1.1 GEOGRAFIA CONCEPTUAL 1 CONTEXTO (DIA PRESENTE)
1.1.7 TEMPO E VALOR
“Já não é a teoria a interpretar a realidade mas a realidade a ditar uma teoria destinada a confirmá-la.”
Roberto Esposito128
Em pontos precedentes, descreveram-se a dilatação no espaço e os refluxos, que em sentido oposto, caracterizam a globalização contemporânea. Argumentou-se que as entidades ditas reguladoras promovem a desregulação e caucionam a deslocalização nómada dos fluxos económicos, sem articular relações duradouras com o espaço físico humanizado.
Uma segunda variável cartesiana torna-se agora vital para definir o crescimento exponencial globalizado, mas só recentemente – após a “crise subprime de 2008” – haveria de tornar-se manifesta à consciência colectiva. O tempo, que a exemplo do espaço também progride em amplitude e abrangência, representa na verdade outra constante (invariável) inscrita no sistema capitalista. O capital, à semelhança da necessidade primária de se expandir no espaço, está hoje obrigado a distender-se no tempo.
A dilatação temporal adquire uma expressão económica concreta, que se tem vindo a designar em contexto mediático por “criação de dívida”. A dívida contraída representa, por definição, uma promissória sobre o trabalho futuro de um indivíduo ou de uma comunidade: constitui-se com base no pressuposto da possibilidade de antecipação do usufruto de um valor. Se o
127 Expressão referida a Guy Debord, A Sociedade do Espectáculo.
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expediente da utilização da dívida como catalisador do sistema económico e financeiro é de desocultação recente, a sua aplicabilidade especializada – disciplinar, por assim dizer – como variável inscrita numa fase tardia de desenvolvimento do modelo capitalista129
, adquiriu expressão e ganhou escala a partir da década de 70 do século XX: tratou-se uma “revolução passiva”,130
que compreendia a reorganização do poder do Estado e das relações de classe, no sentido de constituir a forma política mais adequada à expansão do capitalismo enquanto modo de organizar a produção. Os métodos “fordistas” de intensificação e racionalização do trabalho são autofágicos, pois o ganho da acrescida eficiência – que decorre da organização e da substituição do trabalho humano pela máquina – se acaba por anular, com a redução infinitésima do valor do trabalho. De forma correspondente, o (quase sempre teórico) regime de concorrência aberta, também reduz a margem de lucro, o que nos próprios termos da formulação capitalista limita o valor disponível para um subsequente investimento na perpetuação do processo.
A superação do paradoxo requer a incorporação de um capital fictício na cadeia de valor, o que permite transferir o problema para o domínio da imaginação: isto é, o estratagema para contrariar a contracção gerada pela eficiência aumentada, passa então pelo fomento ao crédito, que permite investir no presente um hipotético capital futuro. O mesmo mecanismo, em simultâneo, serve para iludir a tendência regressiva do valor do trabalho, pois não compromete o duplo papel que o assalariado representa no capitalismo de mercado, enquanto consumidor: sem aumentar o valor do trabalho, promove-se o endividamento, com vista a alimentar o consumo.
A trajectória das políticas públicas (o governo da cidade) conflui, hoje, com os interesses económicos do mercado liberalizado: inicialmente nos Estados Unidos da América e na Inglaterra, através da aliança pró-liberal personificada respectivamente por Reagan e Thatcher e mais tarde, com uma progressiva extensão às restantes democracias ocidentais.
A privatização progressiva dos meios de produção procede do pacto ideológico a favor da ordem espontânea, tutelado teoricamente pela escola económica de Chicago, onde pontuou o guru do pensamento dito neoliberal, Milton Friedman, ou onde Friedrich Von Eyek, economista da Escola Austríaca e arrependido socialista, por comunhão conceptual, também chegou a ter uma cátedra. A apologia da virtude do mercado livre e da liberdade de circulação do capital, tem como condição a redução à mínima interferência do Estado na economia, o que por sua vez incorre na
129 Adam David Morton. «The Continuum of Passive Revolution», in Capital & Class, vol.34, p. 316.
“For Gramsci, ‘Americanism and Fordism’ was the latest phase of capitalist reorganisation understood in classical terms as an attempt to overcome the tendency of the rate of profit to fall through the implementation of ‘Fordist’ methods of intensification and rationalisation of labour.” Trad. nossa.
