- Se for menino vai se chamar Enzo!
- É bonito, mas acho que não é nome de morro. - Por que não é nome de morro?
- É nome lá de baixo. Não é pro morro não! Pra cá não combina. Escolhe outro nome pro neném!
- Os nome de morro é tudo tão complicado que acaba tendo que usar apelido porque ninguém sabe falar!
Esse pequeno fragmento de conversa, produzido no chá de bebê para o qual fui convidada, pode ser interpretado como um discurso e, ao mesmo tempo, um produto de um discurso. Um discurso, porque está sendo dito e um produto porque o que está sendo dito já traz uma ideia construída de que há algo que pode ou é conveniente para o “morro”, definindo também o que não pode ou não é conveniente. O simples nome de um bebê pode se tornar uma proibição ou um empecilho; pode combinar ou não combinar. Mas, combinar ou não com o quê? Com o morro, como uma delas diz? Ou poderíamos responder que seria combinar ou não combinar com as representações que vão se construindo discursivamente, criando identidades e diferenças, normalidades e anormalidades com relação à vida no morro, assim como na sociedade como um todo? Por outro lado, há um questionamento por parte da outra mãe que quer romper com o que se tem como nome de morro por entender que os nome de
morro é tudo tão complicado que acaba tendo que usar apelido porque ninguém sabe falar!.
A partir dessa pequena conversa há elementos importantes para se pensar, junto com Foucault, nas questões que envolvem os discursos e o poder no campo das subjetividades.
Assumo o conceito de discurso como “conjunto de enunciados que se apoia em um mesmo sistema de formação” (FOUCAULT, 2008, p.122). Isso implica em buscar o que o autor nos apresenta como “enunciados” e também como “sistema de formação”. Quando uma das mulheres diz: É nome lá de baixo. Não é pro morro não! Pra cá não combina. Escolhe
outro nome pro neném!, creio que não podemos nos considerar diante de um mero conjunto
de frases num encadeamento lógico e que simplesmente expressa algo a partir de um sujeito que diz. Nesse caso, penso eu, estamos diante de enunciados, portanto, diante de um discurso.
Examinando o enunciado, o que se descobriu foi uma função que se apoia em conjuntos de signos, que não se identifica nem com a „aceitabilidade‟ gramatical, nem com a correção lógica, e que requer, para se realizar, um referencial [...]; um sujeito [...]; um campo associado [...]; uma materialidade. (FOUCAULT, 2008, p. 130)
Seguindo a elaboração posta por Foucault (2008), o enunciado não deixa de se apoiar em um conjunto de signos, em que se incluem, frases, proposições e atos de linguagem. No entanto, é importante destacar que a função enunciativa se caracteriza por quatro elementos básicos os quais passo a considerar. Primeiro, um referencial ou referente, “que não é exatamente um fato, um estado de coisas, nem mesmo um objeto, mas um princípio de diferenciação (FOUCAULT, 2008, p.130), “a referência a algo que identificamos” (FISCHER, 2012, p.77). Poderíamos considerar como referente, na conversa
entre as mães, a ideia de que existem coisas que são para o morro enquanto outras não são; a diferença está marcada. Segundo, um sujeito, “não a consciência que fala, não o autor da formulação, mas uma posição que possa ser ocupada, sob certas condições por indivíduos indiferentes” (FOUCAULT, 2008, p.130), alguém que possa efetivamente afirmar o dito, se reconhecer em tal condição (FISCHER, 2012, p.77). Na conversa, ambas as mães se reconhecem na condição de moradoras do morro, diferentes das moradoras lá de baixo, tanto que estão pensando nos nomes “apropriados” para o filho que vai nascer nessa mesma condição. Em outros momentos de minha investigação, outras falas trazem esse reconhecimento de forma bem incisiva, como no encontro para apresentação da pesquisa:
Eu: “Eu tô fazendo uma pesquisa de doutorado... e que envolve mulheres de periferia. Que
moram na periferia da cidade.”
Rhuana: “Eu sou uma delas!”
Eu: “Vocês são!”
Rhuana: “Eu sou uma delas, sou da periferia [elas riem]. Rio de Janeiro, São Paulo...”
