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Os processos de cocriação do espaço urbano e de soluções tecnológicas capazes de alimentar e fortificar as ações de desenvolvimento e intervenções conforme ditas anteriormente demanda um grande esforço por parte da população e do poder público para que de fato contribuam com mudanças positivas

A intervenção ativa, respaldada por ações colaborativas precisa utilizar as ferramentas de rede e o conhecimento dos membros que a compõem visando agregar os pontos fortes de cada indivíduo em prol do bem coletivo, produzindo soluções que possam ser compartilhadas entre a rede e para o público externo agregando inovação e permitindo o desenvolvimento dos produtos resultantes por parte de terceiros.

Para ROCHA (p.158, 2015) “O compartilhamento de informações e um fator determinante para a democratização do conhecimento e a emergência de um inteligência distribuída (...)” pela possibilidade de revisitar a ideia inicial e

repensá-la a partir de diversas óticas, resultando na potencial reconfiguração do projeto.

Conforme afirmado anteriormente, tanto a rede quanto a inovação encontra territórios férteis e melhores soluções para os problemas na heterogeneidade de seus membros.

Com foco nesses dois pontos, as duas principais iniciativas apresentadas nos capítulos posteriores dessa pesquisa, envolvem processos alternativos de produção de soluções tecnológicas e inovação gerada com base em processos colaborativos e de compartilhamento de soluções em rede por meio do open design5.

Apesar de o conceito de open design ser antigo, as abordagens acerca do tema são recentes, como relata NEVES (2014).

O conceito em questão evoca a possibilidade de se desenvolver produtos e ideias, dentro de processos em rede, que permitam compartilhar, na íntegra, todo o conhecimento agregado, possibilitando que outros indivíduos possam contribuir e agregar inteligência ao projeto, graças às TICs,

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Por se tratar de um termo amplamente utilizado em inglês, para evitar perde conceitual e de sentido optou-se por não utilizar a forma traduzida (design aberto)

independente de sua posição geográfica, aliando-se as redes para sua existência e fortalecimento de suas relações.

Para NEVES “a diferença mais marcante entre um processo de desenvolvimento tradicional e um processo em open design, é a escolha da cocriação ao invés da originalidade” (2014, p.74).

Os benefícios da rede para esse modelo colaborativo de produção encontram-se no fato de favorecer a contribuição de indivíduos de áreas distintas devido à abertura dos códigos de produção (open source).

Entretanto, para ATIKSON (apud NEVES, 2014, p.74), o projeto transcende a criação por parte de um grupo de especialistas ou de uma iniciativa interdisciplinar, para se tornar um processo criativo capaz de promover a troca de conhecimento entre profissionais e amadores, “quebrando barreiras desnecessárias” (ibid., p.24).

“Através do livre acesso aos” códigos, os programadores podem utilizar algoritmos desenvolvidos por terceiros para ajudar a construir seus projetos pessoas, ou ainda para construir, em conjunto, projetos coletivos que atendam a redes de interesses comuns (ROCHA, 157, 2015).

Como exemplo do que pode ser feito por meio do open design podemos elencar a iniciativa de desenvolvimento do software livre6 Linux.

Normalmente quando se trata de um projeto de alta complexidade como um sistema operacional, imagina-se que a quantidade de protocolos necessários para que o sistema funcione e os processos de desenvolvimento do mesmo devem ser friamente controlados para que o todo funcione de maneira adequada.

RAYMOND (2001) relata como Linus Torvalds, em 1991, alterou a lógica de produção desse modelo de software ao abrir seu código para que as pessoas de diversas partes do mundo pudessem contribuir.

Ao abrir o processo de maneira horizontal, Linus ganhou em escala desenvolvendo o projeto de maneira rápida e eficiente.

Ao contrário do que se pensava anteriormente, esse software não foi desenvolvido por um grupo relativamente

6 Segundo SALEH (2004) “O software livre utiliza um modelo aberto, onde qualquer pessoa pode ter acesso ao código fonte ao exercer o direito de livremente usar, redistribuir ou alterar o programa” (p.10). Esse tipo de software possibilita que o usuário altere seu código para adaptá-lo as suas necessidades. O uso, modificação e distribuição desse tipo de programa é gratuito.

pequeno de pessoas que conseguiriam controlar cada etapa e cada passo do processo.

Pelo contrário o desenvolvimento se deu por um grande grupo de colaboradores coordenados pelos tênues cordões da internet.

Segundo relata NEVES (2014), o controle de qualidade do processo aconteceu por meio de uma gestão democrática e não controlada por normas rígidas, pela qual a opção era por liberar semanalmente informações sobre o projeto e receber feedbacks dentro de dias de centenas de usuários, criando uma espécie de seleção natural sobre as alterações produzidas pelos desenvolvedores.

Outro exemplo foi o desenvolvido por NEVES (2014) para sua tese de doutorado, onde a pesquisadora, buscando gerar subsídio prático, desenvolveu o código para a produção de uma xícara e o liberou na rede de Fab Labs da Fab Foundation para quem quisesse executá-lo, permitindo que o projeto fosse adequado as necessidades indivíduos de cada usuário participante.

Figura 3 - modelo de xícara personalizável capturada em Rhinoceros para teste e exemplificação sobre open design e parâmetros para replicar o modelo em outros laboratórios da rede, desenho original de José Buzon. Fonte: NEVES, 2014, p.60.

Para sua surpresa, diversas pessoas da rede aderiram e personificaram o projeto das formas que acharam mais adequadas sem que o objeto perdesse a característica de xícara (figura 3).