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minimização do emprego público e no enfraquecimento do poder reivindicativo do trabalho. As políticas liberais, ou socialistas da terceira via (que de uma forma mais moderada, também mitigam a influência do Estado na economia), exerceram uma pressão crescente sobre o trabalho, no sentido da desregulamentação do contrato social previamente consolidado. Como resultado, regride a correlação entre o valor gerado pelo trabalho e a sua redistribuição à sociedade através dos salários, preenchendo o acesso ao crédito o diferencial crescente.
O hiato descrito, potenciado na reorganização liberal da economia, passa a ser ocupado por um pilar fundamental do crescimento capitalista – o sistema financeiro – cuja importância relativa cresce exponencialmente a partir dos anos 1970, até passar a hipertrofiar toda a arquitectura económica.
Fig. 14 – Brassaï (Gyula Halász), Chartres no Inverno, 1946. | Fig. 15 – Margaret Bourke-White, The Chrysler Building, NYC, 1934.
No confronto entre a rentabilização financeira e o trabalho, não só perdem os dependentes deste último, através da desvalorização directa do valor do trabalho, como se sujeitam à captura pelo sistema financeiro, quando tentam compensar a decadência do nível de vida que resulta dessa perda, acedendo crédito. O tema da criação de dívida deixou hoje de constituir um problema individual e privado, posto que a sua escala se agravou de modo a comprometer os estados nesta mecânica e degenerou num problema de dívida pública, susceptível de condicionar todos os cidadãos indiscriminadamente, enquanto contribuintes.
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A partir do esboço rudimentar, mas que se torna importante ao enquadramento, identifica-se um duplo benefício para a concentração do capital: o cada vez menor peso do (factor) trabalho nos custos de produção e a acumulação que resulta dos juros associados ao negócio do crédito, promovido pelo capitalismo financeiro.
A solução totalizadora, sem margem para renúncia, fica suspensa por uma única dificuldade: assegurar a distensão indeterminada desta mecânica expansionista, no tempo.
Finance is a formidable instrument for controlling the temporality of action, neutralizing possibilities, the “moving present,” quivering uncertainty,” and “the line were past and future meet.” It locks up possibilities within an established framework, while at the same time projecting them into the future.131
Será prematuro precisar se, subjacente ao bloqueio, está uma impossibilidade de perpetuar o deferimento temporal, que não representa mais do que o limiar de confiança na perpetuação da impostura: certo é que a narrativa compromete mutuamente devedores e credores, e acaba por transferir-se do domínio racional de volta à pré-história do pensamento, para um domínio mítico. Assim, “para aplacar a inclemência (dos deuses) do mercado e da finança, os iniciados apelam à moral e à honradez dos comuns, que devem penitenciar-se para saldar uma dívida pública e privada.” A noção de pobreza é transformada, pois deixa de representar a consequência directa da injustiça – tal como se identifica na Declaração Universal dos Direitos Humanos – para se trasvestir de justo castigo pela ineficiência.
Quando o umbral em que o crédito passa a constituir parte primária do sistema de rentabilização capitalista foi transposto, as dívidas tornam-se, estruturalmente insanáveis. Não sobra esforço, que corresponda a trabalho, que seja traduzível em valor, capaz de acompanhar a invenção virtualizada e exponencial de dívida monetária: a diferença de escala entre o valor material e valor virtual é de tal ordem, que não existe uma remota correspondência na possibilidade de criação de valor, através do trabalho – entendido como deslocamento ou transformação da matéria.132
A pressuposta relação de causalidade entre o baixo crescimento das economias e o sobre-endividamento, suportada no documento de Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff – Crescimento em Tempo de Dívida133
– onde os
131 Maurizio Lazzarato, The Making of the Indebted Man: An Essay on the Neoliberal Condition, p. 71.
132 “Money doesn’t grow on trees. It´s created out of nothing on computer screens”: cartaz activista
antiglobalização. “Em 2010, por cada libra (física: moeda ou papel-moeda) fabricada pelo Tesouro britânico (banco central), eram criadas 37 libras em dinheiro digital por bancos privados em Inglaterra, com base exclusivamente no pressuposto da criação de dívida. Esta proporção era, em 1982, de 1 para 12.” In 97% Owned – Monetary Reform Documentary.
