A teoria da ideologia que enforma a abordagem analitica discursiva deste capitulo e multidisciplinar. Esta articulada em torno de um triangulo que relaciona sociedade, discurso e cogni,ao social no quadro de uma analise crftica do discurso (van Dijk
tempo a primazia do pr6prio grupo e o privilegio do acesso preferencial a recursos sociais valorizados.
Os conteudos e a organiza,ao esquematica <las ideologias de grupos na mente so cial partilhada pelos seus membros variam em fun<;ao <las caracteristicas do grupo dentro <las estruturas societais. A categoria identidade de uma ideologia de grupo organiza a informac;ao e tambem as ao;6es sociais e institucionais que definem a pertenc;a: quern pertence ao grupo, quern n;'io pertence; quern e admitido e quern nao o e. Para grupos que partilham uma ideologia racista, isto pode significar, entre outras coisas, ressentimento, ac<;Oes e polfticas contra a imigrac;ao e a integrac;a'.o na 'nossa' cultura, pals, cidade, bairro, familia au companhia. Do mesmo modo, a categoria finalidades dos grupos que partilham uma ideologia racista organiza a informa<;iio e as aci;oes que definem as metas globais do grupo, e. g., 'manter o nosso pais branco'. A categoria posi<;iio define as relai;6es entre o grupo com grupos externos, coma 'estrangeiros', 'imigrantes', 'refugiados' ou 'negros'. Resumindo, as func;5es sociais das ideologias s:io, entre outras, permitir aos membros de um grupo organizar (a admiss:io ao) o seu pr6prio grupo, coordenar as suas acc;6es sociais e finalidades, proteger os seus recursos (privilegiados) ou, inversamente, no caso de grupos dissidentes ou da oposi<;ao, aceder a esses recursos.
No entanto, enquanto formas b:isicas de cogni<;6es sociais, as ideologias tambfm de sempenham fun<;6es cognitivas. J:i sugerimos anteriormente que elas organizam, mo nitorizam e controlam determinadas atitudes de grupo. Possivelmente, as ideologias tambfm controlam o desenvolvimento, a estrutura e a aplica<;3.o do conhecimento sociocultural. Por exemplo, as feministas rem um interesse especial em adquirir e usar conhecimento sabre a dominancia das mulheres pelos homens. Porem, regra geral, assumimos que as ideologias controlam mais especificamente cren<;as avaliativas, isto e, opini6es sociais partilhadas pelos membros de um grupo.
Contudo, nesta interface mental do social e do individual, as ideologias, as atitudes e o conhecimento que elas controlam influenciam tambfm - indirectamente - as cogni<;Oes pessoais dos membros de grupos, e. g., o planeamento e a compreensao dos seus discursos e de outras formas de (inter)ac<;iio. Estas representa<;6es mentais pessoais das 'experiencias' pessoais de pr.iticas sociais sao denominadas de modelos (Johnson-Laird 1983; van Dijk 1987b; van Dijk e Kintsch 1983). Os modelos siio representa<;5es mentais de acontecimentos, ac<;Oes ou situai;Oes vividas pelas pes soas, ou sabre os quais elas lfem. 0 conjunto destes modelos representa as cren<;as (conhecimento e opini6es) que as pessoas tern sabre as suas vidas quotidianas e define aquilo a que usualmente chamamos de 'experifncias' pessoais. Estes modelos sio Unicos e pessoais e controlados pelas experiencias biogr.ificas dos actores sociais. Par outro lado, tambfm sao socialmente controlados, isto
e,
influenciados pelas cogni i;Oes sociais gerais que os membros partilham com outros membros do seu grupo. A presen<;a combinada de informa<;iio pessoal e social (activada, particularizada, 'aplicada') nos modelos mentais permite-nos, nao s6 explicar o hem conhecido elo de ligai;ao que faltava entre o individual e o social, entre a an.ilise macro e micro 119da sociedade, como tambem explicitar as rela�6es entre ideologias gerais de grupo e texto e fala concretos. Isto
e,
os modelos controlam o modo como as pessoas ac tuam, falam, escrevem ou percebem as pr.iticas sociais dos outros. Temos, assim, os seguintes elementos altamente simplificados nas rela�6es entre ideologias e discurso a varios niveis de analise ( esquematizado no Quadro 1 ):QUADR01
ldeologias e discurso: nfveis de analise 1. Analise Social
Estruturas societais globais, e. g., democracia parlamentar, capitalismo Estruturas institucionais/organizacionais, e.g., partidos politicos racistas Relai;6es de grupo, e. g., discriminai;iio, racismo, sexismo
Estruturas de grupo: identidade, tarefas, finalidades, normas, posii;iio, recursos 2. Analise Cognitiva
2.1 Cogni�ao social
Valores socioculturais, e. g., inteligencia, honestidade, solidariedade, igualdade Ideologias, e. g., racista, sexista, anti-racista, feminista, eco!Ogica ...
