2 O SISTEMA LITERÁRIO POLONÊS DURANTE O REGIME COMUNISTA
3 A INTRODUÇÃO DE JORGE AMADO NO SISTEMA LITERÁRIO POLONÊS: CAUSAS E MOTIVAÇÕES
3.2 JORGE AMADO BRASILEIRO: ROMANCISTA MILITANTE E EXÓTICO
Os textos traduzidos são fatos da cultura que os hospeda. Para Toury (1995, p. 27), a tradução é iniciada na cultura que recorre à tradução para suprir suas insuficiências. O pesquisador israelense postula para os estudos da tradução a necessidade de se descobrir a posição pretendida para o texto traduzido, no momento em que o mesmo está sendo introduzido em determinado sistema literário (TOURY, 1995, p. 30). Para descrever a posição dos textos de Jorge Amado, no sistema literário polonês, é necessário indagar, primeiramente, sobre o lugar que o escritor brasileiro ocupa no sistema literário brasileiro.
No momento em que a obra de Jorge Amado se faz conhecida na Polônia, o escritor, no Brasil, perfaz o perfil de um escritor comprometido com o realismo socialista. A preocupação de Amado em escrever para o povo, expressa na nota epigráfica de Cacau: “Será um romance proletário?” (DUARTE, 1996, p. 48), é
mantida posteriormente, como assegura o próprio autor no discurso de posse na Academia Brasileira de Letras (MARTINS, 1972, p. 7). A opção pelas coisas do povo torna a obra amadiana uma literatura popular, no sentido discutido pelos escritores soviéticos, e conseqüentemente, poloneses. Suspeito de populismo, como comenta Almeida (1979, p. 202), Amado é acusado no Brasil de produzir uma literatura propagandista a serviço do PC. Segundo uma parte da crítica especializada, o autor afasta-se dos cânones literários do sistema literário brasileiro (ALMEIDA, 1979, p. 210). Na mesma medida, a obra de Amado aproxima-se das características do cânone soviético. As questões referentes à relação entre o centro e a periferia do sistema literário e o papel da literatura traduzida nesta interação, estão trabalhadas por Itamar Even-Zohar (1990). Segundo o pesquisador israelense, o centro do polissistema literário está composto pelo repertório dos modelos e dos textos canonizados. Este grupo canonizado mantém o controle sobre o polissistema, manipulando os critérios para a canonização de novos textos. Os modelos, as normas e os textos canônicos são produtos visíveis de um processo de manipulação de uma elite sobre o sistema literário. No caso da literatura polonesa do pós-guerra, o centro do poder político compõe a elite que manipula o sistema sociocultural. No contexto do sistema totalitário, a literatura traduzida reforça o modelo canônico estabelecido pela elite no poder.
A tipificação dos personagens, o realismo e o otimismo da narrativa, o exercício do culto à personalidade e o intertexto com os documentos dos ideólogos comunistas na obra amadiana da época são indícios do método criativo soviético, adotado pelo escritor. Amado também toma parte na discussão sobre a literatura socrealista, repetindo os ditames dos teóricos do dirigismo estético. O escritor brasileiro define claramente sua posição, escolhendo a tradição positiva do realismo socialista e rejeitando os erros do formalismo, do naturalismo e do existencialismo, da tradição negativa burguesa. Classificado pela crítica brasileira como representante da literatura regionalista em oposição à linha esteticista do Movimento Modernista de 1922 (SALLES, 1982), Amado também é apresentado como o precursor do realismo socialista no Brasil (ALMEIDA, 1979, p. 216; 224). Tendo participado no II Congresso dos Escritores Soviéticos, no mês de dezembro de 1954, que buscou soluções para o esquematismo da literatura socrealista e afirmou
a vigência do método115, Amado testemunha o êxito dos debates para o público
brasileiro.
A partir do XX Congresso do PC soviético no ano de 1956, que denunciou os crimes de Stalin, acontece um debate entre os intelectuais brasileiros. Na carta a João Batista de Lima e Silva do mês de outubro de 1956, Jorge Amado faz uma autocrítica referente à sua atuação nos tempos de stalinismo, citando a aderência ao culto à personalidade, em especial. Autor do livro sobre as conquistas do bloco soviético, que contém uma ode a Stalin, e promotor do método criativo do realismo socialista, o autor baiano encontra-se bastante comprometido em sua trajetória literária. Em várias entrevistas ao longo da vida, a exemplo daquela concedida a Alice Raillard (1990, p. 136), Amado afirma ser um stalinista convicto na época do realismo socialista, que endeusava Stalin. O afastamento do escritor da militância do PC, segundo Almeida (1979), apresenta-se como um fenômeno bastante complexo. Embora o próprio escritor afirme ter terminado de trabalhar para o PC no mês de dezembro de 1955 (RAILLARD, 1990, p. 263), Almeida cita o episódio da participação do escritor nas comemorações do quadragésimo aniversário da revolução bolchevique, no mês de novembro de 1957, cercado pelos dirigentes do PCB (ALMEIDA 1979, p. 240), como uma manifestação da aproximação constante do escritor com o partido.
