As difi culdades dos professores de artes de uma escola municipal em lidar com as TIC em sala de aula
OBSTÁCULOS PARA OS PROFESSORES TRABALHAREM COM AS TIC
Diante desta necessidade, a escola se depara com alguns obstáculos que in- viabilizam o desenvolvimento efi caz do trabalho com as TIC. Porto (2006) aponta o primeiro deles como sendo o desinteresse por parte da escola, pro- fessores e mesmo pais na introdução do trabalho pedagógico com as TIC no cotidiano, reconhecendo-se apenas como usuário/telespectador, sem sequer pensar na preparação social para o seu uso. Na realidade, o que se observa aqui nas escolas de Conceição do Coité é que esse desinteresse é tão generali- zado que até alguns gestores escolares não fazem questão nem ao menos de saber manusear um computador para resolver algumas questões escolares.
O segundo obstáculo faz referência ao objeto de estudo deste projeto. Ele se refere à difi culdade dos professores em desenvolver um trabalho peda- gógico com as novas tecnologias, em especial as computacionais. Miranda
(2007) aponta que a falta de profi ciência da maioria dos professores no uso tecnologia é um fator que está presente em muitas escolas. Na instituição que é representada neste estudo, não é diferente. Atividades elementares, como realizar pesquisa na internet ou mesmo instalar os equipamentos tec- nológicos para realizar atividades em sala de aula, podem representar para alguns docentes um impasse no desenvolvimento de suas aulas.
O mesmo teórico apresenta alguns dos obstáculos apontados por professores durante uma pesquisa desenvolvida por ele, que servirão para comparar com as repostas apresentadas pelos professores da escola aqui re- presentada. Para ele, dois deles são cruciais para compreender a atual con- juntura educacional relativa ao uso das TIC, que são: a falta de recursos e de formação. Esta última, segundo o autor, está relacionada ao fato de exigir um esforço de refl exão e de modifi cação de concepções e práticas de ensino que muitos deles não estão dispostos a fazer.
Entretanto, a formação do profi ssional de educação que lidará com es- tas novas tecnologias é um passo importante a ser seguido. Apesar disso, nem sempre ela dá conta de preencher essas lacunas. Isso porque muitas vezes o professor muda de atitude logo após essas formações. Jordão (2009) discorre sobre isso quando diz que muitos deles têm uma motivação passa- geira para trabalhar com as TIC. Essa motivação só está presente durante as formações para este fi m. Mas logo após o seu término, quando eles abando- nam estes espaços, o desânimo toma conta dos docentes no momento em que eles se depararem com a realidade de suas escolas, na qual os recursos tecnológicos existentes não estão disponíveis ou estão obsoletos, além da difi culdade deles próprios em manipular estes equipamentos.
Esta situação é muito corriqueira entre os professores que se aproxi- mam desta temática. No município de Conceição do Coité, local onde se encontra a escola para a qual este projeto servirá, a Secretaria de Educação tentando atender aos clamores dos professores, que diziam não saber mais o que fazer diante do desinteresse dos alunos nas aulas, fez a aquisição do
projeto de robótica da Lego. Junto com os kits de montagem dos robôs, as escolas participantes receberam também algumas capacitações que aconte- ceriam periodicamente para trabalhar os conteúdos de diversas disciplinas com o referido projeto. Nos dias da primeira capacitação, foi observada a euforia dos professores ao conseguirem montar seus primeiros robôs e ao ouvir as explicações de como trabalhar as disciplinas com cada um deles. No entanto, nem bem esta etapa do curso terminava e os mesmos professo- res que outrora estavam translumbrados, manifestavam um sentimento de incapacidade, travando o processo de construção de conhecimento.
Além disso, é preciso também compreender que não basta utilizar os recursos tecnológicos para a sua introdução no fazer pedagógico na escola sem o devido preparo do docente. Freitas e Lima ([20--?]) mencionam que, agindo desta forma, ela torna-se prejudicial, na medida em que causa um choque cultural e resistência quanto a sua utilização por parte dos pro– fessores, acelerando uma crise indenitária dos mesmos. É por isso que, na maioria das vezes, os professores se deparam com bloqueios psicológicos que fazem com que, mesmo recebendo alguma capacitação, não consigam se enxergar como um professor capaz de fazer desses recursos uma ferra- menta efi ciente em sua prática educacional. É por esta razão que esta te- mática deve ser discutida no desenvolvimento deste trabalho para tentar contornar esta situação, que é tão presente no meio escolar.
