• Nenhum resultado encontrado

6. A PRESENÇA DA ALMA PARA O SENSÍVEL

6.5. Matéria como simulacro e espelho impassível

Em um tratado posterior, ainda da fase intermediária, o tratado III 6 [26] Sobre a

impassibilidade das coisas incorpóreas (ΠΕΡΙ ΣΗ΢ ΑΠΑΘΕΙΑ΢ ΣΨΝ Α΢ΨΜΑΣΨΝ), Plotino apresenta um paralelo entre o Ente e a matéria, a princípio, por aquilo que apresentam de semelhança e afinidade: a incorporalidade (ἀσώματον). Afinal, ambos, tanto a matéria como o Ente são distintos dos corpos (ἕτερα τ῵ν σωμάτων). Porém, como a matéria não é inteligência (οὔτε νοῦς), não é alma (οὔτε ψυχὴ) e, portanto, não é vida (οὔτε ζωὴ), nem forma (οὔτε εἶδος), nem razão (οὔτε λόγος), nem limite (οὔτε πέρας), mas ilimitação (ἀπειρία) essencial e absoluta280, não lhe cabe a denominação de <ente> (ὄντος), mas o mais apropriado seria chamá-la <não-ente> (μὴ ὂν) (cf. III 6 [26], 7, 5-12).

278

Inclusive, no tratado II 4 [12], a matéria sensível aparece como uma imagem da matéria inteligível, presente no Intelecto como substrato comum responsável pela individualidade e variedade das formas (cf. cap. 4). Sobre o sensível e o inteligível como uma série contínua, cf. abaixo, p. 166, n. 384.

279

μιμούμενα τὴν νοητὴν καθόσον δύναται φύσιν.

122

Contudo, Plotino esclarece que a matéria é não-ente não como o movimento é

não-ente em relação ao repouso, se remetendo ao Sofista de Platão; mas como o não-

ente absoluto, ou seja, como a máxima oposição ao Ente em si, o Intelecto e o

inteligível. Diz Plotino que trata-se do verdadeiramente não-ente (ἀληθιν῵ς μὴ ὄν), simulacro e aparência de massa (εἴδωλον καὶ φάντασμα ὄγκου) (cf. III 6 [26], 7, 12- 20)281.

Simulacro e aparência tal como um espelho (ὡς ἐν κατόπτρῳ) que, em si mesmo, não contém nada do que reflete e aparenta. Trata-se de um reflexo (φαντάζω): o que está situado em uma parte (na forma) se reflete em outra (na matéria) (τὸ ἀλλαχοῦ ἱδρυμένον ἀλλαχοῦ φανταζόμενον). As coisas parecem originar-se nele (no simulacro) e ele parece contê-las, possuí-las e até mesmo sê-las; no entanto, em si

mesmo ele não possui nada e não é nenhuma de todas as coisas (cf. III 6 [26], 7, 20-28).

Citando Platão, Plotino afirma que as coisas que entram e saem são cópias dos seres

(ὄντων μιμήματα) (Timeu, 50 c 4-5). Na verdade, são ―... imagens que penetram em uma imagem amorfa...‖ (εἴδωλα εἴς εἴδωον ἄμορφον) (cf. III 6 [26], 7, 29). Essas imagens, que são cópias dos seres (ὄντων μιμήματα), são fracas (ἀμενηνὰ), débeis (ἀσθενῆ) e sem resistência (ἀντερεῖδον οὐκ ἔχοντα); contudo, como a matéria também é uma imagem e sequer tem resistência, ―... as coisas a atravessam sem cortá-la, como se fosse através da água ou como se alguém projetasse, por assim dizer, formas no que é

chamado vácuo‖ (cf. III 6 [26], 7, 30-33)282

. Assim, as imagens dos seres (as imagens

281 Aqui, Plotino parece esbarrar em um problema de difícil solução, uma vez que o não-ser ou o não-ente

absoluto, desde Parmênides e mesmo no Sofista de Platão, necessariamente não existe e, portanto, não é. Conforme será apresentado na sequeência, parece que Plotino associa a matéria ao não-ser absoluto de modo ainda alegórico, já que ela não possui nada do que reflete, tal como um espelho, apesar de ser ―algo‖ capaz de ―refletir‖.

282

ἀλλ᾿ οὐδὲ ἐκείνης ἐχούσης δίεισιν οὐ τέμνοντα οἷον δἰ ὕδατος ἢ εἴ τις ἐν τῶ λεγομένῳ κενῶ μορφὰς οἷον εἰσπέμποι.

123

das formas) que atravessam a imagem e o simulacro do Ser (a matéria), dão para o

sensível o estatuto de falsidade (ψεῦδος), como num sonho (ὀνείρῳ), ou como o reflexo na água (ὕδατι) ou no espelho (κατόπτρῳ) (cf. III 6 [26], 7, 35-45).

