de sua contextualização. Desta forma o conhecimento textual possuía neste período uma dimensão imaterial imensa, que estava, entretanto, ancorada aos manuscritos raros e preciosos, de modo que sua materialidade amplificava-se, por se tratar do elemento de fixidez necessário ao conhecimento. Dito de outro modo, em uma cultura oral, marcada pelo fluxo vocal, e pelas memórias individuais, a necessidade de fixidez na forma de uma materialidade aumenta. Ora, com o advento da impressão, a materialidade se multiplica vertiginosamente, a fixidez se institui como uma característica, assim como a fluidez era típica da cultura oral do manuscrito. E neste cenário os pólos se invertem, aquilo que era absolutamente evidente e, por isso, ignorado na cultura manuscrita, passa a ser relegado a um plano secundário, a materialidade se banaliza e os elementos imateriais do texto ganham peso, em especial, a possibilidade, de a partir de um conteúdo, criar inúmeras versões: de luxo ou popular, em papel ou pergaminho, nas línguas originais, ou traduzidos, na forma original ou adaptados. Essa percepção da imaterialidade60 contribui de forma capital para a proteção da propriedade intelectual, pois se percebeu que o que deveria ser
60 Propriedade do texto de migrar de uma forma para outra, materizalizando-se em diversos formatos.
protegido, não eram as expressões materiais (no caso da Idade Média os Manuscritos61), mas sim as idéias: “A fixidez do texto impresso também permitiu o reconhecimento mais explícito da inovação individual e incentivou o registro de títulos sobre propriedade sobre invenções, descobertas e criações.” (Eisenstein, 1998: 100)
O mercado editorial é o primeiro dos empreendimentos capitalistas no qual torna-se evidente para os comanditários, que para além de sua dimensão material, os produtos possuíam uma dimensão intangível que necessitava de proteção. Como já indicamos no primeiro capítulo, o conceito de desencaixe social utilizado por Antony Giddens é oportuno para aplicarmos ao fenômeno da propriedade intelectual. O sociólogo inglês considera que uma das características marcantes da Modernidade é o deslocamento das relações sociais de seus contextos locais para extensões amplas e indefinidas do espaço-tempo. Nesse sentido, é um exemplo o deslocamento da materialidade do texto para sua imaterialidade, marcados pela aceleração da reprodutibilidade e pelas técnicas de impressão. Mas não apenas do ponto de vista da quantidade, mas também da diversidade de textos que poderiam ser criados a partir de um original.
Na lei do direito autoral vigente no Brasil, é consagrado o princípio de proteção ao texto original, considerando independentes as diversas formas de utilização da obra como livro, adaptação, audiovisual e outras. Em seu formato medieval, um livro era um texto fixado em pergaminho, no formato códex, costurado e encadernado. A partir da impressão, um livro será apenas um dos formatos do texto, que poderá se metamorfosear em diversas outras manifestações.
61 Lembremo -nos da importância dos manuscritos neste período, muito bem retratada no incêndio da Biblioteca do Mosteiro em “ O nome da Rosa” de Umberto Eco.
O individualismo moderno serviu como base para outra categoria de propriedade intelectual que é a marca. Trata-se de um signo distintivo que indica que certos produtos e serviços foram produzidos por uma região, empresa ou pessoa determinada. Assim como as patentes e o direito autoral, a marca pode ser pensada na perspectiva do desencaixe social.
Enquanto o mundo do indivíduo estava delimitado ao pequeno burgo ou aldeia que habitava, os produtos e serviços consumidos pelo indivíduo médio eram geralmente locais, no máximo regionais. De qualquer forma era possível a ele identificar a origem deste produto, interagindo na maioria das vezes com o próprio produtor. Sapateiro, alfaiate, agricultor, padeiro – todos estavam ali ao alcance de alguns passos, uma experiência de consumo na qual produtor e consumidor se conhecem. Com o crescimento das cidades, a intensificação dos fluxos comerciais e o advento da sociedade de consumo, surge a necessidade de criar símbolos que distingam os produtos uns dos outros e que permitam ao consumidor classificá- los optando por aqueles mais confiáveis.
Deste modo as marcas se inserem no contexto mais geral da propriedade intelectual, conformando um poderoso sistema erguido na modernidade ocidental, sob a hegemonia do sistema jurídico anglo-saxão, que reconhece a criatividade e a inovação, convertendo-as em bens cambiáveis, passíveis de serem vendidos, alugados, licenciados, fonte de riquezas para algumas categorias sociais, e de segregação e exploração para outras.