2 CENÁRIOS PROSPECTIVOS NA EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA
2.1 PLANEJAMENTO E ESTUDOS PROSPECTIVOS
2.1.4 Estudos prospectivos: trajetória e conceitos
O sentido da palavra prospectivo é evidente. Ela se opõe a retrospectivo, pois se olha para frente e não para trás. “Um estudo retrospectivo examina o passado, enquanto que uma pesquisa prospectiva se dedica a estudar o futuro” (BERGER, 2004, p. 312).
Gaston Berger, filósofo e pedagogo francês, foi o primeiro a empregar o termo “prospectiva” em sua obra A atitude prospectiva, de 1957. A nova terminologia tinha por objetivo mostrar a necessidade de uma atitude orientada para o futuro. Berger utilizou a palavra “prospectiva” porque a palavra “previsão” estava impregnada do sentido de profecia. Tinha, portanto, o objetivo de “separar também os conceitos de previsão (construir um futuro à imagem do passado) e prospectiva (em que o futuro é decididamente diferente do passado)” (MARCIAL E GRUMBACH, 2008, p. 28).
Os estudos prospectivos constituem elemento importante do processo de planejamento, haja vista a orientação que oferecem para as tomadas de decisões sobre iniciativas e ações para a construção de um futuro almejado pela sociedade e instituições. A própria atividade planejadora tem como elemento balizador o fato de o futuro não estar predeterminado e ser uma construção social, resultante das ações e das decisões da sociedade. O processo de planejamento não teria nenhum sentido se a natureza e a sociedade tivessem histórias futuras já traçadas, eliminando qualquer espaço de liberdade para definir o próprio futuro (GODET, 1993).
Os termos mais empregados para estudos prospectivos e estudos sobre futuro são: Forecast(ing), Foresight(ing), Future studies, La
Prospective, Futuribles, Scenarios, Technology Assessment, Technological Watch, Veille Technologique, Environmental Scanning e Vigilancia Tecnológica. Essas abordagens, técnicas e métodos são
denominados como análise de tecnologias do futuro (TFA), por Porter (1992) e diversos especialistas, tendo seu amadurecimento ocorrido de maneira isolada, sem muito intercâmbio entre os especialistas. TFA abrange estudos amplos de foresight e assessment do setor público e estudos de technology forecasting e intelligence do setor privado.
No Brasil, os termos prospecção, prospectiva e estudos do futuro têm sido utilizados de forma similar. No entanto, considerando a evolução dos conceitos e das práticas que buscam incorporar elementos culturais, sociais e estratégicos aos exercícios prospectivos, parece mais coerente denominar essa atividade como “prospecção em ciência, tecnologia e inovação, buscando ressaltar a tendência atual de ampliar o alcance desse tipo de estudo” SANTOS et al. (2004, p. 192), para áreas ligadas, por exemplo, a Gestão do Conhecimento. As definições apresentadas pela literatura, de modo geral, colocam os estudos prospectivos ou estudos de futuro como categorias mais amplas que incorporam o conjunto de metodologias e técnicas, dentre elas a construção de cenários ou “cenarização”. Esses estudos são voltados, essencialmente, às organizações privadas nos setores de serviços e tecnologia, sobretudo no campo da economia.
Segundo Santos et. al (2004, p. 193-6) existem diversas definições para o termo prospecção ou estudos de futuro, enunciados por inúmeros autores. Algumas dessas definições, elencadas abaixo, são extraídas do texto “Prospecção de tecnologias de futuro: métodos, técnicas e abordagens”, de Santos, conforme segue:
Coates define atividade prospectiva como um processo mediante o qual se chega a uma compreensão mais plena das forças que moldam o futuro de longo prazo e que devem ser levadas em conta na formulação de políticas, no planejamento e na tomada de decisões. A atividade prospectiva está, portanto, estreitamente vinculada ao planejamento.
A abordagem de Horton defende foresight como um processo de desenvolvimento de visões de possíveis caminhos nos quais o futuro pode ser construído, entendendo que as ações do presente contribuirão com a construção da melhor possibilidade do amanhã.
Martin e outros especialistas definem foresight como um processo que se ocupa em, sistematicamente, examinar o futuro de longo prazo da ciência, da tecnologia, da economia e da sociedade, com o objetivo de identificar as áreas de pesquisas estratégicas e as tecnologias emergentes que tenham a propensão de gerar os maiores benefícios econômicos e sociais.
Segundo Hamel e Prahalad, autores que se ocupam do universo empresarial, o entendimento sobre foresight deve refletir o pensamento de que a previsão do futuro precisa ser fundamentada em uma percepção detalhada das tendências dos estilos de vida, da tecnologia, da demografia e geopolítica, mas que se baseia igualmente na imaginação e no prognóstico.
Para Michel Godet, La Prospective aproxima-se do conceito de
foresight. La Prospective não é apenas um enfoque exploratório
(antecipação estratégica), mas representa também um enfoque normativo (desejado). É o espaço no qual o sonho fecunda a realidade; conspirar por um futuro desejado é não sofrer mais pelo presente. Assim, a atitude prospectiva não consiste em esperar a mudança para reagir – a flexibilidade por si mesma não leva a lugar nenhum – mas sim controlar a mudança no duplo sentido, no de pré-atividade (preparar-se para uma mudança esperada) e no de pró-atividade (provocar uma mudança desejada): o desejo é a força produtiva do futuro.
Considerando a origem e desenvolvimento histórico dos estudos prospectivos, notadamente no tocante à ferramenta estratégica para planejamento de longo prazo, a literatura faz referências a alguns fatos marcantes destacando que, embora a preocupação e o interesse em conhecer o futuro sejam antigos, a abordagem como metodologia prospectiva é relativamente recente.