133 Vd. Carmen M. Reinhart and Kenneth S. Rogoff, Growth in a Time of Debt.
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autores explicavam a recessão com base na superação de um limiar de endividamento de 90% do Produto Interno Bruto e que constitui a base teórica para a implementação de medidas recessivas, foi academicamente desautorizada. A ideia de um limiar técnico que estabelece a diferença entre a saúde e a doença das economias vem sendo contrariada por economistas como Paul Krugman, sistemático no trabalho de desmontagem, através da coluna periódica que publica no “The New York Times” ou por Michael Ash, co-autor e orientador do estudo de Thomas Herndon, que denunciou os problemas sérios na análise em que o referido estudo de Reinhart e Rogoff se baseava. A hipótese alternativa que avançam para o recrudescimento das dívidas públicas baseia-se na combinação disfuncional de “desigualdade e financeirização”, que segundo Ash, evoluem a par:
Um dos fundamentos da austeridade é procurar uma causa externa. Como estão convencidos que os mercados funcionam bem, então a causa deve vir de fora. Mas não é isso que vemos nos dados. Foi a desregulação dos mercados de trabalho e financeiros que geraram as instabilidades do sistema. 134
Ainda que, para debelar os efeitos de uma crise endógena – que se relaciona directamente com a arquitectura do sistema económico e é apenas correlativa às políticas diferenciais seguidas por diferentes estados – se procure comprometer o colectivo através da chantagem, ou tirando partido de alguma ignorância, o esforço exigido ao presente não encontra fulcro para a aplicação da receita: isto é, por maior que seja a boa vontade dos crentes,135
a concentração dos benefícios não deixará de colidir com a cada vez menor necessidade de trabalho humano para a produção (que por devir tendencialmente mecanizada, cria menos valor – como antes se descreve, com base na explicação de Marx).
A terminologia orwelliana que designa a tentativa de fazer regredir, à custa da desvalorização dos direitos e do valor do trabalho, o capital virtual injectado na economia – através da fabricação descontrolada de dívida pela finança – adquire a designação de “processo de ajustamento” (da economias): é a receita promovida sem assombro pelos mediadores políticos, no sentido de organizar “o melhor dos mundos possíveis” e serve a oligarquia dominante, que “cria” o capital a partir do ar, para recolher depois os benefícios da hipoteca à custa de trabalho humano real.136
Para a generalidade
134 Michael Ash, em entrevista ao suplemento «Economia», Expresso (30-11-2013), p. 14.
135 Todo o sistema, etimologicamente, se reporta à “crença”: correlativa ao crédito, do latim credere
(acreditar).
136 Passim Maurizio Lazzarato, The Making of the Indebted Man: An Essay on the Neoliberal Condition.
O autor demonstra que, ao contrário de constituir uma ameaça para a economia capitalista, “a dívida” constitui um componente central da mecânica neoliberal. Através da releitura de textos menos conhecidos de Karl Marx sobre John Stuart Mill, assim como através da análise de textos de Friedrich Nietzsche, Gilles Deleuze, Félix Guattari e Michel Foucault, a dívida é analisada enquanto construção
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dos povos, em tempo de alienação de direitos e na dependência da valorização do seu trabalho, sobra como perspectiva integrada, a garantia do servilismo planetário.
Embora havendo precedências deste tipo de exploração em contextos ditos civilizados (bastará o recuo às formas explícitas de escravatura), a desproporção presente entre os beneficiários da acumulação de capital e os dependentes do trabalho parece justificar o emprego, literal e descontextualizado, de um epitáfio “churchilliano”:137
“nunca na história dos conflitos humanos, tantos deveram tanto a tão poucos”.
Na circunstância, parece difícil descobrir sentido na dita dívida,138 ao tentar associar-se esta a um serviço directo prestado pelos happy few à sociedade. E, no entanto, se a obrigação é indefinível, não deixa de se traduzir num fardo literal intolerável para todos os outros – que se pretende ao abrigo de qualquer contestação de legitimidade. Dezanove milhões de desempregados permanentes é o balanço provisório, que se abate sobre a maior e mais poderosa organização económica que o mundo já conheceu, a Comunidade Económica Europeia.
