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No primeiro encontro, uma pergunta: o que é ser mulher?

No documento rosalindacarneirodeoliveiraritti (páginas 102-107)

Depois da decisão de trabalhar com as mulheres, e não com as adolescentes, combinei com algumas delas um passeio num sítio pertencente a uma Fundação Espírita que

também frequento. Esse sítio é usado para atividades espíritas que incluem ecologia e lazer e é um lugar muito aprazível, onde todas gostam muito de frequentar. A data escolhida foi um domingo, 21 de julho de 2013. Passaríamos a tarde no sítio, conversaríamos sobre a pesquisa, assinaríamos as autorizações e faríamos um lanchinho.

O que me interessa, por ora, nesse encontro, é o que se dá mais no seu final. Após o lanche, solicitei que escrevessem uma resposta para a questão: “O que é ser mulher?”. Queria, naquele momento, conhecer as representações que tinham sobre o que é ser mulher, pois entendo que

A representação inclui as práticas de significação e os sistemas simbólicos por meio dos quais os significados são produzidos, posicionando-nos como sujeito. É por meio dos significados produzidos pelas representações que damos sentido à nossa experiência e àquilo que somos. Podemos inclusive sugerir que esses sistemas simbólicos tornam possível aquilo que somos e aquilo que podemos nos tornar. (WOODWARD, 2009, p.17)

Assim, suspeitava que tais representações poderiam conduzir às práticas que exercem sobre si mesmas a fim de se produzirem como a mulher idealizada. Por isso a pergunta é “o que é” e não “como”, como é a minha intenção nesta pesquisa. Pensemos nas respostas:31

O que é ser mulher

Hoje, dia 21 de julho de 2013 acho que ser mulher é ser eu que após 33 anos me transformei em força, sabedoria, não julgo mulher como sexo frágil, pois somos forte temos e sim como sexo supremo ou acho a mulher é tudo...

Mulher

Ana Beatriz (Anita)

31Naquela ocasião, Januária e Ana Beatriz haviam escolhido os nomes Jerusa e Anita, respectivamente, mas como já tratei neste texto, resolveram voltar atrás e assumir seus nomes reais. Vânia não havia escolhido nome fictício. Rhuana e Jô permanecem com os nomes escolhidos. Esclareço que Ana Beatriz é tratada na pesquisa apenas por Ana, que é como comumente a chamamos.

“Hoje, dia 21 de julho de 2013 acho que ser mulher é ser eu que após 33 anos me transformei em força, sabedoria”. Ana, em sua escrita, nos fala de uma mulher que não

nasce pronta, nos fazendo lembrar a famosa e tão importante frase de Simone de Beauvoir “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher” (BEAUVOIR, 1967, p.9); Ana nos fala em mulher como sinônimo de força e sabedoria, fala em transformação; fala em um eu que se produziu mulher, nos remetendo a alguns elementos importantes que Foucault (1990, p.48) nos apresenta no conceito de práticas de si: a “transformação de si mesmos com o fim de alcançar certo estado de felicidade, pureza, sabedoria ou imortalidade”. Ana se transformou em mulher. Ser mulher é, então, uma construção que foi, para Ana, se realizando no decorrer de trinta e três anos, construção que coloca em questão o discurso de “sexo frágil” e assume, como fim, a perspectiva do “sexo supremo”, da mulher como “tudo”, objetivo no qual investiu praticando sobre si mesma as ações necessárias para a transformação do seu eu.

Ana nos ajuda a pensar nas possibilidades das relações consigo e nas questões que deixei em aberto antes de iniciar este título. Larrosa (2002b) também. Ele nos diz que as relações consigo são mediadas e também construídas por dispositivos pedagógicos. “A pessoa humana se fabrica no interior de certos aparatos (pedagógicos, terapêuticos...) de subjetivação” (LARROSA, 2002b, p.37). Posso acrescentar, com base nos Estudos Culturais, que esses aparatos não estão presentes só na escola, mas encontram-se por aí, nos espaços pelos quais circulamos, na família, na religião, em qualquer outra instituição e na cultura em geral. O que Ana pensa, pensa com tudo isso, tornando seu pensar situado em épocas, lugares, contextos bem específicos. O que Ana pensa do ser mulher não traz nenhuma natureza feminina, “porque a ideia do que é uma pessoa, ou um eu, ou um sujeito, é histórica e culturalmente contingente, embora a nós, nativos de uma determinada cultura e nela constituídos, nos pareça evidente e quase „natural‟ esse modo tão „peculiar‟ de entendermos a nós mesmos” (LARROSA, 2002b, p.41). A ideia que Ana tem do que é ser mulher, é contingente e a constitui, tornando, então, o seu próprio ser contingente, pois “o que é histórica e culturalmente contingente não é apenas nossa concepção do que é uma pessoa humana, mas também, e sobretudo, nosso modo de nos comportar, nosso modo de ser „homens‟ [e mulheres]” (LARROSA, 2002b, p.41).

