Buscando problematizar o assunto, percebo que posso trabalhar as questões de classe e raça de forma muito aproximada de como escolhi trabalhar o gênero. A própria Joan Scott nos diz:
O esboço que propus no processo de construção das relações de gênero poderia ser utilizado para examinar a classe, a raça, a etnicidade ou qualquer processo social. Meu propósito foi clarificar e especificar como se deve pensar o efeito do gênero nas relações sociais e institucionais. (SCOTT, 1995, p.88)
Ora, então, por que não podemos pensar esses atravessamentos e essas categorias a partir de uma análise histórica, de discursos, representações, normatizações, construções de igualdades e diferenças no campo cultural?
Aproximando as perspectivas pós-estruturalista e foucaultiana, o nosso interesse recai nos investimentos políticos da construção e negociação entre os grupos, entendendo as identidades de classe, raça e gênero como efeitos de instituições, práticas e discursos com pontos instáveis, múltiplos e difusos de origem. (FERRARI, 2010b, p.22)
Pensando assim, não procuramos buscar a origem do gênero, da raça, da classe. O que vai nos importar é buscar o passado para entender o presente, como nos sugere Foucault em sua genealogia.
E, nessa busca, encontramos que “[...] as mulheres, desde o século XIX foram comparadas com as crianças, como seres inferiores” (FERRARI, 2010b, p.25); encontramos os movimentos que problematizam e lutam para mudar essa situação; encontramos legitimações, mas, também, resistências; encontramos mudanças e constantes tentativas de manutenção dessa ordem de inferioridade e submissão feminina. Encontramos também outras formas de submissão e inferiorização.
Assim como as mulheres foram colocadas como seres inferiores, a modernidade também estabelece as condições históricas de construção dos negros como „primitivos‟, de forma que essa população, de forma geral, foi rebaixada à categoria de „mercadoria‟ e mesmo de „coisa‟, num processo de „coisificação‟ que atingiu sobremaneira os negros e, em particular, as mulheres negras. (FERRARI, 2010b, p.26)
Não ignoramos que a história do povo negro no Brasil é marcada pela anulação de suas vontades e desejos e pela exploração de sua força de trabalho no modelo escravocrata.
Nesse tempo, o homem negro era forçado a trabalhar arduamente e a mulher negra, além do trabalho escravo, era também, com frequência, explorada sexualmente, tendo como agente principal dessa exploração, o proprietário de terras (FERRARI, 2010b, p. 23), que também era seu proprietário. Esse povo, como nos ensina a história, era tratado como objeto que se compra e vende, não tinha os indivíduos reconhecidos como pessoa, passando, assim, por diversos sofrimentos, como a separação de familiares, a exagerada jornada de trabalho, o castigo físico, a exposição a diversos tipos de humilhação, a falta de garantia de direitos, o abandono nas doenças, entre outros tantos. Viviam em situação de dominação pelo fato de terem sua cor de pele diferente do povo que então dominava, fato que remetia a um complexo discursivo produtor das desigualdades e dos tratamentos que lhes eram dispensados. Tudo isso vem
[...] denunciar as relações desiguais e escondidas das dimensões de gênero, raça e classe social que estão presentes na construção da identidade do brasileiro, camufladas nas falsas noções de „democracia racial‟ e de „cordialidade‟ do povo brasileiro, que dificultam e limitam o entendimento do Brasil como um país de conflitos.
Essa herança histórica serviu para a construção de uma mentalidade racista e preconceituosa, que foi sendo incorporada ao cotidiano e que, pouco a pouco, foi se normatizando e naturalizando. (FERRARI, 2010b, p.23)
Um passeio pelas periferias e regiões pobres de qualquer cidade, o acompanhamento de notícias na mídia, a observação de atividades subalternas em qualquer instituição e a visita a presídios são oportunidades para encontrarmos a população negra nos lugares que ainda lhes são reservados na sociedade brasileira. Por outro lado, em outros espaços como escolas e hospitais considerados de boa qualidade, teatros, museus, cinemas, entre outros tantos lugares, essa presença é bastante limitada.51 Essa realidade que se configura em uma “divisão racial do espaço” (GONZALEZ, 1983; GARCIA, 2012, RATTS, 2012) é percebida e assumida como vivência pelas mulheres com quem pesquiso. Uma realidade formadora de discursos e representações para a população negra e pobre no Brasil produzindo como efeitos a limitação de suas possibilidades e diminuição de suas potencialidades.
Ana: “[...] Então, cê não pode comparar que eu vou fazer um... a Vânia e a filha da tia
Rosinha. Chega lá, o potencial é menor!”
Eu: “Mas, aí, o potencial, que cê tá falando é o quê? É em capacidade de...”
