2.3 A QUESTÃO MODERNA
2.3.2 O DETERMINISMO MECANICISTA E A ARQUITECTURA
A modernidade [torna-se absurda, quando] impõe uma narrativa tola às actividades: agora “caminhamos para fazer exercício”, não “caminhamos” sem justificação.376
A influência do mecanicismo na imaginação da arquitectura e a correspondente naturalização da sua determinação técnica têm uma origem múltipla, cuja hierarquização é difícil, quando se procura pontuar com rigor uma estrutura de causalidade.
374 Attila Kotanyi e Raoul Vaneigen. «Programa Elementar do Estúdio de Urbanismo Unitário», in
Urbanismo Situacionista, p. 28.
375 Idem, p. 23.
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Não obstante, a eclosão de um fascínio metafórico (analógico-figural) acompanhará os estudos que descobrem a fisiologia humana e os artefactos mecânicos no período renascentista, coincidindo com a altura em que a representação adquire autonomia perante o objecto representado, podendo transferir-se para o plano ficcional (utópico) de uma possibilidade. O exemplo paradigmático de um mecanicismo embrionário encontra-se nos esboços das máquinas civis e militares realizados por Leonardo Da Vinci, que desde logo traziam implícita a compreensão de uma objectividade constitutiva do mecanismo. Ainda que se possam entender ingenuamente prospectivos, desde o presente relativo onde se observam, nada invalida o alcance da sua concepção premonitória.
Em análise que poderia aplicar-se ao legado de Leonardo, Michel Foucault reconstitui em Vigiar e Punir uma associação entre a descoberta do corpo (e o subsequente rigor de medir, ou quantificar) com a ética implícita no pensamento mecanicista. Interpreta-o desde a articulação corpo/objecto, que exemplifica através do tirocínio militar, até ao “quadriculamento cerrado do tempo”377
, que é próprio do trabalho na fábrica, onde encontra fundidos numa mesma entidade, o corpo (o que sobra do sujeito, cuja subjectividade é amputada) e o mecanismo: “o desenvolvimento (…) de uma nova técnica para apropriação do tempo das existências singulares; para reger as relações do tempo dos corpos e das forças; para realizar uma acumulação da duração; e para inverter em lucro ou em utilidade sempre aumentados o tempo que passa”378.
No período histórico em que Foucault incide a análise para a construção de um enunciado disciplinar (séc. XVIII), encontra-se também a origem polémica, entre os pensadores iluministas da época, da semente que virá a germinar no materialismo. Inicialmente reconhecido como mera declinação idiossincrática, só na segunda metade do século XIX obtém o reconhecimento como doutrina filosófica, através da reflexão marxista.
A polémica centrava-se então na oposição entre o plano estritamente ético (individual), que faz a apologia do primado do interesse do indivíduo sobre o plano político (moral e colectivo): sujeitando-se à exclusão do campo iluminista de onde procedia, La Mettrie publica em 1747, L’Homme- Machine, onde afirma que “podemos, portanto, ousadamente concluir que o Homem é uma Máquina”, pois “a Experiência falou-me, portanto, a favor da Razão e foi por isso que as uni”. E concluía: “este é o meu Sistema – ou melhor, e a menos que me engane muito, a Verdade. É curto e simples. Argumente agora [contra ele] quem quiser”379
.
377 Michel Foucault. Vigiar e Punir, p. 145.
378 Idem, p. 151.
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Muito do que à época se viria a argumentar – contando-se Voltaire entre os sátiros mais destacados – compreendia a crítica em torno ao fundamento ético que o pensamento iluminista relacionava com o funcionamento das instituições e com uma razão social expressa na lei, de onde aliás procede a invenção da universidade moderna.
