CAPÍTULO 2: A PESQUISA E SEUS COMPONENTES
2.2. JUSTIFICATIVA
Os avanços científicos e tecnológicos sem precedentes vivenciados pela atual sociedade têm provocado mudanças nos planos cultural, existencial e socioeconômico. Para atender aos apelos e às exigências de um mundo que muda a uma velocidade estonteante, diversos países promovem debates com o objetivo de promover alterações em seus sistemas de educação superior, envolvendo o incentivo a novas formas de aprendizagem e produção, gestão e desenvolvimento de conhecimentos (SPELLER; ROBL; MENEGHEL, 2012).
Dos professores se exigem novos valores, habilidades e conhecimentos para não se perder de vista o sentido das práticas educativas (CUNHA, Célio da; SOUSA; SILVA, 2012). Dos alunos se exige capacidade para aprender o ofício de estudante (COULON, 2008).
Neste contexto, torna-se relevante investigar e apresentar aspectos dessas práticas educativas e modos de aprender, priorizando oportunidades que se oferecerem, durante a investigação, à construção de identidades de alunos e de professores no complexo intercâmbio de experiências sociais desenvolvidas no ambiente da sala de aula da universidade. Tal priorização, por si só, já contribui para descobrir como estudantes e professores conseguem lidar com a heterogeneidade de princípios que caracteriza o mundo atual.
Nesta heterogeneidade, estudantes e professores interagem segundo lógicas de ação inscritas num processo educacional composto por sistemas relativamente autônomos, configurados à semelhança dos sistemas de integração, de interdependência e de ação histórico, explicados pela sociologia da experiência (DUBET, 1994). A identificação dessas lógicas enquanto se desenrolam os papéis sociais, à medida que o processo educacional se desenvolve, esteve presente nesta
pesquisa com o fito de contribuir para tornar evidentes valores, interesses e subjetividades presentes nas interações sociais existentes na sala de aula.
Tais lógicas se vinculam aleatoriamente e não segundo uma espécie de necessidade natural (DUBET, 1994), sendo suporte da construção de experiências sociais ocorrida na pluralidade de valores e na ruptura. Ao descobrir se há interações entre essas experiências, no ambiente da sala de aula e, caso existam, descobrir de que maneira elas se desenvolvem, a pesquisa apresenta-se como uma iniciativa favorável ao estabelecimento de um processo educacional atualizado com as estruturas sociais de um mundo fragmentado e dissolvido na modernidade líquida (BAUMAN, 2001, 2007). Um mundo que não mais se explica a partir da ideia de mera identificação do ator com o sistema.
Com estas descobertas, identificar as vinculações causais entre as experiências sociais e os sistemas relativamente autônomos, compositivos do processo educacional, poderá contribuir para que este se atualize, por isto mesmo, porque há certa autonomia de sistemas implícitos e diversas são as lógicas de ação utilizadas por estudantes e professores durante as interações sociais.
Isto tudo num mundo que exige, cada vez mais, da educação, processos formativos direcionados para a integralidade humana. Que exige da educação uma prática em que seus aspectos informativos e formativos sejam articulados, tornando- se esteio para a concretização das orientações do Relatório Delors com relação aos quatro pilares da educação para o século XXI (DELORS et al., 1998). Um relatório que, apesar de estar voltado para a educação básica, em sua essência, aplica-se à educação superior porquanto prioriza a renovação contínua do conhecimento; a necessidade de relacionar teorias e práticas na formação profissional; o trabalho cooperativo e em rede que considera as diversidades; a ética geral profissional.
