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R EFLEXÕES DE UM PROFESSOR APRENDIZ ( A PESQUISA DE CAMPO )

6.2. R EFLEXÕES SOBRE AS REFLEXÕES DE UM PROFESSOR APRENDIZ : ANÁLISE DO QUE VI , VIVI E SENTI NO DIA A DIA ESCOLA

6.4.8. Interdisciplinaridade: mudança ou modismo?

As nove respostas foram enquadradas nas quatro categorias apresentadas no Gráfico 10.

Fonte: Entrevistas.

Modismo

Quatro docentes acham que a interdisciplinaridade é um modismo, mais uma ideia que logo vai passar.

Hortência baseia sua opinião em experiências transplantadas de outros estados e que não vingaram na escola, as quais ela tem acompanhado em seus anos de carreira no magistério:

Pois, é isso, como vou dizer aqui: eles trazem a ideia de outro estado, aí lançam aqui. Aí vem a verba. É por isso. Aí lançam aqueles cursos pra gente, que o Estado recebe o dinheiro e tem que repassar, ta entendendo? Mas o problema é que eles só fazem começar, eles não continuam. É por isso que... que... que não surte efeito! Porque eles só fazem começar. (Hortência).

Jacinto demonstra pessimismo em relação ao poder transformador da interdisciplinaridade, pois não tem visto sua aplicação prática no meio educacional:

Eu acho que é uma moda pedagógica. (Risos). Eu acho que na verdade vai ser esquecida. Não ta sendo aplicada. Se estivesse sendo aplicada já, se estivesse sendo aplicada realmente (alguns professores aplicam, poucos, poucos). Então, ela vai passar. Vai passar e vai continuar o mesmo... A mesma maneira de ensinar, a mesma forma. Continua do mesmo jeito, não vai mudar nada. (Jacinto).

Apesar de considerar a atual evidência da interdisciplinaridade nos debates do meio escolar como um modismo, Violeta e Rosa acreditam no seu (da interdisciplinaridade) potencial de contribuição para a educação, pois ela faz parte das exigências do atual cenário mundial.

Eu acho que... se for para ser processo de transformação, é como eu digo, tem que ser ao longo do tempo. E pode até transformar, já que é... como eu falei, o momento do mundo exige isso. Mas aí é um modismo. Com esse nome, é um modismo, porque já existia. (Violeta).

Assim como outras tendências e teorias pedagógicas, que surgiram e logo se foram, mas deixaram suas contribuições:

Modismo sempre existiu em todos os segmentos da sociedade, a escola não é diferente. Mas eu acho que... o termo interdisciplinaridade talvez tenha surgido da própria crise que a escola vive, (né),de não estar atingindo os seu objetivos, desempenhando o seu papel. Que é de formar esse aluno (né), integral, prepará-lo pros desafios do mundo moderno, com valores. Né? Mas, de tudo eu acho que fica... De toda proposta que venha a surgir, ou de um modismo que venha a surgir, eu acho que de tudo fica uma coisa positiva, (né), e eu acho que a gente tem que tirar o que tem de bom. Como as teorias de ensino diversas que já surgiram, tendências pedagógicas... Cada uma vem, eu acho que, para resolver o problema; cada uma vem com a sua proposta. Ah, não deu certo! Por que que não deu certo? Aí entram n fatores. Mas eu acho que, de tudo, nenhuma é totalmente ruim. (Rosa).

Depende

Acácia e Margarida alertaram para fatores que podem fazer a diferença entre o poder de transformação ou “os quinze minutos de fama” da interdisciplinaridade na escola.

Vai depender da prática e da perseverança dos professores, de seu compromisso de levar a visão interdisciplinar à frente.

Modismo pra aqueles que querem apenas conhecer sobre o tema, e que na realidade não fazem nada, né? Mas eu acho que é como já foi disto desde o início, se você levar a frente um projeto de trabalhar com a interdisciplinaridade, aí sim, as coisas podem mudar. (Acácia).

Outro ponto que também fará a diferença é a construção de uma sólida base teórica dos professores. Isso evitará “fracassos” como o do construtivismo que, apesar de ser uma boa ideia, não vingou, porque faltou aos professores um referencial teórico para dar suporte e direção à sua prática:

Depende de como se conduzir a coisa. Porque, o construtivismo veio e se tornou um modismo e depois fracassa. Porque aplicaram o “construtivismo” na escola pública sem... é... embasamento teórico. Sem que os profissionais da educação tivessem o conhecimento de todas as correntes construtivistas – muitos educadores não sabiam

nem quem era Emília Ferreiro, não sabiam nem a que ela se propôs quando escreveu seus documentos. E passou-se a jogar com o construtivismo, e a escola começou a fracassar. Pelo erro de uma massa inocente. Né? E virou modismo. Eu espero que tenha outra conotação. É uma esperança. (Margarida).

