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II. A INTEGRAÇÃO NAS CONSTITUIÇÕES DOS ESTADOS MEMBROS DA

5. SEGUNDO ALARGAMENTO: 1981 a 1986

5.1. GRÉCIA

5.1.1. Histórico da Constituição grega

A Grécia tornou-se independente em 1830, após a assinatura do Protocolo de Londres por França, Reino Unido e Rússia. A Constituição grega atual é de 11 de junho de 1975 e assinalou o retorno da Grécia à democracia após sete anos de ditadura militar. Sua adoção foi precedida de referendo (dezembro de 1974), que aboliu a monarquia constitucional estabelecida pela Constituição de 1952, anterior ao golpe militar, e optou por um governo democrático republicano.

A Grécia é um Estado unitário, descentralizado e sem características federais, formado por unidades funcionais ou geográficas com personalidade jurídica e poderes administrativos. Os poderes legislativo e judiciário são centralizados, e o executivo é composto por serviços descentralizados de ministérios combinados com serviços externos dos ministérios dentro de prefeituras e regiões.222

A Grécia não tem corte constitucional e o controle de constitucionalidade é feito de maneira descentralizada. A uniformidade de julgamento das cortes mais altas na hierarquia é garantida pela Suprema Corte Especial (―Special Highest Court‖).

O Conselho de Estado grego, a corte administrativa suprema do Estado, ao exercer competência consultiva,223 seguiu a jurisprudência do TJCE sobre a primazia do direito comunitário (Conselho 406/1980). O mesmo Conselho (Decisão 297/1985) julgou que, como a Constituição reconhece a primazia de tratados internacionais apenas em

221 Ano de adesão: 1981. Sistema político: República.

222 PRAKKE, Lucas; KORTMANN, Constantijn. Constitutional Law of 15 EU Member States, p.379.

223A Constituição grega atual determina as competências do Conselho de Estado no art.95. O Conselho de

Estado deverá julgar pedidos de anulação de atos administrativos, julgar pedidos de revisão de decisões das cortes administrativas, julgar recursos interpostos por servidores contra as decisões dos conselhos aos quais estão vinculados que o tenham demitido. Finalmente, a Constituição estipula competência não-judicial, a de elaboração de decretos de natureza regulatória (art.95.1.d, ―decrees of a general regulatory nature‖). Informação obtida em: http://www.ste.gr (endereço do Conselho de Estado). Acesso: 23.12.2010.

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relação às leis, a acessão da Grécia às Comunidades Europeias não alteraria o fato e, portanto, não haveria primazia de qualquer sistema legal sobre a Constituição. Esse entendimento foi reiterado em decisões posteriores (Decisões 1809/1997 e 3242/2004). Na Decisão 3242/2004, o Conselho julgou que enviar questão prejudicial, relativa à compatibilidade de artigo da Constituição com o direito europeu,224 para a apreciação do TJCE não faria sentido, pois o juiz grego é obrigado a julgar em conformidade com a Constituição. Com isso, decidiu-se que, até a criação de uma Constituição europeia, não é permitido que qualquer norma tenha primazia sobre a Constituição grega. Conforme a bibliografia consultada, conflitos entre o direito europeu e disposições constitucionais são raros na Grécia.225

5.1.2. Análise de artigos selecionados

O art. 28 da Constituição grega coloca as regras de direito internacional como integrantes do ordenamento doméstico, prevalecendo sobre qualquer disposição contrária da lei interna. Tanto os princípios de direito internacional como as convenções internacionais integram o ordenamento jurídico em posição hierárquica superior à das leis e inferior à da Constituição.226 Permite, ademais, que as autoridades definidas pela Constituição sejam transferidas por tratado a ―agências de organizações internacionais‖,227 o que implica na primazia das regras estabelecidas por essas organizações sobre a Constituição.228 Além dessa disposição, o artigo afirma que a Grécia pode limitar sua soberania, por intermédio de lei, se determinado por relevante interesse nacional.229 Os

224 Discutiu-se a constitucionalidade do art.14.9, que estabelece diretrizes para os detentores de meios de

comunicação na Grécia, e dá outras providências nesse sentido.

225 SPYROPOULOS, Philippos C.; FORTSAKIS, Theodore P. IEL Constitutional Law. Constitutional law in Hellas. Kluwer International Law, p.63.

226 SPYROPOULOS, Philippos C.; FORTSAKIS, Theodore P. IEL Constitutional Law. Constitutional law in Hellas. Kluwer International Law, p.79.