Desse modo, ao se constatar nesta pesquisa a existência da articulação informar-formar, bem como em que medida ela contribui para a interação entre experiências sociais desenvolvidas na sala de aula, ficam mais evidentes aspectos relacionados à concretização dos quatro pilares da educação para o século XXI – aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser. Com efeito, como afirmam Delors e colaboradores (DELORS et al., 1998), o aprender a
ser envolve o desenvolvimento total da pessoa: espírito e corpo, inteligência,
Neste sentido, aspectos relacionados aos diálogos construídos na sala de aula, evidenciados pela pesquisa, podem fazer parte de estratégias favoráveis à solução de problemas como violência escolar, aborrecimento e desinteresse dos alunos quanto à escola como um todo e quanto à universidade em particular62. Portanto, podem contribuir para a elaboração de políticas públicas, pois apresenta aspectos que se desdobram do nível micro para o nível da macroexistência do fenômeno educativo. Políticas públicas que, certamente, incluem os processos de formação de professores.
Questões relacionadas à educação, ao trabalho, à cultura, ao lazer e às mídias, dentre outras, emergem e evidenciam-se na sala de aula, especialmente na universidade. Por isto, a partir destas evidências, a pesquisa apresenta-se como um contributo para a concretização da pedagogia dialógica, que pode situar-se no detalhe da ação docente e no âmbito global. Neste âmbito, o institucional refere-se tanto ao ato educativo como à elaboração de leis, normas e pareceres.
Neste sentido, a pesquisa pode auxiliar o professor empenhado na busca por falar aos estudantes, simultaneamente à prática da escuta de indagações e dúvidas, com estes exercitando o direito de dizer sobre a cultura do seu grupo e sobre seus ideais, refletindo num processo educacional que valoriza a efetiva comunicação na sala de aula. Com as descobertas aqui apresentadas, tal professor poderá visualizar oportunidades de acessar os saberes dos estudantes, sendo levado a refletir com eles a respeito dos porquês destes saberes na relação com o mundo. Ou ainda oportunidades de crescer com eles na diferença, no respeito mútuo às respectivas autonomias enquanto seres humanos (FREIRE, 2009) – tudo isto favorável à elaboração e execução de projetos voltados para a efetiva escuta do jovem.
Desse modo, por ter construído argumentações úteis à construção de diálogos entre estudantes e professores, a pesquisa poderá contribuir com reflexões a respeito de uma universidade que se renova e oferece respostas à sociedade, que se democratiza, pois admite a crítica, sobretudo, dos estudantes. Com efeito, o exercício da argumentação refina conteúdos acadêmicos ensinados (RIBEIRO, 2006). Neste aspecto, ao contribuir para aprimorar ou desenvolver a capacidade crítica, abrirá perspectivas de observação em favor da ação docente e ação
institucional, resultando em que estudantes, professores e demais componentes da instituição se assumam como efetivos responsáveis pela solução de problemas relacionados com a educação.
A pesquisa poderá contribuir também para compreender os processos de desinstitucionalização da universidade (DUBET, 1994; SANTOS, 2005), o que fortalecerá a fundamental característica da universidade de ser um lugar de diálogo (MENDES, 1968). Com isto, serão construídos diálogos estratégicos favoráveis à integração de um sistema educacional do qual fazem parte estabelecimentos de educação básica e superior; tornar-se-á mais estreita a associação entre ensino, pesquisa e extensão; promover-se-á maior interação intergeracional; se articularão aspectos informativos e formativos da educação, portanto, viabilizando-se a concretização dos quatro pilares da educação para o século XXI no âmbito da universidade; haverá maior articulação entre os diversos tipos de conteúdos desenvolvidos pelo professor na sala de aula e se estabelecerão vínculos entre concepções de ser humano e de projeto educativo. Desse modo, a pesquisa apresenta-se como uma contribuição para o aprimoramento do processo de adaptação da universidade à heterogeneidade de públicos proporcionada pela expansão da educação superior, podendo amenizar a estranheza de estudantes quanto às normas escolares e o desconforto de professores diante do alegado nível daqueles.
