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PARTE I: HISTÓRIA DO CONCEITO DE REVOLUÇÃO BRASILEIRA E CLASSES

1.3 REVOLUÇÃO BRASILEIRA E CLASSES DOMIANTES: DA QUARTELADA AO

1.3.3 PROCESSO GLOBAL DE MUDANÇAS ESTRUTURAIS E CULTURAIS

Imediatamente após a queda de Fulgêncio Batista em Cuba no dia primeiro de janeiro de 1959, com a finalidade de evitar novos incidentes, os investidores, os industriais, a classe dominante, os políticos, os militares dos Estados Unidos que, além de dispor de um serviço secreto incumbido de levantar informações e conhecimento, passaram a mobilizar a produção dos cientistas sociais nativos que estavam fazendo pesquisas alhures na América Latina e no mundo, para tomar conhecimento dos países nos quais tinham interesses a preservar (Page, 1976).

Parece ser o caso do artigo escrito por Charles Wagley18, traduzido e publicado na forma de livro, intitulado A revolução brasileira. Uma análise da mudança social desde 1930. Redigido sob encomenda, o texto é dirigido para os investidores norte-americanos e para:

18

Charles Wagley (1913-1991) antropólogo norte-americano, ex-aluno de Franz Boas, lecionou na Universidade de Columbia, na qual se tornou diretor do Instituto Latino-Americano e, posteriormente, na Universidade da Flórida. Sua obra é uma contribuição à antropologia brasileira, na qual se destacou por unir os ensinamentos da antropologia cultural com a antropologia social inglesa. Na década de 1950, Charles Wagley dirigiu o Programa de Treinamento e de Estudos do Homem nos Trópicos, da Columbia University e o Seminário de Culturas Latino-Americanas, iniciativa de Anísio Teixeira, durante o governo de Octávio Mangabeira na Bahia, na qual se

(...) orientar a política dos Estados Unidos – ou de qualquer outra nação, não importa no caso – em relação ao Brasil, mas, ao mesmo tempo, é sumamente importante que se fixe uma política sábia, se quisermos ter certeza de que o ―novo‖ Brasil será uma legítima democracia, no sentido ocidental da palavra (WAGLEY, 1959, p.15).

O artigo foi publicado pelo Conselho de Negócios Estrangeiros dos EUA. Depois, traduzido e publicado pela editora Progresso, em edição conjunta com a Fundação para o

Desenvolvimento da Ciência da Bahia. Thales de Azevedo prefaciou o livro. De forma

intencional, consciente ou não o autor elaborou um diagnóstico para servir às forças da contrarrevolução. Vejamos o que diz sobre a revolução brasileira, qual critério adota para pensá-la, o que pretendia dizer sobre o conceito e o que diz sobre as classes dominantes.

Charles Wagley (1959) usa o conceito de revolução brasileira para indicar o processo de transformação industrial da economia brasileira iniciado por Getúlio Vargas em 1930, o qual se irradiou por toda a sociedade, gerando novos valores e comportamentos, em conflito aberto com os valores brasileiros tradicionais, que estariam em processo de decadência. Reproduz a matriz dualista de interpretação do Brasil ao crer que os valores modernos tendiam a varrer os tradicionais, apesar de ambos estarem coexistindo. Wagley opõe os valores modernos – igualdade, liberdade, secularização, racionalização, contrato, – aos valores tradicionais brasileiros – favor, paternalismo, familismo, palavra, fidelidade etc.. Acreditava que o processo de industrialização e o desenvolvimento capitalista tendiam a suplantar esses valores e as relações sociais implicadas.

A revolução brasileira, segundo o brasilianista, é ―uma revolução econômica, política e social‖. Não era produto de uma quartelada nem uma insurreição, mas de um processo histórico iniciado pela Revolução de 1930.

Não assumiu a forma de uma rebelião armada ou de guerra civil, nem é uma sequencia de diretrizes e ideias conscientemente planejados, como os que se desenvolveram na revolução mexicana de 1910. Vai-se, ao contrário, desenrolando sem plano nem ideologia, exceto quando cada administração tenta resolver alguns problemas urgentes. Essa ―Revolução‖ consiste em uma série de transformações entrelaçadas na sociedade brasileira. Esta era essencialmente agrária, semi-feudal e patriarcal, encontra-se agora em estabeleceu um convênio entre a universidade de Columbia e o Programa de Pesquisas Sociais do Estado da Bahia. Neste programa Charles Wagley cooperou com Thales de Azevedo e Luiz Aguiar Costa Pinto. Deste convênio resultou a formação e o treinamento de antropólogos e um conjunto de pesquisas. Cf. CLEARY, (1992).

processo de mudança para uma sociedade industrial, moderna, capitalista, orientada para a cidade (WAGLEY, 1959, p.14-15).

