O cenário político do Jabaquara pode ser dividido em dois momentos distintos durante a gestão petista na Prefeitura de São Paulo.
O primeiro momento marcou o início da gestão e seu contato direto com a população, que estava inquieta querendo saber o que esse governo tinha a oferecer de novo. Nessa etapa, aconteceram várias inovações promovidas pela administração municipal central, podendo citar, o OP, os programas sociais e a criação das subprefeituras.
O segundo momento aconteceu após dois anos, ficando caracterizados pela delimitação dessa nova concepção de governo para a população, quais os canais de participação que ela poderia contar e, principalmente, a ampliação da base governista na Câmara Municipal, a medida em que a prefeita abril seu governo para novas alianças partidárias com os partidos PL (Partido Liberal), PMDB, PTB, PPS e PDT (Fiorilo: 2006, 114).
Para ampliar sua base de apoio na Câmara Municipal, nesse segundo momento, o núcleo de governo chefiado por Rui Falcão cedeu três subprefeituras para o PL, e os partidos PPS, PDT, PC do B e PSB indicaram 1 subprefeito cada (Fiorilo, 2006: 94). Foi utilizado como “moeda de troca” o “compartilhamento”89 das subprefeituras, que consistiu na sua divisão com dois partidos distintos para a indicação dos cargos, principalmente na composição das sete coordenadorias.
No Jabaquara esses dois períodos demarcaram duas configurações de governo distintas dentro da subprefeitura, ficando marcado pelas diferenças das gestões dos subprefeitos Odilon Guedes e Clélio Leme.
89 Fiorilo (2006:95), afirma que a denominação de “compartilhamento” era pregada pelos petistas e que
O primeiro, Odilon Guedes, tinha como bandeira a transparência e o diálogo aberto com a população, envolvendo todo o governo local nas ações da gestão municipal, como o OP, além de conhecer bem a região e as lideranças comunitárias90. Ao montar sua equipe de trabalho, não permitiu a ingerência política por parte do núcleo do governo petista nas nomeações dos cargos, que será visto mais adiante, o mesmo acontecendo no curto período da administração da subprefeita Sonia Foianezi.
Com a entrada do subprefeito Clélio Leme, o formato da administração mudou, distinguindo-se das duas gestões anteriores. As principais diferenças apontaram para a centralização das ações, o fechamento dos canais de diálogo com a população e a limitação imposta pelo seu gabinete para as atividades do OP.
Outros dois aspectos relevantes que distinguiram essa gestão das anteriores, foi o fato do subprefeito Clélio Leme não conhecer a região, e muito menos as lideranças comunitárias locais. E, por fim, a composição do seu gabinete abrangeu, principalmente, indicações dos vereadores Francisco Chagas do PT, bem como a nomeação do então presidente do Diretório Distrital petista do Jabaquara para a Coordenadoria de Finanças daquela subprefeitura, sendo que este último, estava ligado aos irmãos Tatto e Rui Falcão do grupo da prefeita Marta Suplicy.
A Coordenadoria da Educação foi uma exceção, permanecendo com a mesma equipe da gestão anterior, não fazendo parte dos grupos que apoiavam o subprefeito e do vereador Francisco Chagas, tendo como coordenadora Maria Teresinha de Jesus Garcia que tinha sido indicada pelas forças do PT da região.
90 Durante a sua administração, Guedes colocou um quadro na entrada da Subprefeitura Jabaquara com
detalhes do seu orçamento, englobando receitas e gastos, sendo o único subprefeito a utilizar essa prática. Posteriormente, em 2003, como parlamentar faz um projeto de Lei que é aprovado no plenário da Câmara Municipal, consistindo em que todos os órgãos municipais devem divulgar de forma transparente, nos moldes da Subprefeitura do Jabaquara, o orçamento. Em 2004 a prefeita Marta Suplicy veta essa Lei.
Um exemplo elucidativo das diferenças políticas administrativas destes dois subprefeitos é o relato de Odilon Guedes a respeito da formação do quadro de assessores na sua gestão no Jabaquara91.
O entrevistado declarou que não teve pressão por parte do gabinete da prefeita e nem do secretário de governo para montar sua equipe. Dessa forma, Odilon nomeou pessoalmente a chefe de gabinete e mais duas pessoas de sua confiança, em seguida, conversou com as forças do partido na região, representadas pelo Deputado Federal Ivan Valente e o ex Deputado Estadual e então Secretário Municipal de Habitação Paulo Teixeira, que indicaram um assessor cada.
Depois de formada sua equipe, Odilon disse que passados alguns meses ocorreu a primeira reforma administrativa sob iniciativa da Secretaria de Governo, chefiada por Rui Falcão, na qual foi criado um novo cargo de provimento para as então ARs, denominado DAS 12.
