Cogni1,iio social e contextos socioculturais
6 Para o poder dos media interpretado como influfncia sobre a audifncia, ver as referfncias na Nota 1 Para uma
an;llise do poder dos media como organizar;iio, por exemplo, em relar;iio a outras instituir;Oes de elite, ver Altheide {1985), Altschull {1984), Bagdikian {1983), Lichter, Rothman e Lichter (1990), Paletz e Entman {1981), entre muitos outros estudos.
Acesso
Outra no,ao importante na analise do poder (dos media) e a nrn;ao de acesso. Tern sido mostrado que o poder se baseia geralmente no acesso especial a recursos sociais valorizados. Isto tambem ocorre no acesso ao discurso pllblico, por exemplo, ao discurso dos mass media. Assim, o controlo dos meios de comunica<;ao de massa constitui uma das condi,6es cruciais do poder social nas sociedades de informa,iio contemporaneas. De facto, para alfm das condi<;Oes econ6micas ou de outras con dii;Oes sociais de poder, este pode ser atribufdo aos grupos sociais atraves do seu acesso activo ou passivo a varias formas de discurso publico, discurso influente ou consequente, bem coma discurso dos media, discurso escolar ou polftico e discurso corporativo de tomada de decisiio8•
Assim, as "pessoas comuns" usualmente tern acesso activo e controlado apenas
as
conversa<;6es quotidianas com membros da famflia, amigos ou colegas. 0 seu acesso a di::ilogos com agentes oficiais ou profissionais, como advogados, medicos ou fun cion::irios pllblicos, e usualmente constrangido de muitos modos. Embora as pessoas comuns possam usar a imprensa, nao tern regra geral influencia directa no contelldo das notfcias, nem siio usualmente os actores centrais nos relatos noticiosos. Os grupos de elite e institui,6es, por outro !ado, podem ser definidos pelo seu leque mais vasto e amplo de padrOes de acesso aos discursos pllblicos ou a outros discursos importantes e eventos comunicativos. Politicos de destaque, gestores, professores ou outros profissionais podem ter acesso mais ou menos controlado a muitas formas diferentes de texto e de fala, como reuni6es, relat6rios, conferencias de imprensa ou comunicados a imprensa (press releases). Isto e especialmente verdade para o acesso dos mesmos ao discurso dos media9• Os jornalistas procurariio entrevist::i-los, perguntar a sua opini.lo e introduzi-los assim coma actores maiores das notfcias ou falantes nos relatos noticiosos. Se essas elites forem capazes de controlar esses padr6es de acesso aos media, seriio por defini,iio mais poderosas do que os media. Por outro !ado, os media que siio capazes de controlar o acesso do discurso da elite, de forma ta! que as elites se tornam dependentes deles para exercer o seu pr6prio poder, podem por sua vez desempenhar o seu pr6prio papel na estrutura de poder. Por outras palavras, os jornais mais importantes podem ser eles pr6prios institui ,oes de poder da elite e dominiincia, niio s6 relativamente ao publico em geral, mas tambem face a outras institui,6es da elite.
O acesso ao discurso e aos eventos comunicativos pode assumir v::irias formas. Os actores sociais mais poderosos podem controlar o discurso determinando ou selec- g Ha agora muitos estudos que examinam o papel do "acesso" de uma forma muico detalhada, ou dentro de uma teoria geral de poder, ou mais especificamente para a imprensa. Para detalhes sabre esra abordagem analitica de discurso sabre o "acesso", ver van Dijk (1988a, 1995).
9 Muiros estudos mostram em deralhe, embora o fai;am usualmente de uma forma informal ou aned6tica, este poder das elites de aceder aos media (ver tambem referfncias na Nata 6). Para escudos dos mais sistematicos e teoricamente orientados sabre as rotinas da prodm;i'io das notfcias e o papel das fontes de elite e dos actores das noticias no processo de produi;ilo das notlcias, ver Gans (1979) e Tuchman (1978).
cionando o tempo e o espa,;o, os participantes, as audifncias, os actos de fala pos sfveis (como comandos ou pedidos), as agendas, os t6picos, a escolha da linguagem, o estilo, asestrategias de delicadeza ou de deferencia e muitas outras propriedades do texto e da fala. Desta forma, podem determinar basicamente quern pode dizer (ou escrever) o quf, a quern, sobre o que, de que modo e em que circunstincias. Portanto, assumimos aqui que o poder social de um grupo ou institui,ao (e dos seus membros) e proporcional a quantidade de generos e de propriedades de discurso que eles podem controlar.