Terceiro, um campo associado, “que não é o contexto real da formulação, a situação na qual foi articulada, mas um domínio de coexistência para outros enunciados” (FOUCAULT, 2008, p.130), ou seja, esse enunciado não existe isoladamente, mas se relaciona com vários outros dentro de um mesmo discurso ou de outros (FISCHER, 2012, p.77). No caso em questão, poderíamos buscar em diversos discursos, como por exemplo, na mídia, principalmente em programas humorísticos, em piadas que se baseiam num senso comum carregado de preconceitos a respeito da vida nas periferias, de pessoas pobres e/ou negras e, ainda, de mulheres. Podemos ainda perceber a relação entre enunciados, a partir da fala da Rhuana, que já passou pelas periferias de outras cidades, ou seja, o que se produz discursivamente em São Paulo ou Rio de Janeiro tem relação com o que se produz em Juiz de Fora e afirma certa identidade que se possa atribuir à periferia. Finalmente, o quarto elemento básico presente no enunciado: a materialidade, “que não é apenas a substância ou o suporte da articulação, mas um status, regras de transcrição, possibilidades de uso ou de reutilização” (FOUCAULT, 2008, p.130), o que podemos ver na própria fala das mães que afirmam que existem nomes que são de morro e nomes que não são. A materialidade se dá no dito, no escrito, no ensinado, no registrado e, assim, no que se pode repetir. É a forma concreta em que os enunciados aparecem “nas mais diferentes situações, em diferentes épocas” (FISCHER, 2012, p. 77). É assim que se considera que o enunciado possui uma “função de existência” (FISCHER, 2012, p. 77) que “atravessa a linguagem” (FISCHER, 2012, p.76) e “é sempre um acontecimento, que nem a língua nem o sentido podem esgotar inteiramente” (FOUCAULT, 2008, p.31).
Descrever um enunciado, portanto, é dar conta dessas especificidades, é apreendê-lo como acontecimento, como algo que irrompe num certo tempo, num certo lugar. O que permitirá situar um emaranhado de enunciados numa certa organização é justamente o fato de eles pertencerem a uma certa formação discursiva. (FISCHER, 2012, p.78)
Uma formação discursiva ou, como Foucault (2008) também denomina, um sistema de formação, caracteriza-se por “um feixe complexo de relações que funcionam como regra, [um sistema que] prescreve o que deve ser correlacionado em uma prática discursiva” (FOUCAULT, 2008, p. 82). Pensando com Foucault, podemos dizer que exercemos a prática discursiva quando nos apropriamos de determinado discurso, caso em que falamos conforme suas regras, veiculando e concretizando, assim, o próprio discurso. Desse modo, ao falar É
bonito, mas acho que não é nome de morro, a mãe não está expondo seu pensamento, como o acho pode nos induzir a pensar. Na fala da mãe, é o discurso que fala. E fala a partir de regras
construídas no tempo e no espaço, regras que, de tanto serem praticadas, já se naturalizaram, criando sentido. A fala da mãe é a fala do sujeito que se reconhece no interior de um discurso, que se constitui na dinâmica desse discurso, sabendo o que pode e o que não pode, o que deve e o que não deve falar, fazer e ser. O que é dito pela mãe, de certa forma, afirma um conceito – uma representação – de morador/a de periferia, mas
as regras de formação dos conceitos, segundo Foucault, não residem na mentalidade nem na consciência dos indivíduos; pelo contrário, elas estão no próprio discurso e se impõem a todos aqueles que falam ou tentam falar dentro de um determinado campo discursivo. (FISCHER, 2012, p.75)
Dizer de campo discursivo é admitir a relação das formações discursivas com determinados campos do saber, alguns tradicionais, como a economia, a ciência política, a pedagogia, a religião e outros mais recentes que vão se formando pela força de “conjunto” de seus enunciados, como por exemplo, os discursos feministas (FISCHER, 2012, p. 78-79).
Assim, quem fala das periferias, fala de algum lugar e coloca em circulação os discursos aos quais tem acesso e a partir da posição que ocupa num determinado campo do saber. E quem fala das periferias? Muitos falam das periferias. Políticos, médicos/as, cientistas sociais, mídia, educadores/as... muitos são os discursos produzidos sobre as periferias. Discursos muitas vezes coincidentes, muitas vezes contraditórios. Discursos que se completam ou entram em disputa.
Espaço de dissenções e oposições múltiplas, a formação discursiva se faz de asperezas e estridências, mais do que de harmonias e superfícies lisas. Inteiramente vivo, o campo enunciativo acolhe novidades e imitações,
blocos homogêneos de enunciados bem como conjuntos díspares, mudanças e continuidades. Tudo nele se cruza, estabelece relações promove interdependências. O que é dissonante é também produtivo, o que semeia a dúvida é também positividade crítica. (FISCHER, 2012, p.85)
Daí a importância do nome Enzo e do questionamento com relação aos nomes
de morro feito pela outra mãe da conversa apresentada na epígrafe. Tal questionamento
coloca sob suspeita o discurso, mostra resistência, possibilita rupturas, traz a possibilidade de representações outras que ampliem os sentidos de se morar ali, no morro, na periferia. Traz aquele entendimento de que
o discurso não é uma estreita superfície de contato, ou de confronto, entre uma realidade e uma língua, o intrincamento entre o léxico e uma experiência; [...] analisando os próprios discursos, vemos se desfazerem os laços aparentemente tão fortes entre as palavras e as coisas, e destacar-se um conjunto de regras, próprias da prática discursiva (FOUCAULT, 2008, p.55)
Foucault (2008, p.55) vai nos alertar que devemos considerar os discursos não mais como mero conjunto de signos, “mas como práticas que formam sistematicamente os objetos de que falam”. Se o discurso diz sobre as periferias, não as descreve em sua realidade, mas cria sua realidade e a realidade daqueles/as que moram lá, que se reconhecem nos discursos produzidos, que se sentem, por eles, representados/as.