Tratar-se-ia de uma revolução econômica e social idêntica à que foi experimentada pelos países da Europa ocidental no século XIX: revolução industrial destruidora e criadora de novas relações sociais. A revolução brasileira era definida como um processo global de mudanças.

Por se tratar de um antropólogo, Charles Wagley (1959, p.7) tem como critérios para pensar o conceito de revolução brasileira os aspectos culturais:

(...) sistemas de valores e aspirações, critérios de atribuição de status e de aquisição de prestígio, orientação e sentidos da existência, padrões de relações na família, no trabalho, na política, na economia, finalmente, desejos e necessidades definidos pelas novas situações.

Apesar disso, não desconhece o papel das estruturas sociais, das instituições econômicas, das mentalidades e das atitudes que através da história se combinaram para criar modos de vida característicos do Brasil. Wagley vai além do culturalismo ao aceitar a importância das estruturas sociais na gênese das culturas.

O que estaria sendo revolucionado era o Brasil tradicional, um país que, em 1910, era relativamente pobre e isolado. País de baixa renda nacional, com poucas indústrias, que importava de tudo. A sociedade se assentava na economia baseada em poucos produtos comerciáveis e no extrativismo: borracha em crise na Amazônia; canaviais no nordeste em decadência; o algodão sofria competição dos EUA; o cacau tinha vitalidade, mas pouco alcance. Somente o café assegurava a expansão econômica. Inexistia um amplo mercado interno, estradas, meios de comunicação que integrassem o território nacional. O transporte de mercadorias era feito por cabotagem.

Predominava, então, o forte regionalismo. ―Era quase como se houvesse vários Brasis, mal e mal ligados num todo como nação‖ (WAGLEY, 1959, p.17), unificada apenas pela língua e cultura ibérica. No Brasil tradicional predominavam os laços de amizade, relações de famílias, relações pessoais, personalismo, nas formas do transcendentalismo e humanismo. Apesar disso, os velhos valores luso-brasileiros ―são ainda predominantes no Brasil e ajudam a explicar o presente, bem como o choque entre o que é antigo e o que é novo

na sociedade brasileira‖ (WAGLEY, 1959, p.75). A revolução brasileira, como metáfora industrialista, na chave do dualismo, tenderia a suplantar essa sociedade e seus valores.

Charles Wagley também acreditou no Brasil potência, como a maior parte dos intelectuais do período. ―Todas as razões levam a crer que no fim do nosso século o Brasil se tornará uma das maiores potências mundiais, não somente pela sua grande área e população, como por causa do alto padrão de vida que dará ao seu povo‖ (WAGLEY, 1959, p.77). O brasilianista, no entanto, alertava que o Brasil precisaria da ajuda dos EUA, pois as soluções de emergência não eram suficientes. Se pensarmos na reflexividade destas ideias, no fato de se transformarem em forças históricas, hoje se sabe com clareza que a intervenção norte- americana, ao lado de forças locais, na sociedade brasileira, no final de março de 1964, realizou o contrário do que pressagiava o brasilianista.

Charles Wagley (1959) pretendia dizer, ao usar o conceito de revolução brasileira, que o Brasil era um país seguro para os investidores norte-americanos, apesar de a maioria da população pertencente às classes do proletariado rural e do proletariado urbano ser suscetível a ação de demagogos extremistas de direita ou de esquerda em razão das péssimas condições de vida. Assim, a política norte-americana voltada para o Brasil, se quisesse contribuir para transformar o Brasil em potência, devia melhorar as condições de vida no campo e até apoiar a reforma agrária. Como historicamente aliado dos Estados Unidos e do mundo ocidental, o Brasil não devia ser perdido para os soviéticos.

Em relação às classes dominantes, Charles Wagley (1959) reproduz as teses de Gilberto Freyre. Segundo Wagley, as ―famílias tradicionais‖ mantiveram paternalismo das ―classes elevadas‖ do Império para com as ―classes inferiores‖. A ―classe superior tradicional‖ descendia da nobreza do Império e dos grandes proprietários de terras e de famílias que ascenderam por riqueza e poder político na República. A endogamia promove entrelaçamento de famílias e de interesses, assegura a conservação e expansão do patrimônio familiar. Ingressar na ―classe superior‖ é difícil, pois o pertencimento a essas famílias são meios de garantir privilégios.

