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Erro sobre o Facto Típico (Erro sobre o Tipo)

TEORIA GERAL DO CRIME E DA PENA FDUCP

5. O Erro sobre a Factualidade Típica 1 Conceitos e Distinções

5.2. Erro sobre o Facto Típico (Erro sobre o Tipo)

5.2.1. Esquema de análise. A relevância indiciária do tipo.

Os Tipos de crimes relativamente aos quais se coloca a questão da relevância do erro são os tipos dolosos  são eles que indicam quais os elementos que o agente deve representar (conhecer ou ter consciência) para que haja dolo.

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Objeto do Erro  Elemento do Tipo (deve ser representado pelo agente para que possa haver dolo).

Interpretação do art. 16: é necessário para que haja dolo – (1) o conhecimento dos elementos objetivos do facto típico; (2) conhecimento da proibição de praticar aqueles factos, ou seja, é necessário a consciência de que o facto, em princípio, é ilícito.

5.2.2. Erro sobre o facto típico: erro ignorância e erro suposição

A errada representação/desconhecimento sobre um elemento do tipo tem como consequência a não existência de dolo. Se o erro for devido a negligencia, haverá crime negligente se o crime estiver previsto na lei como crime negligente (art. 16º/1, 1ªparte e nº3). Ex:

 Homicídio (art. 131º)

 Objeto da Ação do Crime: pessoa humana (outrem)

 Agente dispara sobre uma pessoa pensando que é um animal irracional – não há dolo porque há erro sobre um elemento do tipo (art. 16º/1, 1ªparte)

 Erro devido a negligência, ou seja o agente não representou como devia, por falta de cuidado devido, que se tratava de um homem e não de um animal irracional  homicídio negligente (art. 137º - art. 16º/3).

Erro sobre a Identidade da Pessoa: Agente representa uma pessoa, como

sendo A e afinal é B, o erro incide sobre um elemento atípico, pois o elemento essencial é que o objeto da ação seja uma pessoa, sendo indiferente se é A ou B, salvo se a identidade da pessoa forem qualidades tipicamente relevantes.

Erro sobre a Identidade do Objeto: Se o agente quer furtar uma coisa alheia e

representa a coisa A, quando afinal é a coisa B, o erro é atípico, porque o que o agente tinha que representar para haver dolo era simplesmente que o objeto da ação era uma coisa móvel alheia.

Circunstâncias agravantes qualificativas têm de ser conhecidas para que o

tipo qualificativo seja imputado ao agente como crime doloso: sendo desconhecidas (erro-ignorância) o agente é responsável a título de dolo apenas pelo crime simples correspondente, se existir.

Circunstâncias essenciais atenuantes: se o agente pretende furtar uma coisa

que integrar o crime simples e furta uma coisa de valor diminuto deve ser punível pelo crime efetivamente cometido.

Erro Suposição: o agente supõe que existe um elemento do tipo, que na verdade não

existe. Ex: A quer matar B, que supõe estar escondido atras de uma moita e para tanto dispara um tiro que seria idóneo a causar a morte de B se ele la se encontrasse 

tentativa impossível. Mas pode também incidir sobre um elemento negativo do tipo –

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agente não quer cometer o crime e erradamente supõe que tem o consentimento do dono da habitação (erro relevante, afasta o dolo).

Erro Suposição

O agente supõe a existência de todos os elementos do tipo de crime que quer cometer, mas esses elementos não existem  aplicam-se as regras da tentativa

Quando se trata de supor a existência de elementos negativos, o agente não quer cometer o crime e pratica o ato na convicção de que pratica o facto ilícito – erro relevante, afasta o dolo.

E se o agente supor a existência de circunstâncias essenciais constitutivas, agravantes ou atenuantes modificativas?

 Se o agente supõe que se verifiquem as circunstâncias constitutivas do tipo de crime e elas não existem, age em erro sobre elementos essenciais e o risco fica excluído.

