Em 21 de fevereiro de 1890, apenas três meses após a deposição do imperador D. Pedro II e da monarquia brasileira, o novo governo
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republicano mudou o nome oficial do Largo do Rossio, então Praça da Constituição, para Praça Tiradentes, comemorando a aproximação do centenário da execução do mártir da Independência.26 Consta que
Tiradentes havia sido torturado e executado próximo daquele local, e o rebatismo da praça reafirmava os sentimentos antimonarquistas do novo regime republicano.27 Apesar da mudança do nome oficial, a pra-
ça continuou a ser o Largo do Rossio no imaginário e no linguajar dos cariocas da virada do século, e ainda era associada, pela maioria das pessoas, a um lugar de encontros eróticos homossexuais.
A praça Tiradentes era circundada por edifícios públicos em pro- cesso de remodelação, nas linhas do mais recente estilo arquitetônico francês. Como as ruas próximas ao parque eram também os terminais das linhas de bonde que serviam a Zona Norte da cidade, incluindo as áreas que receberam os antigos residentes do centro deslocados com a renovação urbana, esse espaço público alvoroçava-se em movimento. A localização estratégica da praça favorecia uma combinação eclética de teatros, os recentíssimos cinemas, uma sala de concertos que apresen- tava números musicais e espetáculos de variedades — o chamado teatro de revista —, sem mencionar os cabarés, cafés populares, além dos ba- res. A burguesia carioca frequentava o elegante e espaçoso Teatro São Pedro, enquanto os fregueses das classes média e operária tinham à mão uma série de distrações culturais, culinárias, libacionais e sexuais.28
Na virada do século, Pascoal Segreto, um imigrante italiano que se tornara empresário, construiu seu império do entretenimento na Praça Tiradentes. Entre seus investimentos estava a Maison Moderne, um par- que de diversões urbano que incluía uma pequena montanha-russa, um carrossel, roda-gigante, uma galeria de tiro ao alvo e, nos fundos, um pequeno teatro parcialmente aberto, além de um café onde os tra- balhadores costumavam tomar cerveja.29 Partindo desse e de vários
outros estabelecimentos modestos no ramo do entretenimento, Pas- coal Segreto expandiu seus negócios comprando ou alugando a maio- ria das casas públicas de espetáculo ao redor da praça. Quando mor- reu, em 1920, o humilde imigrante que começara como engraxate controlava a maioria dos teatros e cinemas do bairro, desde o elegante
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São Pedro, que incluía em sua programação os maiores talentos euro- peus, até as salas de shows, que exibiam as diversões apimentadas do momento para as classes populares do Rio de Janeiro.30
Bordéis e pensões aninhavam-se entre essas casas de diversão pú- blica nos arredores da praça, em edifícios que outrora serviram como amplas moradias para as famílias da elite. O desequilíbrio demográfico da cidade em favor de homens jovens e solteiros, especialmente imigran- tes, e o grande número de mulheres de baixa renda provenientes do campo e do estrangeiro favoreciam esse comércio sexual. As prostitutas variavam desde as francesas de alta estirpe, com o fascínio exercido por sua nacionalidade, e as recém-chegadas imigrantes judias da Europa oriental, conhecidas como polacas, até as mulatas claras.31 Os homens
das classes média e alta, que se lançavam a incursões boêmias e fuga- zes nesse submundo, podiam unir-se às prostitutas em estabelecimentos populares como o bar e restaurante Stadt München e o Café Suíço, am- bos numa rua que saía da praça.32 Quando não satisfeitos com o públi-
co desses locais de encontro, os homens cariocas podiam também pe- rambular por mais alguns quarteirões e buscar companhia ou prazeres carnais num outro vibrante centro da vida noturna do bairro da Lapa. Lojistas, estudantes e funcionários públicos modestos, que não podiam pagar pelos serviços sexuais de mulheres que ostentavam uma certidão de nascimento francesa, podiam ainda encontrar polacas das classes in- feriores e mulatas trabalhando na vizinhança da Praça Tiradentes.33
Embora essa não fosse a única zona de prostituição no centro do Rio, a proximidade de tantos teatros, lugares para comer e beber e ca- sas de entretenimento populares supriam de clientes as mulheres no ramo dos negócios sexuais, que os atendiam nos bordéis vizinhos ou na privacidade de um quarto alugado. Como vimos, as renovações ur- banas de Pereira Passos na primeira década do século haviam sido desenhadas para modernizar o centro do Rio e equiparar a cidade às capitais europeias. Apesar da resistência popular, o governo foi bem- -sucedido em expulsar dos bairros centrais grande parte da população de baixa renda, especialmente os afro-brasileiros. Contudo, o controle da prostituição na área nos dois primeiros decênios do século mante-