O poder social dos grupos de elite e das institui,oes definido pelo seu acesso prefe rencial ao discurso e
a
comunicar.;iio, s6e
efectivo se assumirmos que esses discursos siio importantes ou influentes. Assim, controlar o acesso aos discursos <las sess6es governamentais, <las reuni6es dos quadros ou dos julgamentos no tribunal e uma manifesta,ao de poder da natureza consequente <lesses discursos e tomadas de de cisiio, isto e, porque esses discursos podem afectar seriamente as vidas de muitos individuos: quantos mais os indivfduos afectados, maior e o alcance do accionamento do poder discursive. Mais especificamente, o discurso publico pode afectar as mentes de muitos individuos. Logo, o grau ou os modos de acessoa
imprensa constituem usualmente tambem uma medida do grau do poder da elite.lnfluencia e cogni1,iio social
O acesso especial as mentes do publico niio implica controlo. Nao s6 o publico tern alguma liberdade em participar no uso das mensagens dos media, como tambem pode nao "mudar a sua mente" segundo as linhas desejadas pelos mais poderosos. Rejeir.;iio, descrenr.;a, critica ou outras formas de resistencia ou desafio podem estar envolvidas e sinalizarem desta forma modes de contra-poder. Por outras palavras, a influencia definida como uma forma de controlo da mente e quase sempre pro blematica, como e o poder dos media e dos grupos de elite que tentam ter acesso ao publico atraves dos daqueles.
Do mesmo modo que as formas de acesso ao discurso podem ser explicitadas, os modos como podemos "aceder" indirectamente as mentes dos outros atraves do texto e da fala devem tambem ser examinados. Essa explica,ao requer um olhar mais explicito sabre as representar.;6es e estratfgias da mente social. Embora niio seja capaz aqui de entrar nos detalhes tecnicos de uma teoria da mente como tern sido desenvolvida na psicologia social e cognitiva, os processes de influencia envolvem muitos passos diferentes e complexes e representar.;6es mentais (mem6ria), dos quais sumario apenas alguns10•
10 Para mais referencias e um suporte te6rico sob re a psicologia cognitiva da compreensiio do texto, ver van Dijk e Kintsch (1983), que ilustram a sua teoria com um artigo da Newsweek. Para aplica<;Oes especfficas ao estudo das noticias, ver
Compreensiio
Os leitores de um relato noticioso precisam, em primeiro lugar, de perceber as suas palavras, frases ou propriedades estruturais. lsto significa que na'.o devem apenas conhecer a linguagem e a sua gram3tica e Iexico, incluindo possivelmente palavras bastantes tecnicas, como conhecer tambem as palavras da polftica moderna, da gestao, da ciencia ou das profissoes. Os utilizadores dos media precisam de saber algo sobre a organiza<;ao especifica e as fun,oes dos relatos noticiosos na impren sa, incluindo as fun,oes dos titulos, dos leads, da informa<;ao contextual ou das cita,oes. Para alem deste conhecimento gramatical e textual, os utilizadores dos media precisam de um elevado grau de "conhecimento do mundo" devidamente organizado. Um relato noticioso sobre a Guerra do Golfo, por exemplo, pressup6e pelo menos algum conhecimento sobre a geografia do Medio Oriente, bem como um conhecimento geral sobre guerras, polftica internacional, eventos hist6ricos anteriores e outros. lsto significa que a existencia de insuficiencias educativas pode limitar seriamente a compreensao das notfcias, como e mostrado pela investiga�ao empirica. Por outras palavras, a falta de poder dos leitores pode envolver o acesso limitado (passivo) ao discurso dos media e impedi-los de perceber (completamente) os pr6prios textos informativos ou os acontecimentos abordados nos textos.
Modelos
Uma no<;iio crucial no estudo da compreensao da noticia e a de modelo. Um modelo
e
uma representa�ao mental de uma experiencia - istoe,
de um acontecimento que as pessoas observam, em que participam ou sob re o qual lfem 11• De cada vez que as pessoas leem um relato noticioso, por exemplo, sobre os disturbios de 1992 em Los Angeles, formam um novo modelo sobre esse acontecimento ( ou actualizam um jfl existente). Assim, "compreender um relato noticioso" significa que os leitores sao capazes de construir nas suas mentes um modelo dos acontecimentos abordados nos textos noticiosos. Esse modelo pode incluir as suas opini6es sobre o acontecimento. Embora esses modelos representem a cornpreensao subjectiva dos leitores sobre os acontecirnentos, por exemplo, de Los Angeles, os rnodelos integram instancias par ticulares de conhecimento e de opini6es partilhadas socialmente, sobre coisas como por exemplo, Graber {1988), Gunter (1987), Ruhrmann (1989) e van Dijk {1988a). Para o papel do conheclmento na compreensao do discurso, ver Schank e Abelson (1977) e os muiros outros estudos que tern adoptado a noi;ii.o de guiao (script) coma uma organizai;ao mental do conhecimento.11 Para um a discuss.lo mais detalhada des ta nova noi;ao fundamental na teoria psicol6gica da linguagem e da compreensao do texto, ver, por exemplo, Johnson-Laird {1983), van Dijk (1985b,1987) e van Dijk e Kintsch (1983).
