2. INSERÇÃO DO PARADIGMA AMBIENTAL NAS POLÍTICAS DE EXPANSÃO
2.3 Modelo de Regulação Ambiental no Brasil
2.4.2 Instrumentos do Tipo Comando e Controle
2.4.2.3 Estudo de Componente Indígena (ECI)
Os Estudos de Componente Indígena se apresentam como instrumentos indispensáveis para o processo de licenciamento ambiental de empreendimentos que envolvem Terras Indígenas em sua Área de Influência.
Os procedimentos a serem adotados no âmbito do licenciamento ambiental estão dispostos na Portaria Interministerial nº 060 de 24 de março de 2015 (em substituição à Portaria Interministerial 419/2011) e na Instrução Normativa nº 02 de março de 2015 (em substituição à IN 01/2012- modificada pela IN 04/2012).
Considerando as competências da Funai, que visam à proteção do modo de viver e das terras de propriedade de indígenas, cabe a este órgão emitir Termo de Referência183 para a realização dos estudos do componente indígena, que devem ser elaborados concomitantemente à elaboração do EIA e do RIMA, referentes ao mesmo empreendimento.184
Caso sejam constatados impactos do empreendimento sobre a comunidade indígena e sua terra, é elaborado o Plano Básico Ambiental – PBA para as comunidades indígenas, cujo detalhamento técnico das ações indicadas cabe à Funai.
No caso da UHE São Manoel, foi exigida a elaboração de dirigido “Estudos Socioambientais do Componente Indígena, no Âmbito do EIA/RIMA dos Projetos UHE Foz do Apiacás e São Manoel”, cujo Termo de Referência foi emitido pela Funai, em 02 de outubro de 2009.
Nos termos desses Estudos, foram enumeradas como atividades necessárias:
Programar a realização de levantamentos de dados primários em todas as Aldeias das etnias Kayabi e Apiaká na Terra Indígena Kayabi, considerando a participação de indígenas nas equipes de campo;
183 Portaria Interministerial nº 060/2015: Art. 2º Para os fins desta Portaria entende-se por: (...) X - Termo de
Referência-TR - documento elaborado pelo IBAMA que estabelece o conteúdo necessário dos estudos a serem apresentados em processo de licenciamento ambiental e que contempla os conteúdos apontados pelos Termos de Referência Específicos;
Instrução Normativa nº 02/2015: Art. 7º Após a consulta referida no art. 6º, a CGLIC consolidará Termo de Referência Específico contendo as exigências de informações ou de estudos específicos referentes à intervenção da atividade ou empreendimento em terra indígena, a fim de subsidiar a realização dos estudos dos impactos relativos ao componente indígena do licenciamento.
184 Portaria Interministerial nº 060/2015: Art. 7º Os órgãos e entidades envolvidos no licenciamento ambiental
deverão apresentar ao IBAMA manifestação conclusiva sobre o estudo ambiental exigido para o licenciamento, nos prazos de até noventa dias, no caso de EIA/RIMA, e de até trinta dias, nos demais casos, contado da data de recebimento da solicitação, considerando: I - no caso da FUNAI, a avaliação dos impactos provocados pela atividade ou pelo empreendimento em terras indígenas e a apreciação da adequação das propostas de medidas de controle e de mitigação decorrentes desses impactos; (...)
Levantar dados secundários sobre as terras e etnias indígenas envolvidas, abrangendo informações sobre as Aldeias da etnia Munduruku (Terra Indígena Kayabi), da Terra Indígena Pontal dos Apiaká (em estudo – etnia Apiaká) e da Terra Indígena Munduruku (etnia Munduruku). Esta pesquisa deve incluir: o Levantamento Etno-ecológico da Terra Indígena Munduruku, elaborado pelo Programa de Proteção às Populações e Terras Indígenas da Amazônia Legal – PPTAL/FUNAI; os relatórios de estudos de identificação e ampliação de terras indígenas na região, realizados no âmbito da Diretoria de Assuntos Fundiários – DAF/FUNAI, pelo Grupo Técnico instituído pela Portaria no 1023, de12/09/2008; e estudos e relatórios referentes à criação do Parque Nacional do Juruena;
Programar a realização de reuniões com as comunidades indígenas, para: apresentação da equipe, dos objetivos e metodologia dos trabalhos; apresentação dos empreendimentos, dos processos de licenciamento ambiental e das especificidades em relação às terras indígenas; apresentação dos resultados dos EIA/RIMA e dos estudos complementares; colher novas questões eventualmente apresentadas pelas comunidades indígenas para abordagem nos estudos;
Programar a realização de reuniões com a EPE, para acompanhamento dos estudos;
Realizar o estudo enfocando o cenário atual de interações entre as comunidades indígenas, os recursos naturais da região e a sociedade envolvente, além da relação dos grupos indígenas com os rios que atravessam ou delimitam suas terras;
Realizar os estudos de forma a permitir sua integração aos EIA/RIMA dos projetos;
Elaborar análise integrada do contexto regional e dos impactos ambientais e sociais dos projetos de aproveitamento hídrico na região, suas interações e sinergias;
Elaborar cenários para avaliação dos impactos ambientais das UHE São Manoel e Foz do Apiacás, de acordo com as possibilidades de implantação;
Realizar o estudo garantindo o cumprimento da legislação vigente e das normas estabelecidas.185
Após a complementação dos estudos pela EPE, tal como requerido pelo órgão indigenista (Of. 579/2010/DPDS-FUNAI-MJ, de 25/08/2010 - Informação Técnica n° 200, de 15/07/2013), no mês de novembro de 2013, a Funai encaminha manifestação positiva ao Ibama (Of. 255/2013/PRES/FUNAI-MJ); o que acabou por permitir a emissão da Licença Prévia.
Conforme ser verá mais adiante, não obstante a manifestação favorável expressa pela Funai – único órgão competente para se manifestar sobre indígenas ‒ quanto ao processo de licenciamento ambiental da UHE São Manoel, cuja implantação poderá, de fato, impactar a população indígena local, as ações judiciais interpostas questionam o conteúdo do ECI sob a alegação de que não há certeza sobre os verdadeiros impactos decorrentes da usina, e que, em nome do Princípio da Precaução186, o processo de licenciamento ambiental deve ser sobrestado.
185 EPE / AGRAR. Estudos do componente indígena das UHE São Manoel e Foz Do Apiacás - Terras Indígenas
Kayabi, Munduruku e Pontal dos Apiaká. Disponível no sítio eletrônico: ongverde.org/doc_pdf/ tribos_dos_apiakas.pdf. Acesso em: 18/12/2016.
186 ACP 0013839-40.2013.4.01.3600. Trecho da petição inicial: “Em nome do princípio da precaução, não há
A esse argumento, alia-se a alegação da necessidade de consulta livre e informada aos indígenas na forma da Convenção n° 169 sobre povos indígenas e tribais e Resolução Organização Internacional do Trabalho (OIT)187 (promulgada pelo Decreto nº 5.051, de 19 de abril de 2004).