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LENTES TEÓRICO-METODOLÓGICAS

3 CULTURA E DESENVOLVIMENTO HUMANO: PERSPECTIVAS SOCIOANTROPOLÓGICAS E O ENFOQUE SEMIÓTICO DA PSICOLOGIA

3.1 O SUJEITO INTERCULTURAL: PERSPECTIVAS SOCIOANTROPOLÓGICAS

Etimologicamente, a palavra cultura (colere), de origem latina, significa trabalhar a terra e remete ao sentido da produção humana material e imaterial. De modo geral, é apontada como conjunto de significados historicamente transmitidos e modificados através do contato entre grupos sociais. O antropólogo francês Lévi-Strauss (1993)17 ressalta que o desenvolvimento

das sociedades é proporcionado por esse intercâmbio entre culturas, onde quer que o homem

esteja, as transformações entre elas ocorrerão. O antropólogo defende a tese de que nenhuma cultura desenvolve-se de forma solitária, mas na relação com outras culturas, constituindo um sistema simbólico. Todos nós somos tributários de civilizações passadas que nos formam como seres humanos, pois “o mundo é multicultural” (LÉVI-STRAUSS, 1993, p.328), a vida humana evolui através de modos diversificados de sociedades. A partir do seu ponto de vista, a civilização implica coexistência entre culturas, essencialmente construída pelas diferenças, em tempos e espaços específicos, onde a diversidade deve ser preservada.

A sociedade contemporânea globalizada ampliou e tornou mais próximos tanto os contatos quanto os conflitos entre grupos humanos. O estudo da cultura tornou-se, assim, objeto de diversas áreas do conhecimento científico, que almejam entender o seu papel como mediadora do desenvolvimento e das transformações sociais. Hall (1997)18 usa a expressão

centralidade da cultura na vida social contemporânea para explicar o papel da cultura nas

mudanças e deslocamentos da vida local e cotidiana. Argumenta que toda ação social é cultural, pois expressa ou comunica variados sistemas de significados construídos por seus atores para codificar, organizar e regular suas condutas.

Conforme o autor, a velocidade das mudanças globais acarreta sérios deslocamentos culturais e, por isso, a sociedade lida, todo tempo, com diferenças, alternativas híbridas e com novas identidades, muito mais do que um espaço culturalmente uniforme e homogêneo. Assim, a cultura é central na formação do Self 19 e a “[...] ênfase na linguagem e no significado tem

tido o efeito de tornar indistinta, senão de dissolver, a fronteira entre as duas esferas, do social e do psíquico” (HALL, 1997, p.6). Recorro aos estudos de Hall (1997; 2006) para entender a dinâmica das identidades no pertencimento sociocultural de universitários indígenas, uma das categorias desta pesquisa, cujas proposições são discutidas no próximo capítulo.

O conceito de cultura, na antropologia interpretativa de Geertz (2001 a), tem um impacto no conceito de homem, pois não existe natureza humana independente da cultura:

[a] cultura é um padrão de significados transmitido historicamente, incorporado em símbolos, em sistemas de concepções herdadas expressas em formas simbólicas, por meio das quais, os homens comunicam, perpetuam e desenvolvem seu conhecimento e suas atividades em relação à vida. (GEERTZ, 2001 a, p. 66).

18 Stuart Hall é um dos principais teóricos dos estudos culturais britânicos. O seu trabalho apresenta extensa e

relevante contribuição para análise sobre raças, etnicidade e identidades culturais.

Desse modo, a cultura fornece o vínculo entre o que os homens são capazes de se tornar e o que eles realmente se tornam. Nessa ótica, a história de todos os povos e da pessoa, tomada individualmente, consiste na história das mudanças culturais, dos sistemas de signos, das formas simbólicas e das tradições culturais (GEERTZ, 2001 b). A definição de cultura apresentada por esse autor dialoga com a Psicologia Cultural do Desenvolvimento, de orientação semiótica, cuja unidade de análise é a construção de significados. Esse diálogo ajuda compreender como a interação do sujeito com o meio é conduzida por um processo dinâmico e cíclico, envolvida por um sistema de signos que, ao serem internalizados, são recriados, provocando transformações recíprocas.

