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Subjetividades: discursos, poder e relações consigo

No documento rosalindacarneirodeoliveiraritti (páginas 88-91)

Começo pensando em subjetividades. “Subjetividades são esses modos pelos quais nos tornamos sujeitos, são modos de subjetivação que são construídos ao longo da

História” (FERRARI, 2010a, p.9). Subjetividades, sujeitos: palavras usadas no plural, pois tratam de

sujeitos que não são indivíduos, não são universais, não são absolutos, que não se separam da sua existência e história, de forma que são resultados de processos múltiplos e diferenciados, nos impedindo de falar de uma subjetividade como totalização e centrada no indivíduo. Há uma variedade de processos que constroem a subjetividade e que ocorrem ao mesmo tempo, entrecruzando-se no indivíduo. (FERRARI, 2010a, p.11-12)

Assim são as mulheres mães na periferia em que pesquiso. Na vida na rua daquele bairro que é o meu campo, posso observá-las sentadas na calçada, conversando umas com as outras, tomando suas cervejas, ouvindo e/ou dançando seu funk, brigando com suas crianças, despreocupadas com o almoço ou o banho dos/as filhos/as. Na classificação do senso comum, poderíamos chamá-las de “mães displicentes”. Outras há, no entanto, que estariam na condição de “mães cuidadosas”28, trançando os cabelos de suas filhas e das filhas de outras mães, brincando de bola com os meninos, cuidando para que as crianças não sejam atropeladas pelos veículos que passam, ocupadas com o almoço e a escola. Já vi mãe “comprando” as brigas de seus filhos e filhas e, até mesmo, correndo com um pedaço de pau na mão, atrás de um homem que maltratou o seu filho. E ela conseguiu bater nele, me dizendo mais tarde: Bati mesmo, Rosinha! E bato de novo se precisar. Ninguém põe a mão no meu

filho, não! Vem judiar do menino? Aí, não! Há aquelas, ainda, que misturam isso tudo. Zelam

em determinados momentos e largam e descuidam em outros.29. Umas exibem as formas dos corpos nas roupas curtas e apertadas enquanto outras adotam os trajes sem decotes e abaixo dos joelhos. Umas mais sisudas, outras mais risonhas e expansivas. Algumas falantes, outras caladas... Múltiplas mulheres mães que, a uma primeira vista, vivem num mesmo contexto;

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Ideia bastante difundida no senso comum e que parece refletir um conceito criado a partir de discursos médicos que começaram a circular no século XIX com a pretensão de criar estratégias para a educação das mulheres naquilo que entendiam ser sua natureza: a maternidade. Conforme tais discursos, a mãe cuidadosa “deveria estar sempre atenta à sua saúde e à dos membros da família. Responsável pelos mínimos detalhes que pudessem comprometer o bom andamento da saúde da família, a mulher mãe deveria ser vigilante, abnegada, afetuosa, assexuada, frágil enquanto mulher, mas forte e saudável enquanto mãe e soberana dentro do lar” (SCHWENGBER, 2006, p.27).

29Isso nos dá a pensar: quanto de zelar é largar e quanto de largar é zelar? Na periferia, o largar pode ser uma forma de educar a viver ali, num lugar em que “se virar” faz parte do jogo, lugar em que muitos cuidados podem formar sujeitos despreparados para as lutas que terão de enfrentar. Lembro-me que em minha pesquisa de Mestrado (RITTI, 2010), os adolescentes que se tornavam alvo fácil de grupos – bondes – de outros bairros que mantinham alguma rivalidade com o bonde dali eram chamados “laranjas”. Comumente vinham de famílias em que recebiam mais cuidados, eram proibidos de ficar por muito tempo nas ruas e não aprendiam as “manhas”. Assim, não sabiam se defender dos perigos que corriam quando tinham que circular por outros espaços. Isso, hoje, tem acontecido com as adolescentes também, principalmente em escolas e bailes funk.

muitas sendo, ainda, irmãs, primas, amigas de infância..., fortalecendo a ideia de que foram e estão expostas aos mesmos tipos de vivências, mas que se fazem diferentes em suas subjetividades, denunciando a variedade de processos que as constituem.

