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LUTA ARMADA E CONSTITUIÇÃO DE UMA BASE TERRITORIAL

PARTE I: HISTÓRIA DO CONCEITO DE REVOLUÇÃO BRASILEIRA E CLASSES

1.5 VIA DO CONFLITO ARMADO

1.5.1 LUTA ARMADA E CONSTITUIÇÃO DE UMA BASE TERRITORIAL

No mesmo mês da V Conferência Nacional Extraordinária do Partido Comunista do Brasil, realizada em 18 de fevereiro de 1962 na cidade de São Paulo, houve o racha do partido comunista, se dividiu em Partido Comunista Brasileiro e Partido Comunista do Brasil, foi publicado o livro Perspectiva da revolução brasileira, escrito por Marcos Peri38. Vejamos o que Marcos Peri afirma sobre a revolução brasileira, qual critério utilizou para pensá-la, o que pretendia dizer ao usar o conceito e o que dizia acerca das classes dominantes.

Se o PCB renegou Stálin com a ―nova política‖ defendida pelo partido, o PCdoB conservou o ex-líder soviético como uma de suas referências teóricas, ao lado de Marx, Engels e Lenin.

Na conjuntura internacional, no mundo socialista, a crise entre a União Soviética e a China se exacerbava. O líder chinês Mao Tsé-Tung era contrário ao processo de desestalinização em curso na URSS e criticava Khruschev pelos desvios "oportunistas" e "reformistas". Enquanto a União Soviética e a China alcançaram o socialismo pela experiência revolucionária ligada à luta de massas, a Revolução Cubana triunfava, sem a participação do Partido Comunista Cubano, pela tática da insurreição provocada por meio da luta armada, da criação de múltiplos focos guerrilheiros que impediam a ação repressora das forças armadas cubanas e derrocava as classes dominantes. Che Guevara e Régis Debray teorizaram sobre o assunto. Novos partidos adotaram a via armada para o socialismo, como o PCdoB. Assim, um conjunto de fatores internacionais e nacionais contribuiu para reativar a semântica da insurreição, golpista, tenentista e épica do conceito de revolução brasileira.

38 Pseudônimo usado para não expor o autor tanto dentro do partido comunista, quanto para a polícia política, em razão das teses defendidas. Provavelmente foi escrito por um ou mais dos quadros que estava em desacordo com a nova política do PCB, consubstanciada na declaração de março, os quais participaram ativamente na criação do PCdoB. São eles: João Amazonas, Maurício Grabois, Câmara Ferreira, Mário Alves, Jacob Gorender, Miguel Batista e Apolônio de Carvalho.

Ao invocar as teses do marxismo-leninismo e ao evocar a ―crise geral do capitalismo‖, vista como determinismo histórico inelutável e disjuntar reforma-revolução, Marcos Peri afirma que não há revolução sem reação e guerra, fazendo-se necessária a ―violência revolucionária‖, que não significa o uso indiscriminado da força. Pelo fato de ter ocorrido uma revolução burguesa no Brasil – a partir de 1922 até 1956, orientada e controlada por forças externas, na qual houve uma substituição da ―classe feudal‖ pela classe burguesa no poder, – e pelo fato de o capitalismo se desenvolver nos marcos da dependência com o imperialismo, a perspectiva da revolução brasileira era o socialismo e o mesmo devia ser alcançado sem descartar a luta armada no campo (Peri, 1962).

Assim, para Marcos Peri (1962, p.151), a revolução brasileira seria a tomada do poder de Estado da burguesia. ―O inimigo principal é hoje a burguesia brasileira, detentora do Poder, já em avançado estágio monopolista e cosmopolita, ajustada economicamente ao campo imperialista mundial‖. Neste sentido, o livro vai contra toda a ‗nova política‘ do PCB e contra a frente única.

O critério adotado por Marcos Peri (1962) para pensar o conceito de revolução brasileira compreende as crenças do marxismo-leninismo, tal como desenvolvidas por Stálin e Mao Tsé-Tung em sentido político e militar, no qual a revolução se converte em ―uso da violência revolucionária pelas classes oprimidas‖, em ―guerra revolucionária‖. É a tomado do poder pela insurreição, pela violência, pela guerra civil ou, o mais raro, pela via pacífica. O cerne da questão era ―impulsionar o surgimento de condições revolucionárias objetivas, que conduzam o proletariado ao poder‖, mesmo que armadas. Marcos Peri (1962) defende a insurreição, impulsionada pela luta armada no campo e pela constituição de uma base territorial da revolução, possibilidades indispensáveis para a tomada do poder de assalto. ―A criação de uma zona dominada pelo Poder revolucionário e o constante movimento de ampliação dessa zona constitui a possibilidade real e permanente que jamais foi aproveitada pelo partido‖ (PERI, 1962, p.157).

