2 EXPERENCIANDO
2.2 O problema da pesquisa
2.2.2 O problema que se fez
O atual problema desta pesquisa construiu-se, então, dessas vivências narradas e do referencial teórico-metodológico foucaultiano relacionado às noções de saber, poder e discurso, desenvolvidas por Michel Foucault. Neste estudo, problematizo, então, o caráter de verdade absoluta do objeto necessidade formativa docente, na tentativa de ‘desnaturalizá-lo’ e se sustenta no questionamento seguinte: quais condições proporcionaram a emergência da necessidade formativa docente no campo discursivo da formação de professores?
O objetivo geral desta pesquisa está relacionado a essa pergunta da qual se desdobraram outras, a partir das quais gerei os objetivos específicos deste trabalho. Os questionamentos vinculados ao problema são:
x que condições favorecem a produção dos discursos em torno do objeto necessidade formativa docente?
x qual o espaço destinado à análise de necessidades formativas docentes nos textos que compõem a legislação das políticas de formação de professores do Brasil e como esse espaço se constituiu? x como esses discursos estão sendo produzidos, ou seja, quais os
2.3 (Re)Localizando a pesquisa
Depois do vivido, passei a localizar esta pesquisa em torno de dois domínios foucaultianos, denominados por Veiga-Neto (2011a) como os domínios do ser-saber e do ser-poder e me utilizarei da noção de discurso formulada por Foucault para fazer as análises dos textos que selecionei.
Segundo Veiga-Neto (2011a, p. 46), o domínio do ser-saber compreende a arqueologia como uma estratégia reflexiva cujo procedimento é
de escavar verticalmente as camadas descontínuas de discursos já pronunciados, muitas vezes de discursos do passado, a fim de trazer à luz fragmentos de ideias, conceitos, discursos, talvez já esquecidos. A partir desses fragmentos – muitas vezes aparentemente desprezíveis – pode-se compreender as epistemes antigas ou mesmo a nossa própria epistemologia (VEIGA –NETO, 2011a, p.46).
O discurso é visto, na perspectiva foucaultiana, como constitutivo da prática porque o discurso é a materialidade de regras às quais o indivíduo é submetido ou se submete no momento que pratica o discurso. Segundo Veiga–Neto (2011a), portanto, o objetivo da arqueologia não é explicar ou interpretar um discurso, pois não os trata como documentos; é, pois, compreender os discursos como práticas que seguem regras de um determinado sistema. Por isso, os discursos, na análise arqueológica, são tratados como monumentos.
No entanto, esse tipo de análise não se restringe ao próprio discurso, pois busca articulações com as “práticas não discursivas, tais como as condições econômicas, sociais, políticas, culturais etc.” (VEIGA – NETO, 2011a, p. 48), mas, sem, no entanto, buscar causalidades entre as duas. A análise arqueológica, então, não se pergunta sobre o que originou uma enunciação discursiva nem tampouco sobre o que significa essa enunciação; pois
o que interessa para a história arqueológica é buscar as homogeneidades básicas que estão no fundo de determinada episteme. Essas homogeneidades são regularidades muito específicas, muito particulares, que formam uma rede única de necessidades na, pela, e sobre a qual se engendram as percepções e os conhecimentos; os saberes, enfim.
Nesse sentido, a arqueologia – ao investigar as condições que possibilitaram o surgimento e a transformação de um saber – pretende fazer uma investigação mais profunda do que a
empreendida pela própria ciência (VEIGA-NETO, 2011a, p.48-49, destaque do autor).
Já, no domínio do ser-poder, Veiga–Neto explica que as análises sobre os discursos continuam a ser feitas, assim como são feitas na arqueologia. Mas, agora, na perspectiva genealógica, “isso é feito de modo a mantê-los [os discursos] em constante tensão com práticas de poder” (VEIGA – NETO, 2011a, p. 59). Ainda segundo esse autor, nas análises do funcionamento do poder, feitas por Foucault, o poder não é visto como um objeto a ser estudado, mas sim como “um operador capaz de explicar como nos subjetivamos imersos em suas redes” (VEIGA – NETO, 2011a, p. 62). Por isso que Veiga–Neto afirma que o caráter positivo da analítica foucaultiana não é “lastimar ou acusar um objeto analisado [...] é compreendê-lo naquilo que ele é capaz de produzir, em termos de efeitos” (VEIGA – NETO, 2011a, p. 65), efeitos esses que são produzidos pela ação de forças que “estão distribuídas difusamente por todo tecido social” (VEIGA – NETO, 2011a, p. 61). O poder é entendido, então, como “uma ação sobre ações” (VEIGA – NETO, 2011a, p. 62), porque nas análises genealógicas o poder é compreendido como um “elemento capaz de explicar como se produzem os saberes e como nos constituímos na articulação entre ambos [os poderes e os saberes]” (VEIGA – NETO, 2011a, p. 56).
A genealogia, portanto, não se preocupa em fazer interpretações sobre os saberes ou descrever a sua origem do ponto de vista do seu marco histórico original, mas se ocupa em descrever e em
estudar a emergência de um objeto – conceito, prática, ideia ou valor – [que] é proceder a análise histórica das condições políticas de possibilidade dos discursos que instituíram e ‘alojam’ tal objeto. Não se trata de onde ele veio, mas como/de que maneira e em que ponto ele surge” (VEIGA – NETO, 2011a, p. 61, destaque do autor).
Surgir está sendo utilizado pelo autor no sentido de emergir que, por sua
vez, é definido por ele “como uma etapa no processo bélico de confrontação entre forças opostas em busca do controle e da dominação” (VEIGA-NETO, 2011ª, p. 61 apud MARSHALL, 1990, p. 23). A genealogia, portanto, se propõe fazer uma “descrição da história das muitas interpretações que nos são contadas e que nos têm sido impostas. Com isso, ela consegue desnaturalizar, desessencializar enunciados que são repetidos como se tivessem sido descobertas e não invenções” (VEIGA – NETO, 2011a, p. 60).
O objeto necessidade formativa docente pode ser analisado a partir desses dois domínios foucaultianos – do ser-saber e do ser-poder, porque a prática de levantar necessidades de formação dos professores está emergindo nas e, ao mesmo tempo, por meio das práticas discursivas produzidas pelo diagnóstico e análise dessas necessidades e produzidas pelos textos que regulamentam essa prática. Se considerarmos as políticas públicas para a educação como um sistema que se propõe a usar a análise de necessidades dos professores como etapa de planejamento de ações de formação continuada, as teorizações de Foucault sobre o nexo saber-poder na produção de subjetividades docentes abrem horizontes para pensarmos as estruturas de racionalidade que estão perpassando os discursos sobre as necessidades e a formação dos professores, ou seja, sobre as verdades produzidas e as práticas de subjetivação implementadas no governamento desses profissionais.
Além de me pautar nos dois domínios foucaultianos, é referência para esta pesquisa o trabalho do professor e pesquisador João de Deus dos Santos, que estudou a formação continuada de professores no Brasil, estudo que resultou na sua tese de doutorado Formação Continuada: cartas de alforria & controles reguladores, defendida em 2006. O autor apresenta a formação continuada de professores no Brasil a partir de uma perspectiva que não a toma como um produto ou objeto natural, e por isso ‘imprescindível’, ao desenvolvimento do professor. O autor aborda, de outro modo a questão do caráter ‘imprescindível’ da formação continuada estabelecido na atualidade; ele questiona justamente como esse caráter veio a se firmar nos discursos científicos e como o discurso da formação continuada veio a se materializar em prática por meio desses mesmos discursos, na primeira metade do século XX.