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4 DIMENSIONANDO OS PROBLEMAS E OS CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS

6.5 Reflexão jurídica: o que se quer preservar?

Além da institucionalização dessa relação específica que os povos e as comunidades tradicionais apresentam com a natureza, há estudos que contestam que a biodiversidade seja produto da própria natureza, sem intervenção humana. A variedade biológica existente seria,

portanto, uma construção cultural e social, resultado da ação humana (SANTILLI, 2005, p. 86). O homem cria e, concomitantemente, é criado pelo meio natural, como visto na seção 6.3.

De fato, há pesquisas que demonstram o papel das populações humanas pré-históricas nos processos de extinção da megafauna nas Américas, Eurásia, Oceania e algumas ilhas54 (FRANCO; SCHITTINI; BRAZ, 2015, p. 252). Por outro lado, há estudos que demonstram que as paisagens julgadas naturais poderiam ser resultantes da interferência humana, como, por exemplo, a fisionomia da Floresta Amazônica, que seria resultante de um extenso processo de ocupação humana e que a taxa de biodiversidade é "mais elevada nas porções de floresta antrópicas do que nas porções de floresta não modificadas pelo homem". (DESCOLA, 1999, p. 115). Assim sendo, a exclusão da presença humana de determinados locais poderia comprometer as próprias características naturais que se busca preservar.

A manutenção e o aumento da diversidade biológica nas florestas tropicais, segundo Antônio Carlos Diegues (2001, p. 152), com base nas pesquisas de William Balée e Gomez- Pompa, devem-se às práticas tradicionais da agricultura itinerante dos povos que habitavam essas áreas. Os processos da floresta e os processos regenerativos são adaptados às atividades do ser humano, sendo que o uso de pequenas áreas de terra agricultável e seu posterior abandono são semelhantes ao desaparecimento natural e esporádico da floresta (DIEGUES, 2001, p. 152). A abundância de variadas espécies também estaria relacionada à proteção conferida pelos seres humanos, em virtude da variabilidade induzida pelo homem no meio ambiente nas zonas tropicais, que favoreceu e favorece a diversidade das espécies e de seus processos evolutivos (DIEGUES, 2001, p. 152).

Nesse sentido, as florestas são artefatos humanos e existem não apesar de as populações a habitarem, mas propriamente devido ao fato de as populações a habitarem:

Devido a uma longa história de horticultores utilizarem técnicas de pousio longo em áreas alternadas, juntamente com a ajuda de populações nômades da África central, todas as áreas florestais atuais são realmente uma miscelânea de vários estágios sucessivos de crescimento criados por pessoas, e nenhuma área é o que mais frequentemente se vê nas propostas e relatórios sobre uma floresta "primitiva", "intocada", "primária" ou "madura". Em resumo, essas florestas são artefatos culturais humanos. A biodiversidade atual existe na África central não apesar da habitação humana, mas por causa disso (CLEAVER et al., 1992, p. 208, tradução nossa)55.

54 Sobre o tema, ver WILSON (1992), GROOM; MEFFE; CARROLL (2005) e FERNANDEZ; ARAÚJO (2012). 55 Because of the long history of long-fallow shifting horticulturalists, along with mobile foragers in central Africa,

all present-day forest areas are really a patchwork of various successional stages of growth created by people, and no areas are whatmost proposals and reports refer to as "pristine", "untouched", "primary", or "mature" forest. In short, these forests are human cultural artifacts. Present-day biodiversity exists in central Africa not in spite of human habitation, but because of it.

Assim, excluir os seres humanos desses territórios que habitam tradicionalmente poderia gerar um desequilíbrio nos ecossistemas e alterar as áreas que se quer proteger:

Se excluirmos o uso de grandes áreas florestais dos seres humanos, não estaremos conservando a biodiversidade atual que consideramos tão preciosa, pelo contrário, estaremos alterando-a significativamente, provavelmente estaremos diminuindo-a a longo prazo (CLEAVER et al., 1992, p. 208, tradução nossa)56.