Sempre fez parte do trabalho docente

Para Dália e Magnólia, a interdisciplinaridade é algo que não tem mais volta, que nunca vai deixar de existir, porque sempre fez, faz e fará parte da atividade docente.

Não, eu não acho que ela tem volta porque ela nunca deixou de existir. Nunca. Agora, é como se... Então, Wagner, é como se, como eu te digo, não é uma questão de volta. Eles falam como se a interdisciplinaridade fosse uma coisa que acontecesse agora. Até numa reunião que nós tivemos na Escola-Sede, na época, que a... eu nem sei quem veio do Cambeba, a pessoa que veio dar... a técnica em educação, que veio... “Mas professora, interdisciplinaridade não é uma coisa d‟agora. Bem, pode ser que essa palavra se use agora, mas sempre, sempre houve a ligação de um conhecimento com o outro. Como é que eu vou dar uma aula de corpo humano se ele não souber ler? E a leitura ali é Português, não é? Então? Como é que pode acontecer? Isso é em todos os campos. Então, pra mim, se é modismo, eu acredito que a pessoa pode até esquecer o nome, mas pratica. Sem dizer o nome, entendeu? Não tem coisa que a gente faz e não sabe dar o nome? “Eu sei fazer, mas não sei o nome dessa receita!” Porque eu inventei. Mas quando disser que pra fazer um bolo tem isso, aquilo, aquilo outro: “Ah, meu Deus! Isso aí eu já sabia há muito tempo, dessa receita! Eu só não sabia que tinha esse nome. Pronto: esse nome você deu!” Eu acho que não é uma coisa que veio pra mudar porque, a cada dia que passa a gente tem que estar cada vez mais... é... conectado com o mundo, com o conhecimento. Sem ele, a gente tá... (Dália).

Olha, Wagner, eu já disse: a interdisciplinaridade, ela já vem sendo trabalhada há muito tempo. Ela apenas ta sendo enfocada! Agora, ela ta... foi colocada no papel. Mas que, isso aí, o professor já trabalha há muito tempo. Muito tempo. Não é moda, não é novo, porque isso aí o professor já trabalha. Por isso é que ela não vai passar, porque isso aí o professor já trabalha. Por isso ela não vai deixar de existir nunca. Porque um bom professor, ele não chega pra dar só Matemática: “Vambora, menino, senta aí! Matemática. Vambora aqui: polinômio. Não sei o que de...” Não: “Bom dia! Como vai? Passou bem? Como é que vai a família? Meu filho, e você, como é que está a sua vida? Olha, como é que está o seu bairro, em termo de segurança, de higiene? Passou a Prefeitura, fazendo o saneamento?” Aí entra tanta coisa! O professor sempre se envolve com o aluno. O bom professor, que quer ter uma boa relação e um ensino bom. Então, a interdisciplinaridade, ela, para um professor que quer trabalhar bem, passar aqueles quarenta minutos bem, ele trabalha. E sempre existiu. Por isso, pra mim, não é moda, não vai passar e nem é novo. Agora que colocou no papel, né? Que é... é igual a figurino. Você pega um figurino de 70, quando vai ver hoje, é o mesmo vestidinho, só mudado... só muda mesmo a modista... A modelo. Mas o modelo é o mesmo. É igual à educação. (Magnólia). Utopia

Gardênia vê a interdisciplinaridade como uma utopia, um sonho possível de ser concretizado, mas, a longo prazo, passo a passo:

Tenho muita experiência de vida, mas você ta bem mais interessado aí no assunto, mais forte, né? Olhe, eu acho a interdisciplinaridade assim uma utopia. A gente ta caminhando, mas é um sonho que a gente vai conseguir paulatinamente. (Gardênia).

Observamos, na maioria das repostas, certa desconfiança em relação à ênfase que vem sendo dada à interdisciplinaridade no discurso pedagógico. Essa atitude é expressa principalmente pelos docentes que já têm mais tempo de carreira, que já presenciaram muitas ideias surgidas como revolucionárias, mas que ficaram apenas no discurso e logo foram deixadas de lado. Outras entrevistadas, contudo, acreditam no poder transformador da interdisciplinaridade se ela for abraçada e estudada pelos professores, com base em fundamentos teóricos sólidos.