Deve também destacar-se as migrações humanas que procuram escapar à miséria nos exauridos estados do sul, cuja trajectória colide com fronteiras materiais que apenas são permeáveis à circulação do capital, das mercadorias, das patentes e dos serviços: como refere Eduardo Galeano, trata-se aqui de uma “invasão dos invadidos”,139
um êxodo trágico que resulta naquilo que o benevolente dialecto orwelliano designa por “Cooperação para o Desenvolvimento”.
De acordo com as revisitadas (sempre tomadas por novas) regras que se naturalizam pela ignorância ou pela alienação dos sujeitos, a impostura – o benefício de poucos que prevalece de forma ostensiva sobre a miséria de muitos – sustenta-se a coberto da ilusão da autodeterminação e do individualismo pós-modernos. A sociedade tornou-se um Lowry colectivo, no Brazil onde o único verdadeiramente relevante é o lado da cerca onde se nasce. As diferentes expressões desta injustiça podem hoje quantificar-se com o recurso a evidências estatísticas, recolhidas em múltiplos estudos que suportam algumas das publicações mais mediáticas sobre estes temas: Le
política, que institui uma relação de dependência mútua entre credor, fulcral no contexto da modernidade capitalista.
137 Winston Churchill: “Nunca (na história dos conflitos humanos), tantos deveram tanto a tão poucos.”
– a ressaltar o papel dos aviadores da Royal Air Force, que defenderam com bravura o espaço aéreo britânico na II Guerra Mundial, inviabilizando a invasão alemã.
138 Depois do esgotamento dos meios (materiais e humanos) para produzir mais-valias a partir de uma
base material, o neoliberalismo vem caucionar a obtenção de valor através de uma base especulativa, com base no crédito, que mais não é do que uma antecipação virtual dos ganhos futuros esperados – o que por sua vez, é indiferente ao produto ou ao valor real de uso. Nesta forma, obtusa e suicidária, dá- se a conhecer a última formalização possível para prolongar (um pouco?) mais o sistema capitalista.
139 A Ordem Criminosa do Mundo, documentário realizado por Juan Antonio Sacaluga, para a TVE2.
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capital au XXIe siècle (Thomas Piketty), Porque Falham as Nações (Daron Acemoglu e James Robinson), Austeridade: A História de Uma Ideia Perigosa
(Mark Blyth), ou The Son Also Rises: Surnames and The History of Social Mobility
(Gregory Clark).140
Em suma, neste capítulo sublinha-se o ponto de suspensão, a partir do qual os discursos se ramificam: apenas o financiamento através de criação exponencial de dívida evita o colapso do sistema, onde há muito se rompeu a relação de correspondência entre a forma e a matéria. O mesmo é afirmar que se continua a potenciar de forma ficcional o desígnio irreversível de crescimento, comprometendo-se no processo a possibilidade de criação futura de valor. Inscrito no quadro de referência descrito, qualquer Estado impedido de “continuar a contrair perpetuamente dívida”, condena-se ao colapso económico e social: e como corolário, qualquer pressuposto de decrescimento dito sustentável, no sentido da regressão a uma espécie de capitalismo benévolo exterior às relações de poder vigentes, traria resultados imprevisíveis. Mecanismos da dívida, fundos de estabilização, promissórias de endividamento, humores dos credores, idoneidade subserviente do devedor: este somatório interdependente de cenografias artificiais, não constitui mais do que a fachada narrativa de ocultação para uma fraude planetária, baseada na criação virtual de valor, distendida no tempo.
1.1.8 FIGURAÇÃO
Deves criar o Bem a partir do Mal; é esse o único modo de o criar.
Robert Penn Warren141
Não se pretende que as formas de exploração descritas constituam um enviesado carácter do tempo presente. O estudo do mal, enquanto constante que evolui em paralelo com a razão humana, não encontrará uma época omissa, ou seja, capaz de fornecer um referente ideal para a possibilidade da existência em comum. Basta interrogar os contextos remotos onde tradicionalmente buscamos indícios de uma “existência decente”, pelas correspondentes inconveniências sistémicas: ao viajar-se ao “século de Péricles”, no reverso do desenvolvimento social embrionário da filosofia, das artes e das ciências, encontra-se a indignidade da escravatura; no período de reconstrução e crescimento, que se sucedeu na Europa à destruição pós-
140 Títulos originais ou títulos em português, que correspondem a edições traduzidas disponíveis.
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guerras142
, orientado pelo desenvolvimento de políticas sociais, ou na época correspondente além-atlântico, da consolidação do “sonho americano” como expressão modelar do capitalismo expansionista, pairava a entente precária da “guerra fria” e o fantasma do aniquilamento universal. E assim sucessivamente.