Sistemas de atitudes, e.g., sobre ao;iio afirmativa, multiculturalismo ... Conhecimento sociocultural, e.g., sobre sociedade, grupos, linguagem ...
2.2 Cogni�fto pessoal 2.2.1 Geral fsem-contexto)
Valores pessoais: selecr;Oes pessoais de valores sociais
Ideologias pessoais: interpretar;6es pessoais de ideologias de grupo Atitudes pessoais: sistemas de opini6es pessoais
Conhecimento pessoal: informar;iio biogr.ifica, experiCncias passadas 2.2.2 P-artfcul'ares-(ligadas-ao-contexto)
Modelos: representar;Oes ad hoc de acr;Oes espedficas em curso, ou eventos Modelos contextuais: representar;6es ad hoc do contexto da fala
Pianos mentais e representar;Oes de actos (de fala), discurso
Construr;ao mental do significado do texto a partir dos modelos: a 'base do texto' Selecr;ao mental (estrategica) de estruturas de discurso (estilo, etc.)
3. Analise do discurso
As v:irias estruturas do texto e fala (ver abaixo)
Por outras palavras, as ideologias est8o localizadas entre as estruturas societais e as estruturas <las mentes dos membros sociais. Permitem aos actores sociais 'tra duzir' as suas caracteristicas sociais (identidade, finalidades, posi,ao, etc.) para conhecimento e cren,;as que comp6em os modelos concretos <las suas experifncias do dia-a-dia, isto
e,
as representa,;6es mentais das suas ac,;Oes e discurso. Por conseguinte, as ideologias controlam indirectamente (atraves das atitudes e do conhecimento) o modo como as pessoas planificam e percebem as suas praticas sociais, e desta forma tambem as estruturas do texto e da fala.As ideologias definem e explicam as semelharn;as entre as praticas sociais de membros sociais, mas o nosso quadro te6rico permite ao mesmo tempo explicar a varia<;ao individual. Cada actor social e mernbro de v.irios grupos sociais, cada um com a sua pr6pria, e por vezes conflituosa, ideologia. Simultaneamente, cada actor social tern a sua, por vezes Unica, experifncia biogrifica ('modelos velhos'), as suas atitudes, ideologias e valores; tudo isto interfere na construc;ao de modelos que, por sua vez, irao influenciar a produc;ao (e compreens3.o) do discurso. Logo, o esquema antes apresentado pode ser lido de cima para baixo ou de baixo para cima. As relac;6es envolvidas s:'io din.imicas e 'dialCcticas': as ideologias controlam em parte o que as pessoas fazem e dizem {via atitudes e modelos), mas as praticas sociais concretas ou os discursos sao eles pr6prios precises para adquirir conhe cimento social, atitudes e ideologias em primeiro lugar, viz., atraves dos modelos que as pessoas constroem das pr:lticas sociais dos outros (incluindo dos discursos dos outros) {van Dijk 1990).