No entanto, o termo cultura apresenta permeado de vários e distintos sentidos, muitas vezes banais, imprecisos e divergentes. O filósofo e antropólogo argentino Néstor García Canclini20 preocupou-se em entender como as ciências sociais avançaram para tornar esse termo cientificamente aceitável, como chegaram a algum consenso para uma definição sociossemiótica da cultura e suas consequências para a interculturalidade. Ele esclarece que a própria pluralidade da cultura contribui para múltiplas narrativas apresentando algumas que se tornaram as principais noções sobre o tema. A primeira narrativa tem origem na filosofia idealista alemã, está mais próxima do senso comum e define cultura como acúmulo de conhecimentos, aptidões intelectuais e estéticas. Ainda segundo o autor (GARCÍA CANCLINI, 2009), essa definição faz com que a cultura se assemelhe a outras noções como educação, refinamento ou informação mais ampla, além de naturalizar a separação entre o corporal e o mental, a divisão do trabalho entre as classes e os grupos sociais e um conjunto de conhecimentos considerados hegemônicos.

A segunda narrativa consiste nas vertentes que se ocuparam em confrontar a cultura com outros termos, como natureza e sociedade. O primeiro par (natureza-cultura) debruçou-se sobre uma forma simples e extensa de definir cultura em oposição a natureza e contribuiu para distinguir o biológico do cultural, apresentando críticas ao etnocentrismo e à discriminação entre culturas. Essa vertente teve como consequência política o relativismo cultural, que consiste em “[...] admitir que cada cultura tem o direito de dotar-se das suas próprias formas de organização e estilos de vida, mesmo quando inclua aspectos que podem ser surpreendentes, como os sacrifícios humanos ou a poligamia [...]” (GARCÍA CANCLINI, 2009, p.39). Entretanto, conforme analisa, essa noção perde a eficácia funcional no mundo globalizado onde

20 Néstor García Canclini destaca-se como um dos principais teóricos latino-americanos na área das ciências sociais

na atualidade, discutindo questões cruciais para o entendimento sobre pós-modernidade, cultura e identidades híbridas, compartilhando seus princípios com Jesús Martím-Barbero e Jorge Larrín.

ocorre a transnacionalização de culturas e a intensa interação entre sociedades, sendo necessário arbitrar sobre as incompatibilidades entre elas. O segundo par (sociedade-cultura) tencionou delimitar a cultura em relação a outras partes da vida social. Um dos autores que ele toma como exemplo é Pierre Bourdieu21, que classifica a estrutura da sociedade com base nas relações de força, valor de uso e de troca; nas relações de sentido, que organizam a vida social; e nas relações de significação, que constituem a cultura. Nessa narrativa, a cultura tem uma perspectiva processual, consiste num “espaço de reprodução social e organização das diferenças” (GARCÍA CANCLINI, 2009, p.46).

A terceira narrativa destacada quer chegar a uma interseção entre as disciplinas ligadas as vertentes supracitadas, de modo a construir uma definição operacional da cultura numa perspectiva sociossemiótica, processual e cambiante. Essa perspectiva e suas abordagens contemporâneas conceituam a cultura como processo que abarca a produção, a circulação e o consumo de significações da vida social, e mostram-se atentas aos deslocamentos da função e do significado dos objetos culturais em trânsito. García Canclini (2001; 2009) se refere à hibridação das culturas, que caracteriza os processos sociais analisados a partir de seus cruzamentos ou fronteiras culturais. Explica que todas as práticas sociais contêm uma dimensão cultural, porém a cultura não é equivalente à totalidade da vida social. Há um entrelaçamento entre elas, são diferentes, mas não opostas, e só através de artifícios metodológicos analíticos pode-se distingui-las mais claramente.