O pensamento de Ana não é isolado. Assim como ele, o pensamento de Januária também traz as concepções que sugerem a força feminina, algo que será recorrente também nas outras escritas.

O que é ser mulher pra mim é ser guerreira ter atitude é ter pé firme consciente de tudo que faz principalmente com respeito por ser mulher.

Jerusa (Januária)

Januária invoca, ainda, o ser “consciente de tudo que faz”, um convite a pensar em suas ações, produzindo-as “principalmente com respeito por ser mulher”. Isso não implicaria em se produzir com vistas a esse “ser mulher” que elas concebem? Não teríamos aí uma forma de aplicar sobre si mesmas as práticas de autoconstituição com vistas à mulher forte e “guerreira”? Não poderia ser esse o sentido de “ter atitude”? Não poderia ser esse também o sentido de responsabilidade: “é ser responsável”, autenticidade: “ser você mesma”; e luta: “lutar para ser aquilo que sempre quis e conseguir”, presentes na fala de Jô, que se segue?

O que é ser mulher

Ser mulher é ser responsável e ser você mesma é ser inteligente e ter a sensação de que tudo pode ser feito de uma só vez e querer que tudo saia perfeito é colocar os seus projetos em prática e ajudar mesmo naquilo que você acha que não pode, é lutar para ser aquilo que sempre quis e conseguir, e acordar sorrindo nos momentos de provações e esquecer dos maus tempos mesmo se for com um abraço é aconselhar e ser aconselhada é amar o próximo mesmo sem ser amada é expressar os sentimentos e dar carinho mesmo precisando dele ser mulher é ser assim do jeitinho que cada uma de nós somos uma hora é perfeita feliz amiga. Ser mulher é ser gente de bom coração bom animo ser ou não uma boa companhia o importante é que somos mulher.

Mas Jô nos traz outras representações. A capacidade de doar, a abnegação, o ideal de perfeição, a atenção, o amor ao próximo, o cultivo de bons sentimentos. Qualidades que também precisam ser treinadas, praticadas e que constituem formas de ser, formas que não parecem inventadas por elas, mas que já estão postas por concepções que circulam em nossa cultura e cria as representações que elas estão trazendo em suas escritas.

O que é ser mulher?

Ser mulher pra mim significa uma coisa boa. Um fruto de Deus que todos admira.

Mulher é pra tudo nessa vida.

Se não fosse as mulheres o que seria dos homens. Mulher é mais sentimental que os homens.

Mulher trabalha luta pela as vidas dos familiares.

Mulher brota a sementinha do mundo que os nossos filhos que é a dor que só Jesus sabe.

Mulher pra mim é tudo de bom As vezes sofre muito mas é bom

Rhuana

No pensamento de Rhuana, muito do que já foi pensado se junta à maternidade e ao trabalho pelo cuidado com os familiares, construções comuns naquele bairro. Rhuana parece entender que há uma relação entre o “ser mulher” e o “ser homem”. Mas, ao dizer: “Se

não fosse as mulheres o que seria dos homens”, estaria indicando que um não se faz sem a

outra ou estaria afirmando a relação de cuidado da mulher para o homem em alusão a uma essência feminina, talvez?

O que essas mulheres trouxeram, fala de suas vidas. Quando falam da mulher, falam de si, nas formas que pretendem ser. A noção de luta e necessidade de força se insere no seu cotidiano e cria a realidade de cada uma delas. No dia em que houve o baile funk no bairro, Ana me recebeu em sua casa para irmos juntas ao baile e pude vivenciar com elas uma situação que pode nos ajudar a pensar um pouco sobre isso, sobre essa realidade onde a força e a luta são exigidas; uma situação aparentemente simples, mas que vivida cotidianamente pode se tornar complexa. Trago um fragmento do diário de campo que nos deixa perceber um pouco dessa rotina:

Enquanto isso, fui conversando com Ana na cozinha. Perguntava sobre o

No documento rosalindacarneirodeoliveiraritti (páginas 102-107)