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4.2 AS ILUSÕES DO OURO BRANCO

4.2.3 A ilusão dando as cartas

A presença de Dinaura leva a narrativa para os extremos da ambiguidade, é a ilusão dando as cartas, a ambição por algo impossível lançando as coordenadas. Ao fim e ao cabo, isso bem parece a Manaus descrita pelo narrador, a cidade invadida por um sonho, incapaz de lidar com a realidade que lhe exigia. Após a morte de Amando, o homem que carregava nas costas a continuidade do poder de seu pai, Arminto vai se embrenhar nas pegadas deixadas por Dinaura, um caminho tortuoso, repleto de sombras, um jogo de aparências que vai minando a sanidade desse Cordovil. Enquanto a fantasia vai se alastrando por todos os cantos da vida de Arminto, a empresa da família vai definhando, os negócios minguando, e o Eldorado é a única esperança que navega pelo rio Amazonas.

Não é à toa, evidentemente, o nome dado a esse cargueiro, ele remete ao mito fundador de toda uma região. O Eldorado esteve no horizonte dos europeus que dizimaram as terras que reclamaram como suas e sobretudo da elite que comandou os tempos áureos da borracha. Em tudo isso, é de se notar, a ambição despudorada falou mais alto, desenhou os contornos de um progresso que é desde sempre a tônica em terras amazônicas e brasileiras, mais valem o lucro

e a dilapidação do que algum senso de desenvolvimento humano. Os ares europeus da Manaus do rubber boom são um capítulo de orgulho para a história dessa cidade, o Teatro Amazonas é um monumento de celebração a esses breves anos de fausto. Por baixo disso tudo, como deixa bem evidente a narração de Arminto, habita a miséria de migrantes que se achegam às franjas de tanto esbanjamento e, de maneira ainda mais insidiosa, existem os trabalhadores dos seringais do interior amazônico, escravizados em devaneio de aventureiros e desbravadores.

Muitos anos depois, quando a euforia já havia se dissipado, são esses mesmos seringueiros, muitos deles sem a visão por causa da defumação do látex, quem vão ser enviados para uma área de floresta desmatada e vão dar início ao bairro Cegos do Paraíso. O cargueiro Eldorado afunda, porque é bem esse o destino dos migrantes e dos seringueiros, a esperança de riqueza, a corrida atrás do ouro branco, tudo isso se dilui em meio à fúria do rio Amazonas. As águas levam consigo os últimos laivos de prestígio dos Cordovil e também os últimos esforços de fundar uma Paris na Amazônia, uma cidade moderna, elegante e apartada daquilo que é, em última instância, impossível de abandonar: a herança indígena, a presença dos corpos, dos traços e dos gestos desse povo que é primeiro, essencial e de cuja influência não se pode escapar.

Arminto Cordovil se dedica ao avesso da linha reta e contínua do progresso. A sua trajetória na contramão da herança, a sua paixão por Dinaura, a sua queda em direção à tapera do fim da vida, em tudo isso reside uma rusga com o progresso. Arminto se enfia por caminhos diversos aos do pai e do avô, dois homens confiantes na força do trabalho e conscientes da violência necessária para manter o seu nome e alastrar a sua influência. De tudo isso, o desejo ensandecido pela índia misteriosa é o símbolo maior desse Cordovil que se divorcia da realidade. Enquanto Manaus e, por consequência, os negócios da família vão definhando em velocidade assombrosa, Arminto se entrega todo ele ao idílio amoroso com Dinaura, a uma verdadeira miragem, a uma mulher que surge e logo desaparece.

Reside aí um dado interessante. Embora o último Cordovil refute o tipo de esforço necessário para continuar a influência da família, a sua escolha pela fantasia é a decantação dessa mesma crença no trabalho, a crença feérica na riqueza e no crescimento propiciados pela exportação da borracha, a confiança irrestrita no progresso que viria a qualquer custo, um futuro que aguardava ansioso por uma elite escolhida e agraciada. Não haveria de espantar, portanto, a frustração que se estabelece diante da quebradeira anunciada pelos jornais, tampouco surpreende a vontade de evasão, a fuga em direção à fantasmagoria de Dinaura, a incapacidade de lidar com a realidade que se desenha com contornos os mais assustadores:

Podia ser uma insensatez, não um capricho. Eu vivia entre esse idílio e as viagens para Manaus. O idílio venceu. E a vida mundana morreu com a euforia de uma época. Como tudo muda em pouco tempo. Uns anos antes da morte do meu pai, as pessoas só falavam em crescimento. Manaus, a exportação de borracha, o emprego, o comércio, o turismo, tudo crescia. Até a prostituição. Só Estiliano ficava com um pé atrás. Ele estava certo. Nos bares e restaurantes as notícias dos jornais de Belém e Manaus eram repetidas com alarme: Se não plantarmos sementes de seringueira, vamos desaparecer... Tanta ladroagem na política, e ainda aumentam os impostos (HATOUM, 2008a, p.33).

Só Estiliano ficava com um pé atrás, não poderia ser diferente, o seu nome já diz tudo, o seu amor aos gregos diz ainda mais. Estiliano é um resquício de racionalidade em uma cidade enfronhada pelo sonho, é o único que duvidou do otimismo e manteve os pés no chão. Apesar disso, não foi capaz de dissuadir o filho de Amando, toda a sua razão, toda a sua argumentação, nada disso foi capaz de conter Arminto Cordovil. Este se embrenhou pela insensatez, virou as costas para a cidade que o sustentava e continuou a mesma loucura de jovem abastado, entregou-se à paixão em tempos de penúria, tempos que só constavam dos planos de Estiliano. O advogado de Amando é quem mede a linha do progresso, pede cautela, exige o mínimo de ponderação de Arminto, mas o destino dos Cordovil parece selado em direção a uma cidade encantada, uma cidade repleta de ouro, de justiça social, de paz entre os homens, uma cidade que talvez estivesse no horizonte do mito do Eldorado, mas que nem de perto se viu na Manaus do rubber boom, uma cidade cuja modernização se deu às custas da clivagem social. A Paris dos Trópicos de um lado, os migrantes, os seringueiros, as meninas indígenas de outro, bem distantes, longe dos olhos dessa Europa tropical.

4.2.4 Uma lembrança amarga

Na busca enlouquecida por Dinaura, os barqueiros Ulisses Tupi, Joaquim Roso e Denísio Cão são contratados para encontrá-la no intrincado de ilhas e rios do interior amazônico. Os três se perdem nos remansos mais escondidos, abordam índios e ribeirinhos, são os práticos dessa caça patrocinada por Arminto. Nesse mundo de águas, eles não encontram Dinaura, não há nem sombra dela, o que eles carregam de volta é tão somente “mitos e meninas violentadas” (HATOUM, 2008a, p. 65). Ulisses retorna com lendas envolvendo Dinaura, ela vivia em uma cidade no fundo do rio, tinha uma vida de rainha, com todas as riquezas e as regalias, mas era infeliz, cativa de um bicho terrível e encantado. Denísio traz consigo uma cunhantã bem novinha, quase uma criança, por alguns trocados, ele comprou a menina do pai e a estuprou no retorno a Vila Bela. Joaquim traz outra menina, “um anjo triste, o rostinho