Eram bem conhecidas e frequentemente citadas as genealogias e as relações de famílias e amigos comuns. A circunstância de pertencer a uma dessas grandes ―famílias de bem‖ era muitas vezes o requisito prévio para um sucesso econômico, profissional, político ou social. (WAGLEY, 1959, p.18).

A ―classe superior tradicional‖ tinha desprezo pelo nacional e adoração pela Europa, em particular, pela França. Inspirava-se nos valores aristocráticos e europeus. Pertencer a essa classe significava dispor de uma vida estável, com privilégios e direitos especiais garantidos. As pessoas das classes dominantes que vivem no interior do país voltam- se de forma mimética para a classe dominante das grandes cidades costeiras, onde estudavam seus filhos. A classe dominante tradicional manifestava paternalismo, proteção (senso de

noblesse-oblige, obrigação de nobre) nas relações entre patrões e trabalhadores, além de

valer-se de relações de dependência, dívida e favor. Wagley (1959) relata a presença de relações íntimas e altamente pessoais entre desiguais nas regiões brasileiras onde fizera trabalho de campo.

Já a nova classe superior era mais americanizada. Segundo Wagley (1959), a revolução brasileira ―mudou a face da classe superior do país‖. As famílias tradicionais mantinham importância, mas dividiam prestígio com novos adventícios e imigrantes (Matarazzo, Jaffet, Lunardelli, Santos Vahlis, Klabin), beneficiados pelas transformações capitalistas em curso. Estes alcançavam posições de poder e riqueza. Não se identificavam mais com os valores tradicionais brasileiros, mas com o burguês de Nova Iorque ou Paris. Apenas parcialmente aspirava valores tradicionais, para obter favores do Estado. Por endogamia, ela ia se fundindo com a velha ―classe superior tradicional‖. Os casamentos promoviam o aburguesamento das famílias tradicionais.

Os valores do grupo novo são ligados à força comercial, ao poder econômico e industrial ou ao capital, e não à propriedade da terra e ao controle político. Assenta-se no comércio e na indústria. ―A nova classe superior está, contudo, demasiado ocupada com a consolidação da sua posição financeira, política e social, para se preocupar com as responsabilidades públicas‖ (WAGLEY, 1959, p.76). O americanista percebe a tendência histórica privatista da burguesia brasileira industrial e bancária que engendra o anti- republicanismo, típico de burguesias que atuam em países colonizados e subdesenvolvidos, conforme o vocabulário da época.

A intuição mais interessante de Wagley (1959) é notar, através da comparação com os povos indígenas da América central e do sul, que a cultura do favor e da dependência pessoal, muito vigente ainda no Brasil, deve-se à grande concentração de terras e, por conseguinte, resulta da ausência da propriedade da terra pelas comunidades rurais e pela majoritária parcela da população. A desigualdade de distribuição de terras no Brasil seria o

responsável pelas alianças de interesses entre desiguais, no parentesco, na cultura do favor e da dependência pessoal do patrão. A desigualdade assentada na propriedade da terra produz o senso comum e a cultura tradicional brasileira, os quais seriam superados pelo desenvolvimento capitalista, na visão dualista de Wagley (1959).

Uma concepção diferente é oferecida por mais um autor engajado em seu tempo, Álvaro Vieira Pinto, o qual questiona o suposto bom senso das classes médias e dominantes brasileiras e aposta na virtualidade emancipatória da cultura popular ao versar sobre a revolução brasileira.

1.3.4 CONSCIÊNCIA CRÍTICA E PROTAGONISMO DAS MASSAS

Marcos Cesar Freitas (1998) já mostrou que populismo e catolicismo não são referencias capazes de dar conta da trama de Álvaro Vieira Pinto19, pois o mesmo ofereceu lances originais no debate da revolução brasileira a partir do tema trabalho, tratado com particularidade, conforme seus critérios inspirados em Celso Furtado, na Cepal e no terceiro mundismo dos isebianos. Freitas nota apologia à indústria e mistificação do industrialismo no pensamento de Vieira Pinto. Apesar disso, destaca que o mesmo foi o teórico da crença em torno do caráter emancipatório da cultura popular, muito presente no período, concepção que motivou movimentos como os da UNE, CPC e alfabetização das massas. Segundo Freitas (1998), Vieira Pinto acreditava nas formas terceiro-mundistas de resistência ao imperialismo e o nacionalismo seria um meio de articular a criação da nação como etapa para constituição de comunidade internacional dos países subdesenvolvidos.