Uma parte da crítica literária brasileira reforça a leitura da obra amadiana no sentido da literatura engajada. No ano de 1961, Eduardo Portela caracteriza o realismo dos três primeiros livros de Jorge Amado como politizado “contra tendências anti-realistas da literatura burguesa” e chama atenção à “motivação marxista do próprio autor” (apud MARTINS, 1961, p. 15-21). O segundo romance de Amado, Cacau, é reconhecido por Jorge de Lima, em 1933, como “romance proletário”. No mesmo ano, João Cordeiro chama esse romance de “livro de combate” (apud MARTINS, 1961, p. 67; 71). Os Subterrâneos da Liberdade é elevado por Pedro Lima, em 1954, à “categoria das obras universais” e à “contribuição brasileira para o realismo socialista”. Nesse romance, Amado “atingiu o nível dos maiores engenheiros das almas”, exprimindo “o típico de uma classe” por meio dos “personagens esquematizados”. Desta maneira, o romancista demonstra “a consciência do papel do escritor do partido a serviço da classe operária”
115 Na Polônia, o VI Congresso dos Escritores, no mês de junho de 1954, discutiu as mesmas
concebendo “literatura como o instrumento da luta para o povo” (apud MARTINS, 1961, p. 235-237).
O tomo comemorativo publicado pela Martins Editora (1961) na ocasião dos 30 anos da vida literária do autor baiano traz vários escritos dos críticos brasileiros sobre a obra de Jorge Amado. Neles, o escritor é comparado aos expoentes do realismo como Zola e Balzac. A literatura amadiana da época também é comparada aos clássicos do romance proletário como o Cimento de Fedor Gladkov. No mesmo tomo ainda, uma parte da crítica brasileira compara Jorge Amado a Hemingway, Faulkner, Conrad, Gold, Dickens, Lorca, Rabelais, Gogol, Gorki, Pushkin, Dostoievski e Tolstoi, entre outros.
Na opinião de Nelson Cerqueira (1988, p. 20-23), nos anos de 1943 a 1958, Jorge Amado escreve seguindo os postulados da literatura stalinista. O mesmo pesquisador ressalta o fato de que a recepção favorável na URSS dos romances escritos depois da rejeição do stalinismo, desde o Gabriela cravo e canela (1958) a Tereza Batista cansada de guerra (1972), comprova a aderência de Jorge Amado às novas diretrizes para a literatura socialista formuladas em Moscou (CERQUEIRA, 1988, p. 41).
Outra parte da crítica brasileira denomina os romances amadianos de obras exóticas, comparando Jubiabá (MARTINS, 1961, p. 109) e Mar Morto (MARTINS, 1961, p. 138) às obras exóticas de Pierre Loti. A leitura de autores estrangeiros como Anna Seghers e Ilya Ehrenburg (apud MARTINS, 1961, p. 190; 221) reforça, fora do Brasil, a imagem de Amado como escritor exótico.
Durante toda a trajetória literária do escritor baiano, a crítica brasileira ressuscita as opiniões estereotipadas sobre a criação amadiana. Cinco anos após a morte de Amado, na quarta edição da Festa Literária Internacional de Paraty, entre os dias 9 a 13 de agosto de 2006, pesquisadores relembram os preconceitos associados à obra de Jorge Amado. O autor foi acusado desde o populismo literário e a execução do realismo socialista periférico, como lembra José Castello (2006, p. 28) até a exploração estereotipada do exotismo superficial e do sensualismo apelativo de um universo baiano criado para este propósito (GAMA, 2006, p. 30).
Eduardo de Assis Duarte (2006, p. 40) caracteriza Jorge Amado como “canonizado pelo público e ao mesmo tempo excluído da chamada alta literatura”, e sua obra como a “construção de uma Bahia textual marcada pela heterogeneidade”. O mesmo pesquisador (DUARTE, 1996) ressalta a necessidade de uma reavaliação
crítica da obra amadiana desde o País do Carnaval (1931) a Os Subterrâneos da Libardade (1954). A proposta de uma nova avaliação da totalidade da obra do escritor baiano traz também a pesquisadora Ana Maria Machado (2006). De acordo com o postulado de uma nova avaliação da obra amadiana, Ilana Seltzer Goldstein salienta que “Jorge Amado parece ter encampado a missão de cantar nossas particularidades, registrar uma memória nacional, divulgar a cultura popular, discutir o futuro do país”. A mesma pesquisadora afirma que “Jorge Amado inventou os estereótipos e imagens da baianidade e brasilidade”, manipulando também as representações identitárias já existentes “para ter sucesso” junto ao público leitor (GOLDSTEIN, 2006, p. 82-94). Neste sentido, o romancista baiano inventou a imagem da Bahia, que, por sua vez, ajudou a construir a imagem do romancista Jorge Amado. Segundo Ivia Alves (2006, p. 108), no futuro, a produção de Jorge Amado “provavelmente não deve sair do cânone” da literatura brasileira.