Perguntar pelo “como” se constituem as subjetividades de mulheres mães naquela periferia é, justamente, perguntar por esses processos, pelos modos como se tornam o que são e, ao mesmo tempo, é entender que enquanto “resultado de processos de subjetivação, toda subjetividade se constitui como uma forma de ser sujeito, que ao mesmo tempo é desfeita mostrando que estamos sempre diante de algo em construção e continuidade” (FERRARI, 2010a, p.10). Dizendo de outra forma, não existe sujeito pronto e acabado, o que há são sujeitos sempre em construção. Um sujeito é sempre e, ao mesmo tempo, produto e produção. Produto porque, de alguma forma já é constituído nos processos em que se inseriram até então, mas, simultaneamente, permanece inserido e aberto aos processos que continuam produzindo-o, pois ainda se encontra exposto a e no interior de relações de poder que o constituem. É ainda nesse sentido que as palavras sujeitos e subjetividades estão sempre embaralhadas, pois não há como determinar onde ou em que momento se é algo (sujeito) e onde ou em que momento se dá lugar ao processo, aos modos de se constituir (subjetividade). E isso pode ser pensado para as mães na periferia. E isso pode ser pensado para qualquer um/a de nós.

É nesse sentido que buscar Foucault para me ajudar a problematizar meu campo e me ajudar a responder à questão proposta me parece muito pertinente. Em um de seus textos, intitulado “O sujeito e o poder”, Foucault diz:

Eu gostaria de dizer, antes de mais nada, qual foi o objetivo do meu trabalho nos últimos vinte anos. Não foi analisar o fenômeno do poder nem elaborar os fundamentos de tal análise.

Meu objetivo, ao contrário, foi criar uma história dos diferentes modos pelos quais, em nossa cultura, os seres humanos tornaram-se sujeitos. (FOUCAULT, 1993a, p.231)

Vemos, então, que a problemática do sujeito na obra de Foucault se dá a partir de uma abordagem histórica. Foucault, opondo-se ao pensamento cartesiano e à tradição fenomenológica, pensa o sujeito não como uma substância, mas como uma forma, uma forma não idêntica a si mesma. “O problema do sujeito é, para Foucault, o problema da história da forma-sujeito” (CASTRO, 2009, p.407). Criar uma história dos modos pelos quais tornamo- nos sujeitos implicou, para Foucault, interrogar todos os universais a respeito da natureza humana, interrogá-los em sua constituição histórica. Rompendo com a epistemologia

moderna, que pensa um sujeito soberano, consciente de si e do mundo, essencialmente racional e, ainda, transcendente ao seu contexto histórico-social, “Foucault é conduzido a uma história das práticas nas quais o sujeito aparece não como uma instância de fundação, mas como efeito de uma constituição. Os modos de subjetivação são, precisamente, as práticas de constituição do sujeito” (CASTRO, 2009, p.408). E em que consistem tais práticas para Foucault? “Pois bem, apesar da importância que esse conceito tem em suas obras, não encontramos nela nenhuma exposição detalhada do conceito de prática; é necessário reconstruí-lo com base em outras indicações” (CASTRO, 2009, p.337). Num primeiro momento, Foucault traz no conceito de “episteme” o que vai chamar de “prática discursiva”, situada no campo do discurso, entendendo-a como

um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço, que definiram, em uma dada época e para uma determinada área social, econômica, geográfica ou linguística, as condições de exercício da função enunciativa. (FOUCAULT, 2008, p.133)

Em um segundo momento, Foucault cria o conceito de “dispositivo” por ter reconhecido que “faltava em seu trabalho a análise do poder, da relação entre o discursivo e não discursivo” (CASTRO, 2009, p.124) e que também constituía os processos de subjetivação. “O dispositivo é a rede de relações que podem ser estabelecidas entre elementos heterogêneos: discursos, instituições, arquitetura, regramentos, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas, o dito e o não dito” (CASTRO, 2009, p.124).

Assim, “a episteme era o objeto da descrição arqueológica; o dispositivo, por sua vez, o é da descrição genealógica” (CASTRO, 2009, p.124 – grifos do autor). Nesse sentido, penso ser importante trabalharmos um pouco esses dois momentos de Foucault, enfatizando a questão dos discursos e das relações de poder na constituição das subjetividades.

No documento rosalindacarneirodeoliveiraritti (páginas 88-91)