Norma Cortês (2003) repugna o anacronismo, questiona o mecanismo pelo qual os autores são consagrados socialmente e mostra por que Álvaro Vieira Pinto teve um ―destino amargo e morreu no ostracismo intelectual‖. A intérprete salienta que nacionalismo,

19 Álvaro Vieira Pinto (1909-1987), como muitos intelectuais, ao longo de seu itinerário transformou radicalmente suas crenças e posicionamentos políticos. Na juventude, aos 23 anos formou-se em medicina e aos 25 fizera parte da Ação Integralista Brasileira (AIB), organização de inspiração fascista, liderada por Plínio Salgado. A paixão pela filosofia, porém, redimensionou as preocupações de Vieira Pinto, que logo se tornou professor de lógica matemática na Universidade do Distrito Federal (UDF). Mais tarde, em 1950, após voltar de Paris, onde permanecera um ano estudando, Vieira Pinto assume a cadeira de titular de história da filosofia da FNFi, disciplina que ministrava há vários anos, na qualidade de professor assistente. Em meados de 1951, abandona a pesquisa médica, à qual se dedicara praticamente desde a sua formatura, para se dedicar exclusivamente ao ensino e ao estudo da filosofia. Em 1955, a convite de Roland Corbisier, Vieira Pinto, aos 46 anos, tornou-se chefe do Departamento de Filosofia do recém-criado Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), organizado no âmbito do Ministério da Educação e Cultura. Em 1962, Vieira Pinto assumiu a direção executiva do ISEB, em um momento de crise financeira e acirrada campanha difamatória movida pela imprensa conservadora, tendo à frente o jornal O Globo. Cf. CORTÊS (2003).

desenvolvimento e democracia foram temas quentes no interregno democrático, disputados pelas forças em jogo. Cortês (2004) defende que entre USP e ISEB existem diferenças inconciliáveis, são visões de mundo e atitudes epistêmicas distintas. As diferenças não indicam evolução cognitiva nem supõem a evolução linear do conhecimento científico. Desenvolvimentismo e nacionalismo não estariam ultrapassados pela força da realidade, pois são paradigmas, mobilizáveis em certas conjunturas políticas.

Nos capítulos analíticos a respeito da obra de Vieira Pinto, Cortês (2004) rastreia a presença de uma visão radical da democracia em Vieira Pinto, manifesta já na sua forma de exposição, na atribuição de igualdade entre as consciências, na concepção do demos como fundamento da autonomia da ordem política. Crítico do intelectualismo, do elitismo, para ele, a igualdade entre os indivíduos é o fundamento sobre o qual se assenta a vida política. Ele também reconhece a autonomia e a imanência da esfera política e do jogo eleitoral como instância deliberativa (para o bem e para o mal). Cortês (2004), assim, contribui para questionar a tese, conforme a qual a questão nacional predominou sobre a questão democrática no debate intelectual do período de 1958 a 1964.

Com base nestes intérpretes percebemos que Vieira Pinto possui uma contribuição filosófica fundamental para a historiografia da revolução brasileira, embora não tenha publicado um livro com esse título20. Consciência e realidade nacional, considerada a obra filosófica mais importante, escrita em linguagem despojada, é endereçada ao ―grande público‖, alfabetizado, e interessado nas questões nacionais, tenciona ser uma verdadeira experiência política formativa.

O livro foi publicado em 1960, no final da experiência desenvolvimentista de JK. Já se tornava perceptível que o crescimento econômico não havia mudado a organização política nem suplantado as desigualdades brasileiras. Desde 1958 precipita uma crise de crescimento, embora desequilíbrio financeiro e inflação não desestimulassem os planos industrializantes de JK. Ao discordar das condições impostas pelo FMI para a concessão de crédito, JK rompeu com a instituição para prosseguir com seu plano de metas. Deixava, assim, para seu sucessor problemas de inflação e dívida externa. Abria-se uma nova conjuntura de crise de sucessão presidencial, em 1960, que se agravou com a renúncia de Jânio Quadros, em 1961, e posse de João Goulart.

