1.1 GEOGRAFIA CONCEPTUAL 1 CONTEXTO (DIA PRESENTE)
1.2.3 O CONHECIMENTO MALTRATADO
A aparência proporciona-nos um mundo cheio de desgraças. A razão proporciona-nos as causas delas e as ideias que podem apresentar o mundo como redimido.197
Por seu turno, o que se poderá dizer sobre o Espaço, outro maltratado no novo artificio? Isto é, segundo uma certa perspectiva, já que Bolonha anula as especificidades locais em benefício do nomadismo cultural: e no processo
195 Immanuel Kant diferencia a Razão Pura da Razão Prática. A primeira representa a razão em si,
compreendendo o pouco que de absoluto se poderá comprovar. A segunda representa a razão conveniente para a finalidade que se entende como virtuosa, ou seja, os preconceitos que decidirmos instrumentalizar para um dado efeito.
196 Amin Maalouf, As Identidades Assassinas, p. 85.
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acaba por desrespeitar critérios linguísticos ou formativos, que dependiam da delimitação física e identitária no campo de abrangência do ensino. Por outro lado, não deixa de se tratar de um alargamento ou ampliação da ideia de comunidade, mas à qual carece a substância ideológica suficiente para resguardar as identidades diferenciais, posto que se estrutura com base na facilitação técnica, de natureza funcional.
Apesar da declaração inicial contra a anulação espacial das diferenças, não é difícil reconhecer à pressuposta globalização um desígnio igualitário benevolente, que se baseia no esbatimento das fronteiras da especificidade dos cursos, em diversas universidades. Uma nova matriz relacional potencia a mobilidade espacial entre professores e estudantes de diferentes credos e linguagens. Esta ideia de mobilidade representa a priori um facto positivo, ao sublinhar valores como a autodeterminação, o multiculturalismo e o universalismo. No processo de intercâmbio, sustenta-se uma mais saudável concepção ética de coexistência social, definida a partir da totalidade ou do contorno, por oposição à territorialidade que inflama os discursos identitários. Por analogia, o edifício do novo tratado vem redimir a derrocada de um projecto anterior no âmbito da demanda pelo conhecimento, de repercussões mitológicas. Ao fazer da incompatibilidade linguística a causa do funesto destino, o mito constitutivo da Torre de Babel constitui um paradigma notável para a construção universitária de Bolonha. Pode até afirmar-se que o novo tratado recolherá muita da sua razão nas fissuras da construção precedente, sucumbida à gravidade de palavras inúteis ou mal ditas – que resultaram da fragmentação de línguas incomunicáveis. Desta vez, e à cautela, acabou de se observar como a construção se ergue agora sobre um espaço dinâmico, pautado no tempo célere descrito, a articular através do rigor de uma linguagem técnica e estatística.
O peso das velhas sínteses, baseadas na especificidade do lugar, na língua e outras tradições arcaicas, desarmam-se pela força de uma extrema ligeireza nos conceitos: as variáveis transitórias oferecem vantagens acrescidas, pois dobram-se com a facilidade necessária para significar o dito e o seu contrário. Em resposta à necessidade de auditar financeiramente as restrições materiais impostas à construção, potencia-se a dissolução do espaço e dos tempos académicos, através das formas pós-modernas de exortação: “optimizar, agilizar, flexibilizar e reconverter,” servem para anular pelo verbo os espaços de incerteza.
Subsistem resistências cíclicas que obstam à conformação espacial dos projectos universalistas, dos quais Bolonha é paradigmático, e ilustram-se aqui recorrendo à parábola da construção da Torre de Babel.
A analogia referencial é tradicionalmente entendida como manifestação da omnipotente vontade divina, que se abate, impiedosa, sobre a desmesura da iniciativa humana. A interpretação bíblica maldiz a ambição que conduz
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os povos a empreender projectos totalitários, aqui expressa na megalómana construção física da torre. Pela obra, revela-se o instinto gregário do homem, que se equivale ao terror atemporal perante a liberdade absoluta e o vazio. Na continuação da história, a resposta divina é apresentada como uma manifestação de niilismo destrutivo, que remete o homem de volta ao solo, submetido à inelutável condição terrena. Daí em diante (até ao despertar contestatário do pensamento racional e científico), qualquer assomo de transcendência ficará refém de uma dívida penitencial a Deus, a cobrar periodicamente pelos seus procuradores, investidos do poder pastoral que emana da divina e única origem da criação. Esta é a acepção comum da parábola babélica, em que o sentido moral faz mira à vaidade do homem e reprova qualquer insurreição temerária perante os desígnios imperscrutáveis de um Deus Todo-Poderoso.