Enquanto d’Holbach e os Enciclopedistas sublinham a importância das instituições (e portanto da política) (…) – o homem e as necessidades seriam reformáveis pela Educação e pelas instituições num bom sentido –, La Mettrie considera os mecanismos naturais do comportamento mais importantes, em última análise, do que os dados institucionais ou sociais. O fundamento da ética, para La Mettrie, estaria não nas instituições – o que implicava a intervenção de uma ordem de exterioridade ou um hiato/descontínuo nos seus circuitos – mas no próprio fundamento antropológico do modelo mecanicista.380
Mais tarde, durante o século XIX, o pensamento materialista é catapultado pelo desenvolvimento das ciências exactas. A combinatória das proficiências na matemática, estatística e sociologia, fariam de Adolphe Quételet um precursor no estudo da demografia, que está na base dos enunciados e das generalizações maquinistas que perpassam a modernidade.
Adolphe Quételet (1796-1874) criou a noção de um ser humano fisicamente mediano, l’homme moyen. (…) Quételet tinha uma ideia normativa: fazer com que o mundo se adequasse à sua média, no sentido em que a média seria, para ele, era o “normal”. (…) Depois de ter “definido” as características físicas e biológicas de l’homme moyen – altura, peso dos bebés no nascimento perímetro do peito (que lástima!), – Monsieur Quételet virou-se para as questões sociais. L´homme moyen teria os seus hábitos, os seus consumos, os seus métodos. (…) Adicionando à sua construção de l´homme physique – o homem mediano físico – um l´homme moral, Quételet criou uma escala de desvio da média que posiciona todas as pessoas e as correspondentes vivências ou à esquerda ou à direita em relação ao centro e – efectivamente – castiga aqueles que ocupam os extremos esquerdo ou direito da curva estatística em forma de sino. A divergência da média (…) era tratada justamente como um erro! (…) Este conceito ganhou rapidamente grande aceitação. (…) A noção de homem mediano é cravada na cultura que aguarda o nascimento da classe média europeia.381
A reprodução virtuosa desta concepção estatística do mundo acaba por encaixar com rigor volumétrico na noção “nietzschiana” da virtude em que se baseia “a moral do escravo”: ou seja, vem convergir com a noção de moralidade apurada ao longo da remota história do adestramento humano, baseada nas virtudes da mediocridade, caucionada pela narrativa judaico cristã que entroniza “os pobres de espírito”. Na prática, que costuma assumir superior relevância, acaba por servir no contexto da industrialização e na
380 Fernando Guerreiro, «As Partes da Máquina (ou a Dureza dos Mecanismos)» (1982), no prefácio à
obra de La Mettrie, O Homem-Máquina, p. 37.
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transição para o capitalismo382
, as necessidades de uma burguesia industrial emergente: ao tornar abstractas certas relações de causalidade, permitiria um distanciamento moral perante muitas das figurações funestas que a exploração operária adquiriu desde o final do século XVIII.
Em abono da verdade, a sistematização de Quételet baseada em médias e quantidades também viria a servir para a desmontagem teórica das relações assimétricas de poder, ao fornecer a base instrumental para os socialistas científicos da época, de Proudhon a Marx, sustentarem as respectivas teses. A tudo isto haveria agora que juntar a vantagem “caseira” encontrada pelos precursores arquitectos modernos, que recém-chegados à época da reprodutibilidade técnica, encontrariam na ideia “do homem médio e da média dos homens” o suporte cientificado para a acção prática (arquitectónica) em larga escala, que a seu tempo serviria o propósito de multiplicar a infra-estrutura de habitação colectiva europeia – sobre os escombros da guerra.
