DO DOMÍNIO CIENTÍFICO DO CANCRO À SUA PREVENÇÃO
1. O CONCEITO DE CANCRO E O PROCESSO DE CANCERIGÉNESE
O Cancro é o termo comum para todos os tumores malignos. Segundo Nogueira (2001, p. 21), “é uma doença de topografia extremamente diversificada, que pode ocorrer em
praticamente qualquer parte do corpo humano”. O vocábulo Cancro, provavelmente, veio
do latim e poderia ser traduzido como “caranguejo” porque “adere a qualquer local que acomete, de forma obstinada como um caranguejo”.
O Cancro (neoplasia maligna) pode ser descrito como “uma desordem onde o
crescimento celular deixa de ser coordenado pelas necessidades do organismo de novas células, formando uma colónia de células relativamente indiferenciadas” e que, com o tempo, “ultrapassa o número de células saudáveis à sua volta.” (Learmonth, 1988, p. 22).
Esta massa anormal não apresenta nenhum propósito e consome o hospedeiro, já que o crescimento neoplásico compete com as células de tecidos normais pelos suprimentos de energia.
Segundo Simonton et al. (1987), o Cancro aparece quando células normais se transformam em células com informações genéticas incorrectas, de tal forma que se tornam incapazes de cumprir as funções para as quais estavam designadas. Nas células malignas as mudanças celulares que ocorrem vão permitir que elas se multipliquem rapidamente e invadam tecidos e órgãos adjacentes. Ao processo de invasão e reprodução de novos tumores para outras partes do corpo chama-se metastização. O Cancro como “uma única célula transformada que não obedece ao regulamento da
diferenciação, proliferação celular, forma um clone e continua a crescer sem respeitar as necessidades do corpo” foi considerada, na altura, uma boa definição. (Clark et al.,1997,
p. 263)
A carcinogénese consiste no processo de transformação de uma célula normal em célula cancerosa, passando por diversas fases. Engloba diversos tipos de lesões, desde as pré- cancerosas até aos tumores de grande malignidade.
De acordo com Harrison (1994) o Cancro é definido pelas seguintes características: 1. Clonalidade – alterações genéticas numa única célula, que se desenvolve para formar o clone de células malignas.
2. Autonomia – crescimento descontrolado, que não obedece ao controlo das substâncias bioquímicas e físicas normais do ambiente.
3. Anaplasia – carência de diferenciação normal e coordenada das células.
4. Metástases – as células malignas têm a capacidade de crescer descontinuamente e de disseminar para outras áreas do corpo.
Não existe uma causa única para o aparecimento do Cancro, no entanto são conhecidos vários agentes responsáveis por esta transformação maligna. Estes são designados por agentes carcinogéneos e para que o Cancro se desenvolva é necessário que eles actuem de forma cumulativa e continuada de tal forma que se produzam alterações celulares durante um largo período de tempo.
Actualmente, são conhecidos inúmeros factores carcinogéneos que, não actuando normalmente de forma isolada, são responsáveis pelo aparecimento de Cancro, o que explica o longo período de latência do seu aparecimento (Meade et al., 1988).
Alguns factores responsáveis pelo Cancro, para além da base genética, estão ligados a aspectos comportamentais e a estilos de vida, tais como o tabaco, álcool, alimentação, exposição solar,… Há, ainda, a considerar os derivados de outras exposições, como as ambientais ou ainda as relacionadas com a actividade profissional. É de referir que nos últimos anos tem-se descoberto associações de localizações tumorais com factores infecciosos, nomeadamente bactérias e vírus.
Os factores da personalidade, como as defesas psicológicas mal sucedidas, a angústia psíquica, a perda de um relacionamento e a inabilidade de expressar emoções e sentimentos hostis têm sido associados quer ao aparecimento do Cancro, quer à sua rápida disseminação (Arán et al., 1996; Deitos et al., 1997; Potter, 1999).