Fig. 25 – Fanal (Projecto de monumento troncónico), Etiénne-Louis Boullée (1728-1799), desenho com pena e aguada, sem data. | Fig. 26 – Dmitri Kessel, New York, (fotogravura), 1935.
No verso da narrativa convencional – agora, sob a forma de uma especulação revisionista – descobrem-se mais afinidades arquitectónicas na configuração das empresas de Babel e Bolonha: ambas convergem segundo uma espiral ascendente e o seu crescimento é potenciado por via tecnológica.
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Com efeito, à sólida progressão construtiva babélica em direcção ao Céu,198 corresponde em Bolonha a finalidade material do crescimento económico, para a qual se “promove entre os cidadãos europeus a empregabilidade e a competitividade internacional”.
A observação das representações pictóricas dedicadas ao arquétipo bíblico – de Brueghel a Boullée – permite observar o desenvolvimento geométrico da torre, baseado num tronco de cone que ascende para um vértice teórico. De acordo com as limitações impostas pela geometria euclidiana, a forma em espiral convergente condena-se a esgotar, fechando-se sucessivamente sobre si própria. Com efeito, a forma cónica representada em múltiplas visões pictóricas culmina na erosão progressiva do movimento ascendente. [Como o infimamente pequeno, o infinitamente grande e as teorias científicas e filosóficas da dobra do espaço são desprezáveis, à escala da experiência perceptiva do homem,] imagina-se a anulação do espaço habitável de Babel, quando o diâmetro coincidir com o eixo da construção. No momento crítico em que o avanço se esgota num ponto nulo do espaço, a construção tornar-se-á manifesto simbólico da finalidade que persegue.
A analogia pictórica para a convergência cónica de Babel serve de caricatura para o espaço afunilado do ensino, que pressupõe tratar cada matéria na infinitésima partição do conhecimento especializado, com que haverá que reificar o actual contexto economicista. A fragmentação promove também a autoconservação do sistema, ao tornar incomunicáveis as emergências parcelares de controvérsia.
O apagamento de zonas de conflito ideológico culmina, no ensino, com a substituição da crítica pela tecnicidade unívoca: sob o estandarte da produção enquanto finalidade, o conhecimento é tomado por conhecimento útil, de natureza técnica, concorrente para um propósito tão inexprimível quanto inquestionável. “O discurso que a promove é o discurso da via única; é o discurso anti-ideológico que pretende emanar da evidência do ‘real.’(…)
Sobre a orientação política da Declaração de Bolonha, não se descortinam grandes dúvidas: impera a necessidade operativa de padronizar todos os pensamentos, dotando-os de formalizações incorporáveis na ciência do estado. Os problemas práticos são contornados pela educação tecnocrática, que se alimenta do pressuposto que é possível qualificar, e especialmente, quantificar o pensável. A aprendizagem interpreta-se como uma técnica, a que toda a subjectividade se deve adaptar, sob pena de exclusão social automática”.199
Nesse processo unidireccional, o sujeito perde direito ao erro.
198 Segundo o Novo Testamento, talvez a equiparação tivesse que ser definida como uma relação de
direcção comum mas de sentidos opostos, pois Jesus é definitivo a afirmar que “mais depressa passará um camelo pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrará no Reino dos Céus”.
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No seu epílogo, a dominação funcionalista já não distingue a diferença entre o instrumento e o seu propósito.
Y si al principio eran un Pueblo, ahora actuaban como un Hombre, arrastados siempre por su afán y por el vértigo de la Construcción; y su construcción era su vértigo, absortos en el avance de la obra. De modo que si antes no veían la tierra ahora comenzaban a olvidar el cielo, pues la Construcción era su meta. Y miraron la Obra y la encontraron buena.200