Daí, a redescoberta do truísmo dos “bons velhos tempos”, através da consentânea e complementar “impossibilidade (dita económica) de manter bons os tempos novos”. Uma equivalente irresolução volta a condenar, como utópica, a hipótese histórica de construção duradoura de uma sociedade pautada por valores de boa vizinhança. Ou seja, reafirma o enunciado como algo “naturalmente” negado ao presente. E por declinação do prévio, apenas caberia comprovar em cada momento, “de forma admirável” – como na paródia de Cândido,143 à maneira de Pangloss – “que não há efeito sem causa, e que, no melhor dos mundos possíveis, o castelo do senhor barão era o mais belo dos castelos, bem como a senhora era a melhor das baronesas possíveis.”
O pensamento conservador reafirma o propósito único de evitar males maiores e apela ao acastelar dos ânimos insurgentes, tomando por analogia as rupturas históricas precedentes. A prudência observa a sangria despoletada em 1779, pela ruptura do Ancien Régime, como manifestação acabada da coexistência inviável dos pressupostos revolucionários: liberdade, igualdade e fraternidade, contraditando-se entre si, não comprovam que o aplanar das ladeiras da injustiça, nem sempre descobre horizontes amplos e promissores? Haveria confirmação através de enunciados semelhantes, em datas posteriores, 1918 ou 1933, que sustentam o conservadorismo prudencial. À escala nacional, a utopia fraternal que se chegou a idealizar em 1974 desvirtuar-se-ia no “pior dos mundos possíveis”, segundo a linhagem interpretativa conservadora, ao ponto de se chegar a tomar por causa moral directa dos presentes efeitos.
E no entanto, segundo a perspectiva progressista, o dia presente não pode ser estranho à memória das revoluções históricas citadas, que tinham por base a idealização utópica comunista ou socialista: a reconstrução europeia democrática na segunda metade do século XX, realizada sobre os escombros da guerra, acabaria por pôr em marcha um projecto político, económico e social mais igualitário, mais solidário e mais humano – por contraponto com a configuração presente. Isto é, já não se trata de opor ao mal presente uma refundação improcedente da sociedade, mas de discutir as consequências práticas que o actual modelo geopolítico fundado na globalização económica comporta.144
142 Cf. Tony Judt, Pós-Guerra: História da Europa desde 1945. Segundo o autor, I e II Guerra Mundial
constituem partes sequenciais de uma mesma totalidade e caracteriza o período de mediação entre ambas com a adaptação da máxima de Clusewitz: “a suspensão da guerra por outros meios”.
143 Voltaire, Cândido ou o Optimismo, p. 14.
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À luz de um diagnóstico histórico-político, os processos que se naturalizam a coberto de uma (falsa) razão prática revelam-se incapazes de resistir à análise crítica. Ao elencar as descontinuidades que perturbam a harmonia do edifício histórico, observa-se que a causa profunda das revoluções não resulta da incapacidade humana para tolerar maus tratos, “mas no desgaste da coesão em que se apoia a satisfação artificial das almas”.145
Fig. 16 – Pablo Ruiz Picasso, El Rapto de Europa, 1946. | Fig. 17 – Les Caprices I, “Le sommeil de la raison produit des monstres”, Francisco Goya, tábua 43, 1799, palácio das Belas Artes de Lille.
Cabe dissociar a falência da construção política, que organiza os espaços e os tempos da vivência, da irrupção violenta face à “incompossibilidade”146 estrutural do sistema vigente. E deve também concluir-se que a insurreição nem sempre acontece a coberto da possibilidade de um projecto alternativo,
145 Robert Musil, O Homem Sem Qualidades, p. 683.
146 Cf. Gilles Deleuze, The Fold. Leibniz and the Baroque.
Afirmar a possibilidade de uma substância, significa que o cumulativo de tudo o que se atribui a esta substância possa ser atribuído sem que a substância se contradiga, isto é, sem que seja afirmado e