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INTERPRETAÇÃO REVISITADA DE UMA UTILIDADE

No documento Indisciplina da arquitectura (páginas 159-164)

2.1 ENQUADRAMENTO 1 O ESTADO DA QUESTÃO

2.2.1 INTERPRETAÇÃO REVISITADA DE UMA UTILIDADE

Quando o arquitecto projecta um ministério, os funcionários não se encontram no seu interior. E por sua vez, quando os funcionários estão no ministério, o arquitecto não se encontra nele.329

A descrição do logos formativo de um primevo arquitecto, do qual fazem parte a arte e a técnica exaustivamente trabalhadas na formação, deverá estender-se ao terceiro pilar enunciado por Vitrúvio, completando-se assim a

328 Martin Heidegger, passim Língua de Tradição e Língua Técnica.

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célebre formulação tripartida universal. Com efeito, em paralelo com enunciação erudita da habilitação artística e do conhecimento técnico – venustas e firmitas, no latim original – cabe considerar a pertinência argumental do factor designado por utilitas, o termo latino para a “utilidade”. Por contraponto com a importância votada às anteriores competências e à luz do limitado entendimento que relaciona as matérias nos primeiros anos de formação, todo o jovem aspirante a arquitecto tende a desmerecer a utilidade como pressuposto prosaico, sobre o qual não carece teorizar.

Quanto melhor artífice, mais depressa desmerece a utilidade antecipada para inspirar o projecto, como mero pretexto necessário para esgrimir e comprovar a mestria artística e técnica: a designada utilitas não carece de mais latim do que aquele implícito na consciência prévia, disciplinar, de que uma escola serve para aprender, uma igreja serve para rezar, ou que a casa se constrói para a finalidade pouco ambiciosa de habitar.

Tem-se afirmado, à medida que o texto evolui, que o “homem cultivado à beira do novo século” ainda se antepara no âmbito ideologicamente contaminado pela interpretação moderna funcionalista. E a bem da acomodação no sistema produtivo, segundo a matriz conceptual referida, isso corresponde a significar a “utilidade” enquanto “funcionalidade”: “toda a concepção moderna do mundo funda-se na ilusão de que as ditas leis da natureza constituem explicação para os fenómenos naturais”.330

A formação curricular em história e na teoria da arquitectura esclarece os estudantes sobre a interpretação que o Movimento Moderno em arquitectura faz dessa proposição, tornando-a vulgata da acção humana traduzida como fenómeno natural, e portanto, susceptível de sistematizar. Em concreto, é explicada aos estudantes a ênfase “natural” na dimensão prática do conhecimento, tal como foi enunciada nos manifestos e aplicada aos projectos.

A “naturalização” dos esquemas artificiais que equiparavam a projectação a uma técnica científica fornece matéria-prima para caricaturas sociológicas risíveis, que vão desde o “número máximo de passos adequado para percorrer a lonjura entre a cozinha e a sala de refeições”, até a uma “quantificação rigorosa do volume de oxigénio que um humano de peso e estatura média consome durante as oito horas de sono, num compartimento encerrado”. A apresentação deste tipo de relatos como matéria “metodologicamente superada”, não ajuda a separar a concepção da “utilidade” da mera resultante instrumental e funcionalista.

Porém, o homem moderno que presumiu explicar o mundo a partir de uma base factual, haveria de enfrentar o estupor perante a resultante que muitas

330 Ludwig Wittgenstein, Tractatus Logico-Philosophicus (6.371), p. 85. “The whole modern

conception of the world is founded on the illusion that the so-called laws of nature are the explanations of natural phenomena.” Tradução nossa.

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vezes o conduziu para longe da compreensão do real: a ciência, à maneira de uma religião (neste particular âmbito) – verdadeira, clara, predestinada, de sentido finito e aceite como o todo – tem como desígnio garantir a inviolabilidade do sistema explicativo, o que muitas vezes se faz restringindo o campo de observação.

Fig. 49 – Livro de apontamentos de Charles Darwin, Tree of Life, onde se reproduz um dos primeiros esquissos conhecidos da árvore evolutiva, que descreve a relação entre grupos de organismos. | Fig. 50 – Fluxograma de relações funcionais: exemplo dos estudos habitacionais desenvolvidos para Alvalade na Federação de Caixas de Previdência – Habitações Económicas, e apresentados pelo Arq. Miguel Jacobetty no 1.º Congresso Nacional de Arquitectura, em Maio/Junho de 1948 (fonte: blogue Infohabitar / António Baptista Coelho).

As descrições do mundo assim configuradas determinam que todas as proposições usadas na sua caracterização sejam de um tipo concreto, obtidas a partir de um campo de observação delimitado. Daqui advém por efeito que muitas das leis formuladas a partir de uma certa observação, expliquem mais sobre o sistema de análise em si do que sobre o objecto que se sujeita a observação.

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Ora, quando um sujeito se percebe constrangido a observar o mundo como mero agente técnico, sobra-lhe o recurso à imaginação retrospectiva, para encontrar uma significação diferente para a “utilidade”: por exemplo, no mundo antigo e pré-científico, a mitologia concatenava uma explicação complanar para os fenómenos, não obstante a sua natureza ficcional. Fosse sob a existência de uma divindade única, compreendidas as várias ramificações, ou num contexto panteísta em que as figurações se multiplicavam para cada domínio de incerteza ou significação, o todo existia agregado segundo uma narrativa comum utilitária.