As narrativas sociossemióticas pretendem superar a dicotomia cultura e sociedade. A cultura é constitutiva das interações cotidianas onde se desenvolvem os processos de significações. Os objetos culturais transformam-se ao passar de um sistema cultural para outros, pois cada grupo social usa suas significações e se reapropria do seu uso. Vista dessa forma, a cultura torna-se um adjetivo, ao invés de substantivo. García Canclini (2009) propõe estudar a noção do cultural, ou intercultural, em vez de cultura22, processos que ocorrem nas zonas fronteiriças de confrontação e disputa entre o local e o global, na interação entre diferentes grupos, nos quais os atores sociais compartilham conflitos e negociam significados.

García Canclini (2009) afirma que, na sociedade globalizada, o espaço “inter” é decisivo e revelador para reflexão e investigação epistemológica das novas configurações identitárias. Enfatiza que o objeto de estudo das Ciências Sociais não pode ser constituído por identidades

21 Pierre Félix Bourdieu, um filósofo e sociólogo francês, cuja obra discute os principais temas das ciências

humanas, artes e letras nos campos das ciências sociais e da educação. Não foi possível pelos limites desta tese discutir seus principais fundamentos.

separadas ou culturas desconectadas de modo relativista ou campos absolutamente autônomos. Esclarece que, na contemporaneidade, não cabe mais a imposição de uma cultura homogênea e nem a interação indivíduo-sociedade estabelecida pela nacionalidade ou etnia. Ao pesquisar o artesanato produzido por grupos indígenas ou camponeses no México, observou que, ao ser apropriado por outros setores urbanos, ele se transformou, mudou de significado, ao inserir-se em novas relações sociais e simbólicas, a partir da perspectiva do novo usuário. A comunicação entre os diferentes grupos possibilita novas codificações dos objetos culturais.

Assim, vejo aproximação e convergência entre a abordagem de García Canclini e a perspectiva semiótica da Psicologia Cultural, quando afirma que os elementos culturais são transformados em recursos simbólicos que auxiliam as transições no desenvolvimento. Além disso, essa abordagem da psicologia narra a cultura como essencialmente dinâmica, formando uma rede invisível e constantemente reconfigurada entre os grupos sociais e na pessoa em sua individualidade (ZITTOUN, 2012 a; VALSINER, 2012).

Nesta tese, discuto como o conhecimento acadêmico (objeto cultural) é reapropriado pelos universitários indígenas e como estes se relacionam com outros atores na zona intercultural. Para isso, foi necessário compreender as narrativas desses estudantes sobre as experiências de rupturas-transições na sua formação universitária e os significados que conferem ao seu desenvolvimento psicossocial. Para realizar essa tarefa, recorri também à perspectiva teórico-metodológica da Etnometodologia, centrada na compreensão dos procedimentos interpretativos que os atores sociais constroem para lidar com seu cotidiano: os etnométodos.

Segundo Lapassade (2005), a Etnometodologia é um campo das ciências humanas que se dedica ao estudo de como as pessoas utilizam os processos da vida cotidiana para comunicar e interpretar o social nas suas interações. Estes procedimentos utilizados pelos atores sociais para vivenciar e modificar a sua realidade cotidiana são denominados etnométodos. O autor explica que esse termo foi cunhado e desenvolvido pelo sociólogo americano Harold Garfinkel23, que define etnométodos como as realizações práticas (instituintes) que produzem os fatos sociais (instituídos). Assim, a Etnometodologia, como abordagem teórico- metodológica, se propõe a analisar os procedimentos interpretativos dos atores sociais nos espaços institucionais, sendo definida como campo de investigação da sociologia.

Um destes é o campo da educação, eleito como privilegiado para as investigações etnometodológicas, por fornecer novas e promissoras compreensões sobre os fenômenos da

23 Harold Garfinkel inaugura a etnometodologia nos anos 60, com a primeira publicação da obra Studies in

aprendizagem, fracasso, exclusão e exteriorização de regras pelos sujeitos sociais (SAMPAIO, 2011). O sociólogo francês Alain Coulon24 enfatiza a contribuição da Etnometodologia na análise dos contextos educativos e a define como “[...] a pesquisa empírica dos métodos que os indivíduos utilizam para dar sentido e ao mesmo tempo realizar as suas ações de todos os dias: comunicar-se, tomar decisões, raciocinar” (COULON, 1995, p. 30).