A nossa abordagem te6rica
a
ideologia e diferente em muitos aspectos <las aborda gens classicas e de outras abordagens contemporaneas {ver Eagleton 1991; Larrain 1979; Thompson 1984, 1990). Na nossa perspectiva, as ideologias niio siio mera mente 'sistemas de ideias', nem sequer caracterfsticas das mentes individuais <las pessoas. Nao sao vagamente definidas como formas de consciencia, nem sequer de 'falsa consciencia'. Em vez disso, sao quadros b:lsicos da cogni�ao social, com estruturas internas especfficas e fun�6es cognitivas e sociais especfficas. Como ta!, precisam tambem) de ser analisadas em termos de teorias explicitas da psico logia social {ver ainda Rosenberg 1988), o que obviamente nada tern a ver com reducionismo mental. Ao mesmo tempo, sao sociais, j::1 que sao essencialmente partilhadas pelos grupos e adquiridas, usadas e mudadas pelas pessoas enquanto membros de grupos em situa�Oes sociais e institui�6es, frequentemente em situa�Oes de conflitos de interesses entre formai;oes sociais {Eagleton 1991). No entanto, as ideologias niio se restringem a grupos dominantes. Grupos da oposii;iio ou grupos dominados tambem partilham ideologias. 0 grande problema da maior parte <las abordagens crfticasa
ideologia e o facto de se terem inspirado exclusivamente nas ciencias sociais e em abordagens filos6ficas bastante confusas. Ignoram a an:llise cognitiva detalhada e explfcita, e par isso sao incapazes de relacionar explicitamente estruturas sociais coma praticas sociais e discursos de individuos enquanto mem bros sociais. Na nossa abordagem, as ideologias ou outras cogni<;Oes sociais nao estao reduzidas ou unicamente definidas em termos das 'prclticas' sociais que elas controlam {Coulter 1989), nem dos discursos que as expressam, transmitem ou ajudam a reproduzir {Billig et al. 1988; Billig 1991), nem mesmo <las instituii;oes em que sao reproduzidas. (Para abordagens diferentes, mas relacionadas, ver, e.g., Fairclough 1989, 1992a; Kress e Hodge 1993.)Analise do discurso como analise da ideologia
O esb0<;0 da teoria da ideologia apresentado anteriormente fornece um quadro con ceptual que tambem nos permite engajar em 'an.ilises ideol6gicas', e, desse modo, na crftica das pr:iticas discursivas. Afinal de contas, vimos que as ideologias, embora de forma variada e indirecta, podem ser expressas no texto e na fala e que os discursos funcionam do mesmo modo para ajudar a construir, de forma persuasiva, ideologias novas e a confirmar ideologias j.i existentes. Em ambos os casos, isto significa que pode haver estruturas do discurso particularmente relevantes para a expressao efi ciente ou a comunica�ao persuasiva de significados ideol6gicos. Par exemplo, as titulos nos jornais, vistas coma express5es proeminentes do significado global ou do :imago (macro-estrutura sem:1ntica) de um relato noticioso na imprensa, formam uma categoria do discurso especial que provavelmente expressar.i ou transmitir.i mais contelldo ideol6gico do que, par exemplo, o n6mero de virgulas num texto. Por outro lado, n;'io temos bases te6ricas a priori para excluir algum tipo de estru tura textual da expressao de principios ideol6gicos subjacentes. De facto, todas as estruturas do discurso est3o virtualmente envolvidas na express3o funcional dos modelos mentais de acontecimentos ou dos contextos comunicativos, e, por isso, das opini6es que fazem parte <lesses modelos. De forma sucinta, uma opiniao ra cista de um falante sobre o seu interlocutor negro pode ser subtilmente expressa (involuntariamente ou nao) por variar;6es minimas na entoar;ao, interpretadas pelo interlocutor coma sendo uma forma racista de ser interpelado, j.i que soam despro positadamente como 'insolentes' ou 'indelicadas' (para muitos exemplos do racismo quotidiano, ver Essed 1991). Iremos agora examinar estes niveis e propriedades do discurso e os modos coma as ideologias podem ser expressas e transmitidas mais sistematicamente.
No entanto, antes de apresentarmos um sum.irio das estruturas de discurso 'pre ferenciais' para a express3o e comunicar;ao de significados ideol6gicos, devemos estar bem conscientes daquilo que estamos a procura. Dada a teoria da ideologia atras apresentada, precisamos de olhar primordialmente para as propriedades do discurso que expressam ou sinalizam opini6es, perspectiva, posir;3o, interesses ou outras propriedades de grupos. Isso e evidente quando ha um conflito de iuteresses, isto
e,
quando os acontecimentos podem ser vistas, interpretados ou avaliados de formas diferentes, possivelmente opostas. As estruturas das ideologias tambem sugerem que estas representar;6es sao frequentemente articuladas ao longo de uma dimensao n6s versus eles, em que os falantes de um grupo tender3o, regra geral, a apresentar-se, ou ao seu pr6prio grupo, em termos positivos, e outros grupos em termos negativos. Por conseguinte, qualquer propriedade do discurso que expressa, estabelece, confirma ou enfatiza uma opiniao, perspectiva ou posi<;iio que serve os interesses do grupo, especialmente num contexto sociopolitico mais vasto, candidata-se a uma atenr;3o especial neste tipo de an.ilise 'ideol6gica'. Essas estruturas do discurso 122tern usualmente a fun,ao social de legitimar a dominancia ou de justificar ac,oes concretas de abuso de poder executadas pelas elites.