A vantagem deste tipo de suporte analítico, que na aparência se oferece instrumentalmente neutro, viria a granjear um sucessivo reconhecimento. E a generalizar-se universalmente, disseminado por toda a sorte de especialistas, que buscam a validação de “arquitecturas” materiais ou imateriais conformes às leis da natureza. Para além da utilidade que teriam as quantificações e a subsidiária “estatística” – “a ciência do estado” – enquanto mecanismos de dominação e objectivação do poder, também passariam a ser utilizados como sustentáculo para o diálogo de surdos entre diferentes disciplinas e os respectivos especialistas. O problema com o rigor estatístico – sugerido por Robert Musil através de um “homem sem qualidades” ficcionado – reside no facto de que os “especialistas nunca dão por acabada a sua especialização. Não só não a concluíram hoje em dia como também são incapazes de estabelecer um fim para as suas actividades. (…) É um erro pensar que o investigador persegue a verdade; de facto, é ela que o persegue a ele”383
. Torna-se comum aceitar uma sistematização “natural” da ocorrência de fenómenos, através da qual se pensa chegar – mediante uma abusiva generalização – à derradeira lógica para a conformação intencional, particular e “artificial” do espaço habitável. Esta via, conformada pelo rigor estatístico, tornar-se-ia no artifício poderoso em que se apoiavam os praticantes positivistas ortodoxos, na tentativa sumária de objectivar um comportamento individual e social, quantificando-o até ao absurdo.
De auxiliar à concepção arquitectónica, que acabaria a seu tempo por frutificar na construção de um conjunto de tipos, através de experiências como a denominada existenz minimum, viria a evoluir como preceito
382 Convirá precisar que a determinação técnica não viria a servir apenas os tecnocratas da planificação
capitalista, mas encontraria a sua utilidade para os burocratas do socialismo estatal centralizado.
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disciplinar, que se distende à revelia da sua resultante. O “deslumbramento pelo rigor” e o “desígnio de racionalização” com que se purgava a invenção da arquitectura moderna, não se trata de um fenómeno superado: podem distinguir-se correlações específicas com o ensino actual, explicando-se precisamente por esta via a ênfase conferida em sede académica à “construção do programa”, aos “diagramas” e ao “mapeamento das funções”.
As expressões didácticas e metodológicas que se transcrevem, resistem indeléveis ao absurdo habitável que constituem algumas manifestações físicas de tais formulações arquitectónicas: passe o paradoxo, mas muito deste desastre edificado foi então baseado na pressuposta utilidade da sua forma para a saúde mental e física do colectivo.
Jürgen Habermas, no ensaio Técnica e Ciência como “Ideologia”, descreve a análise neomarxista que Herbert Marcuse realiza a partir do conceito formal de “racionalidade”, desenvolvido por Max Weber (com base nos agentes ditos racionais do mercado: o empresário capitalista, o trabalhador industrial, o funcionário moderno). E destaca a seguinte conclusão, que adquire uma relevância fundamental para compreender a distância que vai da construção dos sistemas para a explicitação das regras da razão, à razão em si mesma: Marcuse está convencido de que, naquilo que Max Weber chamou de ‘racionalização’, não se implanta a ‘racionalidade’ como tal, mas, em nome da racionalidade, uma forma determinada de dominação política oculta”384
.
“A consciência (...) é infinitamente superior ao dois mais dois são quatro. Depois do dois mais dois, já não resta a certeza de nada, não só para fazer como também para aprender”.385
A “totalidade” deixa de ser apreensível, à medida que se especializa e complexifica a matriz que estrutura a existência moderna: no século XX, o historiador Siegfried Giedion, em Mechanization Takes Command: a Contribution to Anonymous History, faz uma análise radical da influência dos desenvolvimentos industriais da infra-estrutura sanitária e da estandardização dos equipamentos domésticos que aproxima a casa do laboratório e da fábrica. Para além de descrever os equipamentos, estabelece a relação entre a infra- estruturação material e o registo comportamental dos indivíduos, que se mecaniza de forma equivalente, na adaptação a estas disponibilidades.386
A investigadora e historiadora Mirjana Lozanovska, numa comunicação intitulada Thought and Feeling in Giedion’s Mechanization Takes
384 Jurgen Habermas, Técnica e Ciência como “Ideologia”, p. 46.
385 Fiódor Dostoiévsky, Cadernos do Subterrâneo, p. 56.
386 No filme o Homem da Câmara de Filmar (título original: Chelovek s Kinoapparatom), de 1929, o
realizador soviético Dziga Vertov filma magistralmente a correlação estreita entre a infra-estrutura mecânica e os ritmos humanos obrigados a responder ao artifício.
