4 DIMENSIONANDO OS PROBLEMAS E OS CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS
4.5 O caso do Parque Nacional da Serra da Canastra
Com a intenção de aproximar o que abordado anteriormente ao contexto de Minas Gerais, passa-se, nesse momento, a analisar o caso concreto existente na Serra da Canastra, localizada no sudoeste do Estado de Minas Gerais.
Estima-se que a Serra da Canastra possua um bilhão de anos e surgiu a partir da colisão de duas placas tectônicas (BIZERRIL; SOARES; SANTOS, 2008, p. 16). Como sua forma era
parecida com a de um baú, antigamente chamado canastra, foi batizada assim (BIZERRIL; SOARES; SANTOS, 2008, p. 16).
De acordo com o ICMBio, a Serra da Canastra é um potencial hidrográfico. Além das nascentes do São Francisco, encontram-se na região outras cinco bacias hidrográficas de relevância para o país, quais sejam, a do rio Grande, a do ribeirão Santo Antônio, a do rio Araguari e a do rio Santo Antônio. Somando às diversas nascentes e pequenos cursos d’água, a Serra da Canastra possui, ainda, variada beleza cênica. As rochas observadas por toda a geologia do local ora formam chapadões, com altitudes que variam entre 1.100 e 1.496 metros, ora despencam em inclinações íngremes de onde emanam cachoeiras (BIZERRIL; SOARES; SANTOS, 2008, p. 17).
Além dessas significativas características naturais, há relevância na preservação dos ecossistemas da Serra da Canastra, considerando que o ambiente assegura a manutenção de um banco genético vultoso para a pesquisa científica e para a continuidade da biodiversidade brasileira (MMA, 2005, p. 4).
Os atributos acima descritos levaram à criação do Parque Nacional da Serra da Canastra (PNSC), por meio do Decreto nº 70.355, publicado em 3 de abril de 1972. Segundo dados do ICMBio, o PNSC possui atualmente 200 mil hectares compostos pelo bioma Cerrado, abrangendo seis municípios: Sacramento, São Roque de Minas, Vargem Bonita, Capitólio, São João Batista do Glória e Delfinópolis. Caso a Zona de Amortecimento27 fosse contabilizada, ter-se-ia onze municípios ao todo, sendo eles: os seis municípios mencionados anteriormente somados aos municípios de Alpinópolis, Cássia, Ibiraci, Passos e Piumhi (FERREIRA, 2015, p. 113). Conforme o art. 2º, essa área abrange dois grandes blocos, quais sejam, o Chapadão Serra da Canastra e o Chapadão da Babilônia (complexo Sul).
Após a criação do PNSC em 1972, sobrevieram os Decretos nº 74.446, de 21 de agostos de 197428, que dispõe sobre a criação de área prioritária de emergência, para fins de Reforma Agrária, do Estado de Minas Gerais, tendo declarado como “área prioritária de emergência, para fins de Reforma Agrária, a região constituída pelos Municípios de Sacramento, São Roque de Minas e Vargem Bonita, no Estado de Minas Gerais” (art. 1º), e o Decreto nº 74.447, de 21 de agosto de 197429, que declara de interesse social, para fins de desapropriação, imóveis rurais
27 Definida, no art. 2º, XVIII, da Lei do SNUC, como os arredores de uma unidade de conservação onde há
determinadas restrições para as atividades humanas com o fim de minimizar os impactos negativos sobre a unidade.
28 Revogado em 1991. 29 Revogado em 1991.
situados nos Municípios de Vargem Bonita, Sacramento e São Roque de Minas, uma área medindo aproximadamente 106.185,50 hectares (art. 1º).
Assim, foi declarada para fins de desapropriação uma área de aproximadamente 106.185,50 hectares, compreendida como Chapadão Serra da Canastra, excluindo-se da área destinada ao PNSC todo o complexo sul, conhecido como Chapadão da Babilônia. Ocorre que, dessa área de 106.185,50 hectares que deveria ser desapropriada, apenas 71.525 hectares o foram efetivamente. Isso se deu pelos altos custos das indenizações pagas, bem como pela pressão feita pelos moradores locais, além de outros fatores, tais como as dificuldades de acesso, fiscalização e administração (FERNANDES, 2012, p. 80).