Marcos Peri (1962) faz a crítica do PCB pretendendo refutar a linha política dominante no partido, depois de 1958, apontando divergências substanciais que, não poderiam ter deixado de ocasionar a cisão no interior do partido comunista, como ocorreu nos primeiros meses de 1962. Desde o diagnóstico do tempo do PCB até seus prognósticos foram ponto a ponto questionados pelo autor, que também pretendia refutar o nacionalismo e o desenvolvimentismo. Peri, como que na forma de um ultimato, visava com o uso que fez do

conceito de revolução brasileira que o PCB aderisse à luta armada e abrisse mão de sua ‗nova política‘. Usava o conceito para defender o que considera uma política de vanguarda, um conceito ―verdadeiramente revolucionário‖ de revolução: integrar o PCB à realidade política brasileira, concebida à luz do marxismo-leninismo. Mais que isso, da aplicação do marxismo- leninismo à realidade brasileira e contra a passagem gradual do capitalismo ao socialismo.

Com relação às classes dominantes, o autor se detém mais na burguesia. A grande questão era impedir que a burguesia se consolidasse no poder de Estado e, assim, retardasse a revolução socialista indefinidamente. O Brasil, constituído por um Estado burguês em processo de consolidação, contribui para a consolidação das relações capitalistas de produção. A revolução burguesa, que implica a tomada do poder pela burguesia, em consonância com seu poder econômico já havia ocorrido no Brasil. O capitalismo predominava no campo e nas cidades e a burguesia brasileira, embora tivesse controle do poder político, estava entrosada com o imperialismo monopolista e a grande finança internacional.

A burguesia que recém-tomou o Poder no Brasil não é uma classe inexperiente, relativamente fraca e titubeante, como se poderia supor. Ao contrário, tem seus expoentes integrados nos grandes monopólios internacionais, de cuja experiência econômica e política vêm se beneficiando. Ocorre na verdade que, não apenas o Poder foi conquistado pela burguesia, mas o foi por uma burguesia cujos setores dominantes estão já em estágio superior, monopolista, integrados nos grandes trustes internacionais (PERI, 1962, p.115).

Historicamente, a burguesia brasileira vinha atuando com ―habilidade e clarividência‖, ao ter criado monopólios estatais antes de galgar o poder. Com senso de perspectiva, resolveu com antecipação problemas que foram críticos em outros países, tomando e incentivando medidas que lhe garantiriam estabilidade futura. Além disso, ―seus grupos mais representativos souberam sempre contornar a radicalização dos problemas e desembocar em soluções que lhes convinham como classe [...] Numa palavra: a burguesia brasileira mostrou possuir capacidade de direção política‖ (PERI, 1962, p.119). Sob o predomínio do imperialismo, a revolução burguesa brasileira se processou num quadro de convergência de interesses econômicos entre as classes em jogo.

Embora reconheça a unidade de ação política, clarividência e capacidade de direção política da burguesia brasileira, Marcos Peri (1962) não cogita em nenhum momento a ação da contrarrevolução e a possibilidade de um golpe. Se o poder burguês estava em vias de consolidação, detinha apoio do imperialismo, e a classe burguesa tinha mais consciência de

seus interesses políticos no Brasil do que os comunistas, como é que a vanguarda da classe operária disporia de meios para promover a ―guerra revolucionária‖? As expectativas de Marcos Peri eram demasiadas, era preciso ―acelerar‖ o tempo histórico, e, assim, sua concepção de revolução era como um episódio épico e sangrento seduziu uma parcela restrita dos comunistas brasileiros.

Com essas formulações o autor situava-se na pequena minoria da extrema esquerda no quadro político brasileiro da época, anunciando as tendências vindouras após o golpe empresarial-militar, porém ainda acreditando na inevitabilidade do socialismo. Era preciso pressa para imolar os filhos de Brutus por meio da violência revolucionária.