EDUCAÇÃO PARA A ERA PLANETÁRIA
4. Educação para a era planetária e Pensamento Complexo
Existindo uma clara relação entre o devir planetário da complexidade das sociedades, influenciadas pelas globalizações e o devir complexo da planetarização, o grande desafio hodierno reside na educação ―na‖ e ―para‖ a era planetária (Morin, Motta & Ciurana, 2004; Santos, 2005).
Assim, numa época caracterizada pelas globalizações (Santos, 2005), os problemas deixaram de ser particulares para se situarem num nível global surgindo, por isso, a necessidade de contextualizar e globalizar. Da mesma forma, o problema do conhecimento torna-se um desafio uma vez que, como referiu Pascal, só podemos conhecer as partes se conhecermos o todo em que se situam e só podemos conhecer o todo se conhecermos as partes que o compõem. Assim, deveríamos ser norteados por um princípio de pensamento complexo que nos permitisse (inter)ligar os conhecimentos (cf. Almeida, 2009; Morin, 1991).
Morin (1991) define o pensamento complexo como um tipo de pensamento que não separa, mas une e procura as relações necessárias e interdependentes de todos os aspectos da vida humana. Trata-se de um pensamento que integra os diferentes modos de pensar, que considera todas as influências recebidas, internas e externas. O pensamento complexo é, essencialmente, capaz de reunir, contextualizar, globalizar, reconhecendo simultaneamente o
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singular, o individual, o concreto. A proposta da noção de pensamento complexo corresponde a uma retoma da pluri-sensoralidade, sendo a complexidade percepcionada como a união de elementos heterogéneos, inseparavelmente associados, os quais apresentam a relação paradoxal entre o uno e o múltiplo (Morin, 1991). Desta forma, pensar a complexidade retrata a tessitura comum, o complexo que ela forma para além das suas partes.
Ao contrário de um pensamento simplificador6 que isola, desune e justapõe, o pensamento complexo, ou o paradigma complexo, evita a fragmentação e a desarticulação dos conhecimentos adquiridos.
Desta forma, ao invés dos pensamentos simplificadores que partem de um ponto inicial e conduzem a um ponto final, o pensamento complexo é um pensamento rotativo, em espiral. Este tipo de pensamento apresenta, de acordo com Morin, Motta & Ciurana (2004), um conjunto de princípios metodológicos, complementares e interdependentes, que enunciaremos de seguida:
- princípio sistémico ou organizacional, que promove a relação dos saberes, a união das partes com o todo e, contrária e simultaneamente, a ideia de que o todo é também menos que a soma das partes devido aos processos de inibição das partes pelo conjunto;
- princípio hologramático, que foca o aparente paradoxo de a parte estar no todo ao mesmo tempo que o todo se inscreve na parte. Exemplificando, o sujeito insere-se na sociedade ao mesmo tempo que a sociedade se inscreve também no sujeito, através da sua linguagem, da sua cultura e das suas normas;
- princípio de retroactividade, que nos remete para os processos auto-reguladores de rompimento do princípio da causalidade linear, a causa actua sobre o efeito e o efeito actua sobre a causa, suportados por mecanismos de feedback negativo ou positivo, os quais reduzem ou amplificam as acções e reacções;
- princípio de recursividade, que propõe a dinâmica dos conceitos de autoprodução e auto - organização, sendo ―um processo no qual os efeitos ou produtos são
6 Segundo a lógica de Morin, o pensamento complexo não se desvincula do que é simples, sendo a complexidade
a união da simplificação e da complexidade. Assim, o pensamento complexo implica um jogo duplo: simplificar/complexificar.
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simultaneamente causa produtiva do próprio processo para se gerarem os do início‖ (Morin, Motta & Ciurana, 2004:37);
- princípio da autonomia/dependência, que introduz a ideia de processo auto-eco- organizacional. Este princípio trabalha a noção de inseparabilidade e complementaridade entre autonomia e dependência, compreendendo que autoprodução e auto - organização mantêm uma relação também de dependência em relação ao meio; - princípio dialógico7, que nos possibilita pensar no mesmo espaço mental lógicas que se complementam ou se contradizem, permitindo-nos aceitar racionalmente a associção de noções contraditórias representativas de um mesmo fenómeno complexo, visões diferentes da relação entre o indivíduo e a sociedade (Ciurana, 2001); de acordo com este princípio éimpossível pensar a sociedade reduzindo-a aos indivíduos ou ao tecido social, importa sim pensar a sociedade enquanto relação dialógica entre o indivíduo e o tecido social;
- princípio da reintrodução do conhecer em qualquer conhecimento, que procura a restauração do papel activo do sujeito/observador/pensador/elaborador/estratega em todo o conhecimento. Este princípio, conhecer o conhecimento, é fulcral para criar estratégias de pensamento e de acção o mais autónomas possível, uma vez que permite a compreensão de que a nossa autonomia está ―en la dependência intelectual de una determinada sociedad y cultura con su, o sus paradigmas y, en nuestra capacidad ―cons-ciente‖ de detectar sus influncias sobre nosotros, cuando como individuos podemos comenzar a afirmarnos y a escapar a la enorme fuerza de sojuzgamiento y enajenación que tiene toda la noosfera que, como aire, respiramos‖ (Ciurana, 2001: 3). Assim, o pensamento complexo não propõe o abandono de determinadas lógicas em detrimento de outras, a exclusão de algum modo de pensamento pela instauração de outro. O pensamento complexo procura compreender as muitas faces e as mudanças constantes do real, não pretendendo negar a multiplicidade, a aleatoriedade e a incerteza, mas procurando constituir-se como um sistema de pensamento aberto, abrangente e flexível (Mariotti, 2007).