Ana: “Em raça, em convivência com a pessoa, em educação... Isso tudo é contado! Quando
você é jogada no mercado de trabalho, isso é contado! Às vezes, a Vânia pode ter sido maravilhosa naquela empresa, top, top. A Vânia chegou lá junto com a sua filha. Chegou lá, vê a negra e a branca... é contado!” [ri]
Essas falas de Ana se deram no encontro em que assistimos e discutimos o filme “Histórias cruzadas”, ocasião em que as questões de raça e classe apareceram com força, nos possibilitando momentos como este:
Eu: “Então vocês associam o negro à cor da pele?”
Ana: “À pele!”
Vânia: “É... à cor e à condição que ele vive.”
Eu: “Aí, a condição, como que vocês veem isso? Essa questão da condição social? Deixa de
ser negro porque é rico? Por exemplo: Só é negro quem é pobre?”
Januária: “É...”
Vânia: “Não deixa de ser negro, eu falo... as limitações são bem diferentes...”
Januária: “É bem favorável pra ele se tem dinheiro.”
Ana: “Cê vai num hospital. Vamos fazer uma classe... Você chega num hospital, certo? Você
vai consultar. Tem médico negro? Médico, doutor, negro?”
Januária: “Muito pouco!”
Ana: “Me responde! Quero sua resposta!” [dirigindo-se a mim]
Eu: “Cê quer que eu responda?”
Ana: “Hum hum! Não! Isso, assim...”
Vânia: “Tem, pouco. Tem poucos...”
Ana: “Se você for hoje, amanhã, depois, depois... todos os dias que você for, você vai ver um
negro?” [Ana insiste que eu responda]
Eu: “É mais difícil, né?”
Januária: “É difícil! É... o negro tem mais dificuldade...”
Ana: “Aí você vê mais branco! Cê chega num condomínio, você vê negro?” [Novamente, é de
mim que Ana quer ouvir a resposta]
Eu: “Mais difícil também!”
Ana: “Raro! Você chega numa favela, você vê negro?” [Januária e Ana riem].
Januária: “Demais!” [ri].
Ana: “Você chega no meio dos pacientes que tão naquele hospital, você vê negro?”
Januária: “É...”
Ana: “Independente se o hospital é particular ou público. Você vê negro?”
Eu: “Onde, onde que vocês acham que o negro, hoje, tá mais inserido? Em que lugares que
a gente encontra mais negros?”
Januária: “Nas favelas.”
Ana: “O nome do lugar?”
Januária: “Nas periferias.”
Vânia: “Nas periferias.”
Ana: “Nas periferias, no presídio, na delegacia...”
Januária: “É...”
Ana: “Num órgão público, trabalhar... pra você ver... antigamente, você via assim, ah! Você
chega numa escola... antigamente, não inseria um negro... como... como definiram que na escola... o negro, assim... deixa de ser doméstico pra ser professor. Assim, a classe social...
quando o negro tá inserido dentro de uma profissão mais... que dá uma vida social, pra ele, melhor – eu calculo isso, né? esse é o meu raciocínio – ele é professor, ele é esteticista, uma profissão que dê uma função pra ele... cabeleireiro... uma profissão que dê pra ele uma condição melhor.”
Ana: “Cê chega num banco, você conhece algum gerente negro? Cê tá falando comigo de
gerência. Eu quero saber se você conhece algum gerente negro! A única gerente de loja que eu conheço, negra, é a minha irmã, Raquel!”
Januária: “Em órgão pequeno, né? porque em grande, não tem, não! Não tem, não!
Ana: É a minha irmã, Raquel. E quando a minha irmã, Raquel saiu daqui pra gerenciar
uma loja – ela gerencia uma loja que tem 12 profissionais – quando ela saiu daqui pra gerenciar uma loja que tem 35... 35 funcionários... – porque ela é capaz, está capacitada pra isso – as funcionárias que eram brancas, discriminaram ela, porque não aceitavam que ela ordenava! E ela teve depressão, teve... e retrocedeu! Voltou pra uma loja do centro onde ela manda em 12. Não manda nos 34, lá em cima!”
Januária: “É! Não! Mas fica difícil! Ainda existe isso, sim!”
Ana, nesse momento, coordena a discussão e problematiza a condição da população negra. Chega a “me espremer na parede” para responder suas questões e nos conduz a pensar. Não é qualquer profissão que um negro ou uma negra pode exercer, não é qualquer lugar que pode frequentar e nem qualquer serviço que pode usufruir. O lugar do negro é “nas favelas”, “nas periferias, no presídio, na delegacia...”, nas profissões que mantém sua condição social, em escolas de baixa qualidade. Quando “avança” um pouquinho mais assumindo cargos de comando, como no caso de Raquel, sofre o preconceito. Negro/a não pode mandar. “Ainda existe isso, sim!”. A problematização levantada por Ana se resume na fala de Vânia: “as limitações são bem diferentes...” e então, “fica difícil”, como encerra Januária.