A investigação psicológica, ultimamente, tem vindo a preocupar-se com a associação entre algumas variáveis da personalidade e a incidência das doenças oncológicas. De vários estudos efectuados há a realçar o de Grossarth-Maticek, na antiga Jugoslávia e Alemanha onde existe uma “relação nítida entre o funcionamento da personalidade e a
incidência de doenças oncológicas” (Justo, 2002, p. 53).
Estas características fazem parte de um tipo de personalidade onde a autonomia emocional e auto-estimulação estão bastante afectadas.
Parece existir uma relação entre factores psicológicos, nomeadamente o stresse e o funcionamento imunológico. Assim, os problemas psicológicos ao deprimirem os órgãos do sistema imunológico favorecem o aparecimento e a progressão do Cancro. Segundo Maier & Watkins, referenciados por Justo (2002), não está, completamente, explicada a forma como o sistema neuro-endócrino interage com o sistema imunitário.
Na opinião de Carvalho (1994) e Moreira (1998) o stresse facilita a exposição a factores carcinogénicos, desencadeia a predisposição genética latente através de alterações hormonais e bloqueia células imunológicas, o que permite pensar na existência da associação entre o stresse e o Cancro.
Segundo a “teoria de vigilância imunológica”, o organismo das pessoas produz diariamente células anormais, quer por razões externas, quer por divisão celular incorrecta. É função do sistema imunológico reconhecer essas células e destruí-las. Quando o stresse por algum motivo inibe este sistema pode desencadear o desenvolvimento do Cancro (Siegel, 1989).
De acordo com Simonton et al. (1987) a Psiconeuroimunologia tem vindo a explicar a relação existente entre corpo-mente e como as emoções desencadeiam substâncias químicas que actuam no sistema imunológico. Os autores elaboraram o modelo corpo- mente com a finalidade de mostrar como os factores psicológicos, nomeadamente o stresse, podem influenciar o aparecimento do Cancro.
No modelo corpo-mente os sistemas envolvidos são o límbico, o imunológico e o endócrino, conforme se pode verificar nas Figuras 1 e 2.
Stresse psicológico Depressão, desespero Supressão da actividade imunológica Actividade hipotalâmica Actividade pituitária Sistema imunológico (contém mecanismos anticancro) Sistema endócrino (cria desequilíbrio hormonal)
Aumento das células normais Sistema límbico Crescimento do cancro Intervenção psicológica Esperança, expectativa Aumento da actividade imunológica
Actividade hipotalâmica Actividade pituitária
Sistema imunológico (contém mecanismos anticancro) Sistema endócrino (restabelece equilíbrio hormonal)
Diminuição das células anormais Sistema límbico
Regressão do cancro
Figura 1 - Modelo corpo/mente de desenvolvimento do cancro Figura 2 - Modelo corpo/mente de recuperação do cancro.
Fonte: Simonton et al., 1987
O mecanismo de funcionamento destes sistemas é o seguinte: o sistema límbico tem por função registar a informação e enviá-la ao hipotálamo; este ao controlar o sistema imunológico vai regular, também, a acção da glândula pituitária; esta exerce uma actividade reguladora sobre o sistema endócrino.
Nestes esquemas podemos observar como determinados estados emocionais, sentimentos ou mesmo doenças psíquicas (stresse, desespero, isolamento, depressão, entre outros) podem predispor o indivíduo para o desenvolvimento do Cancro ou para a sua recuperação (Simonton et al., 1987; Le Shan, 1992; Caetano et al., 1999).
Segundo Justo (2002), para considerar o sistema imunitário como o principal mediador entre o psíquico e o Cancro, é imprescindível que estejam presentes duas condições: a sensibilidade do sistema imunológico às alterações do funcionamento psicológico, de modo particular em situações de stresse; alterações do sistema imunológico dos indivíduos com problemas psicológicos como, por exemplo, doentes deprimidos.
Os Profissionais de Saúde devem ser capazes de reconhecer o stresse e promover no indivíduo estratégias de coping, para que este seja capaz de lidar com situações de doença e outras situações desfavoráveis do quotidiano.