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O eixo disciplinar: o dispositivo disciplinar como tecnologia de poder

3 AS NOÇÕES DE PODER, SABER E DISCURSO

3.4 O eixo disciplinar: o dispositivo disciplinar como tecnologia de poder

Em Vigiar e Punir, Foucault (1987) mostra como o efeito do poder passa a ter por objetivo, na sociedade disciplinar, corrigir o indivíduo, sobretudo, e não mais punir o corpo do condenado como forma de vingança do soberano ou demonstração da força do soberano, como ocorria na sociedade de soberania com a prática dos suplícios12. Nessa obra, o autor examina as modificações que ocorrem no direito penal, nos séculos XVII, XVIII e XIX, quanto às modalidades de punição mais severas fisicamente, aquelas que provocavam extremo sofrimento físico e humilhações públicas, como, por exemplo, o enforcamento e as confissões públicas. Essas modalidades de punição vão sendo substituídas, gradativamente, por formas de punição que afastam a violência, a humilhação, a dor e o sofrimento do olhar do público, sendo analisadas por Foucault como efeitos de uma tecnologia de poder nomeada por ele de disciplinar.

Nesse sentido, as modalidades de punição vão tornando-se cada vez menos arbitrárias; cada vez mais interessadas em enfatizar a representação das desvantagens que a punição impõe, com o intuito de diminuir o que torna o crime atraente, revelando um caráter preventivo. Por se tornarem cada vez mais corretivas e não apenas punitivas, o tempo da duração das penas é ressignificado, isto é, da utilidade de provação do supliciado, o tempo passa a ter a utilidade de transformação do condenado; o corpo do condenado não é mais o suporte para expressar o poder soberano, mas é o suporte para expressar as desvantagens que o crime provoca e as vantagens que a pena traz para a sobrevivência do coletivo; a importância da presença da figura do soberano vai sendo substituída pela cada vez mais importante presença de um discurso veiculado por um código das leis no imaginário coletivo, ou seja, o corpo do supliciado passa de exemplo do terror a ser gravado na memória a suporte da lição moralizante a ser aprendida tanto pelo

12 Para Foucault, as sociedades de soberania caracterizavam-se por mecanismos de poder

que garantiam ao soberano o seu direito de fazer morrer ou deixar viver os súditos; no entanto, a partir da época clássica, os mecanismos de poder vêm sofrendo alterações, o que desloca o antigo poder soberano de fazer morrer e deixar viver para o poder de fazer viver ou deixar morrer (isto é, abandonar à morte). Esse tipo de poder, centrado na organização do fazer viver, é característico das sociedades da disciplina e é o que vem caracterizando as sociedades moderna e contemporânea. (FOUCAULT, 1987b; CASTRO, 2009, p. 57).

condenado quanto pelos não condenados - “a memória popular reproduzirá em seus boatos o discurso austero da lei” (FOUCAULT, 1987b, p. 94).

Em Vigiar e punir, Foucault (1987b) apresenta, portanto, deslocamentos nas formas de punir que fizeram da tecnologia jurídica algo cada vez mais necessário para a condução das coisas e das pessoas. Aos poucos, as encenações públicas das condenações vão se articulando mais às verdades ou técnicas judiciais do que à figura do soberano e vão criando possibilidades para que o espetáculo das condenações deixe de ser encenado em praça pública e recolha-se dentro dos muros altos das prisões, onde o poder disciplinar se exerce com mais intensidade sobre os condenados, pois a punição é, sobretudo, uma técnica de coerção dos indivíduos que utiliza processos de treinamento do corpo para corrigir os detentos (FOUCAULT, 1987b, p. 108).