Neste sentido, essa teoria do social contribui para a análise do objeto deste estudo, pois fornece ferramentas não apenas para descrição e interpretação das trajetórias de acesso e permanência de estudantes indígenas na universidade, mas também compreender as estratégias e os sentidos desenvolvidos em torno dessa experiência ao longo dessa etapa de seu desenvolvimento psicossocial. A partir da perspectiva etnometodológica, que compreende a realidade social investigada como constantemente recriada pelos seus atores (COULON, 1995), construí uma descrição dos percursos de estudantes cotistas universitários como fenômenos historicizados e dinâmicos e interpretei os dados através da problematização dos fatos cotidianos e dos sentidos expressos por sua linguagem.

Para apreender o corpus teórico da Etmetodologia, segundo a obra de Garfinkel (COULON, 1995; LAPASSADE, 2005), precisei apresentar seus três conceitos básicos: indexicalidade, reflexividade e descritibilidade (accountability).

A indexicalidade, termo cunhado pela linguística, baseia-se no princípio de que a linguagem emerge de um contexto no qual as palavras resultam da indexação de ações, personagens, cenários, costumes, episódios e outros elementos de uma determinada situação. Coulon (1995) explica que, embora a palavra tenha um significado trans-situacional, ela tem igualmente significados distintos em toda situação particular em que é usada, exigindo que o sujeito vá além das informações recebidas. Esta noção de indexicalidade destaca a capacidade interpretativa do ator sobre sua ação social, ou seja, sobre o sentido que atribui a suas práticas (MACEDO, 2006). Reconheço que, para compreender as significações atribuídas pelos estudantes indígenas às suas trajetórias acadêmicas, é necessário conhecer os elementos contextuais que são indexados à sua linguagem, como a sua biografia, cultura, os episódios destacados como relevantes, os entornos sociopolíticos e afetivos e a própria relação que estabelecem com o papel de pesquisadora que represento.

Outra noção fundamental na Etnometodologia é a reflexividade que, como a indexicalidade, é constitutiva da linguagem e das descrições que o sujeito produz sobre a

24 Alain Coulon aplica a abordagem etnometodológica na análise do percurso dos estudantes na educação superior,

denominada por ele como Teoria da Afiliação. No próximo capítulo, essa teoria é apresentada como fundamental para a construção da categoria pertencimento acadêmico.

realidade. Lapassade (2005, p.45) define esta noção como a “[...] relação circular entre elementos constitutivos de um contexto e o contexto mesmo: os elementos constituem o contexto daqueles que, por sua vez dão sentido a estes elementos”. O autor, citando a Psicologia da Gestalt, sustenta que toda estrutura, em sua totalidade, compõe-se da relação de interdependência entre seus elementos e o olhar do observador que os organiza através de suas descrições, atribuições de sentidos e racionalizações.

Indissociável das noções de indexicalidade e reflexividade, a descritibilidade (accountability) se compõe de reflexão e racionalidade e, assim, “[...] descrever uma situação é constituí-la” (COULON, 1995, p. 42). Neste sentido, para Garfinkel (COULON, 1995), os estudos etnometodológicos analisam as atividades cotidianas de seus atores e os métodos que criam para lidar com essas atividades, tornando-as descritíveis. Os atores realizam essa descrição, criando categorizações para nomear a situação e objetivá-la.

Nesta pesquisa, analisei as narrativas dos jovens indígenas sobre sua condição de estudantes e as rupturas enfrentadas no cotidiano universitário, o que me permitiu, através da descritibilidade, compreender o sentido que atribuem à sua realidade, tornada possível através da descrição dos etnométodos identificados em narrativas. Nesta perspectiva sociocultural, a Etnometodologia pode dialogar com os fundamentos postulados por Bruner (2000; 2008) e Valsiner (2005; 2007; 2012), entre eles: Self e narrativas. Na sequência, apresento os aportes teóricos da psicologia cultural, de orientação semiótica.

3.2 O SUJEITO SEMIÓTICO25: A CULTURA COMO MEDIADORA DOS PROCESSOS

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