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3 AS NOÇÕES DE PODER, SABER E DISCURSO

3.5 O biopoder/a biopolítica como tecnologia de poder

Segundo Gadelha (2009), a noção de biopolítica foi forjada por Foucault em um contexto de grande agitação intelectual e política, na França, correspondente ao período de final da década de 1960 e início de 1970. Nesse momento se tecia uma crítica “ao pensamento, à política, à economia, às grandes disciplinas científicas no âmbito das ciências humanas e outras instituições [...] [por causa dos] compromissos [das ciências] com o status quo e com o sistema capitalista” (GADELHA, 2009, p.22).

Para Gadelha (2009), essa agitação consubstanciava a preocupação de filósofos, como Gilles Deleuze, Félix Guatarri e Jean-François Lyotard, além do próprio Michel Foucault, com as barbaridades cometidas em nome do comunismo, da liberdade e da revolução. Michel Foucault caracterizou esse período como “a eficácia das ofensivas dispersas e descontínuas” (FOUCAULT, 1999, p.10), que

quer dizer que as críticas desenvolvidas durante aquele período foram eficazes ao munirem-se de saberes recolhidos à sombra do saber erudito ou das “teorias totalitárias” (idem, ibidem), chamados por Foucault de “saberes sujeitados”. Gadelha (2009) esclarece que Foucault desvia sua atenção para esses saberes, chamando de genealogia toda uma série de pesquisas que aliavam os saberes sujeitados à crítica aos saberes unificadores, totalitários e globalizantes. Foi essa articulação entre os saberes sujeitados e a crítica às teorias totalitárias que permitiu a Foucault conceber o exercício do poder como microfísico e estratégico, que se irradia de todos os pontos e para todos os pontos do tecido social.

Em cada um de seus cursos, Foucault vai apresentando ou aprofundando elementos que já foram mencionados em outras pesquisas e que são fundamentais para a análise da tecnologia de poder biopolítico, como é o caso da norma, aprofundada em Em defesa da sociedade, das noções de governo e governamentalidade, apresentadas em Segurança, território e população, e da racionalidade dos governados como princípio da arte de governo moderna ou liberal, mencionada em Nascimento da biopolítica.

Segundo Castro (2009), dois textos fundamentais para a compreensão das noções de biopoder e biopolítica são, como já mencionei, o último capítulo de A

vontade de saber, de 1976, e a aula de 17 de março de 1976 do curso Em defesa da sociedade. Nesses dois textos, Foucault focaliza o exercício do poder incidindo na

normalização e regulação da população, de dois modos diferentes: como o poder sobre a vida, pois diz respeito às políticas da vida biológica - como é o caso das políticas da sexualidade – e como o poder sobre a morte – como é o caso do racismo ao ser tomado como condição para se assegurar o direito de matar do Estado moderno. Em ambas as pesquisas, o biopoder é abordado como o exercício do poder “da estatização da vida biologicamente considerada, isto é, do homem como ser vivente” (CASTRO, 2009, p. 57), sendo correspondente ao poder de administrar, controlar e formar as populações, uma vez que se interessa pela saúde, pela segurança, pela assistência, pela educação do corpo social (MAIA, 2003).

Apesar de algumas divergências, entre os autores citados, em relação ao momento em que as noções de biopoder e biopolítica começaram a ser pensadas por Foucault, eles concordam que não há rupturas no pensamento do filósofo francês, mas deslocamentos e que essa nova adaptação do poder, que ganha evidência no século XVIII, é a manifestação do biopoder sendo utilizado como um

mecanismo sobre a vida do indivíduo e da população. Um mecanismo de poder que se utiliza da população tanto como máquina para produzir bens e riquezas, quanto como corpo-espécie para produzir outros indivíduos. Os procedimentos políticos do ocidente, portanto, transformam-se em torno de duas descobertas: a descoberta do indivíduo como corpo-individual a se adestrar ou disciplinar e a descoberta da população como corpo-espécie a se manejar. O biopoder, portanto, está relacionado à economia do poder de punir, própria da sociedade disciplinar.

Nesse novo contexto - de uma sociedade que sofreu alterações demográficas consideráveis -, a elaboração e o planejamento de ações políticas baseadas em investigações científicas devidamente comprovadas por dados estatísticos passam a ser importantes para o manejo e controle desse novo elemento, a população. A esse novo modelo de produzir saber, Foucault chama de modelo do exame, estabelecendo uma diferença entre a forma de se produzir saber na sociedade da soberania que foi chamado por ele de modelo do inquérito15.