Mas, se existe a fala, existe quem fala. E se os discursos criam os objetos de que falam, significa dizer que há no discurso algo ligado ao poder, um poder que cria, que produz. Nesse caso, quem fala exerce um poder produtor. Foucault nos afirma que “sabe-se bem que não se tem o direito de dizer tudo, que não se pode falar de tudo em qualquer circunstância, que qualquer um, enfim, não pode falar de qualquer coisa” (FOUCAULT, 2009a, p.9). Falar é, então, privilégio de algumas pessoas bem mais que de outras. Isso depende de seu status dentro do campo de saber que produz o discurso. “Por mais que o discurso seja aparentemente bem pouca coisa, as interdições que o atingem revelam logo, rapidamente, sua ligação com o desejo e com o poder” (FOUCAULT, 2009a, p.10). No momento em que eu apresentava a pesquisa para o grupo de mães, dizendo que queria ouvi- las, conhecer suas vidas para escrever sobre elas e sobre a periferia em que moram, uma delas, a Januária, responde: “Eu acho que essa pesquisa tem que começar por aí mesmo, né, porque
do jeito que tá o mundo hoje, né?, tem que procurar melhorar mesmo, falar, a gente tem que falar!”. Para elas, a pesquisa vai levar suas vozes e o seu falar pode fazer diferença. Elas
puros, originais – e qual seria? –, pois ditos já no entrecruzamento de outros tantos, seus discursos trarão suas vozes, suas marcas. Falar, então, é algo desejado.
Nisto não há nada de espantoso, visto que o discurso – como a psicanálise nos mostrou – não é simplesmente aquilo que manifesta (ou oculta) o desejo; e visto que – isto a história não cessa de nos ensinar – o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar. (FOUCAULT, 2009a, p.10)
Admitindo a força do discurso e seu poder de criar os objetos de que fala, entendemos o quanto nos subjetivamos no interior dos discursos que dizem de nós, das coisas e situações nas quais nos reconhecemos, nas representações com as quais nos identificamos. São, então, as práticas discursivas, produtoras de subjetividades. Mas nem só de práticas discursivas se formam os sujeitos. Em “A arqueologia do saber”, “Vigiar e punir” e “A ordem do discurso”, Foucault
sublinha a ideia de que o discurso sempre se produziria em função de relações de poder. E mais tarde, nos três volumes de sua História da sexualidade, o pensador nos mostra explicitamente que há um duplo e mútuo condicionamento entre as práticas discursivas e as práticas não discursivas. [...] Na verdade, tudo é prática em Foucault. E tudo está imerso em relações de poder e saber que se implicam mutuamente. Ou seja, enunciados e visibilidades, textos e instituições, falar e ver constituem práticas sociais por definição permanentemente presas, amarradas às relações de poder que as supõem e as atualizam. (FISCHER, 2012, p. 74-75)
É nesse sentido que Foucault vai orientar sua arqueologia para uma genealogia, ou seja, uma análise que faça “com que apareçam relações entre as formações discursivas e os domínios não discursivos (instituições, acontecimentos políticos, práticas e processos econômicos)” (FOUCAULT, 2008, p.182). Os domínios não discursivos abrigam os discursos; suas práticas são efeitos dos discursos; ali, também se dão as condições de emergência dos discursos. É, então, imprescindível buscar as articulações entre as práticas discursivas e não discursivas, para se ter uma compreensão de como vão se constituindo as subjetividades. E tal busca se dá na dimensão histórica, já que os discursos e práticas são datados, construídos historicamente (FOUCAULT, 2008).
A partir de tudo isso, entendo que ser mulher, negra, mãe e moradora em um bairro na periferia, o que caracteriza as mulheres da minha pesquisa, envolve pelo menos quatro situações em que precisamos buscar a análise histórica, a análise das práticas discursivas e não discursivas que as envolvem: a história das mulheres; a história das
mulheres negras; a história das periferias, principalmente daquelas classificadas como favelas; a história das mães. Como todas essas classificações foram historicamente construídas entre discursos e relações de poder? Como elas se atravessam formando as representações com as quais as mulheres se identificam e que as tornam o que são? Ao mesmo tempo, como se dão as resistências e rupturas com relação a essas representações? Essas são questões que subsidiam a busca de uma possível resposta para a minha questão principal.
Até aqui, meu trabalho foi trazer alguns pontos de dois momentos de Foucault, um em que se ocupa com o saber, conhecido como arqueologia, e outro em que se ocupa com o poder, conhecido como genealogia. No entanto, em se tratando da constituição das subjetividades, outro momento também se faz necessário, o momento em que Foucault procura analisar as relações do sujeito consigo mesmo e que é conhecido como ética. Com esse terceiro momento, passarei a me ocupar a partir de agora.