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ve-se esporádico.34 O número de jornalistas, intelectuais, artistas e po-
líticos de famílias bem-relacionadas que procuravam mulheres nos ar- redores da praça Tiradentes e em outras regiões do centro era elevado demais para que a polícia pudesse efetivamente ocupar-se em livrar essas áreas da prostituição feminina.35
Em meio a essa intensa atividade noturna que circundava o monu- mento ao primeiro imperador do Brasil, nos teatros escuros, sob as lu- zes oscilantes dos recém-inventados cinematógrafos, nos bancos e ar- bustos do parque, homens que buscavam outros homens para relações sexuais fortuitas beneficiavam-se da moralidade frouxa nessa parte da cidade para satisfazer seus próprios prazeres. O monarca montado con- tinuava a ser um ponto de referência para os encontros sociais e sexuais entre homens. O cronista carioca Luiz Edmundo lembra uma cena típi- ca de 1901: “Depois de oito horas da noite, moços de ares feminis, que falam em falsete, mordem lencinhos de cambraia, e põem olhos acar- neirados na figura varonil e guapa do Senhor D. Pedro I, em estátua”.36
Tanto os espaços públicos quanto as variadas opções de diversão ofereciam amplas oportunidades para que homens pudessem se agre- gar a outros homens com afinidades sexuais e sociais. A meia dúzia de teatros, a infinidade de bares, cabarés e as casas de espetáculos musicais populares também empregavam alguns desses homens como atores, dançarinos, cantores, garçons e funcionários para serviços di- versos. Um local favorito de encontro para esse grupo era o Café Cri- terium, localizado do outro lado da rua em frente ao parque, “onde param atores e mocinhos de voz aflautada, que usam pó de arroz e carmim” para socializar-se.37 Um desses jovens maquiados que fre-
quentavam o Largo do Rossio era José N., um vendedor de rua de 19 anos nascido na Turquia. Em 13 de abril de 1905, seu vizinho Baudí- lio G., um barbeiro espanhol de 45 anos, foi preso por chamar José N. de um “puto do Largo do Rossio”.38
A polícia acusou o barbeiro de ter violado o Artigo 282 do Código Penal, “Atentado Público ao Pudor”. Perante o tribunal, Maria dos An- jos, uma portuguesa que exercia a profissão de lavadeira, declarou ter testemunhado o fato de que às 10h30 da manhã daquele dia Baudílio
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havia se desentendido com o turco José N. Ela afirmou que o homem mais velho o chamara de “puto, safado, puto do Largo do Rossio” e que tais palavras imorais tinham sido ouvidas por muita gente, incluin- do algumas meninas novas. Três outros vizinhos, dois imigrantes e um brasileiro, repetiram o testemunho de Maria dos Anjos.
Em seguida, o jovem turco, que vivia no mesmo edifício que o acusado, foi chamado a depor, e também confirmou a versão dos fa- tos fornecida pela lavadeira portuguesa. José N. acrescentou que Bau- dílio G. o havia acusado de ter “tomado sua mulher” e que “estava com o rosto pintado”. O acusado, Baudílio G., apresentou uma versão diferente da troca de desaforos. Segundo o espanhol, ele ficara furio- so com José “por motivos da honra”.39 Ele ainda confirmou que cha-
mara José de “puto”, porque o turco usava ruge em sua face. O bar- beiro acabou sendo isentado das acusações.
No Rio de Janeiro da virada de século, as rivalidades raciais e na- cionais entre imigrantes e escravos recém-libertos formavam um con- flituoso pano de fundo para as interações sociais da classe trabalhado- ra.40 Essa contenda específica, travada na arena pública de um bairro
de classe operária e envolvendo tanto afro-brasileiros quanto imigran- tes espanhóis, portugueses e um turco, indica que a acusação de “ser um puto” podia unir diversos grupos contra um inimigo comum da moral social — o homem efeminado que, segundo se supunha, traba- lhava como prostituto. O registro não indica se José, um imigrante re- cém-chegado que ainda assinava seu sobrenome no registro da polícia conforme a grafia de seu país de origem, era de fato um “puto”, ou seja, que tinha relações sexuais com outros homens no Largo do Ros- sio em troca de dinheiro. Contudo, embora Baudílio G. fosse acusado formalmente pela ofensa de ter proferido a palavra “indecente” puto, o jovem vendedor de rua foi quem acabou sendo julgado. A indumen- tária pessoal de José e possível fonte secundária de renda tornou-se o objeto de escrutínio público. O fato de usar ruge e outros acessórios marcadamente femininos representava um comportamento inadequa- do e imoral, que merecia a condenação social. A resolução do caso isentou Baudílio, embora várias testemunhas, incluindo o próprio acu-
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sado, admitissem que o barbeiro tinha de fato pronunciado a expres- são “indecente”. Embora o uso da palavra “puto” escandalizasse a vi- zinhança, ser um puto era uma infração muito maior.
