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3.2 Fenomenologia e conhecimento

3.2.4 Intencionalidade como processo intercorporal: a experiência do outro

A compreensão do processo intercorporal surgiu a partir do momento em que Husserl introduziu a noção de ego transcendental, em que ele questionou a idéia do “eu universal”. Diz Husserl na quinta meditação cartesiana (HUSSERL, 1983, p. 115): Quando eu, o eu meditante, me reduzo pela epoqué fenomenológica ao ego transcendental absoluto, não me tornarei por isso mesmo solus ipse e não permanecerei como tal, sob o índice “fenomenologia”, enquanto efetuo uma explicitação de mim próprio? Uma fenomenologia, que pretendesse resolver os problemas relativos ao ser objetivo e se desse por uma filosofia, não estaria ela a estigmatizar-se como solipsismo transcendental?

Ou seja, após Husserl ter feito a redução eidética (primeiro passo da redução fenomenológica, redução ao nível das essências, eu meditante), ele fez a redução transcendental (segundo passo da redução fenomenológica) e alcançou o ego transcendental absoluto. Neste ponto, Husserl questionou se, reduzindo do nível essencial ao ego transcendental absoluto, ele realmente teria alcançado a universalidade, ou ainda estaria falando de subjetividade (se ainda não continuaria

solipse). E, neste sentido, Husserl vai dizer que aquilo que é singular, que são as minhas intuições fenomênicas, elas também incluem o outro; assim, a intuição fenomênica e o “eu” universal são a mesma coisa. Isto causou grande impacto na Psicologia da época, que passou a rever suas formas de abordagem, e muitos aderiram à noção de intersubjetividade.

Conforme a citação acima, Husserl se deparou com a seguinte problemática: o ego transcendental ou “eu” universal exprime a unidade intersubjetiva das várias essências (as quais implicam os vários objetos); porém, por mais que se tentasse resolver qual o sentido último da objetividade, ainda se pensava na possibilidade dessa objetividade como uma comunidade que se experimenta num traço físico (ego psicofísico); suponho, por exemplo, que havia um pensamento: há uma universalidade em torno da concepção desse objeto (ego transcendental), e essa universalidade é a possibilidade de nós experimentarmos um ego. Quando a fenomenologia chegou a esta concepção, não estaria a se estigmatizar como solipsismo transcendental? Ela não estaria afirmando que os objetos são objetos para um só no mundo (um único ego psicofísico)? E, neste caso, não estaria falando que não há alteridade (o outro)?

Desta forma, Husserl, na quinta Meditação cartesiana (1983, p. 116), convida ao exame minucioso da situação seguinte:

[...] a redução transcendental liga-me à corrente dos meus estados de consciência puros e às unidades constituídas pelas atualidades e suas potencialidades. Então, é evidente, parece, que tais unidades são inseparáveis do meu ego e, por isso, pertencem ao seu próprio ser concreto.

No dizer de Husserl, as essências (estados de consciência puros) são determinadas a partir dos atos indicativos que foram mobilizados (orientados, preenchidos) pelas intuições fenomênicas (estados subjetivos), resultando na produção de um objeto transcendente, que exprime uma unidade que é a “coisa mesma”, o sentido daquilo que foi intuído. Assim, esta unidade é uma corrente de essências ou de estados puros, que é uma determinação ativa de um estado “privado” (temporalidade,

intuição fenomênica, intencionalidade operativa); neste sentido, tem a ver com o ego, e Husserl vai chamar tal universalidade, de ego transcendental.

Porém, a questão é: como compartilhar algo que está imanente (intuições fenomênicas)? Husserl compreendeu que isto é possível por meio do corpo, que mobiliza os atos que produzem essências; os objetos produzidos exprimem uma unidade que não é somente subjetiva, mas intersubjetiva, como por exemplo: o portador da Doença Alzheimer apresenta sinais de perda cognitiva (não consegue tomar banho, vestir-se adequadamente, entre outros), essa comunicação é a materialização, no dizer de Merleau-Ponty, encarnação de uma essência intuitiva (consciência pré-reflexiva, intuição fenomênica). Quando este portador comunica seu sofrimento, ele o partilha com o outro, e, nesse caso, o sofrimento não é mais subjetivo, mas intersubjetivo ou intercorporal. Referindo-se à experiência do outro, diz Merleau-Ponty (1999, p. 474-475):

Existe ali um ser a dois, e agora outrem não é mais para mim um simples comportamento em meu campo transcendental, aliás nem eu no seu, nós somos, um para o outro, colaboradores em uma reciprocidade perfeita, nossas perspectivas escorregam uma na outra, nós coexistimos através de um mesmo mundo.

Deste modo, a fenomenologia concede a prova de que realmente o nosso privado (intuição fenomênica, temporalidade, consciência irrefletida) é partilhado (intuição categorial, essência, consciência reflexiva, objeto transcendente). No dizer de Husserl, o nosso privado é partilhado no campo de nossos atos na transcendência; como por exemplo, em minha vivência no grupo de mútua ajuda, eu percebo a tristeza ou a alegria dos “familiares cuidadores” de portadores de Doença de Alzheimer na expressão de seus rostos; acredito que eu seja capaz de reconhecer em seus relatos aquilo que consiste em um jargão naturalista em lugar daquilo que é essencial. Acerca do outro ou dos outros, Husserl (1983, p. 116) diz ainda: “Eles não são, todavia, simples representações e objetos representados em mim, unidades sintéticas de um processo de verificação que se desenrola ‘em mim’, mas justamente ‘outros’”.

Com esta afirmação, Husserl está dizendo que o outro, que se desenrola em minha imanência, é uma alteridade real, e em algum momento somos um só ego transcendental; logo, eu não tenho do outro uma representação, o outro é aquilo que se mostra ele próprio em seus atos; é o seu ato que se oferece para que o meu possa se diferenciar; e o outro, neste sentido, tem uma presença efetiva, enfim, o outro é um alter ego. Assim, Husserl (1983, p.116) encaminhou uma solução para a questão da experiência do outro:

[...] é necessário dar-se conta do sentido de intencionalidade [...] no qual, sobre o fundo do nosso eu transcendental, se afirma e se manifesta o alter ego. É necessário ver [...], em que síntese, em que “motivações” o sentido do alter ego se forma em mim [...]: como, senão interrogando-os, posso obter uma explicação completa do sentido do ser de outrem?

Portanto, para Husserl (1983), a solução é: se há um outro, e eu quero saber quem é esse outro, eu só tenho uma forma, que é interrogando-o; e é por meio da resposta a essa interrogação que eu posso obter uma explicação completa do sentido do ser de outrem. Ou seja, o sentido do ser de outrem é o ego transcendental; pois o sentido do ser de outrem é um alter, um alter da minha subjetividade, cujo sentido é a nossa unidade; então, o sentido do sentido é, enfim, a correlação no interior da qual alguém se diferencia de mim como outrem. Então, Husserl achava que somente quando eu vou para a ação, ou seja, quando eu, efetivamente, interrogo, a questão do outro pode ser resolvida.

3.3 O discurso fenomenológico em Merleau-Ponty: a percepção do ponto de vista de