Jordão (2009) também esclarece que a educação só se benefi ciará da utilização da TIC quando o professor participar de formações que per- mitam a refl exão crítica, planejamento e vivência prática das estratégias na sua utilização. É necessário que o professor perceba a importância de a formação acontecer de forma mais abrangente que apenas expositiva e pontual. A autora ainda esclarece que os modelos das formações são muito rápidos e pontuais, não provocando nos professores a segurança sufi cien- te para estes utilizarem as tecnologias digitais para melhorar a sua prática docente diante da habilidade que os alunos possuem com esses recursos,
provocando assim, crise por insegurança e consequentemente rejeição ao uso das tecnologias. Foi o que aconteceu com os professores participantes do Projeto Lego. Ao observar como isso acontece, será possível compará-los com as formações dos professores destacados para este projeto e pensar em formas de superação.
É preciso levar em consideração que esse não foi um fato isolado. Muitos professores aqui no município se queixam de que as formações acontecem sem causar neles um real efeito, pois elas ocorrem em poucos dias e não existe uma continuidade deste processo. Para esclarecer como estas formações devem acontecer, Jordão acrescenta que ela deve ocorrer de forma permanente, devido à velocidade com que surgem novos recursos, novas tecnologias e novas estratégias de ensino e aprendizagem. Assim, as formações, sejam elas públicas ou privadas, não surtem o efeito desejável devido a vários fatores presentes na realidade escolar, em que o tempo é um dos vilões que impossibilitam uma maior refl exão e preparo de estratégias.
Por esse motivo, é preciso que os professores estejam em constante atualização, buscando cursos que tragam orientações sobre a manipulação dos mais atuais recursos tecnológicos, para que não percam tempo ten- tando, com difi culdade, preparar as estratégias a serem realizadas em sala de aula. Além disso, faz-se necessário que eles não limitem suas aprendi- zagens apenas enquanto estiverem na posição de aluno na aprendizagem com as TIC, mas que levem esta aprendizagem para a sala de aula enquanto professor.
Outro ponto a ser apresentado para que o professor possa vencer estes obstáculos e ter um bom desempenho na prática docente na atualidade é apontado por Freitas e Lima ([20--?]) quando eles mencionam que é preci- so que os docentes superem suas crenças, adquiridas ainda quando alunos, sobre o fazer pedagógico e realizem um trabalho que leve o discente a ter outro comportamento diante do que for ensinado. Este se apresenta como o mais difícil dos encalços a ser superado. Isso porque, depois de passar anos
a fi o acreditando em uma prática educacional, que funcionava no passado, mas que hoje não se sustenta mais, é difícil se desvincular de algo que, para alguns, já se encontra cauterizado. Somente com um trabalho bem pensado e direcionado será possível se estabelecer um aponte entre a forma antiga de atuação e a tendência mais atual da educação.
Cunha (2012) acrescenta a estas difi culdades outras desculpas apre- sentadas por professores que não trabalham com as TIC. Eles reclamam de diversas coisas, entre elas afalta de tempo do docente para acompanhar as informações disponíveis na internet, o que gera a sensação de que está sem- pre desatualizado; a difi culdade em operacionalizar as TIC nas aulas, mos- trando estar fragilizado diante dos alunos; a sensação de que as pesquisas desenvolvidas pelos educandos não acontecem efetivamente, devido aos alunos apenas copiarem e colarem e o tempo excessivo perdido ao instalar os equipamentos para a aula. As desculpas aqui apresentadas se relacionam com as dos professores da escola observada, por isso é importante fazer esse paralelo para compreender fatores em comum entre eles. Cunha explica que essas desculpas refl etem ideologias educacionais tradicionais presen- tes na formação de professores e em práticas pedagógicas que devem ser desfeitas a partir do entendimento do professor a respeito da aprendizagem do aluno, que necessita ultrapassar a preparação do mesmo para constru- ção de habilidades. Por isso é importante que se tenha em mente a urgente necessidade de romper os grilhões que ainda acorrentam os professores em uma prática pedagógica retrógrada.