A plataforma-site-repositório-rede social, esse híbrido que se transforma na medida em que novos elementos ganham espaço, alterna ritmos de profusão na vida das pessoas proporcionados pelas novas tecnologias, que vão desde a produção de conteúdo até renovadas formas de fazer publicidade – incluindo-se aqui os “cirúrgicos” algoritmos43
que cada vez mais direcionam anúncios para perfis específicos de consumidor.
Elemento de destaque nesse processo de profusão é a influência que o YT possui em diferentes gerações. Boa parte dos jovens nos dias de hoje está bastante acostumada com as dinâmicas de streaming, sejam elas acessadas via smartphones, tablets, computadores ou smartvs. Isso implica a alteração de lógicas de interação e relacionamento com o conteúdo, bem como indicam que dificilmente este é um caminho que terá retorno, ainda que pessoas tomadas por nostalgia queiram fazer disso um fator de distinção geracional – a ideia de que as gerações atuais possuem defeitos justamente por terem sido forjadas no bojo desse caldo tecnológico.
Há alterações profundas nos campos diretamente relacionados com o que o site vem a representar. Cinema, publicidade e marketing e o setor da comunicação em geral, tem a criação do YouTube como um divisor de águas. Surge um novo local virtual em que é necessário anunciar, pois os espaços tomados pelas mídias tradicionais como rádio, televisão e jornal, não atingem camadas da população que tem no streaming sua maior fonte de acesso à informação. E não é apenas um novo espaço para anunciar, como se isso pudesse ser conduzido através das mesmas práticas de trabalho que culminavam nas campanhas em mídias tradicionais, ao passo em que as lógicas internas exigem dos profissionais envolvidos nesse processo uma flexibilização intensa dos padrões que imprimiam até então em suas práticas. Publicitários precisam lidar com a lógica de micro anúncios, nos quais cinco segundos é o tempo destinado a passar uma mensagem e seduzir potenciais consumidores. Além da temporalidade, altera-se também sua inserção, na medida em que o desenvolvimento da informática e da programação vai permitindo a introdução de anúncios em outras formas como nos pop-ups. Até mesmo o clássico
merchandising em que o anunciante aparece citado nos vídeos tem que ser repensado.
Eclode uma nova estética em que o poder da sugestão deve acompanhar práticas e
costumes que tomam o consumidor/espectador como sujeito ativo desse processo, já que nas mídias contemporâneas o receptor pode devolver sinais, fazer escolhas e dar um
feedback para as propostas que lhe são apresentadas sejam elas publicitárias, filmes ou
outras possibilidades que incluem estes níveis de interação.
Os impactos na informática são também significativos, pois seu próprio desenvolvimento – tanto de software como hardware -, toma como ponto de partida as necessidades que emergem no uso de plataformas como o YT. Mencionando o hardware, o tamanho e qualidade das telas de dispositivos móveis não seria fator decisivo caso os novos sites e plataformas fossem apenas de áudio e texto sem a possibilidades de retorno do receptor para o proponente da mídia. No lado do software, cria-se vasto campo em que é necessário resolver problemas novos como compressão e conversibilidade de formatos empregados na gravação do conteúdo.
Entretanto, não é apenas nesses campos diretos de influência que a emergência do YT e de outras redes sociais reconfigura espaços de trabalho. Os processos políticos estão cada vez mais atrelados às suas relações com o digital, como é o caso emblemático da influência das notícias falsas nas eleições norte-americanas de 2016 (ALLCOTT; GENTZKOW, 2017) e, recentemente, na Itália, que teve sua rede inundada de robôs russos dispersando notícias falsas provenientes de grupos de ultradireita na tentativa de influenciar o pleito legislativo de 201844. Consequentemente, nenhum candidato viável
em qualquer disputa acharia sensato fazer uma campanha apenas nas mídias tradicionais. No campo educacional o YT representa uma potente arma de transformação social. São inúmeros os canais dedicados a produção de conteúdo informativo e didático, assim como usuários que postam vídeos ensinando práticas inseridas em uma cultura ampla do DIY (do it yourself, ou “faça você mesmo”). O impacto se percebe tanto no processo de escolarização tradicional como na troca de saberes de práticas outras. Como limpar sua casa, como organizar o guarda-roupa ou uma mala para viagem, como se vestir para uma entrevista de emprego ou como aprimorar técnicas clínicas na área médica (TOPPS; HELMER; ELLAWAY, 2013). São incontáveis exemplos de inúmeros tópicos, inundados de fontes diversas e que podem ser acessados rapidamente.
44 Ver “Redes russas foram ativadas para ajudar a ultradireita na Itália”, disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/01/internacional/1519910356_562686.html. Acesso em 03/02/2019.
Nota-se que a plataforma, cujo slogan inicial era “seu repositório de vídeos”, transforma-se em um espaço dinâmico de fluxos interacionais próprios da interatividade nas redes sociais. O slogan atual da empresa, “broadcast yourself” (transmita-se), indica que não se projeta apenas como um espaço para guardar conteúdo e, sim, como um lugar para que qualquer um possa transmitir quaisquer informações que deseja (desde que respeitadas as regras da plataforma).