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Command387
reflecte a dimensão psicológica deste processo de apropriação comportamental e distingue o comportamento do sujeito neste contexto, simultaneamente constrangido pelo uso mecânico das estruturas materiais e fascinado pela tecnologia e pelos objectos que constituem uma manifestação do progresso.
Fig. 61 – Pierre Bergounioux, Fragmento de caixa de velocidades, fotografado em ferro-velho, n.1949. | Fig. 62 – R. Mutt (Marcel Duchamp), Chapeleira (suspensa) e Fonte (em baixo), 1917, Colecção Arturo Schwarz, Milão.
A evolução da arquitectura ao longo do século XX faz-se influenciada pela dominação mecanicista, que se estende do mundo das ideias e da interpretação dos fenómenos, até aos agenciamentos técnicos necessários para a transformação da realidade.
387 Mirjana Lozanovska, Thought and Feeling in Giedion’s Mechanization Takes Command.
http://deakin.academia.edu/MirjanaLozanovska/Papers
“Giedion’s fascination with the white tub of modernism is an example of the historian’s encounter with himself, and the conflict between a desire for progress and an aversion of its resonance in domestic and social life. The white tub refers to the technologies of hygiene and the socially determined behaviour of bodies that are subjected to the same kind of mechanisations as other animals in the production line. But it also produces the desire associated with the aesthetics of white artefacts, order, functionality and plumbing, the techné of modernism.”
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O alegado rigor científico e o saber técnico, inspirados pela utopia imaginada, de que através da reprodutibilidade técnica se erradicaria a escassez, apura o entendimento político e corporativo da arquitectura. Progressivamente, com o aparecimento das ordens profissionais que em meados do século regulamentam a exclusividade da acção técnica, o arquitecto tornar-se-ia um técnico entre outros (apesar da tendência escolar para relevar figuras tutelares): o vínculo principal do cientista da conformação do espaço seria para com o colectivo:
“Segundo a concepção do ramo mais radical dos arquitectos e engenheiros do movimento moderno, desde Walter Gropius, Ludwig Hilberseimer, Ernst May, Mart Stam (...) o importante teria sido entender a arquitectura como trabalho científico e colectivo, sistemático, modular e transmissível, apoiada na industrialização radical que traria as melhorias sociais”388.
Porém, apesar do compromisso moral assumido e do optimismo nas possibilidades redentoras da acção técnico-científica, a natureza experimental e transformadora da acção viria a colidir violentamente com a realidade.
Uma realidade que se revelaria individual, local e tradicional, quando no estirador se desenhava serial, homogénea e predeterminável. Uma realidade, enfim, pouco atreita a experimentalismos: ao contrário da arte, onde toda e qualquer improcedência se justifica ao abrigo de um pacto ficcional, o experimentalismo aplicado no campo da ciência, quando envolve seres vivos, pode matar. Por isso, no campo da ciência, quando se dirige um emissário à conquista do vazio absoluto, (com maior ou menor legitimidade moral, que aqui não se discute) selecciona-se um ser vivo de quatro patas que atende pelo nome de Laika.389
A arquitectura, nestes termos, não tem margem experimental.
Mais uma vez Dostoiévsky, que desde o século XIX endereçava a dúvida ao espírito de cada homem moderno, através da frase que em particular se aplica à invenção incumprida do homem médio:
Por exemplo, quereis desacostumar o homem dos seus velhos hábitos e corrigir-lhe a vontade de acordo com as exigências da ciência e do senso comum. Mas como é que sabeis que não só tem de ser possível mas também necessário refazer o homem deste modo? Como chegastes à conclusão de que o desejo humano precisa tanto de ser corrigido? Numa palavra, como sabeis que uma tal correcção trará realmente vantagens ao homem?390
388 Josep M. Montaner, Zaida Muxí, Arquitectura y Política. Ensaios para Mundos Alternativos, p. 49.
389 Primeiro ser vivo terrestre a orbitar o planeta Terra, para além da atmosfera (1954-1957).
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2.3.3 PROBLEMATIZAÇÃO MODERNA NO CONTEXTO DO ENSINO