Ou, ainda reportado a um contexto lógico, mas menos estanque do que o funcionalismo elementar, revisita-se o conceito segundo o pragmático (mas indisciplinável) Bertrand Russell: a “utilidade e a cultura, quando são concebidas na sua amplitude, descobrem-se menos incompatíveis do que parecem para os defensores fanáticos de cada uma delas”331

. Ao inscrever o conceito de utilidade numa via não convergente e ao redimensionar o campo de observação, cabe atribuir à “utilidade” outra escala de questionamento: por exemplo, a quem serve a arquitectura? Como é que dela se servem? Como é que os arquitectos servem os que dela se servem? E já agora – aqui, extremada a verve inquisitiva – como se servem estes, a si próprios?

Relembra-se que a intriga explícita nas perguntas anteriores, que configuram a encomenda do projecto a montante, se sobrepõe à razão cultural que o arquitecto a jusante implica na resposta. Pela conexão que os edifícios estabelecem, não só com o entorno físico imediato, mas sobretudo com o contexto social, sendo o caso da sua substância importar ao domínio colectivo, tal se deve primeiro à solicitação programática que lhe está na origem e só depois à adjectivação arquitectónica que denota esse desígnio.

Então, para responder às dúvidas anteriores, será preferível recuperar a questão inicial: de acordo com a diferenciação entre “belas artes”, “artes aplicadas” e “artes comerciais”, onde situar a prática do arquitecto?

O essencial das intervenções de alcance arquitectónico, urbanístico e ecológico já não é decerto da jurisdição do arquitecto e da sua competência, uma vez que tais intervenções procedem directamente da disjunção: quer dizer, justamente do modo de funcionamento operatório do sistema, por um lado, e do arbitrário expressivo ou instrumental das pessoas particulares, por outro.332

A transcrição prévia resume a condição de subalternidade a que se encontra votado o arquitecto. O que significa na prática uma tal condição de inferioridade face ao sistema complexo, mas não abstracto, das relações de

331 Bertrand Russell, ‘Useless’ Knowledge, in In Praise of Idleness, p. 21. “Utility and culture, when

both are conceived broadly, are found to be less incompatible than they appear to the fanatical advocates of either”. Tradução nossa.

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poder que vingam na sociedade contemporânea? De qualquer modo, um “vencedor pírrico!” – poderia contrapor o optimista produtivo, a quem a prescrição ao abrigo de uma menoridade interventiva constitui uma condição tolerável, para tomar parte na acção construtiva.

Por este prisma e de acordo com o pragmatismo pedagógico que defende a arquitectura enquanto “matéria própria”333

, da lavra do arquitecto, o assunto encerra-se sem sobressaltos numa circularidade perfeita: o arquitecto alheia- se da razão política, incompreendido nos seus critérios e saber, que adquire por superiormente estéticos, pelo menos até que faça reconhecer a resultante do seu labor enquanto figuração possível para um estado da questão.

Nessa altura, se a sua derivada conceptual encontra abrigo corporativo, adquire então o celebrado estatuto de braço armado – técnico e estético – do próprio sistema de dominação. E de maneira conforme, os objectos que realiza reintegram-se então no sistema capitalista, através da sua inclusão no itinerário do espectáculo.

Por outro lado, escusar qualquer pretensão artística ou crítica nas obras de arquitectura a favor da sua suficiência enquanto técnica projectiva, não redime a ideia de capitulação transcrita em epígrafe. Se não cabe no processo reprodutivo um espaço e um tempo destinados à apreensão contingente da “vida moderna”, donde brota tal arquitectura, as técnicas tornam-se árvores desfolhadas, que a crise despe de propósito. Como sumarizaram os arquitectos situacionistas em 1961, “o funcional é o prático. O único prático é a solução do nosso problema fundamental: (…) a ruptura com o sistema de isolamento. Isto é o útil e utilitário e só isto. Tudo o resto não passam de derivações mínimas do prático, da sua mistificação”334

.

Segundo esse enunciado situacionista da utilidade, que entende como manifesta derrota do arquitecto o estreitamento das possibilidades, haveria que equacionar-se em paralelo com o realismo que conduz à possibilidade de “fazer,” a utilidade de “não fazer”. Numa moldura de possibilidade assaz ampla – que compreenda os âmbitos, económico, social ou ecológico, como partes interdependentes de uma totalidade – haveria que questionar o facto do própria acção se encontrar distanciada de outro sentido, que não seja o da perpetuação ritual definida.

Ao restringir o questionamento académico à motivação expressiva ou técnica, com desprezo pelo enquadramento referido a uma utilidade reportada ao “estado da arte”, limita-se a possibilidade de resistência dos corpos e dos espíritos, implicados no processo de invenção.

333 Dentro do jogo de linguagem definido, compreende-se a arquitectura no sentido da “obra de

arquitectura”, ou nas práticas que conduzem à sua directa materialização, quando por exemplo descrevemos o “jogo sábio dos volumes sob a luz”.

334 Attila Kotanyi e Raoul Vaneigen, «Programa Elementar do Estúdio de Urbanismo Unitário», in

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E à medida que as condições de contexto se deterioram, qualquer resistência depende da possibilidade crítica e inventiva do cidadão, a montante do técnico. Os procedimentos que se fixam para imaginar as formas a construir não podem alhear-se da tentativa geral de compreender o mundo, seu depositário.

Poder-se-á contra-argumentar que uma desmontagem do axioma disciplinar se produz em prejuízo da acreditação nas competências, que legitimam corporativamente o profissional. Porém, restringir a habilitação académica pela medida da adequação a um sistema que existe dissociado da razão comum do mundo e da vida que suporta, significaria pouco menos do que ignorar a “loucura [inscrita] na normalidade”.335

No documento Indisciplina da arquitectura (páginas 159-164)