Portanto, numa primeira perspectiva, a pesquisa possui a potencialidade de favorecer discussões sobre a construção da pedagogia dialógica na universidade, bem como do currículo capaz de dialogar com o jovem estudante a partir de vivências e oportunidades que se desdobram ou são criadas na sala de aula. Isto auxilia a universidade a lidar melhor com determinadas contradições que emergem com os processos de desinstitucionalização. Auxilia a se renovar, a situar os estudantes e suas necessidades no centro de sua atenção (UNESCO, 1999), bem como a promover uma cooperação internacional baseada na solidariedade e no respeito mútuo, além de promover valores humanísticos e o diálogo intercultural (UNESCO, 2009).
Numa segunda perspectiva, ao resgatar as formulações teóricas da sociologia da experiência, a pesquisa evidencia o potencial contributivo de, inicialmente, clarificar, confirmar ou não e, depois, se for o caso, enriquecer as concepções a
respeito desta sociologia (DUBET, 1994). Isto porque agrega informações e explicações conectadas com as diversas realidades relativas à vida cotidiana de estudantes e professores em sua interação social.
Constatou-se a ausência de pesquisas com o objetivo de investigar a dinâmica de interação entre as experiências sociais de jovens estudantes e de professores no âmbito do processo educacional desenvolvido na sala de aula da universidade, tendo presentes os processos de desinstitucionalização sofridos por ela. Neste sentido, a pesquisa apresenta aspectos que podem contribuir para a formulação de teorias relacionadas a regras que organizam as atividades de estudantes e professores voltadas para a construção de identidade social, retalhada a partir da modernidade63.
Cabe ressaltar que, para realizar suas pesquisas, Dubet (1994, 1998, 2003, 2008, 2013) tem utilizado bastante os contextos da França, um país desenvolvido, porém, com profundos contrastes sociais e grandes dificuldades com a juventude e a adolescência. As situações escolares estudadas pelo autor, em grande parte, transcendem à realidade imediata daquele país e pertencem ao mundo global, incluindo os conceitos de adolescência e juventude nas globalidades. Portanto, são estudos transnacionais.
Em geral, os estudantes estão descontentes, desinteressados, querendo participar de decisões e realidades do tempo atual. Assim, os objetos de reflexão daquele autor a respeito destas realidades emergem da globalização, que não correspondem mais às explicações das teorias clássicas.
Suas teorizações tornam cristalina a ação humana num mundo globalizado, fragmentado, na dispersão de comportamentos e atitudes mergulhados em processos de racionalização. Ele estuda os processos de desinstitucionalização, componentes de uma dinâmica que se faz presente tanto na França como no Brasil e em outros países, exigindo de universidades de várias partes do mundo, cada vez mais, o exercício do diálogo em seu dia a dia. Portanto, as questões de fundo deste trabalho pertencem ao mundo globalizado e fragmentado, independentemente do país onde as teorias que o fundamentam tenham sido formuladas.
63 Para Dubet (1994, p. 183) falta estabelecer uma teoria da gramática dessas atividades, que seria
“o objeto de uma sociologia da experiência” .
Numa terceira perspectiva, a pesquisa tem o potencial de contribuir para as metodologias de investigação científica, pois oferece a visualização de nuanças na utilização de técnicas, procedimentos e demais trajetórias que têm caracterizado o estudo de caso como delineamento de investigação. Tendo sido um estudo etnossociológico, tratado como estudo de casos múltiplos, do ponto de vista metodológico a pesquisa pode contribuir para compreender os rigorosos percursos que o caracterizam. A partir de inúmeras interrogações elaboradas durante o desenvolvimento de tal método e deixadas como conclusão – em itinerário que vai do como ao porque –, a pesquisa desmistifica algumas ideias, como a de que o estudo de caso serve apenas como ferramenta de pesquisa preliminar ou como mera estratégia exploratória de uma investigação.
Desse modo, tendo como foco a interação de experiências sociais desenvolvidas na universidade e contando com um método abrangente que inclui a lógica do projeto, as técnicas de coleta/geração e a análise de dados, a pesquisa apresenta-se como um contributo para o uso do estudo de caso – um empreendimento considerado ainda desafiador para as ciências sociais (YIN, 2010).