O livro de Vieira Pinto é uma contribuição fundamental do autor para a historiografia da revolução brasileira, pois no ISEB até então havia praticamente um consenso em torno do protagonismo da burguesia industrial como sujeito político da revolução brasileira. Este livro também é programático em relação às atividades desenvolvidas pelo ISEB entre 1962 e 1964, quando Vieira Pinto esteve à frente da direção executiva da instituição, a qual publica em conjunto com Ênio Silveira e a editora Civilização Brasileira a coleção Cadernos do Povo Brasileiro e promove agitação política em torno das reformas de base propostas por João Goulart.

Vieira Pinto utiliza o conceito de revolução brasileira para, além de indicar uma transformação histórica processual de ruptura com o subdesenvolvimento, com o imperialismo e o latifúndio, percepção contrária à visão golpista do conceito, polemizar com as teses vigentes no ISEB, até então, a respeito da revolução brasileira.

O ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros) foi uma instituição de cultura e de estudos vinculada ao Ministério da Cultura. Almejava pensar e difundir os caminhos políticos do desenvolvimento nacional através de uma ideologia com a finalidade manifesta de politizar os diferentes grupos e classes sociais, em torno de um projeto de nação, de industrialização e de autonomia nacional. Surgiu de um grupo de intelectuais de São Paulo e do Rio de Janeiro que se reuniam periodicamente na cidade de Itatiaia. Membros deste grupo criaram o IBESP (Instituto Brasileiro de Economia Sociologia e Política), que, posteriormente, converteu-se no ISEB, regulamentado em 1955 pelo governo de João Café Filho, sucessor de Getúlio Vargas. O periódico Cadernos do Nosso Tempo (1953-1956) foi editado nessas instituições.

O nacionalismo dos anos 1950 estava em sintonia com os movimentos de libertação colonial que eclodiram após a Segunda Guerra Mundial principalmente na Ásia e na África. Entre os isebianos, nacionalismo possuía um conteúdo que remetia à soberania nacional, à autodeterminação e à autonomia do Estado-nação nas esferas econômica, política e cultural. Era um recurso de análise e um meio de orientação da ação política. Visava formar vontades públicas informadas por um projeto nacional. Identidade nacional e cultura popular para os intelectuais do ISEB e dos Centros Populares de Cultura eram redefinidos em oposição ao colonialismo e em afirmação de um projeto de nação (Ortiz, 2006). A questão do nacional-popular era pensada no contexto de um Estado que se modernizava e enfrentava questões econômicas e políticas.

Os isebianos alertavam sobre os problemas da ―cultura alienada‖, do ―colonialismo‖, da ―autenticidade cultural‖, embasavam-se da filosofia e da sociologia alemã e francesa para tratar a questão cultural, privilegiando a ação social, a história a ser escrita. Para eles, a nação brasileira era uma realidade histórica em construção, porém setores das classes dominantes ignoravam esse fato, cabendo a eles elaborarem uma ideologia para a classe dirigente se tornar ―hegemônica‖. Apesar do consentimento de Juscelino Kubitschek, os isebianos propunham a antípoda do que realizou esse presidente em seu mandato, conforme Ortiz (2006). Além disso, o ISEB foi uma das primeiras instituições culturais e políticas destruídas pelo Golpe civil-militar de 1964, teve suas instalações depredadas e seus integrantes processados em Inquérito Policial Militar.

O ISEB exerceu um papel progressista na sociedade brasileira. Apesar das diferenças teóricas e políticas de seus membros, em conjunto, pensaram a ―revolução brasileira‖, conforme a tônica do pensamento progressista e crítico do período, orientado para a construção nacional.

Conforme Daniel Pécaut (1990), desde o início os isebianos assumiram explicitamente a tarefa de inventar a ideologia adequada para presidir a revolução brasileira. Desde a criação do instituto até 1958 predominou a ideologia nacional-desenvolvimentista, embora o ISEB fosse mais um centro de estudos, que além de verbas e estatuto oficial, recebia recursos da FIESP. Neste momento a instituição oferecia cursos, fazia sugestões na gestão econômica e participava da construção da legitimidade do projeto industrialista.

A ideologia do nacional-desenvolvimentismo da primeira fase do ISEB tem seu foco esclarecedor no debate entre agrarismo e industrialismo, descartava um modelo socialista para o Brasil. Era mais uma visão mais política do país, assentada nos diagnósticos da Cepal, no plano econômico compartilhada por um grupo interdisciplinar e heterogêneo de