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A subjetividade rarefeita de Lavo

2.2 QUE CHANCES TERIA UM RAPAZ COMO LAVO?

2.2.2 A subjetividade rarefeita de Lavo

Em sua clássica leitura da cicatriz de Ulisses, Auerbach (2013) anota um comentário sobre os escravizados Euricléia e Eumeu que interessa ao debate proposto neste capítulo:

No processo do reconhecimento, do qual partimos, aparece, além de Ulisses e de Penélope, a ama Euricléia, uma escrava comprada outrora pelo pai de Ulisses, Laerte. Tal como o pastor de porcos Eumeu, ela passou a vida a serviço da família dos Laerte; tal como Eumeu, está estreitamente unida ao seu destino, ama-os e compartilha os seus interesses e sentimentos. Mas não possui vida nem sentimentos próprios mas só os dos seus senhores. Também Eumeu, não obstante ainda se lembre de ter nascido livre e pertencer até a uma família nobre (fora roubado quando criança), já não tem, nem na prática, nem nos sentimentos, vida própria, estando inteiramente atado à dos seus senhores. Estas duas personagens são, porém, as únicas que Homero anima para nós e que não pertencem à classe senhorial. Com isto chega-se à consciência de que a vida, nos poemas homéricos, só se desenvolve na classe senhorial - tudo o que porventura viva além dela só participa de modo serviçal (AUERBACH, 2013, p.18).

Como foi a vida de Lavo? Quem ele amou? Quais foram os seus medos? Qual é o seu grande momento? A narrativa não responde a nenhuma dessas perguntas, a interioridade do narrador se escamoteia à sombra do conteúdo narrado. A vida de Mundo na Europa, a doença de Jano, o passado de Alícia no Jardim dos Barés, tudo isso se avoluma em detalhes, vão se

acumulando histórias sobre os antigos moradores do palacete neoclássico, mas nada, ou basicamente nada, sobre uma vida de Lavo para além desses três protagonistas. A razão para isso se avizinha à de Euricléia e Eumeu: trata-se do apagamento do sujeito em condições de servidão. Esses dois são escravizados, propriedades do rei de Ítaca, já o sobrinho da costureira é isso mesmo que o define: o sobrinho de uma costureira. Órfão e pobre, Lavo se emaranha em uma sociabilidade fundada no seio do escravismo brasileiro. A sua posição em relação aos Mattoso é a continuidade de um agregado ou mesmo de um escravizado, a considerar o completo desprezo de Jano pela sua dignidade. No final das contas, Lavo ama essa família e compartilha os seus interesses e sentimentos, porque não há mais nada em seu horizonte, a proximidade entre os seus tios e os Mattoso forjou esse limite. Não surpreende a única viagem para fora de Manaus: uma visita a Alícia e Naiá no Rio de Janeiro.

A referência ao texto de Auerbach ilumina o debate, mas evidentemente não sustenta, do ponto de vista histórico-social, a singular narração de Lavo. Para isso, importante levar em conta a sombra criada pela Vila Amazônia. Ora, a herança rural representada por essa propriedade e sobretudo por seu dono ajuda a entender por que Lavo não tem uma vida própria. Para ele e seus tios, o nome Mattoso desperta um encanto semelhante ao que se observa na viagem de iate. Ele é um ídolo, uma aparição quase divina em meio à precariedade da Vila Amazônia ou do Jardim dos Barés, onde Ramira e Ranulfo viveram a maior parte da vida. O prestígio é tamanho que eles não percebem a degradação desse nome diante das mudanças implementadas em Manaus. A família se extingue, o palacete se torna um hotel, Albino Palha e coronel Zanda esquecem o antigo parceiro de negócios, tudo muda, enfim, mas a costureira, o ex-radialista e o advogado persistem em suas loas aos Mattoso. A subjetividade precária e dilacerada de Lavo está atrelada ao vazio criado pela morte de cada um dos integrantes dessa família.

Levando adiante o debate, importante retomar o argumento de Pasta Jr (2010, p.16) a respeito da “conjunção de contrários” no interior da cultura brasileira. Toda subjetividade constituída no Brasil, segundo o autor, é modelada por essa impensável conjunção de capitalismo e escravidão. Isso é essencial para compreender uma personagem e especialmente um narrador como Lavo, justamente porque ele habita a porção mais vulnerável desse esquema. Considerando a “conjunção de contrários”, Pasta Jr (2010, p.18, grifos do original) defende que “cada indivíduo vê-se em face de dois regimes da concepção de si e de sua relação com o outro, dois regimes contraditórios, [...], mas que se encontram um e outro bem presentes e bem atestados pela realidade da experiência”. Esse regime contraditório da concepção de si tem muito a ver com a figura de Lavo, o qual se dedica ao movimento autônomo do estudo e da

profissão, mas cede à dependência na forma definitiva da sua narração. Assim, Lavo sintetiza em si a junção contraditória, mas possível, da promessa da modernidade capitalista com a herança do servilismo escravocrata:

Por um lado, um regime antes de tudo moderno que corresponde, grosso modo, às relações capitalistas de produção, que prescreve a separação ou a diferença entre o mesmo e o outro; e, por outro lado, um regime que não reconhece a diferença entre o mesmo e o outro, no qual essa diferença é mesmo rigorosamente inconcebível, isto é, um regime que, por sua vez, corresponde aos laços do patriarcalismo escravista, nos quais o indivíduo não se reconhece verdadeiramente como tal, ou dito de outra forma, como algo realmente diferente de seu senhor, de seu grupo, de seu clã etc (PASTA JR, 2010, p.18, grifos do original).

Nesse ponto, desenha-se com rigor o embate em que se envolve a subjetividade de Lavo. O espaço público da escola, do trabalho e da cidade se pauta pelas relações capitalistas, com as quais se esperam a emancipação da individualidade e o descolamento do grupo e do clã, como anota o autor. O espaço privado da família, entretanto, age de modo reativo a isso, com uma força da ordem incomensurável. Ao fim e ao cabo, tia Ramira, tio Ran e Lavo apenas são o que são em virtude do que são os Mattoso. Seguindo adiante, Pasta Jr (2010, p.18) pondera os próprios argumentos: “qual é a saída possível para uma subjetividade submetida simultaneamente a essas duas exigências contraditórias, quer dizer, à exigência de que ela seja distinta do outro, e, ao mesmo tempo, indistinta do outro?” (PASTA JR, 2010, p.18, grifos do original). Uma saída, considerando o texto de Rufinoni (2018), é a do desvario, a desordem psíquica diante desse impasse da experiência brasileira. Assim, Lavo é uma contradição que não se resolve: o ato da sua narração é um gesto de autonomia, uma diferenciação do outro; já o seu conteúdo é uma reprodução da subordinação, uma indistinção do outro.

Para o próprio Pasta Jr (2010), a saída é dada por diversas personagens do romance brasileiro em uma equação de fundamento paradoxal: "o outro é o mesmo – fórmula pela qual se satisfaz ao mesmo tempo à requisição da diferença e à requisição da ausência de diferença entre o mesmo e o outro" (PASTA JR, 2010, p.19, grifos do original). Não deixa de haver desvario e insanidade nessa equação ou, ainda nos termos de Rufinoni (2018, p.337), “outras modalidades de desajustes e afetos”. Assim se emaranha a subjetividade de Lavo: eu sou o Mundo? O Mundo sou eu? Eu pertenço aos Mattoso? Eu sou eu após a oferta de Jano? Nesse sentido, em que ser é ser o outro, as personagens dão sua resposta à esfinge brasileira: “elas são elas mesmas sendo igualmente o outro que lhes faz face, de modo que se pode dizer que elas se formam passando no seu outro: elas vêm a ser tornando-se o outro” (PASTA JR, 2010, p.19, grifos do original). Isso é Lavo como um todo, as experiências de Mundo são as suas, as dores

dos Mattoso são suas, e as memórias dessa família tornam-se a sua herança. O naufrágio dos pais é só um lance da narrativa, a morte de Jano e a doença de Mundo ocupam bem mais a sua atenção. Lavo se constitui passando pelo outro, assim, ele se suprime e desaparece.

Por consequência disso, Pasta Jr (2010, p.19) afirma que as personagens são "tomadas numa espiral ou num turbilhão de mutações que não conhece verdadeiramente ponto de parada". Esse é um ponto que não dá conta de Lavo, a considerar a continuidade da sua trajetória de vida e a circularidade da sua narração. Em termos comparativos, Mundo é muito mais errático, desobrigado como é dos pesos que se assentam sobre o amigo. Apesar disso, o autor também reconhece que “aquele que se forma passando no outro [...] se forma suprimindo-se, isto é, ele se constitui no e pelo ato mesmo de sua desaparição” (PASTA JR, 2010, p.19). Aí sim se está diante de uma figura mais completa de Lavo, em uma imagem que retoma a síntese de Paulo Emílio Salles Gomes (1996, p.90): “A penosa construção de nós mesmos se desenvolve na dialética rarefeita entre o não ser e o ser outro”. Ora, esse é o dilema silencioso na narração de Lavo. Enquanto ele narra e desfia com desenvoltura as suas memórias, vão crescendo e tomando forma perguntas inevitáveis: quem é esse narrador? Por que ele está narrando isso e dessa maneira? A quem interessam essas histórias? Finalizando com Pasta Jr (2010, p.20, grifos do original), “se o mesmo é o outro, o ser é o não-ser”. Então, Lavo não é, ele se esvazia enquanto uma subjetividade autônoma.