No Brasil colonial, e também em Portugal, o termo puto era em- pregado para referir-se ao “moço, que se prostitue ao vicio dos sodo- mitas, ou a mollicie, e masturpação [sic]”.41 Era uma versão popular do
antigo termo sodomita, de origem bíblica, e o modo empregado pela religião e a lei para descrever pessoas que praticavam sexo anal com homens ou mulheres. Durante a belle époque brasileira, o estereótipo mais comum sobre os homens que praticavam sexo com outros ho- mens enfatizava sua ligação com a prostituição. Físicos, políticos, ad- vogados, intelectuais e artistas retrataram os sodomitas modernos como homens efeminados que praticavam sexo anal como elementos passivos e ganhavam a vida com a prostituição nas ruas. Como vere- mos no decorrer deste trabalho, a conexão entre a prostituição, a efe- minação no homem e a homossexualidade persistiu como uma forte representação do comportamento homoerótico até a segunda metade do século XX, quando surgiram noções alternativas de identidade se- xual que contestaram esse paradigma dominante.
Em algum momento no fim do século XIX, tornou-se popular no Brasil uma nova expressão pejorativa, fresco. Francisco José Viveiros de Castro, professor de criminologia na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro e desembargador da Corte de Apelação do Distrito Federal, empregou o termo no livro Attentados ao pudor: estudos sobre as aber-
rações do instincto sexual, de 1894. No capítulo intitulado “Pederas-
tia”, ele descreveu os “frescos” do Rio de Janeiro, referindo-se aos ho- mens que, em 1880, nos últimos anos do Império, invadiram o baile de máscaras do carnaval no Teatro São Pedro, no Largo do Rossio: “Um destes frescos, como eram elles conhecidos na gyria popular, tor- nou-se celebre pelo nome de Panella de Bronze. Vestia-se admiravel- mente de mulher, a ponto de enganar os mais perspicazes. Dizem que chegou a adquirir alguma fortuna por meio de sua torpe industria e que era tão grande o numero de seus frequentadores, pessoas de po- sição social, que era necessário pedir com antecedência a entrevista”.42
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No Brasil, na virada do século, a palavra fresco, com o duplo sen- tido de “puto” e também conotando frescor, jovialidade ou amenidade no clima, tornou-se o termo ambíguo comum usado para zombar dos homens efeminados ou daqueles que supostamente mantinham rela- ções anais “passivas” com outros homens. Além disso, os frescos es- tavam intimamente associados com o Largo do Rossio. Os múltiplos usos do termo apareceram no Dicionário moderno, uma pequena compilação satírica da gíria erótica e pornográfica publicada em 1903: “Fresco — Adjetivo arejado de modernização depravada. Quase frio, ameno, suave, que não tem calor nem quenturas. Que faz frescuras, que tem o sopro da brisa. Encontra-se muito nos morros e no largo do Rossio”.43 Não se tratava apenas de um espaço associado com o
fresco, mas a imagem evoca uma relação entre a degeneração social e a modernização, como se o processo de urbanização e a transfor- mação dos costumes tradicionais fossem os culpados pelo comporta- mento homoerótico. Como veremos adiante, os profissionais médicos e jurídicos que comentaram o assunto nesse período traçaram parale- los similares entre a homossexualidade e a modernização.
A renovação do Largo do Rossio, como parte do projeto de reur- banização do início do século XX, deu motivo para que um chargista conectasse os frescos à praça. Um desenho a nanquim e um poema sar- dônico intitulado “Fresca Theoria (Requerimento)” foram publicados em 1904 em um número da revista O Malho, especializada em humor e sátira política (Figura 2). A charge mostrava um homem com um cha- péu de palha da moda, gravata borboleta florida, paletó justo e curto e calças coladas e chamativas fazendo ressaltar as nádegas e dando a sua figura um formato em S, a pose clássica da mulher nas ilustrações da virada do século. Seu dedo indicador descansa pensativamente no queixo, enquanto ele pondera sobre sua nova ideia e o pedido que vai fazer à Prefeitura da cidade. Atrás dele, há um jardim com a estátua de D. Pedro I no fundo, uma referência óbvia ao Largo do Rossio. Como o recente replanejamento do paisagismo do parque reduziu tempora- riamente o acesso às áreas para os encontros e o flerte, o protagonista, representado pelo artista como um prostituto, viu-se desempregado. No
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poema lê-se: “Ante a cruel derrocada/ Do Rocio dos meus sonhos,/ A musa desoccupada,/ Embora em versos tristonhos, /Vai jogar uma car- tada: // É bem dura a collisão/ Que me tolhe a liberdade/ Desta in- grata profissão;/ E ao prefeito da cidade/ Requeiro indemnisação!...”44
FIGURA 2 — As charges que retratavam os homens efeminados, nas ruas em busca de prazeres sexuais com outros homens, também os ligavam à Praça Tiradentes. Ilustração de O Malho (Rio de Janeiro), v.3, n.93, jun. 1904, p.31, cortesia da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.