Com a criação deste novo cargo, o entrevistado disse que o vereador petista José Mentor lhe ligou, e também para outros administradores regionais, dizendo que “não era para ele nomear ninguém, porque já existia um acerto na
Câmara Municipal para indicar os nomes”.
Essa atitude do núcleo de governo desencadeou em uma oposição composta por Odilon e mais quatro administradores regionais, que chegaram a elaborar um esboço de carta para enviar a prefeita Marta Suplicy, contendo “críticas ao fato das ARs estarem sendo novamente usadas como barganha
política, e que eles não concordavam com aquilo, configurando uma situação muito ruim pela tradição do partido”, porém, acabaram não enviando a carta por
pressões políticas do grupo ligado a prefeita.
O entrevistado ressaltou que não remeteram a carta para preservar o governo que estava em seu início de mandato, mas que ele falou pessoalmente
com Marta Suplicy se posicionando contra aquela ingerência. A partir desse momento, foram demitidos três administradores regionais, que junto com ele, se recusaram a nomear assessores indicados pelo núcleo do governo. Também expôs que não foi demitido, porque naquele momento, a Subprefeitura do Jabaquara estava classificada como a primeira no ranking de melhor atendimento de todas as subprefeituras.
Posteriormente, em 2002, o então Secretário da Implantação das Subprefeituras Jilmar Tatto nomeou um assessor no Jabaquara sem consultar o subprefeito Odilon, conforme relato do entrevistado:
“quando vi no Diário Oficial essa nomeação, liguei em seguida para o Jilmar Tatto e lhe disse que quem nomeia minha assessoria sou eu, espero que você não mande essa pessoa para cá, pois vou mandá-lo de volta. Ai ele falou que não era bem assim, e no dia seguinte o fulano apareceu na subprefeitura e eu o mandei embora.”
Esse depoimento é importante para compreender os meandros que envolveram o circuito do poder municipal e suas diversidades locais, ficando evidente a ausência de um consenso dentro do Governo Marta Suplicy em relação aos procedimentos democráticos envolvendo os poderes locais e central e a participação popular, que por conseguinte passou a ser um complicador para o desenrolar do OP nos governos locais instalados.
A disputa de poder nos moldes tradicionais, e também adotado pelo Governo Marta Suplicy, ou seja, mantendo o desenho de barganha política dos governos anteriores, principalmente ao sustentar o estreitamento e a cordialidade das relações entre Executivo e Legislativo utilizando o poder local como mecanismo de compartilhamento político, não combina com a abertura a participação popular que essa gestão prometeu fazer no começo. Dessa forma, o poder local que deveria ser discutido e deliberado pela população por meio do OP ficou fragmentado.
Outro aspecto importante desse meandro político do Jabaquara aconteceu na curta administração da subprefeita Sonia Foianezi que por estar ligada a Odilon Guedes sofreu grande pressão política.
De acordo com o relato de Leonardo Penafiel92 , antes de tomar posse na Câmara Municipal, Guedes conseguiu reunir apoio de diversos segmentos da sociedade civil do Jabaquara por meio de manifesto escrito, para apoiar Sonia Foianezi como subprefeita.
Ainda na gestão de Odilon Guedes, segundo o entrevistado, diversos grupos já vinham cobrando mais espaço político, principalmente nas coordenadorias estratégicas, Finanças e Ação Social, essa última por causa dos programas sociais.
A subprefeita Sonia Foianezi manteve o mesmo espaço para as forças políticas da gestão anterior, o que gerou uma situação de questionamentos generalizados, de acordo com o relato do assessor.
O entrevistado enfatizou que este fato combinado com as características pessoais da Sonia Foianezi , motivaram as forças políticas petistas da região, que estavam em torno do grupo político da prefeita, com exceção da tendência DS (Democracia Socialista), a fazer uma carta direcionada ao Rui Falcão, então secretário de governo, e ao Ítalo Cardoso, presidente do Diretório Municipal petista, na qual atacavam fortemente a subprefeita do Jabaquara, inclusive com acusações pessoais e ofensivas, solicitando a sua substituição e de sua equipe, para que eles entrassem com mais força política dentro da subprefeitura.
Com toda essa pressão, a subprefeita Sonia Foianezi ficou apenas pouco mais de quatro meses no cargo, pois logo foi demitida bem como toda a sua equipe, sem ao menos serem comunicados para fazerem uma transição de governo organizada.
Esse meandro do circuito de poder dentro da subprefeitura trouxe desdobramentos para o OP da região, que será delineado a seguir.