227 Como se verá adiante, a Constituição grega menciona, em seu art.28.2, as ―agências de organizações

internacionais‖ (―agencies of international organizations‖) sem, contudo, definir tais agências. Utilizou-se a mesma expressão para retratar o direito grego, porém não é possível definir exatamente o que seria uma ―agência‖ de organização internacional.

228 PRAKKE, Lucas; KORTMANN, Constantijn. Constitutional Law of 15 EU Member States, p.378. 229 Article 28 1. The generally recognised rules of international law, as well as international conventions as of

the time they are ratified by statute and become operative according to their respective conditions, shall be an integral part of domestic Greek law and shall prevail over any contrary provision of the law. The rules of

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parágrafos 2 e 3 do art. 28 foram incluídos na Constituição grega como base para a acessão às Comunidades Europeias. A redação desses parágrafos é confusa, uma vez que o art. 28.2 está, de certo modo, contido no art. 28.3. A lei que limita a soberania nacional requer maioria simples, enquanto é necessária maioria de três quintos para a transferência de autoridades descritas na Constituição a ―agências de organizações internacionais‖. O ato que aprovou o TCE (Ato 945/1979) foi votado com a maioria de três quintos, o que evita qualquer problema nesse sentido. Apenas em 01 de janeiro de 1981, quando o Ato 945/1979 entrou em vigor, o direito comunitário adquiriu força de lei doméstica. O art. 28 possui regra interpretativa, inserida na Constituição em 2001 para disseminar qualquer possível dúvida e dispensa maiores comentários: ―Article 28 constitutes the foundation for the participation of the Country in the European integration process‖.230 Essa disposição promove clara diretriz para a transferência de poderes à UE.

O art. 36231 trata das atribuições do Presidente da República e menciona, em seu item 2, a possibilidade de participação em organizações ou uniões internacionais, ressalvando-se a necessidade de prévia ratificação por lei aprovada pelo Parlamento.

international law and of international conventions shall be applicable to aliens only under the condition of reciprocity. 2. Authorities provided by the Constitution may by treaty or agreement be vested in agencies of international organizations, when this serves an important national interest and promotes cooperation with other States. A majority of three-fifths of the total number of Members of Parliament shall be necessary to vote the law ratifying the treaty or agreement. 3. Greece shall freely proceed by law passed by an absolute majority of the total number of Members of Parliament to limit the exercise of national sovereignty, insofar as this is dictated by an important national interest, does not infringe upon the rights of man and the

foundations of democratic government and is effected on the basis of the principles of equality and under the condition of reciprocity.

230Apesar de a Constituição grega não definir o termo, as ―cláusulas interpretativas‖ constam ao final do

artigo que se propõem interpretar, sempre acompanhadas expressamente do título ―cláusula interpretativa‖, oferecendo ao leitor do texto constitucional uma diretriz que aponta para o modo como tal artigo deva ser interpretado. A cláusula interpretativa do art.28 define que ele consiste na fundação para a participação da Grécia na União Europeia.

231 Article 36.1. The President of the Republic, complying absolutely with the provisions of article 35

paragraph 1, shall represent the State internationally, declare war, conclude treaties of peace,alliance, economic cooperation and participation in international organizations or unions and he shall announce them to the Parliament with the necessary clarifications, whenever the interest and the security of the State thus allow.

2. Conventions on trade, taxation, economic cooperation and participation in international organizations or unions and all others containing concessions for which, according to other provisions of this Constitution, no provision can be made without a statute, or which may burden the Greeks individually, shall not be operative without ratification by a statute voted by the Parliament. (…)

4. The ratification of international treaties may not be the object of delegation of legislative power as specified in article 43 paragraphs 2 and 4.

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A Constituição estabelece a necessidade de referendo em caso de questões sociais e nacionais cruciais (presume-se que questões relativas à União Europeia poderiam subsumir-se a esta regra).232 Apesar da redação vaga, a doutrina consultada concorda que justaposição de ambas implica a definição das ―questões nacionais cruciais‖ como matérias que transcendem antagonismos sociais e políticose afetam a unidade nacional, como, por exemplo, as relações exteriores do Estado grego. O resultado do referendo sobre questões de interesse nacional é vinculante ao governo.233

Apesar de tratar diretamente de aspecto econômico, destaca-se a cláusula interpretativa do art. 80234, que diz que a disposição do art. 80.2 (sobre a regulação da emissão de moeda por lei) não impede a participação grega na UE, no contexto da integração europeia.