Para melhor compreensão da situação, segue abaixo a figura extraída da dissertação de Mestrado de Vanessa Samora Ribeiro Fernandes (2012, p. 41), possibilitando a visualização da área que já foi desapropriada, ou seja, da área que já foi regularizada (Chapadão Serra da Canastra) e da área que ainda está pendente de regularização (Chapadão da Babilônia), bem como o local em que há comunidades:
Figura 1 – área PNSC e comunidades
O processo de criação do PNSC foi agressivo para os moradores da região, tanto para os que foram desapropriados30, quanto para os que foram expulsos e retirados pela violência policial de seus territórios. Não houve qualquer procedimento de participação popular, políticas para realocação, ou criação de medidas alternativas para a economia local. Os moradores se viram forçados a saírem do território e a deixarem suas criações e lavouras (FERNANDES, 2012, p. 77). Juliana Santilli (2005, p. 9) escreve que durante o regime militar, mais precisamente entre o período de 1964 a 1984, não havia possibilidade de discutir e avaliar os impactos ambientais gerados por obras e projetos de interesse dos militares, os Parques criados nesse período foram marcados por ações centralizadas e violentas do Estado, sem qualquer tipo de consulta prévia à população.
O primeiro Plano de Manejo31 do PNSC foi elaborado em 1981, nove anos após a criação do Parque, abrangendo a área de 71.525 hectares (desapropriados à época). O segundo Plano de Manejo, vigente até o momento, adveio após trinta e três anos da criação do PNSC, em março de 2005. Esse novo plano de manejo, publicado pelo IBAMA, reconheceu a área do PNSC nos termos de sua criação, com aproximadamente 200.000 hectares. Surgiu, a partir de então, novos conflitos fundiários na região da Canastra, notadamente em relação aos 130.000 hectares que não foram regularizados nos anos subsequentes à criação, correspondentes ao complexo sul.
Desse modo, para que haja a regularização da área, é necessário que os pequenos produtores rurais e suas famílias, que se reconhecem como canastreiros e vivem na área desses 130.000 hectares, sejam desapropriados. Assim determina o art. 11, §1º, da Lei do SNUC, in
verbis: “O Parque Nacional é de posse e domínio públicos, sendo que as áreas particulares
incluídas em seus limites serão desapropriadas, de acordo com o que dispõe a lei”.
Os integrantes da história da ocupação territorial da Serra da Canastra, incluindo a área do PNSC, foram os indígenas, escravos refugiados em quilombos e, atualmente, os canastreiros (FERREIRA, 2013, p. 75). A ocupação humana na região da Canastra não foi harmoniosa, havendo conflitos sangrentos. Em 1675, houve a dizimação dos índios Cataguazes pelos bandeirantes, liderados por Lourenço Castanho. Posteriormente, em 1750, iniciaram-se as
30De acordo com André Picardi (2008), os proprietários destes 71.525 hectares (correspondentes à área
regularizada do Parque) foram desapropriados e indenizados com Títulos da Dívida Agrária. Alguns proprietários receberam o valor em dinheiro após 30 anos e alguns outros até o ano de 2011 ainda não haviam recebido (FERNANDES, 2012, p. 81). Além disso, os valores pagos aos moradores por meio de dos títulos foram muito baixos.
31 Plano de Manejo, nos termos do art. 2º, XVII, da Lei do SNUC, é o “documento técnico mediante o qual, com
fundamento nos objetivos gerais de uma unidade de conservação, se estabelece o seu zoneamento e as normas que devem presidir o uso da área e o manejo dos recursos naturais, inclusive a implantação das estruturas físicas necessárias à gestão da unidade”.
campanhas contra os quilombos. Saint-Hilare apud Bizerril, Soares, Santos (2008, p. 42) destaca a origem do nome da cidade Pium-i (Piumhi) – acampamento construído para combater negros fugidos. Após a destruição do quilombo, o acampamento se transformou em um núcleo habitacional permanente (BIZERRIL; SOARES; SANTOS, 2008, p. 42). Verifica-se, portanto, que a memória da região é marcada pelo massacre de povos marginalizados ao longo da história nacional.