Para ilustrar a tecnologia disciplinar que vai se sobrepondo no decorrer século XIX, Foucault elege a figura do Panóptico, elaborado, em 1789, por Jeremy Bentham, um filósofo e jurista inglês, representante do utilitarismo anglo-saxônico13 e que, conforme Foucault, “programou, definiu e descreveu da maneira mais precisa as formas de poder em que vivemos” (FOUCAULT, 2002). O Panóptico foi inicialmente proposto como um modelo arquitetônico, com a finalidade de corrigir os encarcerados, no entanto, ele também se expandiu para outras instituições, como as educacionais, as de assistência e as de trabalho. Para Foucault,

o Panóptico de Bentham é a figura arquitetural dessa composição [do poder disciplinar]. O princípio é conhecido: na periferia uma construção em anel; no centro, uma torre; esta é vazada de largas janelas que se abrem sobre a face interna do anel; a construção periférica é dividida em celas, cada uma atravessando toda a espessura da construção; elas têm duas janelas, uma para o interior, correspondendo às janelas da torre; outra que dá para o exterior, permite que a luz atravesse a cela de lado a lado. Basta então colocar um vigia na torre central, e em cada cela trancar um louco, um doente, um condenado, um operário ou um escolar. Pelo efeito da contraluz, pode-se perceber da torre, recortando-se exatamente sobre a claridade, as pequenas silhuetas cativas nas celas da periferia. Tantas jaulas, tantos pequenos teatros, em que cada ator está sozinho, perfeitamente individualizado e constantemente visível. O dispositivo panóptico organiza unidades espaciais que permitem ver sem parar e reconhecer imediatamente. Em suma, o princípio da masmorra é invertido; ou antes, de suas três funções – trancar, privar de luz e esconder – só se conserva a primeira e suprimem-se as outras duas. A plena luz e o olhar de um vigia captam melhor que a

13 Maia (2003, p. 83).

sombra, que finalmente protegia. A visibilidade é uma armadilha. (FOUCAULT, 1987b, p.165-166).

Bentham já havia manifestado a vontade de ver o esquema Panóptico como um esboço de uma sociedade racional, e, nesse sentido, Foucault observa que esse esquema foi também um sonho, uma utopia da sociedade burguesa que, de certa forma, foi realizado não sob a forma de um projeto de arquitetura, mas sob a forma de uma tecnologia de poder. Segundo Foucault (1987b), o esquema Panóptico “é na realidade uma figura de tecnologia política” (p. 170), pois “é um intensificador para qualquer aparelho de poder: assegura sua economia (em material, em pessoal, em tempo): assegura sua eficácia por seu caráter preventivo, seu funcionamento contínuo e seus mecanismos automáticos” (p.170); “é uma maneira de fazer funcionar relações de poder numa função, e uma função para essas relações de poder” (p.171); e, por fim, “é destinado a se difundir no corpo social; tem por vocação tornar-se aí uma função generalizada” (p. 171). Foucault compreende o esquema panóptico como um dispositivo de poder e não apenas como uma forma arquitetônica; compreendia-o, sobretudo, como uma forma de governo ou uma forma de exercício de poder sobre o espírito (CASTRO, 2009, p. 315). Em suma, Foucault apresenta o panoptismo como “o princípio geral de uma nova ‘anatomia política’ cujo objeto e fim não são a relação de soberania mas as relações de disciplina” (CASTRO, 2009, p. 172).

Para Foucault (1987b, p.12), enfim, “a punição pouco a pouco deixou de ser uma cena” e todo esse movimento gradativo de substituição dos suplícios veio acompanhado de “uma nova teoria da lei e do crime” (GADELHA, 2009, p. 33), que surgia amalgamada pela progressiva organização de um aparato burocrático- administrativo, ambos se pautando no novo princípio da justiça moderna que não era mais de punir, mas de corrigir ou reeducar ou curar o criminoso. Em Vigiar e Punir, conforme nos explica Maia (2003, p. 81), Foucault analisa as técnicas que objetivam “um treinamento ‘ortopédico’ dos corpos, as disciplinas e o poder disciplinar”.

Assim, o que se considera ser um processo gradativo de humanização das penas é, antes disso, o resultado do alinhave de todo um discurso de ataque às práticas punitivas violentas com os mecanismos burocrático-administrativos. Alinhave este que proporcionou uma modificação nas práticas punitivas, suavizando-

as, por um lado, mas, por outro, intensificando um jogo de representações assimilado por todos ao mesmo tempo. Segundo Foucault (1987b, p. 84),

sob a humanização das penas, o que se encontra são todas essas regras que autorizam, melhor, que exigem a “suavidade”, como uma economia calculada do poder de punir. Mas elas exigem também um deslocamento no ponto de aplicação desse poder: que não seja mais o corpo, com o jogo ritual dos sofrimentos excessivos, das marcas ostensivas no ritual dos suplícios; que seja o espírito ou antes um jogo de representações e de sinais que circulem discretamente mas com necessidade e evidência no espírito de todos. Não mais o corpo, mas a alma, dizia Mably. E vemos bem o que se deve entender por esse termo: o correlato de uma técnica de poder. Dispensam-se as velhas “anatomias” punitivas.