motins, bairros sociais, pobreza, negros ou racismo. Entao, o conhecimento e as atitudes do grupo social do leitor determinarao os modelos que ele ou ela constroem a prop6sito dos acontecimentos abordados no jornal.
Estamos agora numa posi,ao mais confortavel para definir as fun,oes informativas e persuasivas das noticias. Faz parte dos objectivos de um relato noticioso e dos seus autores que os leitores formem um modelo do acontecimento noticiado. Essencial para esta discussao
e
o facto de as estruturas e conteUdos <lesses modelos poderem ser manipulados pelas estruturas e pelos conteudos dos relatos noticiosos. Os jornalistas podem eles pr6prios ter um modelo de cada acontecimento noticiado; assim, de uma forma geral, escreverao os seus relatos de forma a que os leitores formem um modelo pelo menos similar aos seus pr6prios modelos desse acontecimento. Nor;6es hem conhecidas na an::ilise critica das noticias coma sao as de "significado preferenciaF' ou "compreensao preferencial" podem ser explicadas em termos destes modelos. De facto, podemos doravante falar simplesmente de "modelos preferenciais". Esses mo delos preferenciais formam o iimago dos processos de persuasao, de desinforma,ao e do controlo do publico pelos media, especialmente se eles forem inconsistentes com os melhores interesses dos leitores, mas consistentes com os interesses das elites. Um dos muitos modos de influenciar a estrutura de um modelo (e assim, a com preensao de um acontecimento noticiado)e
manipular a informar;ao importante, colocando-a mais ou menos de forma proeminente no relato noticioso, nos titulos, leads ou em fotografias. lnversamente, se os jornalistas ou as suas fontes de elite quiserem menos ou nenhuma atenr;ao para certos aspectos do acontecimento noti ciado, tomarao as devidas precaur;6es para que essa informar;ao fique menos saliente ou ausente do relato noticioso, de forma a que tambem nao seja proeminente no modelo do acontecimento noticiado. Do mesmo modo, os textos noticiosos podem enfatizar ou menosprezar as causas ou consequencias dos acontecimentos ou as ca racteristicas dos actores nos acontecimentos noticiados. Assim, as noticias sabre os acontecimentos em Los Angeles podem menosprezar as causas ou os motivos racistas dos acontecimentos e enfatizar a natureza criminosa ou as actividades dos homens jovens negros, de uma forma ta! que os modelos dos leitores seriio influenciados nessa direc�ao.Conhecimento
Se a compreensao <las noticias ou a constru�ao dos modelos mentais
e
feita em funr;ao do conhecimento geral, socialmente partilhado, entiio o controlo desse conhecimento pode controlar indirectamente a compreensao. Assim, se a imprensa e as elites po liticas ou as outras elites que rem acesso ao conhecimento nao derem informar;ao detalhada sobre os interesses dos Estados Unidos ou de outros paises ocidentais noMedio Oriente, o conhecimento dos leitores, e logo a sua compreensao das noticias sobre a Guerra do Golfo, pode ser limitado. De facto, pode convir a estas elites que a compreensao do pllblico seja minima. De igual modo, servira tambem os interesses dos media se o pllblico nao tiver acesso a outros meios de comunicai;ao que fornei;am
o background necessario; dai a marginalizai;ao sobejamente conhecida dos media radicais ou dos peritos com posi,oes opostas, bem como a penetra<;ao profunda das campanhas de desinforma,ao sobre a Guerra do Golfo e sobre outras guerras mais ou menos abertas em que estao envolvidas as nai;5es-elite. Note-se, no entanto, que a influencia dessas campanhas sobre o conhecimento do publico e complexa e esta longe de ser simples: sao precisas estrategias de credibilidade efectivas, como o uso de estatfsticas, fontes autoritativas, testemunhas credfveis, fotografias e outros meios que sugerem persuasivamente a "verdade,, das afirmai;6es.