Trazendo dados de estudo sobre desigualdade racial e de gêneros divulgados em 09/09/2008 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)52, Salles (2008) nos informa que mesmo considerando um aumento na proporção da população negra presente nos ensinos fundamental e médio, a população branca ainda sobressai.53 Com relação à renda, mesmo havendo uma alta observada no salário de negros e negras, “a discrepância é grande. Os brancos ainda vivem com quase o dobro da renda mensal per capita dos negros” (SALLES, 2008, p.s/n).
Especialistas dedicados à questão da desigualdade racial concordam entre si com a raiz histórica deste vácuo econômico entre brancos e negros. Educação básica deficiente e pouco universalizada, a herança histórica deixada por séculos de escravismo e uma tradição de ocupar empregos de
52
“O estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) tomou como base dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) lançadas pelo IBGE entre os anos de 1993 e 2006. A designação "branco" ou "negro" foi estabelecida segundo autodeclaração dos pesquisados.” (SALLES, 2008, p.s/n)
53 “[...] em 1996, 82,3% dos negros estavam matriculados em etapas do ensino fundamental adequadas à sua idade e apenas 13,4% no ensino médio. Em 2006, essa porcentagem subiu para 94,2% no ensino fundamental e 37,4% no médio. A proporção de negros e negras que estudavam no ensino médio, entretanto, ainda é muito menor que a de brancos - que chegou a 58,4% em 2006.” (SALLES, 2008, p.s/n)
pouco prestígio social estão entre as causas da diferença. (SALLES, 2008, p.s/n)
Através da mesma fonte, temos a informação de que “outras constatações do estudo mostram que a população negra é menos protegida pela Previdência Social do que os brancos - especialmente no caso da mulher negra - e começa a trabalhar mais cedo para se aposentar mais tarde” (SALLES, 2008, p.s/n). Tudo isso pode ser considerado uma mostra da desigualdade social, da construção da identidade social de negros e negras e também uma mostra de que negritude e pobreza caminham juntas em nosso país.
A classe social, na sua intersecção com raça, principalmente, produz diferenciações e pertencimentos, contribuindo para a exclusão ou a inclusão dos indivíduos de determinados privilégios ou direitos. Essa colocação busca evidenciar o quanto esses termos se intersectam. Classe e raça parecem estar, em alguns contextos como o brasileiro, atreladas desde sempre. (ANDRADE, 2009, p. 65)
Tudo isso está contemplado na conversa conduzida pelas problematizações de Ana e é reforçado em vários momentos da pesquisa que acaba apontando para um modo de vida negra/pobre/na periferia.
Vânia: “Pela cor da pele e por outras várias coisas.”
Eu: “Que outras várias coisas?”
Vânia: “Ah... o meio social, assim, onde eu fui criada, também... A minha mãe, né? A vida
da minha mãe... tudo que a gente passa, assim... são características, né? do negro!”
As dicotomias homem/mulher, negro(a)/branco(a), pobre/rico(a) ainda estão muito presentes nas construções identitárias e subjetivas. Criam formas de ser na sociedade, definem comportamentos, delimitam espaços, criam pertencimentos, abrem e fecham portas. As perspectivas teóricas que me ajudam a pensar minha pesquisa entendem que “é a partir dos pertencimentos primários e „naturais‟, como raça, gênero, sexo, região, que se constroem novos tipos de coletividade e identidade específicas” (FERRARI, 2010b, p.27), no entanto, estas não são condições naturais nem necessárias. Ao contrário, são construídas e contingentes. O povo brasileiro, desde o período colonial herdou, principalmente da Europa, modos de ser femininos e masculinos que foram inventados e naturalizados no decorrer dos séculos. Herdou também condições de subalternidade construídas historicamente subjugando pessoas em razão de suas condições materiais e raciais.
Desde os primeiros censos, a definição da raça no Brasil esteve implicada com a cor, o que não ocorre do mesmo modo em outros países multirraciais. A multiplicidade de elementos mobilizados como marcadores de diferenças
– e, portanto, também de pertencimentos nomeados como raciais, em tempos e contextos diversos – é reveladora do quão escorregadia, imprecisa, disputada e problemática é esta definição. (ANDRADE, 2009, p. 65)
De qualquer forma, os discursos estão aí, circulando, construindo as representações. As mulheres com as quais pesquisei se autoidentificam como negras e pobres e trazem, elas mesmas, como já pudemos ver até aqui, várias falas que apontam para os atravessamentos entre gênero, raça e classe. Inserem-se nesses discursos que se entrecruzam e constituem subjetividades bem específicas. São, assim subjetivadas por eles.