Com efeito, continua Plotino, é necessário que o afetado possua potências

contrárias aos agentes que produzem as afecções. Afinal, é devido ao calor que há em

um substrato que surge a alteração provocada por aquilo que esfria; do mesmo modo, é

devido à umidade presente em algo que é possível a alteração provocada por aquilo que

seca (cf. III 6 [26], 8, 1-5). Nesse sentido, Plotino aponta para a necessidade de

contraposição para a possibilidade da alteração que, nesse caso, constitui a própria

realidade sensível.

Contudo, nenhuma alteração afeta realmente a matéria em si mesma, que

permanece completamente impassível, tal como a cera (κηρῶ) que recebe a impressão de figuras e imagens. A cera permanece a mesma, seja antes seja depois da impressão. E

mesmo o desaparecimento da imagem, para a matéria (cera) é completamente

indiferente; assim como a luz não altera o objeto iluminado, nem o frio altera a natureza

da pedra (cf. III 6 [26], 9, 1-12). Do mesmo modo, os espelhos são completamente

impassíveis às imagens que neles se refletem (cf. III 6 [26], 9, 15-18). O que é

modificado e afetado e sofre alguma alteração são as qualidades que se juntam na

matéria, sobretudo, as que são contrárias (cf. III 6 [26], 9, 23-25). Ora, a alteração é

própria do composto (cf. III 6 [26], 11, 10-12). Afinal, a matéria deve permanecer a

124

um substrato onirreceptivo283 (πανδεχὲς), e passará a ser algo definido e limitado, ou seja, um obstáculo (ἐμπόδιον) para a recepção das formas (cf. III 6 [26], 10, 1-15).

E desse modo, é possível vislumbrar uma primeira indicação de como se dá,

segundo Plotino, a participação da matéria nas formas inteligíveis. Plotino afirma que a

participação não é como pensam, mas trata-se, no limite, de uma aparência de

participação (cf. III 6 [26], 11, 25-27). A matéria não sendo modificada pelas imagens

das formas permanece o que era desde o princípio, impassível, sem acréscimo nem

diminuição. O adorno dado pelas imagens das formas são como revestimentos que não a

alteram (cf. III 6 [26], 11, 12-18). O adorno não a transforma de feia em bela, nem de

má em boa, caso contrário, ela deixaria de ser ela mesma. E isso resulta que a matéria,

segundo Plotino é completamente impassível ao bem, ―... e isso é o mesmo que dizer que ela é totalmente impassível (ὅλως ἀπαθῆ)‖ (cf. III 6 [26], 11, 45-46)284

. Isso

significa que a participação, segundo Plotino, em sua interpretação de Platão, não é a

presença de uma forma no substrato conferindo-lhe formato e tornando-o um composto

unificado (ἓν σύνθετον) de elementos comodificados (συντραπέντων) e como que cofusionados (συγκραθέντων) e coafetados (συμπαθόντων) (cf. III 6 [26], 12, 1-5).

Nesse caso, a imagem das formas que ―entram‖ na matéria não a afetam e não a modificam: ―Mas ela deve permanecer quando as formas entram e deve ser impassível quando elas saem, para que haja sempre algo que entre nela e também saia. Então, o que

entra, entra como uma imagem e como não verdadeiro em algo não verdadeiro‖ (cf. III

283

Platão, Timeu, 51 a 7.

284ὥστε εἴ τις τὴν ὕλην λέγει κακήν, οὕτως ἂν ἀληθεύοι, εἰ τοῦ ἀγαθοῦ ἀπαθῆ λέγοι· τοῦτο δὲ

παὐτόν ἐστι τῶ ὅλως ἀπαθῆ εἶναι. É nesse sentido que, segundo Plotino, é possível qualificar a matéria como ―má‖ (κακήν), ou seja, como ―impassível ao Bem‖ que é o mesmo que dizer que ela é totalmente impassível.

125

6 [26], 13, 30-33)285. Ora, com isso Plotino quer dizer, como explicita na sequência do texto, que falsamente a imagem entra no falso: ―é como se alguém visse entrar em um

espelho as imagens dos objetos que se refletem e enquanto eles se refletem‖ (cf. III 6 [26], 13, 34-36)286. Trata-se, pois de imagens que se refletem em um espelho, produzindo a imagem da imagem, que é propriamente o sensível. Desse modo, a matéria

participa da forma sem realmente participar, refletindo sua imagem por sua proximidade

e vizinhança (cf. III 6 [26], 14, 22-24). E esse reflexo ou essa projeção, composto da

natureza da forma e da capacidade reflexiva da matéria é que produz todos os corpos, o

cosmos e toda a natureza sensível. Afinal, se não existisse a matéria, nada (nenhum

reflexo passível de atualização) teria vindo à existência; assim como não haveria

imagem se não houvesse espelho ou algo semelhante (cf. III 6 [26], 14, 1-3).

6.6. A “entrada” da alma no corpo: a alegoria do fogo (πσρὸς) e da sombra (σκιᾶς)