Então, “uma nova e ampla economia do poder” começa a se desenvolver a partir dessa forma mais “branda” de punir, ou seja, dessa “nova economia da punição” (GADELHA, 2009, p. 33). Essa nova economia da punição é explicada por Gadelha (2009, p. 34) como uma série de substituições de objeto: “[...] em vez de se julgar o crime, propriamente dito, passou-se a julgar as paixões que o motivavam – o que nos reenvie à alma do criminoso [...]”. Sendo, portanto, outro o objeto a ser julgado - ou seja, não mais o crime, mas a paixão que o motivou – o discurso puramente e unicamente jurídico passa a não ser mais tão competente para tal julgamento, sendo necessária a evocação de outro discurso, o médico-psiquiátrico, “[...] que ganhava em prestígio e foi secundado, com o passar do tempo, por discursos psicopedagógicos e assistenciais” (GADELHA, 2009, p. 34).

Segundo Foucault (1987b, p. 23),

sob a suavidade ampliada dos castigos, podemos então verificar um deslocamento de seu ponto de aplicação; e através desse deslocamento, todo um campo de objetos recentes, todo um novo regime da verdade e uma quantidade de papéis até então inéditos no exercício da justiça criminal. Um saber, técnicas, discursos “científicos” se formam e se entrelaçam com a prática do poder de punir.

Em síntese, a substituição do objeto “crime” pela “paixão” exigiu a substituição do discurso puramente e unicamente jurídico por outros discursos. Essas substituições possibilitaram o surgimento dessa nova economia da punição que, por sua vez, auxilia na preparação de um contexto social, político e histórico composto por elementos, que, articulados entre si, proporcionam essa “nova e ampla economia do poder” (GADELHA, 2009, p. 33), própria da sociedade disciplinar

(FOUCAULT, 1987b) e da sociedade na qual esta vai se transformando, paulatinamente: a sociedade da normalização ou também nomeada por Gilles Deleuze (1992) como sociedade de controle14. Segundo Gadelha (2009), Foucault nos mostra, principalmente em Vigiar e punir, que essas modificações nas formas de punição revelam como a constituição histórica das sociedades disciplinares foram se organizando

[...] segundo funcionamentos outros, formas de regulação e controle extremamente singulares, procedimentos de regulação e normalização nunca dantes encontrados em quaisquer formações históricas anteriores. Sociedades, além disso, que instauram relações inusitadas entre saber e poder e, por efeito dessas mesmas relações, novas e diferentes políticas de subjetivação (GADELHA, 2009, p. 37).

Dispositivo disciplinar é o nome dado por Foucault a essas novas formas de regular, controlar e normalizar a microestrutura social. Sem o dispositivo disciplinar e sem essas novas formas de funcionamento, de organização e de estratégia, não seria possível um exercício de dominação tão amplo e eficaz, capaz de alcançar o poder na sua microestrutura e, por isso, manter o corpo social, ou seja, a população, sob controle. Para Maia (2003, p. 83), as análises presentes em Vigiar e punir destacam “a emergência de uma nova forma de atuação do poder sobre os corpos: o poder disciplinar”, que já não tem mais como finalidade as relações de soberania, mas as relações de disciplina.

Ainda em torno da disciplina, Gadelha (2009, p. 37) esclarece que a família, a escola, o quartel, os hospitais, os reformatórios para menores, as fábricas, os manicômios, os saberes das disciplinas clínicas, da epidemiologia e das ciências humanas, a prática do Direito, os procedimentos da administração pública, as práticas da educação e da formação para o trabalho,

tudo isso é trespassado ao mesmo tempo pelo que Foucault chamou de dispositivo disciplinar. [...], sociedades em que o exercício da dominação já não podia ser pensado em termos homogêneos, macrossociais, e como se dando apenas referido ao Estado, entendido como instância transcendente ao corpo social, senão mediante a ação de múltiplos micropoderes (do policial, do padre, do professor, do médico-psiquiatra, do supervisor, etc.), os quais

14 Na sociedade da normalização, a lei, gradativamente, vai funcionando cada vez mais

como uma norma e, a instituição judicial vai assumindo cada vez mais a função de reguladora (CASTRO, 2009, p.310).

investem uns sobre os outros, perfazendo, portanto, uma microfísica

do poder (GADELHA, 2009, p. 37).