Se, de um lado, há a construção dessa narrativa otimista, em que o espaço virtual recoloca a agência dos indivíduos como protagonistas do que é feito e consumido para além da passividade das mídias tradicionais, de outro, emerge e se expande a percepção crítica de que a maioria do que circula é um conteúdo ruim ou de má qualidade. Nesse sentido nos colocamos mais como observadores de um processo do que propriamente juízes daquilo que está acontecendo. Assim como no surgimento de todas as inovações tecnológicas, ocorre, em paralelo, um processo de deslegitimação e disputa que tenta recolocar o tradicional em seu, pressuposto, devido local de importância. Ainda que não se negue que possa haver muito conteúdo de qualidade discutível, é também inegável a confusão entre a potência da tecnologia na difusão de novas práticas com o discurso elitista de eleição de conteúdo legítimo.
Os discursos e as narrativas pessimistas, ou contrárias às redes sociais em particular, estão cada vez mais presentes nos debates na esfera pública. A ideia de que as redes sociais afastariam as pessoas por justamente tentarem emular algo impossível de ser copiado, que é a interação face a face, é recoberta de uma construção histórica de um passado em que tais interações se colocariam de maneira mais legítima, no sentido de consecução do ideal humano. Podemos afirmar que a ineficácia destas críticas se deve, precisamente, a generalizações difíceis de sustentar argumentativamente. As redes sociais e as novas tecnologias digitais são múltiplas e possuem diferentes sentidos e profusões no universo social. Nesse contexto, é necessário que conduzamos análises pormenorizadas de cada espaço virtual, pois existem diferenças internas de uso e impacto de cada rede social específica.
Esse choque entre tradição e inovação oferece pistas da importância da compreensão desse processo nas dinâmicas contemporâneas, seja na produção de novas subjetividades como na emergência de novos espaços de produção material. O espaço simbólico e material ocupado por um site como YT é resultado da sua figura central no processo de expansão das ferramentas de streaming na Internet. Diversas outras
plataformas disputaram com o YT esse lugar45, além de coexistirem por serem destinadas
a nichos muito específicos46 . A diferença dessas plataformas para o YT parece se dar em
escala do acervo, facilidade de acesso e democratização da linguagem e do conteúdo. O YT engloba, de certa maneira, todos os nichos e até mesmo nichos de plataformas outras baseadas apenas em conteúdo de áudio. Não é raro que um músico, por exemplo, lance seu disco no YT, ainda que o faça apenas com o áudio, fazendo com que indiretamente o site concorra com aplicativos e plataformas dedicadas apenas a reprodução de conteúdo musical (como Deezer, Spotify etc.)47.
Fica bastante evidente que esse incremento tem correlação direta com a possibilidade de as pessoas acessarem as plataformas. A explosão nas vendas de dispositivos móveis com acesso à internet acompanha um processo global de edificação de uma vasta infraestrutura que possibilita a chamada, superficial, “inclusão digital”, conceito discutido no capítulo anterior. As métricas dos organismos internacionais como a ONU e nacionais como o IBGE48, passam a correlacionar o acesso à internet e aos meios
de comunicação digitais com a qualidade de vida e o índice de desenvolvimento de uma localidade. Acessar a internet e participar ativamente, seja como espectador ou produtor, torna-se um elemento constitutivo da cidadania contemporânea.
Não poderíamos afirmar se efetivamente o acesso de toda população à internet traria consigo elementos inclusivos que alterariam a estrutura de desigualdades da sociedade como um todo. Isso não impede que estados nacionais em parcerias com empresas privadas venham ampliando massivamente a infraestrutura existente, no intuito duplo de atender demandas da população ao mesmo tempo em que procura saciar a voracidade dos mercados na busca por novos consumidores. De qualquer forma, para além das transformações desencadeadas nas mídias com o surgimento do YouTube, existe
45 Um exemplo é o Revver, um site de compartilhamento de vídeos que inaugurou a possibilidade
de anúncios publicitários nos vídeos. O site não existe mais, ver o verbete “Revver” disponível em:
https://en.wikipedia.org/wiki/Revver. Acesso 07/07/2018.
46 Como a plataforma para vídeos em alta definição “Vimeo” e para filmes “cult” “Mubi”.
47 Em 2015 o YT lança, nos EUA, sua versão de streaming de músicas, No Brasil o serviço está
disponível desde 25 de setembro de 2018.
48 A "World summit on the information society", cúpula das Nações Unidas realizada em 2003 em
Genebra, inicia a discussão que o direito a acessar a Internet faz parte da possibilidade individual do exercício da liberdade de expressão, opinião e outros direitos fundamentais. Ver “Building the Information Society: a global challenge in the new Millennium”, disponíve em:
http://www.itu.int/net/wsis/docs/geneva/official/dop.html. Acesso em 12/12/2018.
No Brasil, a partir de 2005 a PNAD, em um convênio entre IBGE e o Comitê Gestor da Internet (CGI.br), inclui na pesquisa dados sobre o acesso à Internet e a posse de telefone móvel celular para uso pessoal. https://ww2.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/acessoaInternet/default.shtm.
um contexto mais geral de transformações que diz respeito à irreversibilidade das TICs, cada vez mais presentes no cotidiano.