As primeiras referências sobre os “planejadores do futuro”, segundo Cristo (2002, p. 2) foram os profetas, presentes nas religiões judaica, cristã e islâmica. Na Grécia, o futuro era “predito” nos oráculos, locais onde adivinhos, sacerdotes e sacerdotisas realizavam a predição (discurso sobre uma condição futura). O mais famoso foi o Oráculo de Apolo, na antiga cidade grega de Delphos (o método Delphi homenageia o oráculo de Delphos).
Marcial e Grumbach (2008, p. 24) informam que inúmeras passagens bíblicas denotam a preocupação em conhecer o futuro. No entanto, as visões de futuro aparecem como profecias ou como predições realizadas sob inspiração ou influência sobrenatural ou mística, alegada ou realmente experimentada pelo profeta. Na Idade Média os magos, bruxos e alquimistas também descreviam suas visões sobre o futuro, restritas às profecias e especulações. A preocupação com o futuro, utilizando a ciência como aliada, iniciou com o Renascimento associada a algumas correntes filosóficas. No século XX, novos pensadores abordam o futuro: George Wells com o livro “História do
futuro” propunha que estudos históricos, econômicos e sociais fossem
realizados visando sempre ao futuro; “O futuro da inteligência” de Vernon Lee e “O futuro da ciência” de Berthand Russel. Em 1930, uma obra literária ficcionista tornou-se famosa: o Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley que descreve um mundo perverso, comandado por homens oriundos de proveta de laboratório.
O século XX é marcado pelas duas grandes guerras e um conjunto de restrições financeiras que vieram em sua esteira e que, por
outro lado, favoreceram a criação de instrumentos e técnicas de planejamento mais probabilísticos e criteriosos objetivando prever eventos em diversas áreas, tais como social, econômica e ecológica. Assim, surgem na década de 1960 na Califórnia, a “Rand Corporation”, e posteriormente o “Hudson Institute”, como centros de referência de estudos prospectivos. Personalidades como Jacques Lesourne, Herman Kahn e Michel Godet e estudos como o “World Dynamic”, sobre sistema ecológico e o estudo prospectivo da “Shell”, que, em 1969 possibilitou uma visão de futuro de um possível choque do petróleo e cuja consequente estratégia levou a “Shell” a obter petróleo no Mar do Norte, colocando-a em segundo lugar no “ranking” da sua categoria.
Thiesen destaca que:
Com o advento da globalização e com a ferocidade do atual modelo econômico, associados ao avanço das tecnologias da informação, os estudos prospectivos ganham maior espaço, figurando como uma das principais ferramentas de planejamento estratégico tanto nas organizações econômicas quanto estatais (THISEN, 2011, p. 22).
A construção histórica da prospectiva no século XX destacando as principais obras e eventos pode ser visualizada no Anexo D.
Nos Estados Unidos da América, principal berço dos primeiros movimentos mais "extravagantes" sobre o futuro, após a Rand
Corporation e na sequência de preocupações manifestadas pelos vários
Presidentes, foram surgindo organizações nos mais variados pontos do país, especialmente junto de importantes universidades.
Surgiram assim o Stanford Research Institute (SRI), Institute for
Alternative Futures (Alexandria - VA), Studies of the Future da
Universidade de Houston - Clear Lake, o Institute for the Future Studies IFTF), o Worldwatch Institute, a Global Business Network (GBN), o
Boston Consulting Group (BCG), a Foundation For de Future, a Coates & Jarrat, Inc, o The Future Institute do Rio Salgado College no
Arizona, o Emerging Technologies Project da Universidade George Washington, o Harrison Programme on the Future Global Agenda da Universidade de Maryland, o The Institute for Advanced
Interdisciplinary Research (IAIR) de Houston, a Northead Consulting Resources Inc (NCRI), o The Da Vinci Institute de Longmont no
Colorado, etc., para além de outras preocupações manifestadas pelo congresso americano.
Atualmente, uma das mais dinâmicas organizações norte- americanas, no âmbito da prospectiva e/ou dos estudos sobre o futuro, é a World Future Society9 – WFS –, uma organização sem fins lucrativos educacionais e científicos, em Maryland, EUA, fundada em 1966. A sociedade investiga como o desenvolvimento social, econômico e tecnológico estão moldando o futuro. A WFS reúne mais de 30.000 membros de cerca de 80 países, que publica várias revistas, jornais e livros e organiza conferências anuais e temáticas.
Outros projetos no campo dos estudos do futuro também ganham reconhecimento mundial e servem como trabalhos de planejamento estratégico nas organizações. Como exemplos, destacam-se: The 2050
Project (WHO); AD 2000 – The Millennium Project (Open University);
Agenda 21 (UN Dynamics intainable Development); Air Force 2025;
Space Cast 2020 (USAF); System Dynamics in Educacion Project; Task Force on Alternative Futures for the Department of Energy, Technology Directions of the 21 st Century (NASA); Technology Foresight Programme (UK Office of Science & Technology); United Nations Commission on Global Governance; The World of 2020 and Alternative Futures; NEA – National Education Association e a GBN – Global Bussiness Network.
Em linhas gerais, pode-se afirmar que a origem dos estudos prospectivos está relacionada às experiências desenvolvidas na Europa, inicialmente pela França, com foco no planejamento público especialmente no campo das políticas sociais e nos EUA, com trabalhos mais direcionados para questões globais envolvendo as áreas de economia e segurança.