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Do mesmo modo que o barbeiro espanhol que acusou José N. de usar maquiagem e de ser um “puto do Rossio”, o autor desse poema associa a praça à efeminação e prostituição masculinas, como se o sexo entre homens apenas fosse possível mediante a troca de dinhei- ro. Na charge, o almofadinha considera até mesmo a possibilidade de requerer à prefeitura algum tipo de indenização por conta da tempo- rária interdição da praça. O estereotipado dândi, que carece de um comportamento masculino e alimenta ideias descabidas, é prontamen- te identificado com a prostituição homossexual. Assim como os vizi- nhos operários de José N. relacionaram o fato de ele usar maquiagem com o Largo do Rossio e com a prostituição masculina, podemos su- por que o leitor de classe média de O Malho entendeu a constelação de indicadores convergindo na ridicularizada figura do fresco.
A conjunção entre modos particulares de se vestir, a prostituição, o comportamento exageradamente não masculino, o termo fresco e a especificidade do Largo do Rossio como um espaço privilegiado para aventuras eróticas entre pessoas do mesmo sexo aparecem em outra charge publicada no mesmo período em O Malho (Figura 3). A ilustra- ção, intitulada “Escabroso”, capta a cena de dois homens conversan- do. Um deles é um homem maduro, corpulento, quase monstruoso em tamanho, com cavanhaque, bengala, e de uma aparência mascu- lina um tanto grosseira. O outro personagem, um homem de consti- tuição bem mais franzina e um bigode bastante sutil, está vestido de modo estiloso e tem uma flor na lapela. Ele olha para baixo, recata- damente, e segura um leque na mão esquerda. O dedo mindinho cur- vado sugere efeminação. Sua outra mão acaricia a beirada do leque. O homem mais delicado comenta: “Mas que calor tem feito! Não há cajuada, nem refrescos que cheguem ... seu comendador! Calcule que todas as noites levo ... à procura de algum lugar em que possa haver fresco”. E o outro responde: “O largo do Rossio não serve?”.45
Mais uma vez, um jogo de palavras permite que o chargista retrate as noções sociais correntes sobre o fresco e seu território. O cavalheiro corpulento, masculino, é capaz de classificar seu amigo pudico e re- servado e de relegá-lo a um território urbano onde ele possa se refres-
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car, e ao mesmo tempo se aquecer com alguma aventura sexual. O artista opera com a suposição de que o leitor médio conhece a gíria usada para o homem efeminado e, portanto, entende o duplo signifi- cado de seu comentário. É interessante notar que essa charge provo- cou um comentário em Rio Nu, uma publicação erótica lançada em FIGURA 3 — Homem pequeno: “Mas que calor tem feito! Não há cajuada, nem refrescos que cheguem ... seu comendador! Calcule que todas as noites levo ... à procura de algum lugar em que possa haver fresco”. Homem grandalhão: “O largo do Rossio não serve?”. Ilustração de K. Lixto [Calixto Cordeiro], O Malho (Rio de Janeiro), v.2, n.20, 28 mar. 1903, p.14, corte- sia da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.
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1898 que trazia em suas páginas mulheres seminuas, cartuns picantes, contos e colunas de fofocas.46 Referindo-se à charge, o editor da re-
vista comentou: “O Malho de sábado último trouxe uma gravura que representava um velhote conversando com um pequeno todo catita, todo apertadinho, com ares de sinhazinha (dos tais do largo do Ro- cio)”. Depois de reproduzir o diálogo impresso entre os dois persona- gens, o editor comenta de modo sarcástico: “Ora, seu Malho, você que tem a pretensão de jornal sério e que diz que as famílias o leem pu- blica inocências como esta? Se fosse n’O Rio Nu era pornografia, no
Malho é humorismo”.47
Segundo Cristina Schettini Pereira, que estudou a pornografia bra- sileira na virada do século, o editor de Rio Nu usou a charge para des- tacar o perfil da revista em comparação com seus concorrentes.48 Ao
caracterizar como hipócrita a atitude dos editores de O Malho pelo fato de ter publicado a ilustração com suas referências explícitas ao com- portamento homoerótico, Rio Nu efetivamente traça o limite entre o aceitável e o não aceitável na moralidade da classe média. Fazendo isso, Rio Nu marcou sua posição eminente na área do jornalismo satí- rico e ridicularizou seus concorrentes por seu moralismo de classe mé- dia. Piadas sobre frescos, embora apropriadas numa revista dedicada ao humor pornográfico, transgrediam os limites da respeitabilidade quando encontradas em publicações que atendiam a um público fa- miliar, ou pelo menos assim argumentaram os editores de Rio Nu.