Os resultados foram inúmeras formas dentro do mesmo código mestre disponibilizado, produzindo xícaras com diferentes formas e tamanhos, customizados de acordo com a vontade, conhecimento e características culturais de cada laboratório da rede que aderiu ao projeto (figura 4).

Figura 4 - visualização das xícaras produzidas pelos colaboradores participantes do experimento - imagem Yolanda Guerrero, Fonte: NEVES, 2014, p. 62.

Estressando o conceito de open design e replicabilidade de tecnologias, esse modelo demonstra a possibilidade de produção horizontal de tecnologias e de adaptação das múltiplas influências do usuários das redes ao se apropriarem de tecnologias disponíveis e abertas ao uso comum e as adaptarem as suas necessidades locais.

O que, segundo TOWNSEND (2013) e COSTA (2015), seria um grande gargalo das cidades inteligentes.

Muitos projetos têm sido vistos, inclusive dentro do Fab Lab Livre SP e na política do MobiLab apresentada com maior profundidade no capítulo 2.

Nesse modelo horizontal e colaborativo de criação e produção, que consiste em liberar rapidamente o registro e as informações de maneira frequente, transmitindo-os em formato aberto, quase promíscuo, reforça o conceito de produção democrática de soluções para a população, compartilhando com membros da sociedade a reponsabilidade de resolver alguns dos problemas urbanos.

Claro que, inicialmente, o projeto terá diversos problemas a serem corrigidos, mas essa é exatamente a proposta.

Para cada erro a ser corrigido, diversas opções serão apresentadas e selecionadas, de modo que apenas a mais adequada se mantenha.

A possibilidade de soluções diversas demonstra também o potencial de adequação das soluções geradas e de adaptação às necessidades de cada indivíduo ou grupo de pessoas alinhadas às particularidades culturais, territoriais, sociais e econômicas.

Esta aliança nos possibilita a troca de informações e a materialização rápida e precisa de soluções compartilhadas digitalmente. O enfoque não é somente no aperfeiçoamento dos ambientes virtuais, mas sim, em um equilíbrio entre a rede virtual e possibilidades de

materializações. (CAMPOS; NEVES e ANGELO, p.2, 2012).

Por serem rapidamente replicáveis e adaptáveis, possibilitando que qualquer indivíduo com conhecimento na área, mesmo que amador, intervenha e modifique o projeto, permite que a tecnologia, antes inacessível ou comercializada a um alto custo, possa ser produzida com valores reduzidos e de maneira customizada.

Esse modelo se alinha ao conceito dos Fab Labs, representados nessa dissertação pelo Laboratório de Mobilidade Urbana e Protocolos Abertos de São Paulo, o MobiLab, e pela Rede Pública de Laboratórios de Fabricação Digital, o Fab Lab livre SP, enquanto políticas públicas de democratização da tecnologia e das soluções desenvolvidas de maneira colaborativa e com foco em trazer melhorias para a dinâmica dos espaços urbanos, focado na realidade da população do entorno.

Porém, um modelo que se sustenta, apenas pelo compartilhamento das informações e por tecnologias e ações desenvolvidas de maneira colaborativa e em rede, precisa do comprometimento de todos os envolvidos de abdicar da exclusividade da autoria do projeto em si.

A cultura dos Fab Labs, incentiva, desde o início que o compartilhamento do conhecimento aconteça para que seja de uso de todos, mas em uma lógica onde o individual se sobrepõe ao coletivo, se essa cultura não for de fato muito bem inserida e justificada entre os envolvidos, corre-se um grande risco de que nada seja produzido ou que entraves sejam criados em prol de decidir quem é o responsável por cada parte.

Em modelos de produção como encontrados no Fab Lab, o acerto ou o erro é responsabilidade de todos, nunca de um único membro.

Para NEVES (2014) e ROCHA (2015) a potencialidade do modelo e a sua fragilidade residem em dois pontos, a quantidade de códigos base disponíveis em formato aberto e a identificação da autoria dentro desse processo.

Se por um lado construir um repositório online de livre acesso aos interessados dentro da rede possibilitado o avanço mais rápido do conhecimento em comparação aos sistemas de códigos proprietários e com acesso controlado, conforme visto anteriormente, por outro lado o grande número de contribuições dificulta consideravelmente a definição de autoria do projeto inicial e pode desestimular o interesse de

produzir algo a qual ninguém poderá levar o crédito pelo sucesso, caso aconteça.

Para ROCHA (2015) para que o modelo funcione os códigos precisam ser armazenados em ambientes virtuais de livre acesso, o que fortalece a lógica de apropriação dos códigos de modo que possam ser apropriados por outros, adaptados a demandas locais e produzidos a partir de mecanismos de ação em escala não industrial. Como acontece nos laboratórios do Fab Lab Livre SP e no MobiLab salvo suas características individuais que serão apresentadas a frente.

Utilizando esses dois modelos para ilustrar o que foi afirmado acima, tanto no Fab Lab Livre SP, focado na produção de objetos e no MobiLab SP, laboratório com o objetivo de favorecer o desenvolvimento de aplicativos e soluções tecnológicos para a área de mobilidade, ambos os casos se respaldam em produzir tecnologia com base na lógica do compartilhamento de ideias e do livre acesso aos códigos.

O compartilhamento dos problemas para resolver questões complexas a partir do engajamento simultâneo, reconfigura a natureza da autoria ao descentralizar o

processo de criação, pulverizando-o entre inúmeras competência e autores.

Para o sucesso desse modelo, cabe aos usuários reconhecer a relevância e os benefícios das contribuições da rede para o desenvolvimento e evolução do projeto inicial, abrindo mão da individualidade e dos direitos exclusivos de produção e reprodução da inteligência resultante.

1.3. DO LOCAL AO GLOBAL: COMPARTILHAMENTO DE