O contexto para a constituição histórica das sociedades disciplinares é amparado por umaeconomia do poder de punir que é possibilitada, por sua vez, por um tipo de tecnologia política do corpo, ambas circunscritas pelo panoptismo como princípio geral do dispositivo disciplinar. Essa anatomia política do corpo é a combinação de saberes do corpo e de controles sobre o corpo; saberes esses que são mais do que aqueles relacionados ao funcionamento biológico e fisiológico do organismo, uma vez que o corpo está diretamente envolto por um campo político, no qual as relações de poder estão sempre agindo sobre ele. Da mesma forma, os controles sobre o corpo são mais do que a ação contra ele, seja essa ação de violência ou não. Segundo Gadelha (2009, p.35), o corpo tomado em suas forças é ao mesmo tempo o que sustenta e o que possibilita a economia do poder, porque ao corpo é depositado um investimento político que o torna utilizável e dócil ao mesmo tempo.

Nesse sentido, Maia (2003) explica-nos que a tecnologia de poder disciplinar se estrutura em bases diferentes daquela usada para articular o poder político na Idade Média. Esse autor esclarece que, na sociedade da soberania, o poder se exercia por evidências de lealdade ao senhor feudal, manifestadas por meio de ritos e cerimônias e por meio da ação sobre os produtos retirados da terra. A tecnologia de poder disciplinar, de outra forma, configura-se pela ação direta sobre os corpos, operacionalizando “mecanismos possibilitadores de uma extração de tempo e de trabalho dos corpos, relegando a um segundo plano as velhas formas de atuação que tinham na extração imediata de bens e riquezas seu objetivo primordial” (MAIA, 2003, p. 84). A figura do soberano, então, enfraquece-se diante desse tipo de poder sustentado por “um sistema minucioso de coerções materiais” (idem, ibidem). O caráter político do corpo, então, constitui-se, por um lado, devido a sua utilidade econômica, como força de produção, e, por outro lado, devido a sua sujeição em ser utilizado como força de produção.

Sujeição essa que não necessariamente é realizável por meio de procedimentos ou instrumentos violentos ou repressivos, pois, a sujeição pode ser possível por meios e instrumentos sutis, calculados, organizados. Isso se explica porque o investimento político do corpo tem relação com um “sistema de sujeição (onde a necessidade é também um instrumento político cuidadosamente organizado,

calculado, utilizado)” (FOUCAULT, 1987b, p. 26). O que sustenta a sociedade disciplinar é a produção de saberes sobre os indivíduos, mas não exatamente apenas sobre o funcionamento biológico de seus corpos, é a produção de saberes que agem na fabricação das subjetividades. A isso, Foucault chama de tecnologia política do corpo.

O dispositivo disciplinar, então, só foi possível por causa dos resultados obtidos por essa tecnologia política do corpo, ou seja, os saberes; resultados esses que são os próprios efeitos provocados pelo exercício dos micropoderes na malha social; efeitos esses que podem ser de sujeição ou de resistência. Em Vigiar e punir, portanto, Foucault apresenta o dispositivo disciplinar como uma tecnologia do exercício do poder que, por meio da vigilância constante e do treinamento dos corpos dos indivíduos para a disposição ao controle dos horários (do tempo), ao adestramento dos comportamentos e à distribuição dos corpos aos espaços, efetua um tipo de tratamento político-ortopédico sobre o indivíduo, incidindo, dessa forma, sobre a subjetividade de cada indivíduo, mas de forma ampla. Segundo Maia (2003), o poder disciplinar é uma técnica que “exerce seu controle não sobre o resultado de uma ação, mas sobre seu desenvolvimento” (p.84).

A esse tipo de poder disciplinar acopla-se outra tecnologia de poder, que incide sobre a população, a biopolítica, da qual tratarei a seguir.