Os canastreiros, por sua vez, são os pequenos produtores rurais e seus familiares, que vivem na área do entorno do PNSC, mais precisamente no complexo sul (Chapadão da Babilônia). Há as comunidades de São José do Barreiro, do Vale da Babilônia, do Vale da Gurita, do Vale dos Cândidos e do Vale dos Canteiros. A sociabilidade dos canastreiros se manifesta no trabalho na terra, na criação de gado, nas rezas, nas Folias de Reis, nas músicas, comidas e histórias (FERREIRA, 2013, p. 182). A liberdade e a paz de morarem na Serra da Canastra sempre são mencionadas, verificando, assim, intrínseca relação de dependência com a natureza, que foi apropriada socialmente. Conforme dados da Justiça Federal – Tribunal Regional Federal da 1ª Região (2015), há algumas famílias que vivem na região desde o século XIX.
Figura 2 - Casa de família canastreira
Fonte: Fotografia da autora (2018).
O Ministério do Meio Ambiente (MMA, 2005 p. 8) destaca as principais atividades desenvolvidas nas propriedades e posses na região. Foi apurada que a principal atividade é a criação de gado leiteiro (65%), seguida do plantio de culturas temporárias (18%), a pecuária
mista (12%) e o turismo (5%). Outras atividades desenvolvidas nas propriedades/posses da região da Canastra seriam a de culturas temporárias (50%), a fabricação de queijo (42%) e o arrendamento de terras (8%). Em relação ao uso e à ocupação da terra, 56% das áreas são destinadas a pastagens, distribuídos de forma equivalente entre as nativas e as formadas (28% cada), 22% à agricultura e 22% às matas/reservas/áreas não utilizadas/áreas não aproveitáveis. Ainda na contextualização dos canastreiros, importante mencionar o Queijo da Canastra. De acordo com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN, 2018), o Modo Artesanal de produzir o Queijo da Canastra foi registrado como bem imaterial, sendo inscrito no Livro de Registro dos Saberes, em junho de 2008. Esse bem imaterial consiste em um conhecimento tradicional e em uma característica singular da identidade cultural da região. Identidade é questão cultural que confere significado a um grupo social, identificando- o e diferenciando-o de outro grupo. O Queijo da Canastra faz parte da identidade e história dos povos da região, sendo parte do seu saber, do seu fazer, sobremodo do seu ser. Há relatos que o Queijo existe desde o séc. XVIII, sendo que, no século XIX, o costume e a tradição já estavam enraizados na população (informação verbal).32
No que se refere às investidas com o objetivo de dirimir a questão fundiária da região, aborda-se a instauração, em janeiro 2015, da “Comissão da Verdade e Reconciliação da Serra da Canastra”, pelo Juiz Federal de Passos/MG, Bruno Augusto Santos Oliveira. O professor André Luiz Freitas Dias, do Programa Polos de Cidadania da Faculdade de Direito da UFMG, é quem está com a coordenação da Comissão, que conta com o acompanhamento da Defensoria Pública da União, Ministério Público Federal, Ordem dos Advogados do Brasil e Associação dos Juízes Federais do Brasil.
O surgimento da Comissão adveio da necessidade de solucionar o conflito socioambiental, que está judicializado na Justiça Federal de Passos/MG (jurisdição do PNSC) há mais de quarenta anos. Há dezenas de processos ambientais, criminais e desapropriatórios oriundos do conflito. Após o exame destas ações em curso e daquelas já julgadas, bem como da situação fática por meio de inspeções judiciais no local e do estudo do Plano de Manejo do Parque, concluiu-se que a via judicial não traria uma solução satisfatória. Considerando a insegurança jurídica e instabilidade em que se encontram os interesses de ordens ambiental, social, cultural e econômica envolvidos, instaurou-se a referida Comissão (TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 1ª REGIÃO, 2015).
