CAPÍTULO III A TITULARIDADE DO DIREITO A INDEMNIZAÇÃO POR DANO
I. O Direito aplicável
1. Os Decretos n.ºs 4.536, de 3 de Julho de 1918, e 5.646, de 10 de Maio de 1919
Maio de 1919, introduziu, pela primeira vez, uma disciplina jurídica especificamente dirigida a regular a responsabilidade civil por desastres ou acidentes pessoais causados por veículos ou meios de transporte terrestres. Conforme resulta da sua exposição preambular, o Decreto n.º 4.536 não alterou essencialmente o esquema do Código Civil de 1867, do qual já resultaria a obrigação de reparar civilmente aquela espécie de danos ou prejuízos. A finalidade do decreto foi a de assegurar às vítimas dos acidentes pessoais “maneira fácil de obterem a justa reparação do prejuízo sofrido”: sem se afastar do esquema clássico de responsabilidade fundada no conceito de culpa, inverteu o encargo da prova da culpa, que deixou de caber à vítima.314
Danos indemnizáveis. O âmbito dos danos indemnizáveis foi determinado pelo artigo 1.º
do Decreto n.º 4.536, de 3 de Julho de 1918, e, depois, pelo artigo 1.º do Decreto n.º 5.646, de 10 de Maio de 1919, bem como pelo artigo 5.º dos mesmos diplomas. O artigo 1.º do Decreto n.º 4.536, de 3 de Julho de 1918, dispôs que “Todo o desastre ou acidente pessoal
causado a terceiro por qualquer veículo ou meio de transporte terrestre em circulação dá ao lesado o
314 Cfr. sobre este decreto, o estudo do VISCONDE DE CARNAXIDE, O Decreto n.º 4.536 assegurando ás
victimas dos acidentes pessoaes causados pelos meios de transporte a maneira de obterem a reparação do prejuízo sofrido, in «O Direito», n.º 14, anno 50.º, Julho de 1918, págs. 214 e 215.
direito de exigir uma indemnização pelo prejuízo sofrido”. Por sua vez, o artigo 1.º do Decreto
n.º 5.646, de 10 de Maio de 1919, estabeleceu que “Todo o desastre ou acidente causados por
veículo ou meio de transporte terrestre em circulação, e que atinja qualquer pessoa na sua integridade física ou no seu património, dá ao lesado o direito de exigir uma indemnização pelo prejuízo sofrido”. Nos dois preceitos transcritos o legislador utilizou a expressão ampla de
“prejuízo”. Por seu turno, o artigo 5.º dos dois diplomas estabeleceu o critério de fixação da indemnização, sem se referir expressamente ao dano moral. 315 Os decretos de 1918 e
de 1919 aludem, em alguns dos seus preceitos, ao dano pessoal.316
Conceito de lesado. O artigo 1.º do Decreto n.º 4.536, de 3 de Julho de 1918, não
estabelece a noção de lesado. Já do artigo 1.º do Decreto n.º 5.646, de 10 de Maio de 1919 é possível inferir uma noção: “qualquer pessoa atingida pelo acidente na sua integridade física ou
no seu património”. Não resulta, porém, evidente da leitura do segmento da norma
acabado de reproduzir se estavam abrangidas pelo conceito legal de lesado, para além da vítima imediata, as vítimas mediatamente atingidas pelo acidente. Pelo menos quanto aos danos patrimoniais, o legislador valorou os encargos familiares da vítima imediata do acidente, ao determinar, pelo artigo 5.º dos Decretos n.º 4.536, de 3 de Julho de 1918, e n.º 5.646, de 10 de Maio de 1919, que este seria um dos elementos a considerar na definição da situação particular do ofendido — situação relevante para a fixação da indemnização por prudente arbítrio do julgador, nos termos do mesmo preceito. Em contrapartida, os dois decretos não continham normas que explicitamente estatuíssem um
315 Nos termos do artigo 5.º do Decreto n.º 4.536, de 3 de Julho de 1918, "A indemnização consistirá no
pagamento duma quantia em dinheiro, paga por uma só vez, e será fixada por prudente arbítrio do julgador, tendo em atenção não só a gravidade do acidente, circunstâncias em que se deu, e suas consequências, mas também a situação particular do ofendido. § 1.º A situação particular do ofendido será considerada conforme a natureza, origem e montante dos seus proventos e os seus encargos de família".O artigo 5.º do Decreto n.º 5.646, de 10 de Maio de 1919, tinha exactamente a mesma redacção, acrescendo apenas o seguinte parágrafo: "§ 2.º Quando se prove que o lesado, por sua culpa ou negligência, deu causa em agravamento dos resultados do acidente ou desastre, essa circunstância será tomada em consideração para a fixação do quantitativo da indemnização."
316 Os decretos aludiam aos "prejuízos pessoais" no parágrafo único do seu artigo 2.º, parecendo
circunscrever a responsabilidade do Estado a este tipo de danos. O corpo do artigo 7.º dos dois diplomas dispunha que "A responsabilidade civil resultante dos casos previstos neste decreto será sempre independente da responsabilidade criminal que, porventura, caiba ao causador do acidente, cuja absolvição no
direito de indemnização dos danos sofridos pelas vítimas mediatas em caso de morte do lesado imediato. Não obstante, o Supremo Tribunal de Justiça, pelo seu Acórdão de 25 de Fevereiro de 1927317, ponderou, ao abrigo do artigo 5.º do Decreto n.º 5.646, de 10 de Maio
de 1919, como factores a atender para o cálculo da indemnização devida à mãe de vítima mortal de acidente de viação, a circunstância de a vítima, maior, sustentar a mãe e quatro irmãs doentes com o seu trabalho, e ainda o prejuízo de ordem moral da mãe, dando, assim, relevo aos danos patrimoniais e morais de vítimas mediatas. O Acórdão elevou de 50.000$00 para 100.000$00 a indemnização arbitrada pela instância à mãe da vítima, com a seguinte fundamentação: “Atendendo a que a decisão do tribunal a quo, relativamente à
indemnização, que foi consideràvelmente reduzida, prejudicou bastante a A., cuja triste situação aliás o próprio Trib. reconheceu, e não considerou devidamente o prejuízo de ordem moral que a recorrente sofreu, e que, se não é reparável, não pode nem deve contudo deixar de ser levado em linha de conta na fixação dos danos materiais; Atendendo, assim, a que a decisão em questão, por errada aplicação do texto do art.º 5.º, decidiu contra os princípios de direito ao fixar o montante da indemnização, que se deve à recorrente, não apreciando todos os factores, que a lei manda considerar ao efectuar essa determinação (...). Nestes termos, concedem a revista à dita recorrente, relativamente ao montante da indemnização, dando-se agora o mínimo necessário à vida de 5 pessoas”.
Transmissibilidade do direito a indemnização. O artigo 6.º de ambos os diplomas
consagrou a regra da transmissibilidade “mortis causa” do direito de exigir a indemnização aos herdeiros do lesado, ao dispor que “O direito de exigir a indemnização,
bem como a obrigação correlativa, transmitem-se, respectivamente, aos herdeiros do lesado e aos do lesante ou de seus corresponsáveis”.
juízo criminal o não isenta, nem aos seus corresponsáveis, da obrigação de reparar civilmente o dano pessoal causado à vítima. "