Nessa ordem de ideias, as paisagens naturais seriam resultantes das transformações de habitat manejados e não manejados, enquanto a diversidade estaria relacionada aos arranjos humanos no meio ambiente (KEMPF, 1993, p. 7).

Os povos e as comunidades tradicionais também possuem um papel importante na conservação da biodiversidade atuando contra a ação de grandes fazendeiros e grupos econômicos (FIGUEIREDO, 2012, p. 2). A presença dessas comunidades em espaços territoriais funciona como uma barreira de resistência contra a colonização e o modelo econômico favorecedores do latifúndio e do agronegócio em grande escala, contra os grandes empreendimentos para geração de energia e contra as atividades de mineração (FIGUEIREDO, 2012, p. 2-3).

As investigações mostram que as áreas que abrigam considerável biodiversidade e beleza cênica, atualmente valorizadas a ponto de se querer protegê-las, foram criadas e mantidas pelas populações que já a habitavam quando sobreveio o texto normativo. A consequência de terem conservado e protegido os ecossistemas é a expulsão de suas terras, habitadas por gerações. Veja-se:

Foram esses povos que durante milênios atuaram como os guardiões da terra, nem sempre, mas geralmente, cuidaram-na tão bem que seus ecossistemas naturais se mantiveram em um estado conservado. Frequentemente, quando as áreas protegidas foram estabelecidas, os moradores indígenas e residentes locais foram removidos de seus territórios, essa remoção acarreta, muitas vezes, detrimento da própria terra (KEMPF, 1993, p. 4, tradução nossa)57.

Os estudos acima apresentados se relacionam com a teoria da dialética do meio, na medida em que o ser humano interfere na natureza e ela, nele. Essa relação dialética permitiu que as populações tradicionais, por meio de práticas culturais específicas, contribuíssem para a conservação dos ecossistemas (DIEGUES, 2001, p. 157). A noção de wilderness nos países

56 If we are to exclude human beings from using large areas of forest, we will not be conserving the present

biodiversity we hold so precious, but rather we will be altering it significantly probably diminishing it over time.

57 It was these people who were for millennia the custodians of the earth, not always, but usually, caring for it so

well that it had maintained its natural ecosystems in an unspoiled state. Frequently, when protected areas were established, indigenous and local residents were moved out, often to the detriment of the land itself.

tropicais é, portanto, diferente daquela descrita pelos primeiros ambientalistas americanos, como espaços selvagens, isolados e inabitados (DIEGUES, 2001, p. 157). As áreas naturais institucionalmente protegidas a partir da década de 1930 foram bem conservadas justamente pelo modo de vida dessas culturas e não por serem desabitadas (DIEGUES, 2001, p. 19). Até mesmo em relação ao primeiro Parque instituído, Yellowstone, constatam-se sítios arqueológicos habitados por tribos indígenas (DIEGUES, 2001, p. 29).

Desse modo, o que se pretende proteger, por meio da legislação, são o espaço e a biodiversidade gerados e conservados pelas populações tradicionais que já habitavam seus territórios, utilizando os recursos naturais de modo racional, por meio de práticas de manejos ancestrais, quando sobreveio o texto normativo. Não está entre os objetivos das Unidades de Proteção Integral (art. 2º, I; art. 4º e incisos; art. 7º, §1º, da Lei do SNUC) aumentar a diversidade existente no local; pelo contrário, objetiva-se proteger a natureza no status em que se encontra, e ela se encontra assim, especificamente, por haver determinados grupos habitando-a, de modo integrativo à dinâmica dos ecossistemas, como demonstrado nos estudos acima, podendo haver um desequilíbrio, caso sejam retirados dos seus territórios.

6.6 O excludente Direito moderno: a necessidade de se incluir uma exceção no § 1º do art.