32 Audiovisual – Cultura e hábitos estão presentes na história da produção do queijo de Minas, disponibilizado
Os objetivos da Comissão da Verdade e Reconciliação da Serra da Canastra são: esclarecer os fatos e as circunstâncias do caso de violação de direitos humanos praticados durante a implantação do Parque Nacional Serra da Canastra, a partir de 3 de março em 1972; promover o registro e esclarecimento dos referidos casos, fazendo sua juntada aos autos; e promover, com base nas informações obtidas, a reconstrução da história, a fim, de assim, o juízo ter elementos suficientes para o julgamento esclarecido da questão (TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 1ª REGIÃO, 2015).
Entre as medidas preparatórias já tomadas pela Comissão para assegurar a conciliação efetiva, destacam-se o contato com os diversos atores envolvidos no conflito; trabalhos nas escolas primárias da região; contato com pessoas da área acadêmica e reuniões. Além disso, a Defensoria Pública da União e a Ordem dos Advogados do Brasil (com assento permanente nas mesas de negociações) realizaram reuniões com moradores e garimpeiros hipossuficientes (TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 1ª REGIÃO, 2015).
Houve, ainda no âmbito da Comissão, determinação para a realização de perícias judiciais, por meio de Oficinas de Direitos dos Povos e Comunidades Tradicionais, nas quais eram ministradas aulas por um perito, com o objetivo de levar conhecimentos diversificados à comunidade, para que essa pudesse se reconhecer como tradicional ou não (TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 1ª REGIÃO, 2015).
Outra medida adotada com o objetivo de atingir a regularização desses 130.000 hectares pendentes – além dos Projetos de Lei, que serão abordados no próximo capítulo –, foi a Compensação de Reserva Legal33, com edital publicado na data de 15 de outubro de 2010 (FERREIRA, 2015, p. 123). Assim, o PNSC possuía, até junho de 2013, mais de 10 mil hectares por meio do mecanismo de doações de compensação de Reserva Legal, ou seja, 82.620,5212 hectares regularizados, o que significa um Parque Nacional retalhado que cresce com propriedades isoladas (FERREIRA, 2015, p. 114; 130-131).
33 Mecanismo previsto no inciso III e parágrafos 5° a 7° do art. 66 do Código Florestal (Lei Federal n°
5 POSSIBILIDADES PARA A RESOLUÇÃO DOS CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS DECORRENTES DA SOBREPOSIÇÃO TERRITORIAL ENTRE POVOS E COMUNIDADES TRADICIONAIS E UNIDADES DE PROTEÇÃO INTEGRAL
Sem a intenção de esgotar o tema e sem prejuízo de outras propostas existentes, destacam-se algumas alternativas relevantes para a mediação dos conflitos decorrentes da sobreposição territorial de povos e comunidades tradicionais e Unidades de Proteção Integral. A fim de não sobrecarregar a apresentação e, para uma melhor compreensão das leitoras e leitores, optou-se por dividir as propostas em cinco grupos diferentes. Ao final dos três primeiros grupos, será realizada uma abordagem específica do que foi apresentado como alternativa para o conflito existente na Serra da Canastra.
O primeiro grupo refere-se à mediação por meio da comunicação e educação ambiental. O segundo diz respeito à revisão dos limites das unidades. O terceiro grupo concerne à via conciliatória, oportunidade em que serão descritos os principais contornos sobre o Acordo de gestão, Plano de Uso Tradicional e Termo de Compromisso. O quarto grupo, por sua vez, relaciona-se às sugestões que conciliam os interesses de conservação cultural e ambiental, concretizadas por meio da dupla afetação ou da criação de zonas histórico-culturais antropológicas. Por fim, no quinto grupo, será abordada a remoção das populações tradicionais de seus territórios.
5.1 A mediação dos conflitos socioambientais por meio da comunicação e educação