 Se o erro suposição incide sobre uma circunstância qualificativa que efetivamente não existe, o seu erro afasta o dolo e o agente vai ser punido pelo crime simples.

 Se o agente supõe uma circunstância modificativa atenuante que não existe, o seu dolo não abrange o crime simples.

5.2.3. Erro sobre os elementos do tipo de ilícito (art. 16º) e erro sobre a ilicitude (art. 17º)

Erro do art. 16º - Dolo de Tipo Erro do art. 17º - Dolo de Culpa

Erro de Conhecimento da Ilicitude – em virtude do erro o agente não sabe que o facto é ilícito.

O agente tem de conhecer e querer todos os elementos do crime, quando não conhece exclui-se o dolo!

No caso de erro sobre proibições cujo conhecimento é indispensável para que o agente possa tomar consciência da ilicitude (art. 16º/1, 2ªparte) estamos face a um erro de conhecimento, equiparável ao erro sobre os elementos de facto e de direito do tipo de crime.

Elementos de facto e de direito do tipo de crime (art. 16º/1, 1ªparte) – erro de conhecimento ou sobre os próprios elementos ou sobre a ilicitude do facto.

Em suma, este erro afasta a ilicitude do facto.

Erro sobre o dever jurídico de cumprir o imperativo legal, um erro de consciência ético-jurídica.

Vício da consciência ético do agente. Em suma, este erro afasta a culpa do facto, se a falta de consciência for desculpável.

O agente conhece o desvalor do facto, tem conhecimento da sua ilicitude. Erro na Avaliação: pensa que o facto é lícito, mas o facto é ilícito. Se não houve erro o agente responde pelo facto ilícito praticado.

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Interpretação do art. 16º/1, 1ªparte: factos constitutivos dos crimes naturais ou mala in

se, ou seja, aos factos cuja ilicitude se exige que seja conhecida de todos os cidadãos

normalmente socializados.

Interpretação do art. 16º/1, 2ªparte: factos constitutivos dos crimes cuja ilicitude não se pode presumir conhecida de todos os cidadãos, nem se tem de exigir que o seja –

crimes artificiais ou mala prohibita, ou axiologicamente neutros.

Interpretação do art. 17º: erro de consciência sobre o dever ético-jurídico de respeitar i Direito. Pressupõe o dolo ou negligência, pressupõe o facto ilícito como todos os seus elementos objetivos e subjetivos. O erro não incide sobre a ilicitude, no sentido de exigir que o agente saiba que o facto é proibido, exige que tenha a consciência do seu dever de respeitar a proibição ou a imposição resultante da ordem jurídica.

5.2.4. Erro sobre as leis (ignorância das leis)

Erro sobre a proibição e a ilicitude ≠ erro sobre a lei, ou seja ignorância da lei ≠ ignorância da ilicitude ou da proibição

A ignorância ou erro sobre a lei não se relaciona com a falta de consciência da ilicitude.

O erro sobre a lei cabe no art. 16º e é excludente de dolo. Enquanto que no art. 16º o agente deve ter a ciência, o conhecimento do facto, no art. 17º o agente deve ter a consciência sobre a contrariedade do facto às leis, podendo ser necessário em certas circunstâncias, que ele tenha também conhecimento da própria lei que proíbe, e neste cas o desconhecimento da lei afasta desde logo o dolo, ressalvando-se a negligencia.

5.2.5. Erro sobre os pressupostos e requisitos de uma causa de justificação ou de exclusão da culpa (art. 16º/2)

Interpretação do art. 16º/2: erro de ciência, ou seja o agente configura uma situação factual, ‘’um estado de coisas’’, que na realidade não existe ou não existe coo é percebido, representado, supostamente pelo agente.