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No entanto, vivemos ainda numa cultura norteada pelo pensamento linear, em que aprendemos a separar, a compartimentar, a isolar para especificar e especializar e não a unir os conhecimentos. Morin (2000) defende que a supremacia do conhecimento fragmentado, sob a lógica de disciplinas, impede, frequentemente, de operar o vínculo entre as partes e a totalidade e deve ser substituído por um modo de conhecimento capaz de apreender os objectos no seu contexto, complexidade e conjunto.
O pensamento complexo procura romper com as concepções restritas de disciplinas, de divisão de saberes, de separação entre filosofia e ciência, procurando estabelecer uma comunicação entre elas, uma ponte. O pensamento complexo pretende, então, preparar os cidadãos para lidarem com realidades e problemas que são cada vez mais polidisciplinares, transversais, multidimensionais, transnacionais, globais, planetários (Morin & Le Moigne, 2000).
Deste modo, entendemos a importância do aprender a aprender, que implica reformar o pensamento para a religação dos saberes, e assim promover a conjugação do conhecimento com a multiculturalidade, a tomada de consciência da interdependência e da retroacção entre o ser humano e o meio ambiente, o que nos permite perceber o ser e o estar no mundo, individual e colectivamente, de maneira responsável, ética, crítica e criativa (Petraglia, 2006).
Necessitamos então, de uma educação que reconheça a ambiguidade, que fomente o pensamento em termos ―glocales‖ (Ciurana, 1999), o global e o local num mesmo espaço mental como áreas dependentes, uma educação emancipadora que potencie o questionamento e a transformação social, apoiada em quatro pilares:
- aprender a conhecer - aquisição dos ―instrumentos do conhecimento‖: aprender métodos que ajudem a distinguir o que é real do ilusório; ser capaz de estabelecer pontes entre os diferentes saberes, entre os saberes e as acções;
- aprender a fazer - aplicação prática dos conhecimentos teóricos; importância da comunicação;
- aprender a viver juntos, aprender a conviver com os outros - aprender a compreender, a respeitar as normas que norteiam as relações entre os indivíduos de uma sociedade, potenciando a descoberta progressiva do outro;
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Em síntese falamos de uma educação que favoreça a atitude ―del espíritu para contextualizar, relacionar y globalizar, sobre la base de que efectivamente los problemas planetários que habrán de enfrentar los jóvenes del tercer milénio son problemas cada vez más globales e interrelacionados‖, ou seja, de uma educação para a era planetária (Motta, in Pozzoli, 2007:30).
Desta forma e reconhecendo a necessidade de promover desde cedo actividades que despertem as crianças para as questões da diversidade, da multiculturalidade, do encontro com o outro, das identidades diversas, do pensamento complexo, da globalização e da educação para a era planetária, construímos o programa de sensibilização à diversidade linguística, cultural e biológica, Mar de Línguas e Culturas, o qual será objecto de apresentação no capítulo 3 do presente estudo. Este programa pretendeu ser apenas uma proposta que implicasse uma organização flexível e dinâmica do currículo, circunscrevendo-se numa lógica de interdisciplinaridade e de complexidade, ao encontro da promoção e do reconhecimento da diversidade linguística, cultural e biológica e da educação para a era planetária.
Neste contexto, no capítulo seguinte, debruçar-nos-emos sobre sensibilização à diversidade linguística e cultural como forma de promover nos alunos, desde cedo, o desenvolvimento de uma competência plurilingue e intercultural e sobre a pertinência da sua inserção curricular.
CAPÍTULO II
SENSIBILIZAÇÃO À DIVERSIDADE LINGUÍSTICA E CULTURAL - PARA UMA