A elaboração e o planejamento, pensados estrategicamente a partir de dados estatísticos, são chamados de biopolítica. Segundo Castro,

há que [se] entender por ‘biopolítica’ a maneira pela qual, a partir do século XVIII, se buscou racionalizar os problemas colocados para a prática governamental pelos fenômenos próprios de um conjunto de viventes enquanto população: saúde, higiene, natalidade, longevidade, raça [...]. Essa nova forma do poder se ocupará, então: 1) Da proporção de nascimentos, de óbitos, de taxas de reprodução, da fecundidade da população. Em uma palavra, da demografia. 2) Das enfermidades endêmicas: da natureza, da extensão, da duração, da intensidade das enfermidades reinantes da população; da higiene pública. 3) Da velhice, das enfermidades que deixam o indivíduo fora do mercado de trabalho. Também, então, dos seguros individuais e coletivos, da aposentadoria. 4) Das relações com o meio geográfico, com o clima. O urbanismo e a ecologia. (CASTRO, 2009, p. 59-60).

Nesse sentido, o biopoder e a biopolítica são noções teóricas elaboradas a partir de evidências históricas que mostram uma nova atitude do poder diante da vida. Foucault aborda o biopoder a partir de suas pesquisas genealógicas sobre a sexualidade e sobre o racismo evolucionista, tomando-os, respectivamente como um dispositivo disciplinador e regulamentador e como um mecanismo para justificar o direito de matar. Essa forma de abordar esses temas só são possíveis devido à

atitude do poder sobre a vida – biopoder – e devido às novas estratégias do poder, a biopolítica.

Essa nova atitude do poder frente à vida surgiu juntamente a uma nova forma de governo, diferente da praticada na sociedade de soberania, mais adequada à sociedade disciplinar e, depois, à sociedade da normalização, - a forma de governo liberal -, e continua a caracterizar a forma de governo da contemporaneidade - o neoliberalismo. A forma de governar biopolítica vai se constituindo no decorrer do século XVIII e vai posicionando a população como objeto e objetivo do governo, a partir da qual foi possível constituir um setor de intervenção da arte de governar, conhecido atualmente como economia política.

O biopoder é, portanto, fundamental para o desenvolvimento do capitalismo e, principalmente, para o modo de vida capitalista, para o seu ethos (FOUCAULT, 1999). A racionalidade liberal, para ser praticada nos séculos XVIII, XIX e início do século XX, encontrou subsídios no poder disciplinar, primeiramente, e, depois, no

biopoder. Ugarte Pérez explica que Foucault situa “o nascimento do biopoder no

surgimento da Revolução Industrial”16 (UGARTE PÉREZ, 2006, p.81) e Castro (2009, p. 58) esclarece que o biopoder foi indispensável para o desenvolvimento do capitalismo porque “serviu para assegurar [ao mesmo tempo] a inserção controlada dos corpos no aparato produtivo e para ajustar os fenômenos da população aos processos econômicos”, sendo, portanto, concomitantemente, um tipo de poder individualizante e totalizante. Essa concomitância é a característica fundamental do poder moderno, segundo Foucault (CASTRO, 2009, p.58) e, segundo Revel (2006), desde Vigiar e punir, Foucault está atento para o entrecruzamento das tecnologias disciplinares e das tecnologias biopolíticas na composição do poder que vinha se impondo junto à emergência e desenvolvimento do liberalismo.

No curso Nascimento da biopolítica, ministrado em 1979, Foucault ressalta que os processos de subjetivação são o princípio da arte de governar moderna, nos revelando que tanto a racionalidade política do “eu soberano” quanto a racionalidade política do “eu Estado” não estão no foco nas estratégias de poder, numa sociedade em que a tecnologia biopolítica evidencia-se, como ocorre na sociedade da normalização. De outra forma, a racionalidade política que está em jogo nesse tipo

16 No original: “el nacimiento del biopoder en el alba de la Revolución Industrial” (tradução é

de sociedade é a dos governados que emerge por meio de uma gama de técnicas, dispositivos e mecanismos reguladores e biopolíticos. Segundo Foucault,

trata-se agora de regular o governo não pela racionalidade do indivíduo soberano que pode dizer “eu, o Estado”, [mas] pela racionalidade dos que são governados, dos que são governados como sujeitos econômicos e, de modo mais geral, como sujeitos de interesse, interesse no sentido mais geral do termo, [pela] racionalidade desses indivíduos na medida em que, para satisfazer a esses interesses no sentido geral do termo, eles utilizam certo número de meios e os utilizam como querem: é essa racionalidade dos governados que deve servir de princípio de regulagem para a racionalidade do governo. É isso, parece-me, que caracteriza a racionalidade liberal: como regular o governo, a arte de governar, como [fundar] o princípio de racionalização da arte de governar no comportamento racional dos que são governados (FOUCAULT, 2008, p.423).

Ou seja, como governar a liberdade do outro em autogovernar-se. Para explicar esse deslocamento da preocupação do Estado em fazer viver a população em termos da economia do poder, Foucault forjou uma ferramenta teórica com a qual explicou o processo de governamentalização das sociedades ocidentais. A governamentalidade é assunto abordado no próximo tópico.