O erro sobre pressupostos de causa de justificação ou de exculpação é equiparado ao erro sobre os elementos do facto típico: o agente representa o facto e uma circunstância de modo que o facto a ser praticado naquela circunstancia não seria ilícito ou seria desculpável  erro-suposição: o agente supõe a existência de um estado de coisas que, a existir, excluiria a ilicitude do facto ou a culpa do agente. Ou seja, o agente não quer cometer o crime, nem representa cometê-lo, porque supõe a existência de uma situação de facto que justifica o seu ato ou o desculpa.

Nota: nem em todas as causas de exculpação pode ter lugar o erro (não há erro sobre

o erro nem erro sobre estados psicológicos), mas há causas de exculpação que são definida mediante um condicionamento objetivo (pressupostos) de que a lei infere uma realidade psicológica: motivo, finalidade ou emoção. Embora seja possível admitir a eventualidade do erro sobre os pressupostos ou elementos objetivos condicionantes dos elementos subjetivos, na sua essência o erro sobre os pressupostos

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das causas de exculpação da culpa é um erro sobre a existência do justo motivo ou determinante de justa perturbação emocional.

Erro sobre os requisitos de uma causa de justificação: o erro sobre a existência legal e os limites legas de uma causa de justificação constitui erro sobre a ilicitude do facto: o agente conhece as circunstancias de facto em que atua, mas pensa que há uma lei que lhe permite atuar desse modo.

 Dr. António Veloso: aplica-se o art. 16º/2 tanto para a suposição de pressupostos como para a de requisitos.

 Prof. Germano Marques da Silva: o erro sobre os requisitos é o erro sobre a lei, sobre os limites que a lei impõe para o facto seja justificado, verificados que sejam os pressupostos. Pode também configurar-se uma situação de erro e facto sobre os requisitos: o agente mede corretamente a natureza e a intensidade da agressão mas calcula mal o ato necessário para a afastar, usando de meio excessivo  erro equiparado ao erro sobre os pressupostos. Erro sobre a previsão legal de uma causa de justificação ou de exculpação: deve aplicar-se diretamente ou por analogia o regime do art. 17º  a persuasão pessoal da existência de uma lei permissiva do facto e o agente atua sem consciência da ilicitude, convencido que atua licitamente (erro indireto sobre a ilicitude).

5.2.6. Casos particulares de erro sobre normas e aberratio ictus.

Erro sobre a execução (aberratio ictus): o agente, por inabilidade, pratica um facto

que não quer praticar, não tendo representando o que praticou.

 Doutrina geral sobre o erro de representação relativamente ao facto efetivamente cometido em eventual concurso com o crime que o agente representou e quis cometer.

 Relativamente ao crime que o agente representou e quis cometer – tentativa; crime que praticou e não representou – negligência.

6. Negligência

Crimes meramente negligentes (art. 13º): são apenas os que estão especialmente

previstos na lei.

O núcleo essencial do crime negligente é a uma ação humana voluntária.

 No crime doloso pune-se a ação ou omissão dirigida objetivamente ao fim ilícito (o agente representou e quis o facto típico ilícito).

 No crime negligente pune-se a ação ou omissão mal dirigida, por falta de cuidado do agente, para um fim objetivo lícito ou ilícito, mas o ilícito é realizado, ainda quando previsto como possível, não querido pelo agente. À semelhança do dolo, a negligência assenta na possibilidade de evitar o facto típico enquanto esse facto é previsto ou previsível pelo agente, ou seja na possibilidade do sujeito representar o facto lícito e de se abster da conduta que o realiza.

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A Imputação a título de negligência fundamenta-se na violação voluntaria de regras de cautela impostas pela experiencia ou por normas legais ou regulamentares destinadas precisamente a prevenir a violação de bens jurídicos (diligencia objetiva). A negligência em si mesma consiste na falta de concentração das energias morais tendente a evitar que se pratiquem atos ilícitos, mas ela não representa uma atitude puramente negativa: a distração ou a tibieza de vontade são tao positivas como a atenção e a concentração do espirito.